A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 1 de 29

Páginas do PDF

A única memória de Flora Banks

Prólogo

MAIO

 

Estou no topo de uma colina, e, embora saiba que fiz algo terrível, não tenho ideia do que é.

Há um minuto ou uma hora eu sabia, mas isso desapareceu da minha mente, e não tive tempo de anotar nada, e agora está tudo perdido. Sei que tenho de ficar longe, mas não sei do que estou me escondendo.

Estou no cume de uma montanha em um lugar gélido e impossivelmente bonito. Lá embaixo, bem ao longe, tem uma faixa de água de um lado, com dois barcos a remo na margem. Do outro, o nada. Montanhas se estendem até onde a vista pode alcançar. O céu é do mais profundo azul, o sol é ofuscante. Tem um pouco de neve no chão, mas sinto calor, porque estou vestindo um pesado casaco de pele. A paisagem é clara e nevada. Não pode ser real. Estou me escondendo em algum lugar dentro da minha cabeça.

Quando olho para trás, vejo uma cabana lá embaixo, perto dos barcos; corri para longe dela, subi a montanha, me afastei de tudo que tem dentro dela. Não devia estar aqui fora sozinha, pois sei que existe algum perigo.

Prefiro correr o risco a enfrentar o que tem na cabana.

Como não há árvores aqui, preciso atravessar o cume antes de conseguir me esconder. Assim que passar por ele, estarei em território aberto. Seremos apenas eu, as montanhas, as rochas e a neve. Em pé no topo da montanha, tiro duas pedras lisas do bolso do casaco. Não sei por que estou fazendo isso, mas sei que é essencial. As pedras são pretas e, juntas, se encaixam perfeitamente na palma da minha mão. Eu as jogo, uma depois da outra, com toda a força, o mais longe possível. Elas desaparecem entre as rochas cobertas de neve, e eu fico satisfeita.

Logo terei sumido de vista. Vou encontrar um lugar onde me esconder e não vou me mexer até me lembrar do que fiz. Não importa quanto tempo leve. Provavelmente vou ficar aqui, neste lugar gelado, pelo resto da vida.