A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 19 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 18

 

Tem copos vazios em cima da mesa. Tem um copo cheio na minha frente. Tem cerveja nele. Parece que estou bebendo cerveja. Acho que não devia beber nada alcoólico, mas pego o copo e bebo, e o gosto é o mesmo que já está na minha boca, por isso bebo outro gole. Não gosto do sabor, mas o cheiro da bebida me faz lembrar meu pai, por isso continuo bebendo. Meu pai bebe cerveja. Minha mãe bebe vinho.

Tem uma mulher ao meu lado. Ela usa óculos. Eu a conheço. Ela está conversando com um homem que tem barba, muito cabelo e uma pinta no rosto, sentado do outro lado da nossa mesa. Acho que não o conheço.

— Que maravilha — falo, porque estou em um bar com pessoas, e isso me faz feliz.

Eles param de falar e sorriem para mim.

— Sim — diz a menina. — Não é? Ah, Flora. Você está bebendo a minha cerveja. Devia beber a sua limonada. Aqui está.

Ela empurra um copo em minha direção e pega o de cerveja. Franzo a testa para ela.

Tem uma parede de tábuas de madeira atrás de mim. As mesas são de madeira. O lugar é quente, quase fumegante, embora faça parte de um lugar frio. Fizeram o interior quente porque o exterior é frio.

Tem muita gente aqui. Todos penduraram o casaco nas costas da cadeira. São casacos diferentes dos meus. Os outros são feitos de um material novo, o meu é de pele.

Eu me recosto na cadeira e estudo o ambiente, olhando para todos os rostos que vejo. Tem quarenta e duas pessoas aqui, e, pelo que consigo ver, nove usam óculos. Três dessas pessoas de óculos são mulheres (uma delas está sentada ao meu lado), e seis são homens. Quatro desses homens são velhos, e isso deixa só dois que podem ser Drake. Um deles está sentado junto ao balcão e tem cabelo vermelho, o que significa que definitivamente não é o meu Drake. O outro está sentado em uma das mesas, olhando para o outro lado, e eu levanto e ando entre as mesas, tentando vê-lo de frente, olhar seu rosto, descobrir se é o meu Drake.

Ouço alguém falar “Flora” atrás de mim, mas é uma voz feminina, por isso não pode ser Drake, e eu não olho para trás. Ando para o outro lado da sala e viro para examinar a pessoa que nesse salão tem mais chances de ser meu adorável e inteligente Drake.

Não é ele. É um homem de cabelo escuro e óculos (com um rosto que não é o certo), e eu pego o telefone no bolso e viro para ele. Provavelmente ele é a melhor pessoa para eu perguntar.

— Com licença — falo. — Conhece o Drake Andreasson? É este aqui.

Mostro a tela para ele. Tem um aviso de “18 chamadas perdidas”, e eu faço as letras sumirem para mostrar só a foto. O homem olha para mim com a testa franzida, dá de ombros e fala algumas coisas em um idioma diferente.

Estou no lugar frio. Nem todo mundo fala inglês aqui. Sorrio, esperando que ele entenda que estou me desculpando. Mostro novamente o celular e tento fazer cara de quem está perguntando alguma coisa.

Ele pega o aparelho e olha para a tela. Dá de ombros de novo, balança a cabeça e diz coisas que não entendo. Pego o telefone de volta e olho para minha mesa. Vejo a palavra “Mãe” escrita na tela, mas deixei o aparelho no mudo e ele não faz barulho. Como ele não está tocando, não atendo.

Uma mulher segura minha mão, e eu a sigo. Ela usa óculos e eu a conheço. Seu nome pode ser Ella.

— Vem, Flora, senta aqui. É melhor ficar com a gente. Somos seus amigos — ela diz.

— Eu sei.

— Pega sua bebida.

— Está bem.

O homem de barba se inclina em minha direção. Não o conheço.

— Não se preocupe, Flora — diz. — Você vai ficar bem. Vai ficar bem com a gente e vai encontrar o seu amigo. O Drake.

— Vocês estão me ajudando a procurar o Drake? Obrigada!

— Por nada. Lembra de mim? Toby, do café?

Não lembro.

— É claro — respondo.

Ele pega um copo.

— Saúde — diz.

— Saúde.

Tem um copo na minha frente. Pego e bebo um gole. É limonada. Não quero limonada. Sou adulta e quero beber cerveja. Tem meio copo de cerveja na mesa ao lado, que está vazia, e eu verifico se as pessoas que estão comigo não estão olhando antes de pegar o copo.

Assim é melhor.

Abby e o homem de barba estão conversando. Queria saber como eles se conhecem.

Bebo metade da cerveja de uma vez só. A bebida me faz formigar. Eles estão distraídos com a conversa. Isto aqui está ficando chato. Estou cheia de energia. Quero fazer alguma coisa. Cansei de ser eu. Não suporto ser a pobre garota chata que não entende nada nem por mais um momento. Essa não sou eu. Essa não é a verdadeira Flora Banks. Eu posso ser muito melhor do que isso.

Bato de leve no braço de Emma.

— Vou ao banheiro — aviso e bebo um pouco de limonada para provar que estou me comportando, como se essas duas pessoas fossem meus pais.

Ela olha para mim. Seu rosto é muito bondoso. Ela usa óculos, como Drake.

— Tudo bem ir sozinha? O banheiro fica logo ali. Está vendo a placa? Quer que eu vá com você?

Olho na direção que ela aponta e vejo a placa.

— Não — respondo. — Eu vou sozinha. É claro que vou. Sou capaz de ir sozinha ao banheiro.

— É claro que é. Sim, com certeza. Desculpa.

Ando entre as mesas, que são afastadas umas das outras, mas ainda ficam no caminho. O lugar está bem cheio, mas não completamente. Estou usando jeans, e vejo se tem algum dinheiro nos bolsos. Encontro notas desconhecidas. Está escrito “krone” nelas. Krone. É estranho que o dinheiro do lugar frio seja o krone, mas tenho certeza de que os krones servem para comprar mais cerveja. Tenho algumas moedas furadas no centro.

Vou ao banheiro, porque sei que a mulher está olhando (Alice? Amber?). Sento no vaso sanitário, levanto as mangas e leio tudo que escrevi nas mãos e nos braços, mas a única parte que faz sentido é FLORA seja corajosa. Tem coisas como supermulher e lugar frio está na minha cabeça e DRAKEDRAKEDRAKE e 5827, e um grande DRAKE cortado na pele. Gosto mais desse.

No meu pulso esquerdo está escrito Agi. Amiga. Óculos. Essa é a mulher. O nome dela é Agi. Encontro uma caneta no meu outro bolso, onde sempre fica, e escrevo em letras grandes sobre a palavra supermulher. AGI. Isso deve me fazer lembrar. Se soubesse o nome do homem, também escreveria.

Saio do banheiro e vejo se eles estão me esperando. Os dois ainda estão conversando, e caminho rapidamente para o balcão, que é longo, de madeira e tem muitas torneiras de cerveja.

Vou beber cerveja como uma pessoa normal. Essa é uma das coisas que preciso fazer, antes de poder ver Drake. Preciso mostrar ao mundo que posso agir como uma pessoa comum. Tenho dezessete anos e beijei um garoto na praia.

— Quero quatro cervejas, por favor — peço ao barman, com toda a educação. Se beber duas bem depressa, vou alcançar as outras pessoas e ser normal.

O barman é alto, tem barba grisalha e usa uma camiseta preta com a palavra “Motörhead” estampada no peito.

— Quatro cervejas — ele responde, olhando para mim com uma cara desconfiada. — Quantos anos você tem, minha querida?

Não sei o que dizer. Tenho certeza de que tenho dezessete. Porém quero dar a resposta certa, não a verdadeira.

— Idade suficiente? — arrisco, e ele ri.

— Tudo bem... serve — ele responde, pega quatro copos da bandeja de uma lavadora e começa a enchê-los. — Está de férias?

— Sim. — Lembro que tenho que ser normal. — Você mora aqui? O tempo todo?

— Meu bisavô era mineiro aqui. Meu avô também. Meu pai se mudou para Tromsø. Eu voltei para cá há dezenove anos. Somos quatro gerações de Spitsbergen.

— Mineiros?

Ele me entrega o primeiro copo. Sento em uma banqueta do bar para vê-lo encher os outros e começo a beber a cerveja enquanto espero.

— Sim, mineiros de carvão. Eles tinham uma vida terrível. Onde você está hospedada?

Franzo a testa. Não acho que seja uma boa pergunta. Mais que isso, não sei a resposta.

Ele ri e levanta as mãos.

— Desculpa. Só perguntei porque alguns hotéis já foram alojamentos de mineiros. Se estiver na Pousada Spitsbergen, por exemplo, aqueles prédios já foram moradia de mineiros. Eles não eram bem tratados. Era uma vida infernal. Iam a pé para o trabalho, atravessavam os vales na neve, no gelo e embaixo de nevascas, e na escuridão do inverno. Recebiam um balde de água para se lavar uma vez por mês, “precisassem disso ou não”. — Ele ri e olha para mim. Eu também rio.

— Isso não é muito legal.

— Não, não é.

Tem outras pessoas no bar. Pago as cervejas e levo os copos de volta à mesa onde estava sentada. Parece que já terminei de beber um copo.

— Ah, aí está você — diz a mulher (Agi! AgiAgiAgi, eu li no meu braço), e o homem que tem uma barba grande e cabelo espetado. Eles pegam as cervejas e agradecem, mas olham para mim, depois se entreolham.

— Mesmo se não encontrarmos o Drake esta noite — Agi avisa —, vamos entrar em contato com a sua família. Seus pais. Eles vão ter que vir te buscar.

Balanço a cabeça.

— Não! — grito. Eles não podem fazer isso. Não podem. — Quando encontrarmos o Drake, ele pode conversar com eles por mim. Pode explicar.

Fico apavorada com a ideia de que Agi pode dar um telefonema e estragar tudo. Olho para ela. Ela olha para o homem e faz uma careta.

— Não sou idiota — falo, um tom mais alto. — Eu vejo vocês trocando olhares. Pensando que eu sou uma inútil. Vocês não são minha mãe e meu pai. Sou adulta. Vim para cá, não vim? Vocês chegaram a este lugar de algum jeito, eu também cheguei, e tenho dinheiro no bolso para pagar uma cerveja para vocês, tenho um casaco, minhas botas, e só preciso do Drake. Só do Drake. Preciso do Drake porque ele me fez lembrar. Não preciso que vocês contem para minha mãe. Vocês não têm esse direito. Eu decido. Vocês só estão aqui porque eu imaginei vocês.

Pego um dos copos de cerveja e bebo rapidamente. É horrível, mas me obrigo a beber, gole após gole. O sabor para de me lembrar meu pai e começa a me dar enjoo. Saio de perto da mesa cambaleando, tentando manter a dignidade. Não sei para onde ir, mas tenho na mão um copo grande com cerveja, por isso não posso sair do bar. Volto para perto do balcão e sento em uma banqueta para conversar com aquele homem de novo, falar sobre os mineiros.

O salão está em silêncio. Todo mundo olha para mim. Eles nem fingem que não estão olhando.

Flutuo até o teto, porque isso é muito difícil. Do teto eu consigo me ver gritando. Minha voz é tão alta que consigo ouvir o que eu falo, mesmo estando tão longe.

— Parem de olhar para mim! — grito. — Estou bem. Sou normal! Normal! Normal! E não devemos ir ao Flambards! Não devemos. Não devemos.

Depois eu choro e olho para o barman. Pergunto alguma coisa, ele balança a cabeça e sai de trás do balcão para falar comigo. Uma mulher que estava em uma mesa próxima também se aproxima, uma mulher mais velha que provavelmente não conheço, e ela apoia um braço sobre meus ombros. A figura que me representa se vira, apoia a cabeça em seu ombro e chora.

— Não chora, Flora — cochicho para mim mesma e voo de volta ao meu corpo. Olho para minha mão. FLORA seja corajosa, está escrito, e eu olho para as palavras até absorver a mensagem. Sou Flora. Tenho que ser corajosa, ou isso nunca será feito.

Eu me afasto da mulher legal, que tem cheiro de sabonete e cigarro.

— Desculpa — peço. Fungo e limpo o rosto com um lenço que o barman me oferece.

— Minha querida, não tem problema nenhum — ela diz. — Este lugar é difícil. Nunca venha para cá no inverno. Você não lembra de mim, mas eu vendi as botas para você. É uma mocinha impressionante.

Assinto.

— Obrigada pelas botas.

Provavelmente ainda vou estar aqui no inverno. Todo mundo diz que o inverno é pior, mas não sei por quê. Não pode ser mais frio ou ter mais neve. Talvez seja menos mágico no inverno. Talvez pare de me curar.

— Ela está com a gente. Com licença — diz uma voz. Olho para cima e vejo a mulher, Ally, Andi, Abigail, Ellie. Não é Drake. A mulher de óculos segura minha mão. — Vem, Flora — ela diz. — Vamos levar você de volta para o seu quarto e para a cama. Acho que ela não devia ter bebido.

O homem barbudo e cabeludo está ao lado dela e começa a falar naquele outro idioma, e o barman e a mulher mais velha respondem naquela língua, e todos estão falando sobre mim usando palavras que não entendo.

Estou perto da porta. O barman voltou para trás do balcão para servir uma cerveja a outra pessoa. O barbudo, a mulher legal e Ellie estão falando de mim. As outras pessoas começaram a conversar entre elas. As pessoas não olham mais para mim.

Saio da banqueta. Ninguém percebe. Vou me virando até não ter ninguém entre mim e a porta.

Quando o caminho fica livre, eu me movo rapidamente, corro para fora. Tem uma escada do lado de fora e eu não esperava, por isso caio, desço rolando, mas não sinto dor, porque pareço quicar, e a verdade é que esse é o jeito mais eficiente de descer. Nada dói quando me levanto.

Estou em uma praça. Tem restaurantes, um hotel e um supermercado fechado, e do outro lado da praça tem uma rua. Corro para a rua. Não sei se devo ir para a direita ou para a esquerda. Vou para a direita e corro.

Está começando a nevar. Talvez logo fique escuro.

Nunca escurece. Esse é o negócio neste lugar. É claro o tempo todo, porque ele só existe dentro da minha cabeça. Tem luz o dia inteiro e tem luz a noite inteira. Nunca devo vir para cá no inverno.

Tem alguém no fim da rua, e eu corro como louca porque, mesmo através da neve, posso ver que esse homem é parecido com Drake. Quando me aproximo ele se torna mais parecido com Drake, não menos. Tem mais alguém com ele. É uma mulher. Eu a ignoro, me concentro em Drake. É o meu Drake. Ele me ama e eu o encontrei. Ele me fez lembrar e agora vai me fazer lembrar de novo.

O homem está usando os óculos do Drake. Está usando o jeans do Drake. Ele tem o cabelo do Drake. Eles se viram e se afastam de mim, porque não me enxergaram no meio da neve.

Beijei esse homem na praia. Sei que beijei. Eu sei porque isso ainda está na minha cabeça. Tenho que alcançá-lo. Ele vai me salvar.

Não peguei meu casaco, mas não sinto frio, porque estou correndo. Continuo, passo por prédios e por alguns carros estacionados na frente deles. Passo correndo por um casal que caminha em minha direção e não paro, porque essas não são as pessoas que eu quero. Passo por velhas máquinas que têm roldanas e cabos e grandes cestos enferrujados e lembro do homem me contando sobre os mineiros e a vida terrível que tinham.

Eu lembro.

Eu lembro.

Drake está na minha frente, e eu lembrei coisas. Drake me faz lembrar.

A neve cai tão densa que não consigo mais vê-los. Paro quando estou ao lado de um vasto trecho de água, com montanhas cobertas de neve do outro lado. Tem um píer que entra na água e alguns barcos amarrados a ele. A neve cai silenciosa à minha volta, e eu me levanto e olho em volta, vejo as nuvens próximas e mais nada. Sou só eu. Estou aqui, neste lugar dentro da minha cabeça, e estou sozinha. Drake esteve aqui e não está mais.

Na água, vejo uma luz fraca e ouço o ruído de um barco movido por remos. Sento no píer, na neve. Deito e me encolho. A neve cai sobre mim. Começa a criar um cobertor branco sobre mim.

Fecho os olhos.

Quando voltar a abri-los, estarei em uma cama cor-de-rosa em um quarto no sótão, de volta ao lugar normal.