A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 13 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 12

 

 

O aposento tem tapete bege, e estou sentada nele, olhando para ele, pegando as cerdas com os dedos. Sinto cheiro de comida, mas não gosto do cheiro e não estou com fome. Tem fragmentos brilhantes no tapete, como se alguém tivesse derrubado glitter. Tento pegar as partículas, mas não consigo. A frustração me faz chorar.

Estou chorando e chorando. Todo o meu corpo é sacudido pelos soluços. Não sei por que estou tentando pegar partículas de glitter do tapete. Não sei por que as quero.

Alguém entra, olha para mim ali, sentada no tapete, e ri, e de repente estou balançando no ar.

Alguém me segura. Olho para o rosto da pessoa e sei que é meu irmão, Jacob.

Ele diz:

— Que foi, coisinha?

Aponto para o tapete e tento falar “brilhante” antes de perceber que aquilo não é algo desconcertante acontecendo comigo, mas uma lembrança.

Acordei dentro de uma das minhas lembranças. Consigo sentir os cheiros e ouvir os sons. Posso tocar o cabelo de Jacob e sentir sua textura. Estou realmente ali. Mas sei que não estou. Estou dentro de alguma coisa que deve estar enterrada em minha mente. Estou enterrada profundamente em meu cérebro.

Presa em um espaço pequeno e escuro. Não consigo me mover. Meus ouvidos zumbem. Fecho os olhos com força e tento me livrar disso. Não quero essa sensação.

Meu coração bate forte quando me obrigo a voltar ao presente. Tenho dezessete anos e estou em uma cafeteria quente e fumegante, sentada a uma das mesas, e tem um homem em pé na minha frente, aparentemente esperando eu falar alguma coisa.

Quero ir ao Flambards. Esse não é o pensamento certo. Eu o empurro para longe.

As outras pessoas aqui têm ar saudável e filhos gordinhos, e elas falam alto e dão risada. Tento ignorá-las e me concentrar apenas no homem.

— Um café? — Acho que é isso que ele espera que eu diga. — Com leite? Por favor?

— É claro — ele responde. O homem tem uma pinta marrom em um lado do rosto, cabelo espetado e barba. — Mais alguma coisa?

Penso se posso estar com fome.

— Não — decido. — Não, obrigada. — Olho para minha mão. FLORA seja corajosa. Estou em Svalbard. — Só uma pergunta.

— Sim?

— Estou em Svalbard? — Drake está em Svalbard. Ele foi quando tinha dez anos para ver o sol da meia-noite, e agora tem dezenove e teve a chance de voltar.

O homem ri.

— Sim, está! Aqui é Svalbard. Você está em Svalbard.

— Conhece o meu amigo?

Pego o celular e mostro a ele uma fotografia de Drake. Ele está em pé em cima de uma cadeira, de óculos, com o cabelo caindo no rosto. Está vestindo uma camisa azul e jeans. Não sei quando ou onde tirei essa foto, mas sei que é o Drake porque o beijei em uma praia e me lembro dele.

Olho para a foto por um segundo antes de mostrá-la ao homem. Eu adoro o Drake. Eu amo o Drake. É ele, o amor da minha vida, e eu o amo e ele me ama. Ele é meu namorado. Por isso estou aqui. Preciso encontrá-lo porque ele me fez lembrar.

O homem olha para a foto.

— Sim. Acho que o vi — diz. — Tudo bem com você? Acabou de me mostrar essa foto agora mesmo. Sim, eu já disse, tenho certeza de que ele esteve aqui. Se ele voltar, eu aviso que tem uma moça procurando por ele.

— Você o viu?

— Sim. — Ele parece surpreso com meu entusiasmo.

— Obrigada. Ah, obrigada! Pode dizer a ele que a Flora está aqui?

— Flora. Sim, é claro.

Franzo a testa.

— Na verdade, não diga que sou eu. Diga apenas que tem alguém procurando por ele. Quero fazer uma surpresa.

Olho para o celular e passo para a próxima foto. Esperava ver Drake de novo, mas é um cartaz sobre um gato. Um gato desaparecido. Todo mundo está desaparecido.

— Viu esse gato? — pergunto e mostro a outra foto.

Ele ri.

— Não. O gato eu não vi. Não tem muitos gatos por aqui.

Drake está aqui. O homem o reconheceu. Eu não inventei tudo isso. Vim ao lugar certo procurar Drake, que é a pessoa certa. Estou fazendo tudo certo. Vim até aqui, e agora encontrei alguém que reconhece o rosto de Drake. Isso significa que estou quase lá. Significa que vou encontrá-lo antes de a polícia vir me buscar. Preciso escrever imediatamente cada palavra que o homem barbado me disse. Abro a bolsa, pego o caderno e preencho páginas e páginas com minha caligrafia mais caprichada, contando a mim mesma tudo que está em meu cérebro no momento. Não percebo que minha bebida chega, mas, em algum ponto, levanto os olhos do texto e vejo uma xícara de café com leite ao meu lado e começo a beber. Está quente e é o melhor café do mundo.

Acho que estou sentada nesta cafeteria há muito tempo.

Encontro um e-mail estranho de Jacob no meu celular e o leio. Preciso responder. Vejo uma mensagem de minha mãe me convidando para ir a Paris com Paige. Deve ser para Jacob e eu nos vermos novamente. Eu o amo. Quando ele chegou e me pegou no tapete, cada parte de mim foi inundada de amor. Ele era a pessoa que eu mais queria ver quando pequena. Quando eu era normal, ele era meu mundo.

Queria que ele fosse novamente parte do meu mundo.

Escrevo um e-mail em que conto tudo que está em minha cabeça neste momento. Não censuro nada. Conto a ele que beijei Drake na praia e que me lembro disso. Digito cada palavra que dissemos um ao outro enquanto as ondas lavavam as pedras e o luar brilhava sobre a água. Conto que estou em Svalbard e pergunto o que ele acha que devo fazer. Confesso que não sei ao certo o que está acontecendo em minha cabeça. Digo que me lembro de ser pequena e chorar, e ele me pegar e cuidar de mim. Pergunto por que ele foi embora. Faço muitas e muitas perguntas. O e-mail é muito longo.

Mando a mensagem sem reler, mesmo sabendo que está cheia de erros de digitação e deve parecer bizarra.

Vejo uma mensagem de texto de minha mãe no celular e respondo dizendo que estou bem e pedindo para ela não se preocupar comigo. Não menciono minha ida a Paris.

Mando uma segunda mensagem dizendo:

Quando vocês voltarem, podemos ir ao

Flambards?

 

Levanto a cabeça e meu café ainda está ali esfriando, e todo mundo saiu da cafeteria, e um homem de barba com uma pinta no rosto sorri para mim como se quisesse me ver ir embora. Ele segura um molho de chaves.

— Vou pagar a conta — aviso.

Ele balança a mão.

— Não se preocupe, Flora — diz. — Você parece séria. Seu café é cortesia.

Agradeço e me pergunto como ele sabe meu nome.

O sol do lado de fora é radiante, e me sinto eufórica. Todas as pessoas em Svalbard pensam que sou normal.

Estou andando por uma terra cintilante das maravilhas, onde o ar brilha e todas as pessoas sorriem. Os prédios não são bonitos, mas a natureza se estende em todas as direções. É mágico. Deixei o lugar onde eu morava e as pessoas que me mantinham lá e vim para este lugar novo e frio onde sou livre.

Este lugar pode estar dentro da minha cabeça, mas não me importo com isso. É um lugar maravilhoso, e Drake mora aqui.

Vou andando pela rua e de repente paro. Não sei para onde ir. A casa onde moro fica muito longe daqui. Quero ir ao Flambards, mas também é longe. Leio meus braços, que não me contam nada que já não esteja em minha cabeça, depois vou pegar o caderno.

Minha bolsa não está aqui. Não está comigo.

Não posso fazer nada sem ela. Sempre ando com minha bolsa, e nela estão minhas anotações. Eu as mantenho na bolsa. Estão sempre juntas. Olho para minhas mãos, para os braços, depois pego as anotações dentro da bolsa. Isso é o que eu faço.

Não tem nada em meus braços que diga como chegar ao lugar para onde estou indo, e, mesmo me esforçando para tentar pensar em tudo que posso sobre este lugar, as coisas me escapam. Eu ia para um lugar, mas não sei por quê. Não sei para onde ir. Estou aqui por causa do Drake. Essa é a única coisa que importa. Tenho que encontrá-lo hoje, mas não posso, se estou perdida.

Sem a bolsa, não tenho dinheiro. Não tenho celular. Não tenho chave. Não tenho cadernos. Não tenho ideia do que estou fazendo e ninguém vai poder me ajudar.

Eu beijei o Drake. Esse é o único fato que tenho. Não tem mais nada no mundo.

Ele borbulha e transborda. Este é um lugar frio. Não tenho amigos. Quero minha mãe. Quero meu pai. Quero meu irmão. Quero todos eles com toda a força do meu coração.

Lágrimas correm pelo meu rosto. Não sei o que estou fazendo.

— Drake — falo em voz alta. Preciso me apegar ao nome dele. Drake. Preciso encontrar Drake. Ele vai achar minha bolsa. Vai cuidar de mim.

Preciso lembrar o nome dele. Não tenho caneta, mas preciso lembrar. Agora estou à deriva e, se esquecer Drake, esqueço tudo.

Olho em volta. Essa é a coisa mais urgente que já aconteceu. Sou a única pessoa no universo. Corro um pouco pela rua e paro. Não tenho caneta e não tenho dinheiro.

Tem Drake no meu braço, mas vai sumir.

Vejo uma caneta meio enterrada na neve ao lado da rua. Pego a caneta e levanto a manga da blusa. Se escrever o nome dele de novo, de novo e de novo, isso vai me fazer lembrar.

A caneta não funciona. Tenho que usá-la de algum jeito, então arranho o braço com ela até formar a palavra. Marco DRAKE tão fundo na carne que começa a sangrar. Isso é bom, e eu trabalho com mais empenho, perfurando a pele deliberadamente para escrever o nome dele em mim com gotas de sangue. Repito o desenho das letras várias vezes. Gosto da dor. Ela me faz sentir viva.

drake.

Isso é tudo que tenho. Estou perdida, mas tenho o nome de Drake escrito em meu corpo. Talvez eu corte mais fundo quando encontrar uma faca. Quero que ele fique lá para sempre.

Começo a andar. Vou caminhar por aí e alguma coisa vai acontecer, porque, se eu ficar parada, nada vai acontecer. Ando e ando. Minhas pernas estão cansadas, mas ainda é dia. Ando até um corpo d’água. É maior que um rio, mas menor que um mar, porque vejo montanhas e uma casinha do outro lado. Paro em um píer e olho para os barcos atracados ali. Eu me viro, porque não posso ir mais longe que isso, e passo por uma velha máquina com cabos e baldes. Vou até uma igrejinha, torcendo para um ou outro deus me ajudar.

Vou andar. Só isso. Quando encontrar Drake, saberei que é ele.

Algumas horas se passaram. Andei muito, dei voltas e voltas. Estive na igreja mais de uma vez, tenho certeza. Tinha uma mulher lá que sorriu para mim. Fui escrever meu nome no livro de visitantes, mas ele já estava lá, uma, duas vezes, na linha sobre a qual eu me preparava para escrever e na linha acima dela. “Flora Banks”, escrevi na primeira vez. “Penzance.” “Flora Banks”, anotei na segunda vez. “Do lugar frio.” Estive em uma loja, mas não tinha dinheiro, por isso fui embora. Respirei fundo e continuei andando. Andei, andei e andei. As lojas agora estão fechadas.

Vejo alguns degraus do lado de fora de um museu e decido sentar ali para descansar os pés.

Um homem fala “Flora”. Eu olho para ele. Ele tem cabelo espetado, barba e uma pinta marrom no rosto. Não é Drake.

— Oi — eu digo. Olho para ele com atenção, examino seu rosto. Ele ri. Parece um pouco incomodado. Não falo mais nada, porque não consigo pensar em palavras que possam servir.

— Flora... tudo bem?

Ele sabe meu nome. Senta ao meu lado e põe a mão no meu ombro. Não sei o que fazer, por isso me apoio em seu ombro e choro. Estou soluçando, e o casaco dele começa a ficar pegajoso. Quero pedir desculpas, mas nem isso me sinto capaz de fazer.

— Flora. Que foi?

Ainda não consigo falar, embora queira. Tento respirar fundo e me acalmar, então digo:

— Não tenho...

— Não tem nada, não é? Talvez tenha deixado sua bolsa no café?

Assinto. Não faço ideia.

— Eu tenho a chave. Quer voltar e dar uma olhada?

Olho para ele.

— Sim. Sim, por favor.

Tem uma bolsa no chão embaixo de uma mesa. Corro até lá, pego a bolsa e a abraço.

Tem um caderno dentro da bolsa, e na capa desse caderno está escrito: “A HISTÓRIA DA FLORA. LEIA”. Olho para minha mão. Está escrito FLORA seja corajosa.

Abro o caderno e começo a ler. Passei por uma cirurgia quando tinha onze anos e tenho amnésia. Vim para Svalbard procurar Drake porque ele sabe como me consertar. Meu irmão Jacob está muito doente. Meus pais estão em Paris. Paige não é minha amiga.

— Obrigada — digo ao homem. — Obrigada. Você me salvou. Obrigada.

— Tudo bem. — Ele parece desconfortável de novo. Meu comportamento deve ser muito esquisito, mas não me importo. — Não foi nada. Vou tomar uma cerveja com uns amigos. Levo você de volta ao hotel antes.

— Não, obrigada. Estou bem. De verdade. Obrigada. Preciso ir agora. Preciso ir.