A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 3 de 29

Páginas do PDF

A única memória de Flora Banks

Capítulo 2

 

— Você beijou ele! — Paige não está gritando, mas seria melhor se estivesse. Sua fúria é contida. O olhar é intenso quando ela me encara e repete: — Você beijou ele. Eu sei que beijou. Não vai lembrar, mas beijou, e eu sei que beijou porque...

Minha cabeça está apitando e não consigo me concentrar nas palavras dela. Sei que está falando. Sei que está brava. Sei que tem o direito de estar brava. Ela está dizendo as palavras, mas eu não as escuto. Faço um esforço para olhar para ela. Eu me obrigo a encontrar o foco.

Paige está respirando fundo.

— E você anotou! — Um dos meus post-its está na mão dela, por isso não posso fingir nada, claro. As palavras estão lá, com a minha caligrafia, e ela sabe que só anoto fatos. Sabe que isso é real.

Eu também sei que é real. Eu lembro. Lembro coisas anteriores à doença, e agora me lembro de ter beijado Drake. Agora sei que não sou uma garotinha, porque beijei um garoto em uma praia, e ele disse para passarmos a noite juntos. Não tenho dez anos. Tenho dezessete.

Eu me lembro disso. A pedra, ou Drake, ou o amor, alguma coisa me fez lembrar. Talvez se apaixonar seja assim.

Não posso desmentir a Paige. Eu me lembro de ter beijado Drake. Aquilo pode ter recuperado minha memória, embora eu ainda não me lembre de nada do que aconteceu depois dos meus dez anos. Olho para o papel que Paige está segurando e vejo que escrevi as palavras bem pequenas nas beiradas do papelzinho amarelo. No meio está escrito comprar leite com uma caneta grossa. Em volta, com letras bem miúdas, escrevi: Eu beijei o Drake, eu amo o Drake. Continuo olhando para as palavras. Estou espantada por ter acontecido. Isso me faz feliz e me faz chorar.

Continuo esperando o esquecimento, mas ainda lembro. Eu estava sentada na praia, ele chegou, sentou ao meu lado, e nós nos beijamos.

Essa é a única lembrança clara em minha mente, além das outras, anteriores à minha doença. Eu me apego a ela querendo fazê-la ficar, vivendo dentro dela tanto quanto possível. Adoro essa lembrança. Preciso guardá-la para sempre. Se me lembrar disso, vou lembrar outras coisas. O beijo de Drake vai ser minha cura. Logo vou lembrar mais alguma coisa, mas torço para que não seja essa conversa.

Paige está segurando o bilhete e olhando para mim com tanto ódio que tenho que abaixar a cabeça. Estamos em um café, um alegre “salãozinho de chá” na Market Jew Street, aguardando um bule de chá. Depois disso, íamos sair e fazer outras coisas. Paige encontrou o bilhete porque eu sentei e peguei meu celular para mandar uma mensagem para minha mãe e avisar que estava aqui. Uma chuva de papeizinhos amarelos brotou da minha bolsa. Paige se abaixou para recolher os papéis para mim, e eu não lembrava que podia haver alguma coisa em um deles que eu não queria que ela visse.

Tinha esquecido. É claro que sim. Lembro do beijo, mas tinha esquecido que escrevi sobre o beijo.

Ela viu o nome dele na beirada de uma anotação que peguei e tirou o papel da minha mão. E agora está olhando para mim.

— Você ama o Drake? — pergunta. — Não foi só um beijo... e eu nem faço ideia de quantas vezes isso pode ter acontecido, como você também não sabe, mas você acha que ama o Drake. Por essa eu não esperava.

Não sei o que dizer. Sei que o amo, mas não quero que Paige saiba quanto aquela noite me fez sentir passional. Mesmo assim, balanço a cabeça numa resposta afirmativa.

— E você beijou o Drake. Admita. Eu sei que beijou. Tenho certeza absoluta.

Olho para o chão, que parece de madeira, mas não é. Depois viro a cabeça para o outro lado e olho para as pessoas em uma mesa próxima. É uma família: dois adultos e duas crianças. Os adultos leem jornais, as crianças se chutam por baixo da mesa. Todos vestem jeans e blusas de lã azul.

— Ele foi à praia — Paige continua. — E não voltou mais. Você passou a noite toda com ele.

— Não! Eu fui para casa. Pode perguntar para a minha mãe. Paige... eu lembro!

Lembro que ele falou em passarmos a noite juntos. Não vou contar essa parte a ela.

— Não, nem vem. A sua mãe seria o seu disfarce. Se você levou o Drake para a sua casa, para a sua cama de solteiro, e ele foi embora bem cedo na manhã seguinte, ela não vai me contar, porque não vai querer que você perca a sua única amiga no mundo. Aliás, pode dizer a ela que eu mudei de ideia sobre aquele favorzinho. Só concordei para poder desligar o telefone. Diz que eles podem te levar junto.

— Não! — Sinto o pânico me dominar. — Não, eu juro, Paige! A gente ficou na praia. E se beijou. Desculpa. Eu fui para casa e ele foi... Não sei. Desculpa, Paige. Eu não tive a intenção. Mas eu lembro. Lembro de verdade. Na minha cabeça.

Não sei que favorzinho é esse. E agora não é hora de perguntar. Provavelmente já me falaram umas doze mil vezes.

— Não teve a intenção? Jesus. E, Flora, não vem dizer que lembra. Eu sei que não lembra.

— Eu não tive a intenção de fazer acontecer. Não esperava. E eu lembro, sim. Não sei por que, mas...

Ela me interrompe.

— Você ama o Drake.

Dou de ombros, constrangida.

— Correção: você escreveu a sua historinha de amor, e a cada duas horas, quando esquece tudo, você lê e se convence de que o ama. É patético. Da parte dele, acima de tudo. Pode ficar com o Drake, se é esse o comportamento que espera de um namorado. Até onde eu sei, e até onde você sabe, ele pode ter te seduzido várias vezes nos últimos meses. Legal. Ele vai te ajudar muito no polo Norte. Pode ficar com o meu namorado, mas ele foi embora. — Ela para e respira fundo. — E sabe do que mais? Fui a única que cuidou de você durante anos e anos. Eu saí com você, quando a sua mãe teria preferido que você ficasse trancada em casa, embrulhada em plástico bolha. Te levei ao cinema. À aula de zumba. Te levei para remar em equipe durante um ano inteiro. Cuidei melhor de você do que aquela mulher que te acompanhava nos tempos da escola. Te ajudei cada vez que você esqueceu onde estava. A minha mãe sempre odiou o meu envolvimento com tudo isso. Ela dizia que eu não era sua cuidadora. Mas tudo bem, fica com o meu namorado. E, se quer saber...

Ela para de falar quando a garçonete, que parece entediada, se aproxima com o chá em uma bandeja redonda. Ela demora muito para pôr uma xícara na frente de cada uma, uma jarrinha de leite entre nós duas, um pote com sachês de açúcar e, finalmente, o bule azul e brilhante.

Nenhuma de nós fala ou olha para a outra enquanto ela serve o chá. No fim, Paige diz um “obrigada” seco.

Sirvo o chá para nós duas, primeiro para ela. Paige observa, minha mão treme e a bebida cai na mesa, faz uma poça que se transforma em um riacho que corre para a beirada. Paige não faz nada. Termino de servir e vou até o balcão buscar um punhado de guardanapos para limpar o chá antes que caia no chão.

Paige não pega a xícara. Ela veste calça preta e justa e camiseta apertada e decotada. O cabelo está preso e o batom é brilhante. Está escrito na minha mão que vamos ao cinema. Provavelmente ela ia falar sobre o Drake e como sente falta dele.

Agora não vamos fazer nada disso, nunca mais.

Paige respira fundo e continua de onde parou.

— Eu sempre soube que você queria alguma coisa com ele. Dava para ver. Ninguém é mais transparente que você, Flora. Não imaginei que ele entraria nessa, e Deus sabe quantas vezes isso aconteceu. Eu nem sabia que ele tinha prestado atenção em você, além da curiosidade pelo seu histórico médico, do qual você não sabe nem a metade. Na verdade, não tem nada que você possa dizer para me convencer de que não transou com ele. Nada. E eu não consigo nem pensar nisso. Meu namorado. Meu. Eu sei que você vai esquecer o Drake, porque não o conheceu antes da sua suposta doença, mas você tem o nome dele na sua mão, onde também escreveu que ele é meu namorado. Eu sei — ela balança o papel no ar — que você acha que está apaixonada por ele. Sempre esteve apaixonada por ele em segredo?

Tento negar balançando a cabeça, mas não consigo.

— Não sei — respondo. Minha voz é fraca e trêmula. — Não lembro.

— Ei. Tudo bem. — Agora ela está sorrindo, olhando nos meus olhos. — Você escreveu uma envolvente história de amor, e por isso se sente menos infantil. Não é mais segredo, já pode atualizar o bilhetinho bobo. Espera, eu faço isso para você.

Paige estende a mão aberta. Empurro os post-its em branco por cima da mesa. Ela pega uma caneta na bolsa e começa a escrever, primeiro na minha anotação, depois em mais um, dois, três lembretes. Cada vez que preenche um deles, ela o cola na mesa na minha frente. Quando termina, Paige pega a bolsa e sai. Sem tocar o chá.

Ela para na porta aberta e me encara. Olho para ela. Vejo que abre a boca como se fosse dizer alguma coisa. Começo a levantar, mas ela balança a cabeça e vai embora. A porta bate.

Leio a sequência de quadradinhos amarelos. As palavras comprar leite estão riscadas. Agora está escrito:

Eu beijei o Drake. Eu amo o Drake. Isso NÃO é segredo. Preciso

encontrar uma nova melhor amiga.

No segundo post-it está escrito:

Paige nunca mais vai falar comigo. Lembrar de não ir atrás dela, nunca.

A terceira mensagem é:

NÃO TELEFONAR OU MANDAR MENSAGENS PARA PAIGE NUNCA MAIS.

Bebo meu chá e olho para as palavras. A pedra está no meu bolso, cuidando de mim de um jeito traiçoeiro.

— Eu lembro — falo para a cadeira onde ela estava sentada. — Lembro.

Quando chego em casa, o lugar está agitado e eu ainda penso na briga com Paige. Vejo a mala ao lado da porta. Minha mãe não está na janela esperando por mim. Ouço passos lá em cima. Tudo parece movimentado e diferente.

— Olá? — falo conforme tiro os sapatos. Queria saber se a mala significa que tem alguém chegando ou saindo. Talvez Drake esteja aqui. Talvez a gente vá viajar.

Pego a correspondência no capacho. Tem um cardápio de pizza e um panfleto anunciando a temporada de verão no Flambards. Flambards é um lugar onde tem montanha-russa e outros brinquedos. Quero ir lá. Guardo o panfleto no bolso de trás da calça, com a pedra.

Estou ansiosa para contar aos meus pais que tenho uma lembrança, mas não posso dizer a eles que beijei o namorado da Paige. Mas tem alguma coisa acontecendo aqui, e estou apavorada com a possibilidade de Paige ter telefonado e contado a eles o meu segredo. Talvez eles saibam de tudo e tenham decidido me mandar embora.

Meu pai desce a escada pulando os degraus.

— Flora! — ele diz. Depois olha para cima. — Annie! — grita. — É a Flora! — E olha de novo para mim. — Vamos esperar a sua mãe.

Meu pai é divertido e adorável. Ele é contador, mas em casa usa coletes estampados que ele mesmo tricota. Seu cabelo é espetado, quando minha mãe não o ajeita com as mãos. Ele diz coisas engraçadas. Faria qualquer coisa por mim, eu sei, e eu faria qualquer coisa por ele, se fosse capaz de fazer alguma coisa. Tudo nele me enche de alívio quando o vejo. Ele é meu lar.

No momento ele parece preocupado. Dou uma olhada em minhas mãos e nos braços, tentando descobrir se esqueci alguma coisa importante.

— Vamos mudar de casa? — arrisco.

Ele sorri sem muito entusiasmo.

— Não. Não, querida, não vamos mudar de casa. Annie!

Minha mãe desce a escada correndo e quase cai em cima de nós. Seu cabelo está solto, rebelde, e ela usa um cardigã comprido.

— Flora, querida — diz. — Ah, Flora. Querida. E a Paige? Certo. Vem, vamos tomar uma xícara de chá.

Ela olha para os meus braços, e eu os estico para mostrar que não tem nenhuma anotação nova. Os bilhetinhos amarelos de Paige estão na bolsa, e sinto um alívio enorme por meus pais não saberem sobre Drake. Eles entrariam em pânico e tentariam falar com Paige e resolver tudo, como se eu fosse uma criancinha, alguém que não é responsável pelos próprios atos. Não sou mais uma criancinha. Tenho dezessete anos.

Drake me fez lembrar. Abro a boca para contar tudo a eles, mas a fecho sem dizer nada. Não quero que saibam que beijei um garoto na praia. Nesta casa eu sou uma menininha. Seria errado beijar um menino.

Eu sabia o que estava fazendo. Apego-me a isso. Não foi uma atitude legal, mas o beijo é meu e foi real. Ainda está lá. Está na minha mente. Consigo lembrar porque amo Drake. Seguro a pedra dentro do bolso, certa de que, se perdê-la, vou perder a lembrança.

— Vou pôr água para ferver — aviso.

— Obrigada, querida.

Ponho a chaleira sobre o fogão e preparo o chá, usando o bule manchado que temos desde que eu era pequena. Eu o coloco na mesa, ao lado da embalagem de leite que tiro da geladeira, e pego a caneca favorita de cada um. Tem um cartaz na porta da geladeira mostrando as canecas favoritas: é uma folha A4 impressa com fotos e nomes embaixo de cada imagem. Imagino que eu mesma tenha feito o cartaz. Minha caneca favorita, aparentemente, é cor-de-rosa com bolinhas, a caneca mais sem graça do mundo. A da minha mãe tem a inscrição ”MELHOR MÃE DO MUNDO!” e o desenho de uma mulher de avental, e a do meu pai tem a inscrição ”WILLIAM SHAKESPEARE” com a foto de um homem de barba. Aposto que não são as canecas de que eles mais gostam de verdade, mas vou pegá-las mesmo assim.

Posso sentir as palavras de Paige dentro da minha bolsa. Não preciso ir olhar para ter certeza do que dizem. Ainda não. As palavras queimam minha pele através da lona.

— Flora — meu pai fala quando estamos sentados à mesa. É incomum ele começar uma conversa. — Olha, surgiu uma novidade, uma coisa difícil.

O caderno e a caneta estão na minha frente, e meu telefone também, porque sinto que vou precisar me lembrar disso.

Minha mãe segura a caneca de chá com as duas mãos e continua em silêncio. Ela nem sugeriu um biscoito.

— Sabe o Jacob? — minha mãe pergunta.

— Eu amo o Jacob! Jacob é meu irmão. Cadê ele?

Meus pais olham para as fotos na parede.

São fotografias em que eu, minha mãe e meu pai aparecemos. Estão coladas à parede com fita adesiva. Ao lado delas tem um retrato emoldurado de um garoto. Tem o nosso nome embaixo das fotos, e embaixo da foto do garoto está escrito “Jacob (irmão)”.

Conheço Jacob. Ele é a pessoa que mais amo no mundo. É mais velho que eu. Ele costumava me pegar no colo e me carregar por aí, e me deixava sentar em seu colo para assistir televisão, e tenho uma lembrança muito nítida dele me deixando pintar suas unhas dos pés.

— Está na França — minha mãe fala depressa. — Você sabe que o Jacob é mais velho que você. Sabe disso? Ele tem vinte e quatro anos. Agora mora na França e nós não o vemos com frequência, mas ele te ama muito. Mais do que nos ama.

— Vinte e quatro? — Olho para a foto com a testa franzida. O garoto é magro, tem cabelo escuro e é bonito. Parece ter menos que vinte e quatro anos.

— É uma fotografia antiga — meu pai explica. — Sim. Ele agora tem vinte e quatro. Não o vemos há algum tempo. — Ele olha para mim, estuda meu rosto e continua: — Ontem ele telefonou aqui, e hoje de manhã o hospital ligou. Parece que ele está muito doente. Temos que ir vê-lo, Flora.

Estou tentando acompanhar.

— Se não o vemos há muito tempo, como sabem que ele me ama? Eu sei que o amo porque lembro.

— Nós sabemos, só isso — diz minha mãe. — E essa não é a parte importante. Temos que ir visitá-lo no hospital.

— Nós vamos para a França? Por isso a mala? Vamos ficar longe de casa? Vamos ver o Jacob? — Nunca estive longe de casa. Não tenho ideia de como é a França, exceto por uma foto da Torre Eiffel.

— Não — meu pai responde, e minha mãe bebe metade do chá de uma vez só. Está estressada. — Você não vai. Nós vamos, mas você tem que ficar aqui. Este é o melhor lugar para você. A França seria demais, e nós vamos ter que cuidar do Jacob. A viagem seria muito difícil, e depois você ainda teria que lidar com o fato de estar em um lugar novo. Vai ficar muito melhor aqui.

— Mas eu quero ver o Jacob! Quero ir com vocês!

— Você não tem passaporte — minha mãe argumenta. A voz dela está estranha. — Se ficar aqui, vai estar segura. Falei com a Paige ontem, um pouco antes da festa na casa dela, e ela vem para ficar com você. Eu arrumei o quarto de hóspedes. Ela vai cuidar de você. Lembre-se de não ir à casa da vizinha, se precisar de alguma coisa, porque a sra. Rowe está mais confusa que você ultimamente, e só Deus sabe o que vocês duas poderiam aprontar juntas. Conte com a Paige e tudo vai ficar bem. Vamos deixar dinheiro. Vou deixar a geladeira cheia de comida, e não vamos ficar fora por muito tempo. Eu mando uma mensagem para você todo dia na hora do remédio. Pode tomar um comprimido a mais todas as noites, para dormir melhor e ficar tranquila. Sempre que você esquecer onde está, a Paige vai explicar.

— Ah. — Penso nessa situação inesperada. Paige não vem ficar comigo nem vai explicar onde estou, porque não está falando comigo, porque beijei o namorado dela. Nossa conversa ainda está na minha cabeça, mas, se eu não contar nada disso aos pais, vou conseguir ficar sozinha em casa.

Escrevo tudo que eles falaram, depois fotografo a página com o celular. Jacob está doente e eu quero ir vê-lo, mas não posso, porque não tenho passaporte. Se ficar em casa sozinha, vou poder pensar em Drake o dia todo. Vou ficar aqui e lembrar o nosso beijo. Vou poder andar até a praia onde o beijo aconteceu sem ninguém me perguntar aonde vou. Tenho o beijo, uma ilha em minha memória, e quero passar todo o tempo que puder com ele, caso acabe desaparecendo.

A ideia me anima.

— Quanto tempo vocês vão ficar fora?

Vejo minha mãe relaxar um pouco.

— Temos reserva para cinco dias. O que quer que esteja acontecendo lá, nós vamos conseguir resolver e voltar nesse tempo. Se um de nós tiver que ir para lá de novo, daremos um jeito. Odeio deixar você aqui, meu bem, mas dessa vez vai ser necessário.

Balanço a cabeça em uma resposta afirmativa e bebo meu chá.

— Quando vocês voltarem, podemos ir ao Flambards? — pergunto.

Minha mãe se inclina para trás como se eu tivesse falado alguma coisa chocante. Fecha os olhos. Meu pai segura a mão dela sobre a mesa.

— Nós vamos fazer alguma coisa divertida — ele diz. — Prometo.

Estou sentada à mesa na casa que conheço, com pessoas que são parecidas com meus pais, porém velhas demais. Olho para minha mão: sou Flora. Tenho que ser corajosa. Não sei o que está acontecendo ou o que cada um aqui está falando, nem o que eu estava fazendo há um instante.

Sei que beijei Drake em uma praia. Ele me convidou para passarmos a noite juntos. Não sou uma garotinha. As ondas quebravam nas pedras. Estava escuro, e a lua refletia na água. Eu o amo.

Levo a mão ao bolso de trás da calça e encontro a pedra mágica que me faz lembrar. Está lá. Não a tiro do bolso. Quero contar aos pais que tenho uma lembrança, abro a boca, mas decido que eles não devem saber que eu beijei um menino e fico quieta.

Também tem um panfleto no meu bolso. Eu o pego e deixo em cima da mesa. Meu pai o pega e joga no lixo. Nem vi o que estava escrito.

Tem um papel na minha frente. Eu o pego e leio. Ninguém fala nada. Minha mãe mantém um braço sobre meus ombros.

— Está tudo bem — ela diz. — Você está em casa. Acabamos de contar que temos que ir a Paris ver o Jacob. Ele está muito doente e precisa de nós. Você vai ficar aqui por alguns dias, a Paige vem te fazer companhia.

Jacob é meu irmão. Eu o amo. Eu me lembro dele. Ele era legal comigo quando eu era pequena. Agora está doente e eles vão visitá-lo. Paige vem ficar comigo e cuidar de mim.

Vai ser muito legal.

— Tudo bem? — minha mãe pergunta. — Já se atualizou? Então, viajamos amanhã cedo, porque o avião sai de Exeter às onze da manhã. Anota isso, ou eu escrevo, se quiser. Vamos de carro até o aeroporto. — Eles não gostam de dirigir, apesar de termos carro. Fica na rua atrás de casa e nunca é usado. Não sei como sei disso, mas sei. Isso deve ser importante, para eles terem decidido dirigir. — Pedi à Paige para vir às nove. É melhor checarmos com ela. É melhor você telefonar para ela agora. Ou eu telefono, se preferir.

— Não, tudo bem — respondo. — Eu falo com a Paige. Vai ser ótimo ficar com ela aqui.

Beijei o namorado da Paige. Não posso contar para ela. Não posso contar para minha mãe.

— Promete que vamos ficar em contato.

— Sim — eu digo. — Sim, prometo.

— Manda mensagem — diz meu pai. — Só não vamos responder se estivermos no avião, porque nos obrigam a desligar o celular.

— Ou se ficarmos sem sinal — minha mãe acrescenta. — Mas já verifiquei a cobertura internacional e sei que os celulares vão funcionar na França. E vamos voltar bem antes do seu aniversário. Nós nunca perderíamos. Mantenha o celular carregado. Verifique as mensagens.

Levanto e empurro a cadeira para trás. Ela cai, e eu tenho que fazer uma manobra estranha para levantá-la e colocá-la de volta no lugar.

— Eu vou ficar bem — falo para os dois. — É claro que vou. Vou ficar muito bem aqui sozinha. Com a Paige. Vai ser bom para mim. E eu vou ligar para ela agora. Não se preocupem. A Paige e eu vamos ficar bem.

Minha mãe sorri.

— É claro, querida. Vou deixar bilhetes pela casa antes de sairmos, está bem? Sobre tudo. Se a Paige vai ficar aqui com você, não tenho que me preocupar muito.

— Guarda a preocupação para o Jacob — sugiro. — O que ele tem?

— Não sabemos — respondeu meu pai.

Ligo para Paige, mas ela não atende.

Tem outra foto de Jacob na parede do meu quarto. O garoto de que me lembro está em pé em um jardim, usando uma camiseta com a inscrição ”ARIZONA, O ESTADO DO GRAND CANYON” e segurando a mão de uma menininha loira de vestido azul. De acordo com a anotação embaixo da foto, a menina sou eu.

Estamos em um jardim. É o jardim desta casa, mas tem um balanço. Queria que ainda tivesse um balanço. Posso pedir para eles comprarem um para mim.

Tiro a foto da parede para examiná-la de perto. Toco o rosto dele com a ponta do dedo. É meu irmão. É o Jacob, que agora é mais velho e está doente. Viro a foto e vejo uma inscrição no verso. Não esperava encontrar uma anotação.

“Me liga. Te amo.” E uma sequência de números.

Olho para eles, depois devolvo a foto no lugar.

Minha mãe passa o resto do dia cozinhando, embora eu devesse ser capaz de me alimentar sozinha. Ela está preocupada com a possibilidade de eu deixar o forno ligado, ou saturar a casa de gás e riscar um fósforo. Minha mãe guarda toda a comida em potes fechados e vasilhas cobertas com papel-alumínio e marca cada recipiente com uma etiqueta, na qual anota a data em que Paige e eu devemos comer aquele prato. Tem lasanha para amanhã, curry para terça-feira, torta de peixe para quarta, macarrão com queijo para quinta e pizza para sexta. Eles voltam para casa no sábado. O armário está cheio de pão e coisas para pôr nele, e minha mãe está fazendo uma panela enorme de sopa para aquecer todos os dias na hora do almoço.

Tento ligar para Paige, mas vejo que já tentei outras cinco vezes. Ela não atende. Recebo uma mensagem dela:

Flora, para de me ligar. Não quero falar com você.

Você beijou meu namorado.

Me deixa em paz.

 

Não conto aos pais.

Eu me perco na lembrança. Amo tanto Drake que ele fez meu cérebro funcionar de novo. Eu estava sentada na praia. Tinha ondas. Ele chegou e sentou ao meu lado. Disse que costumava ficar sentado no bar se perguntando se estava com a garota errada. Disse que eu era bonita e interessante. Lembro da nossa conversa. E me apego a ela. Eu lembro. Repasso cada palavra de novo, de novo e de novo.

Encontro os bilhetes amarelos de Paige em minha bolsa e tiro uma foto deles lado a lado para lembrar que não devo telefonar para ela. Não posso escrever no braço com caneta de ponta grossa como gostaria de fazer, não até os pais terem saído.

Finalmente é fim de tarde e está tudo pronto. Meus cinco dias de comida estão garantidos. Tem comprimidos em caixinhas na cozinha, com o dia certo escrito em cada uma com letras enormes. A mala está ao lado da porta, e os pais verificaram várias vezes os passaportes. Eles não têm passagens, porque fizeram as reservas pela internet, mas eu sei que o voo para Paris sai de Exeter e que eles saem amanhã às cinco da manhã. Sei disso porque as informações estão escritas em bilhetes espalhados pela cozinha, no corredor e na sala de estar, e provavelmente no resto da casa. Eles me levam à cozinha.

Minha mãe pendura o avental, tira o elástico que prendia seu cabelo e olha para mim com um sorriso tenso.

— Vamos andar um pouco na praia, querida? — ela diz. — Um sopro de ar fresco da Cornualha pode ser bom. Preciso disso antes de viajarmos.

Calço os sapatos, visto a capa de chuva e paro na varanda, entre vários objetos que foram ficando por lá (bolas de tênis, um bastão de críquete que parece ser muito velho, uma caixa de papelão com meus livros de exercícios do fundamental). Torço desesperadamente para não encontrarmos Paige. Vou ficar bem sozinha, mas sei que os pais nunca me deixariam se descobrissem a verdade. Quero que eles viajem para ver Jacob. Quero ver como consigo me virar sozinha. Quero poder viver dentro da minha lembrança.

Alguém abre a porta atrás de mim, só uma fresta, e eu ouço os pais conversando em voz baixa, como fazem quando não querem que eu escute. Fico tentada a empurrar um pouco a porta para ouvir de verdade, mas, assim que dou um passo, minha mãe diz:

— Não, é evidente que ela não tem nem ideia, e vamos manter as coisas desse jeito.

E eu congelo.

É evidente que não eu tenho a menor ideia. Isso vai mudar agora, porque vou lembrar coisas. Os pais estão guardando algum segredo. Anoto isso em um pedaço de papel e guardo no bolso. M e P escondem alguma coisa de mim. Vou poder procurar pela casa enquanto eles estiverem fora, tentar descobrir o que é.

Eu me afasto, saio da varanda e continuo pela alameda do jardim, olhando para o lugar onde tenho certeza de que havia um balanço.

Minha mãe está lá atrás, em pé na varanda e respirando fundo. Finjo não notar sua presença, e ela espera meio minuto, mais ou menos, antes de falar com sua voz mais animada:

— Flora! Certo. Vamos descer para ver o mar.

É evidente que ela não tem nem ideia. Essa é a história da minha vida inteira, até Drake.

— Sim — respondo e hesito ao olhar em volta. Se eu perguntasse sobre o que não tenho nem ideia, ela não responderia, então, por enquanto, vou deixar isso de lado. Mais tarde eu descubro.

— Qual é o problema com o Jacob? — pergunto.

— Não sabemos. — Devo ter perguntado a mesma coisa milhões de vezes, porque ela parece irritada.

Minha mãe é mais baixa que eu, mais larga, e seu cabelo escuro é grosso, crespo e completamente diferente do meu, que é irritantemente liso, claro e sem volume nenhum. Consigo ver quanto ela está perturbada por causa de Jacob e quero cuidar dela. Não tenho nem como começar. Ela cuida de mim, e é assim que funciona.

O mar desenha uma linha reta no fim da rua, mas, em vez de seguir direto até lá, andamos pelos jardins do outro lado. São verdes e lindos, um lugar feliz que me envolve como um cobertor.

— Por que você parou de ir vê-lo? — pergunto.

Ela se assusta e olha para mim.

— Parei de ver quem? — pergunta, embora saiba muito bem de quem estou falando.

— Meu irmão. — Tento lembrar o nome dele. — Jacob — acrescento.

— Ah, Flora. Foi complicado. E faz tempo. Ele era jovem e teimoso, achava que sabia de tudo. E foi... — Ela desvia o olhar.

— Teve alguma coisa a ver comigo? — Tenho certeza que sim. O rosto dela revela.

— Ah. Não exatamente.

Minha mãe se afasta, anda depressa em direção aos portões de saída, onde uma placa avisa que “Incêndio proposital é crime”. Ando atrás dela. Sei que é melhor não perguntar mais. Se ela respondesse, eu esqueceria. Ela já deve ter me falado tudo isso um milhão de vezes. Deve ser irritante viver comigo.

Atravessamos a rua e nos debruçamos na balaustrada sobre o mar, olhando para a água. O ar é frio, mas o sol da tarde revela cada detalhe de tudo por ali. Cada pedra na praia projeta sua sombra. O mar brilha como um espelho, e o céu é limpo e frio.

À esquerda fica a piscina descoberta. É linda de ver, mas, apesar de lembrar que tive aulas nela quando era pequena, não me atreveria a tentar nadar agora. Além dela, tem um castelo de conto de fadas na água e a terra atrás dele, o que dá a sensação de que este é um mundo particular, um porto seguro e fechado. Esse é o meu mundo; sempre foi o meu mundo.

À direita a terra segue descrevendo outra curva.

Drake está longe, em um lugar gelado para onde queria ir desde os dez anos. As aulas do curso que ele faz são em inglês, o que é bom, porque ele é péssimo com idiomas.

Olho para minha mão direita. FLORA seja corajosa, leio. Um dia farei alguma coisa. Um dia.

— Vou sentir saudade — minha mãe diz.

— Você volta? — pergunto, mesmo sem saber por quê.

Sinto que ela olha para mim, mas continuo olhando para o mar. Drake e eu nos beijamos perto daqui, um pouco mais à esquerda. A maré estava alta. A água chegou perto de nós. Lembro como foi sentir seus lábios sobre os meus, o cheiro de alga marinha. Naquele momento sacrifiquei minha amizade, e o vergonhoso é que eu faria tudo de novo, uma centena de vezes. Toco o bolso da calça jeans. A pedra ainda está lá.

— É claro que voltamos — ela diz. — Flora, olha para mim.

Eu me viro devagar, relutante. Ela está me encarando, e não consigo ler sua expressão.

— Prometo que vamos voltar — minha mãe diz, sem desviar os olhos dos meus. — Vamos fazer o que temos que fazer, depois voltamos para casa. Não vá a lugar nenhum. Não tenha ideias.

Tento fazer uma piada.

— Vou estar bem gorda quando vocês voltarem. Você não vai me reconhecer. Toda aquela comida que eu tenho que comer...

Quero que ela saiba que consigo me lembrar da comida. Percebo que ela fica satisfeita.

— Sim. É para comer mesmo. Coma três vezes por dia, tome os comprimidos de manhã e à noite e mande mensagens para mim o tempo todo.

— É claro que sim.

— E se cuida. Não vá a lugar nenhum.

Ela me encara com ar sério até eu me virar de frente para o mar novamente. Ficamos lado a lado olhando para o Atlântico. Só consigo pensar em Drake.