A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 25 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 24

 

A primeira folha de papel é pequena, e a caligrafia nela é cheia de voltas.

Chère Flora,

Aqui é o Jacques, companheiro do Jacob. O Jacob passou muitos

dias escrevendo isso para você. Eu prometi enviar a carta. Ele se

preocupa muito com você. Por favor, escreva logo.

Grosses bises,

Jacques

Não tenho ideia do que isso significa, mas alguma coisa dentro de mim me faz continuar. Deixo o bilhete de lado e começo a ler a carta. Leio devagar, porque meu cérebro tem uma dificuldade terrível para processar as palavras, e eu mal entendo um quarto delas.

Minha pequena Flora,

Receio que agora eu já esteja morto. Não é justo, mas é a realidade. Ser um fantasma pode combinar

comigo, é o que tenho sido em sua vida há sete anos. Estou tentando olhar o lado positivo, agora que todas

as outras possibilidades se esgotaram.

Vou fazer o possível para ficar de olho em você. Olhe ao seu redor agora. Sorria para mim. Beije o ar, e

eu estarei nele. Estarei? Quem sabe? Talvez.

Estou mandando esta carta para sua ex-amiga Paige, que será cruelmente assombrada por mim pelo

resto de seus dias, a menos que interfira para tirar você da confusão induzida por drogas em que a nossa

mãe, sem dúvida, vai te colocar. E ela sabe disso.

Certo. Primeiro o básico:

Você é Flora Banks. Eu sou seu meio-irmão, Jacob Banks. Sou sete anos mais velho que você e queria

estar por perto para te trazer para viver comigo, agora que é adulta. Eu morava em Paris com meu

namorado, Jacques, que vai ficar de olho em você como puder.

Nossa mãe e seu pai (meu padrasto) mentiram durante sete anos sobre a sua perda de memória. Eles

nem te respeitaram o suficiente para contar a violenta e horrível verdade. É evidente que essa missão é

minha, então aí vai. Esta é a nossa história:

Quando você tinha dez anos, você, eu e nossos pais sofremos um acidente terrível. Os pais sempre

fingiram que você teve um tumor no cérebro, porque não suportam falar ou pensar sobre o acidente, nunca,

e não queriam que você perguntasse sobre ele a cada cinco minutos.

Estávamos juntos no banco de trás do carro, a caminho do Flambards, que é um parque temático.

Imagina, Flora. Você, uma menina linda e normal de dez anos, perguntando toda animada sobre os

brinquedos. Você estava ansiosa havia semanas. Tudo que falava era: “Quero ir ao Flambards”, muitas e

muitas vezes. Eu, um gay rabugento de dezessete anos, que tinha decidido ir junto só porque você estava

muito animada, e porque eu também estava, embora em segredo. Os pais, sentados no banco da frente,

ouvindo rádio e conversando sobre as coisas chatas de sempre.

Estávamos em uma rotatória pouco antes do parque, em Culdrose, aquele lugar da Força Aérea, quando

um caminhão passou direto pelo cruzamento, ignorando a placa que mandava parar, e bateu na lateral do

carro. Capotamos algumas vezes, o carro foi jogado para cima e aterrissou com as rodas para o alto. Os pais

saíram ilesos, fisicamente, pelo menos. Você teve ferimentos muito graves na cabeça, porque estávamos

quase chegando e você tinha tirado o cinto de segurança. E eu, bem, não tive o tipo de ferimento que você

teve, porque ainda estava de cinto, mas também não escapei. Fui o único que ficou preso nas chamas

quando o carro pegou fogo. Você foi tirada de lá, os pais haviam saído correndo para buscar ajuda, e eu

continuei lá dentro. Acredite, cicatrizes no rosto e cirurgia plástica não são o que um adolescente tímido

quer.

Bom, eu fiquei com o raciocínio intocado, você preservou a aparência. Juntos, a gente poderia ter criado

um ser humano funcional.

A mãe estava dirigindo. Por isso ela sempre te embrulhou em plástico bolha. Por isso nunca mais

dirigiu. Por isso ela teve um esgotamento nervoso que durou sete anos, e ainda está aí.

E é por isso que você tem que recorrer a tantos subterfúgios para fugir sempre que pode. Ela estava

dirigindo, nós dois ficamos feridos, e ela sempre se culpou. Tudo que ela fez depois disso foi para tentar

garantir que nada parecido acontecesse novamente. Até hoje, acho que ela ainda sofre de estresse pós-

traumático, e um dos motivos que tive para ver os dois antes de morrer foi dizer à mãe, mais uma vez, que

ela não teve culpa.

Você só tem memórias sólidas da vida antes do acidente. Não tem memória de curto prazo. Você

lembra das coisas por uma hora, talvez três, depois esquece tudo. Esse tipo de amnésia muitas vezes

melhora com o tempo, porque o cérebro é uma coisa misteriosa e maravilhosa que encontra novos

caminhos, mas o seu passou muito tempo sem encontrar novas soluções. Recentemente, desconfiei de que

poderia estar melhorando (não só por você lembrar de ter beijado aquele garoto — a memória era a coisa

mais importante, não o beijo, mas você sabia que tinha alguma coisa incrível nisso e correu para o polo

Norte para ver se o príncipe encantado poderia fazer aquilo acontecer de novo). Como a nossa mãe tem

feito você tomar calmantes, é difícil dizer. Mas você começou a falar o tempo todo sobre ir ao Flambards, e

isso significa que alguma coisa estava aflorando. Como você pode imaginar, seu pedido para ir a esse lugar

específico não foi fácil para a mãe.

Como contei em um dos meus e-mails, o motivo para eu ter me afastado dos pais até agora é que a sua

personalidade mudou um pouco depois do acidente. Não sei quanto, mas eles decidiram que isso era um

problema. Você se tornou impulsiva e incontrolável, e foi isso que fez de você alguém brilhante. Eles

acharam que, quando estava “melhor”, você se comportava de um jeito muito perigoso. Subia nas janelas

mais altas da casa para sentar no parapeito e falar com os pássaros. Fugia e depois não sabia onde estava.

Pintava grandes cenários malucos dentro da sua cabeça. Contava a desconhecidos sobre suas jornadas no

tempo e no espaço. E a mãe decidiu (para sua própria segurança, blá, blá, e porque ela não poderia suportar

a culpa de novos acidentes) domesticar você.

Eu não suportei aquilo. Foi pior que o ferimento.

Eles tomaram a decisão de te dar um remédio que entorpecia os sentidos, continha as mudanças de

humor, te tornava maleável e controlável, argumentando que, de outra forma, você seria um “perigo para si

mesma”.

A mãe nunca mais foi ela mesma depois do acidente, nunca quis correr o risco de alguma coisa

acontecer com você de novo, e estou falando no sentido literal. Ela nunca quis que nada acontecesse. Eles

decidiram manter os calmantes, que diziam ser seu “remédio”, e você se tornou dócil e “boa”, e eles te

mantinham em casa, absolutamente segura. Eles compram a droga pela internet, porque nenhum médico

permitiria essa dependência tão prolongada. Com o tempo eles acrescentaram um antidepressivo, porque

muito calmante pode derrubar uma garota. Não existe medicamento para amnésia. Você não precisa tomar

nenhum remédio. Eles entorpecem o seu cérebro porque assim é mais fácil te controlar.

O pior de tudo é que tem um neuropsicólogo chamado Joe Epstein que quer cuidar de você desde que eu

o procurei, há anos. Fomos encontrá-lo. Ele adoraria te ajudar, ou te avaliar, pelo menos. Tentou te ver, e a

mãe sempre negou. Não por crueldade, mas por medo. Ela quer manter você como era aos dez anos e

cuidar de você. Acho que ela quer cuidar da pequena Flora para sempre, para amenizar a culpa que sente

por não ter cuidado de você naquela fração de segundo.

Quando eles disseram não ao dr. Epstein pela primeira vez, fiquei com ódio deles. Vim para Paris e

aprendi a falar francês, trabalhei, vivi e construí minha vida. Fiz o possível para me manter em contato com

você, com cartões, cartas, e-mails e telefonemas, e sempre foi maravilhoso receber seus contatos hesitantes,

quando você telefonava para um número que eu havia deixado sem saber o que estava acontecendo,

querendo ouvir novamente todas as explicações.

Acontece que ninguém segura a minha irmãzinha. Primeiro, um dia você entrou em um trem e foi para

Londres sozinha. Tinha treze anos, e eles ficaram malucos. A polícia te encontrou e te levou de volta a

Penzance, onde a dose de calmantes foi aumentada. Depois você conseguiu encontrar seu passaporte e

apareceu aqui em Paris para me ver. Foi no ano passado, e você era uma linda e confusa menina de

dezesseis anos. Você já tinha tatuado seu nome na mão: você queria alguma coisa para lembrar de viver

aventuras, e nós fomos a um estúdio de tatuagens e acrescentamos as palavras “seja corajosa”. Admito,

ajudar você nessa foi um enorme dedo do meio que eu mostrei para os pais. Passamos quatro dias juntos

em Paris, e eu mostrei a você a Torre Eiffel, o Musée d’Orsay, os Jardins de Luxemburgo e todas as

atrações turísticas, além de te apresentar as alegrias do vinho tinto, das matinês de cinema e dos almoços

demorados.

Você conseguiu tudo isso escrevendo para si mesma. Usou a palavra escrita para improvisar parte do

trabalho que as vias neurais deveriam estar fazendo. Fez do seu caderno uma memória externa, seu cartão

de memória. Você é brilhante.

Então, este ano, você beijou um garoto e se lembrou disso, e foi atrás dele até o topo do mundo.

Voltando um pouco, eu me sentia mal e não melhorava nunca, e acabei recebendo a porcaria do diagnóstico

de um câncer de rim de estágio 4. Não tinha volta, e pedi aos pais para virem quando percebi que era o fim.

Estou me estendendo porque é necessário. Eles ficaram tão apavorados com minha notícia que deixaram

você com a Paige, mas, como o garoto que você beijou era namorado dela, ela decidiu ignorar o

compromisso assumido. O incrível é que você se lembrou de ter beijado esse garoto e comprou uma

passagem aérea para o Ártico para ir atrás dele. Viveu muitas aventuras, ficou livre da medicação, voltou a

ser a Flora de verdade e quase foi comida por um urso.

Não sei bem o que vai acontecer a seguir, mas aposto tudo que tenho que, quando você receber esta

carta, já terá voltado a tomar o remédio e retornado ao estado vegetativo, e eles nunca vão deixar você sair

para ir a lugar nenhum. Aposto que fica olhando para a televisão e que eles colocam você na cama com um

ursinho de pelúcia.

Falei com a Paige, e ela me contou que você realmente beijou o garoto, que ela tem uma foto desse

momento. O Jacques vai mandar esta carta para a casa dela. Ela vai levar a carta e garantir que você a leia

sozinha, e também vai trocar toda a sua medicação por comprimidos de açúcar, que o J e eu compramos

pela internet e mandamos entregar na casa dela. Compramos os comprimidos em todos os formatos, e ela

me garante que a sua medicação é vendida em pequenos frascos, que ela vai encher com o tamanho e o

formato certo de pílulas. Tome os comprimidos que eles derem e finja que é um zumbi. Não do tipo que

come cérebros. Finja ser incapaz, passiva, obediente. Deite no sofá, olhe para a televisão e babe um pouco.

A Paige vai visitar você todos os dias e, quando chegar a hora certa, vai tirar você daí. Tome cuidado com o que escreve. Eu sei que você precisa escrever as coisas, mas NÃO guarde nada

embaixo da cama, porque eles sabem desse esconderijo, sempre souberam. A Paige vai ajudar você a

encontrar outro lugar.

Abri uma conta bancária para você, a Paige tem os detalhes. Quero que você viaje e viva aventuras.

Você conheceu muita gente em Svalbard, pessoas que gostaram muito de você, porque você é adorável.

Quando completar dezoito anos, você vai poder decidir o que fazer com a sua vida. Pode conversar com

o dr. Epstein e ver o que ele tem a oferecer. Pode tomar algumas decisões e assumir o controle. Nada disso

vai funcionar a menos que você pare de tomar a porcaria dos comprimidos.

Estou escrevendo isto há eras. Agora tenho que ir.

Se houver alguma forma de vida após a morte, estarei cuidando de você da melhor maneira possível. Viva a sua vida. Flora, seja corajosa.

Beijos,

Seu irmão Jacob

Querida Flora,

Sou eu, a Paige. Quero te contar algumas coisas.

Primeiro: nós brigamos, você e eu. O Drake era meu namorado. Já

contei isso antes e vou contar de novo até você conseguir absorver.

Você o beijou na praia. Ele conseguiu convencer você e todo mundo

de que isso nunca aconteceu, para escapar das consequências

(provavelmente mais pela nova namorada do que por qualquer outra

coisa), mas eu sei que aconteceu, e eu sei porque a Lily viu vocês.

Você não vai se lembrar da Lily, mas ela era uma das amigas do

Drake na Cornualha. Ela saiu da festa atrás dele e o seguiu até a praia,

provavelmente porque queria beijá-lo, para dizer a verdade. Então o

viu se aproximando de você. Disse que ele sentou do seu lado e te

beijou. Eu não teria acreditado, mas ela tirou uma foto com o celular e

me mostrou. Você também terá visto essa foto, provavelmente,

quando ler esta carta. É uma imagem da parte de trás da cabeça dele e

do seu rosto. É você, sem dúvida. E é ele. Vocês se beijaram.

Ela me contou na manhã seguinte. E mandou a foto para mim dois

dias depois. Fiquei furiosa com vocês e decidi nunca mais falar com

nenhum dos dois.

Você era tremendamente vulnerável, e ele foi um filho da puta, e

nenhuma de nós duas vai ter motivo para falar com ele de novo, agora

que já mandei um e-mail falando tudo que eu penso. Imagino que ele

achou que ia escapar dessa porque você esqueceria tudo. Então, olha

só. Ele entrou em pânico e falou para você que tinha beijado a Lily,

que tirou a foto. Ele não vale nada, Flora, não é digno de você, nem

de uma fração do seu tempo.

Enfim, não se preocupe com isso. O que você precisa levar dessa

história é: você beijou um cara bonito e inteligente em uma praia à luz

do luar. Beijou. Isso aconteceu. E você lembrou, o que é incrível.

Você conheceu pessoas legais enquanto procurava por ele. Sua

amiga Agi escreveu sobre você no blog (usando expressões

idiomáticas muito interessantes da nossa língua), e o post teve muitas

visualizações. Todo mundo pergunta de você, mas seus pais não

deixam ninguém se aproximar. O dr. Epstein voltou a fazer contato.

Sua mãe não cede, e Steve concorda com ela em quase tudo, porque

sabe que ela vai desabar se não for assim. Ele está fazendo tudo que

pode para me manter perto de você, e acho que podemos ter um aliado

muito discreto.

Finalmente me deixaram voltar à sua casa, só porque sou sua

melhor amiga há anos. Eles não imaginam que vou tentar levar você a

algum lugar mais de um quilômetro longe da sua casa.

Estão enganados.

Jacob está certo: vou jogar seu remédio fora e colocar no frasco

exatamente o mesmo número de pílulas de açúcar. Isso vai nos dar

alguns dias para tirar você daí. Fica preparada.

Guarde a carta na caixa em cima do console da sua lareira. NÃO

ponha embaixo da cama. Se escrever alguma coisa no braço, escreva

na parte de cima, onde sua mãe não possa ver. Flora, sua mãe não é

uma pessoa má — ela é adorável. Está sofrendo muito e sinto pena

dela. Mas você agora é adulta e pode decidir como quer viver sua

vida. Talvez você fique em Penzance. Talvez nunca volte a tomar os

remédios, ou talvez encontre alguma coisa que ajude você a ser a

pessoa maravilhosa que é. Seja qual for a decisão, ela é sua.

Seu passaporte está comigo. Roubei do escritório quando subi para

ir ao banheiro, há alguns dias. Jacob me falou que ele estaria lá.

A gente se vê em breve.

Beijos,

Paige

Tem muita coisa na minha cabeça. Olho para as folhas de papel. Apoio as costas na porta do banheiro. Minha mãe está me chamando lá embaixo. Parece que estou chorando.