A única memória de Flora Banks
Capítulo 20
Tem um barco fora da água, na encosta coberta de neve da orla, e eu deixo o meu ao lado. Meus braços queimam de um jeito prazeroso.
Fico parada por um momento e olho para cima. A casa agora está perto de mim, só um pouco acima pela encosta, onde a inclinação ainda é suave.
Não posso parar para pensar ou me preocupar com nada. O e-mail de Jacob que li hoje de manhã passa pela minha cabeça. Meu irmão disse para eu ser eu mesma e viver minha vida. Inspiro as palavras e o imagino ao meu lado, me incentivando, enquanto caminho para a casa e, antes que possa me deter, bato na porta. Bato com força quatro vezes seguidas.
A casa é de madeira e tem um telhado inclinado perfeito e uma chaminé. É como uma casinha de um livro infantil. A porta é pintada de preto. Tem cortinas nas janelas, e elas estão abertas, mas não me movo para olhar para dentro. Fico onde estou e espero.
Meu coração está batendo forte. Alguma coisa está para acontecer. Espero, espero e espero. Bato de novo. Tem movimento lá dentro.
A porta se abre devagar, mas não tem ninguém. Dou um passo para entrar, e de repente ele está ali.
Drake Andreasson, o amor da minha vida, está bem ali. Não existe distância entre nós. Eu me jogo em cima dele. É isso. Tudo o que fiz foi por este momento. Eu me jogo em seus braços, e lágrimas escorrem pelo meu rosto. Sinto o cheiro dele. Eu o beijei na praia. Lembro de seu cheiro.
Ele me tira do chão e beija meus lábios.
Não.
Ele se aproxima, passa um braço sobre meus ombros e me puxa para perto.
Não.
Ele diz: “Flora, não acredito que você está aqui”.
Não.
Nossos olhos se encontram e algo se passa entre nós.
Não.
Ele me empurra para fora e fecha a porta na minha cara. É isso que acontece.
Ele diz:
— Que porra você veio fazer aqui, Flora? Meu Deus! — E põe as mãos sobre meus ombros, me empurra para fora e bate a porta. Tento enfiar o pé na soleira para impedir, mas é tarde demais. A porta se fecha e eu fico ali sozinha com o pé encostado na porta fechada. Ouço o barulho da chave na fechadura do outro lado.
Olho para a porta. Isso não está certo. Ouço pessoas gritando lá dentro. A voz de Drake, e uma mulher gritando de volta. Não sei o que fazer. Não consigo pensar ou sentir nada, então fico exatamente onde estou e espero.
Quando a porta se abre de novo, vejo uma mulher linda do outro lado.
— Oi — ela diz. O sotaque deve ser americano. A mulher tem cabelo longo e liso e parece uma bailarina.
Olho para ela, mas não tenho voz para responder.
— Quer entrar? — pergunta a mulher.
Ouço a voz de Drake atrás dela.
— Ela não vai entrar. Essa maluca me persegue!
A mulher segura meu braço e me conduz para dentro da casa.
— Vem — ela fala. — Entra e conta pra gente o que está acontecendo. — E olha para Drake. — Ela não é uma ameaça, seu idiota. Olha para ela. Você não pode bater a porta na cara dela, Drake. O que está acontecendo?
Drake não me olha. Ele usa os óculos de armação pesada. O cabelo está um pouco mais comprido e bagunçado do que era quando o beijei na praia. Drake usa jeans e uma camiseta azul-escura, e seus braços são mais musculosos do que eu lembrava.
— Ela é maluca — ele diz.
Tento fingir que ele não disse isso. Tento entender como tudo pode estar dando tão errado. Fiz o que vim fazer aqui. Encontrei Drake. Lembrei que ele me beijou e escreveu palavras incríveis que ainda estão na minha cabeça. Não entendo por que ele se comporta desse jeito horrível.
— Drake — falo. Agora estou dentro da casa. A mulher fecha a porta, e estamos em um hall onde tem dois casacos pesados pendurados em um cabide de parede. Aqui dentro é quente. — Eu quis vir procurar você porque... — Respiro fundo. Essa é a coisa mais importante que fiz na vida. — Porque eu te amo e você me ama. Você me beijou na praia. Eu lembro. Você me fez lembrar. Fez isso acontecer. Eu posso ver que... — Não consigo concluir a frase, porque não sei o que dizer. Aceno para mostrar que tem uma mulher linda ao meu lado. Toco minha pele imperfeita.
— Flora.
Olho para ele. Olho nos olhos dele, sorvendo-o. Ele me encara por uma fração de segundo e desvia o olhar.
— Flora — repete. Ele está estranho. Tento olhar em seus olhos, mas é impossível, porque ele só olha à minha volta, nunca para o meu rosto. — Escuta, eu fiquei sabendo que você estava na cidade. O garçom da cafeteria disse que uma garota estava me procurando, e, quando ele descreveu essa garota, me dei conta de que era você. Mas... nem por um segundo imaginei que poderia ser mesmo, sabe? Ser você. Não você. Não Flora Banks. Não a amiga da Paige. — Ele parece desconfortável. — Os seus pais sabem que você está aqui?
— Sabem. Drake, eu vim te procurar porque eu te amo.
— Eu sei, você já disse isso. Mas... Flora, escuta. Não sei o que você imagina que está acontecendo.
— Você me beijou na praia e mandou e-mails lindos para mim.
Ele olha nos meus olhos por alguns segundos. Abre a boca. Fecha de novo, vira e se afasta. Olho para a mulher. Nadia.
— Nadia, não se preocupe. — Meu tom de voz é estranho, porque não sei como agir. Preciso falar tudo depressa, enquanto as coisas ainda estão na minha cabeça, porque acho que elas desaparecem da minha cabeça. — Isso aconteceu antes de ele conhecer você. Antes de ele vir para cá. Teve uma festa quando ele estava indo embora de Penzance, e depois da festa ele foi me procurar na praia e nós nos beijamos. Ele disse coisas maravilhosas. E me deu esta pedra. — Eu a tiro do bolso do casaco, onde ela sempre fica, e mostro para os dois. — Esta pedra preta. — Sei que a segunda pedra também está lá, mas este não é o momento para dar a ele. Eu vou dar a pedra quando tudo estiver resolvido.
— Flora — diz Drake —, eu não te dei essa pedra. Ela estava no meu quarto. Você foi ao meu quarto em Penzance e pegou a pedra. Eu não te dei uma pedra. Mas você esteve no meu quarto e pegou várias coisas minhas. A tia Kate me contou. A Paige ia pegar tudo, mas não foi.
Balanço a cabeça e apago as palavras erradas que ele está dizendo.
— Depois ele veio embora para cá, mas me mandou um e-mail. Eu respondi, e nós trocamos várias mensagens. Foi incrível. Isso nunca tinha acontecido comigo.
Olho para Drake.
— Você disse as coisas mais bonitas. Fez com que eu me sentisse normal. Melhor que normal. Você me fez sentir... viva. Viva e diferente de um jeito maravilhoso. Não de um jeito esquisito. E eu me lembro do nosso beijo. Você me fez lembrar.
— Flora...
— Depois você perguntou se eu podia vir para cá. Acabei de ler todos os e-mails de novo, por isso eu sei. Eles ainda estão na minha cabeça. Você não pode me dizer que não existiram, porque eu tenho todos bem aqui. E eu vim porque você é a melhor coisa na minha vida, porque ainda consigo me lembrar de ter beijado você na praia. Eu lembro. Essa é a única coisa que não desaparece. E é assim porque você é a única pessoa que já me amou como eu sou, que não tentou me tornar comum, que não pensou que ser comum seria ótimo para mim. Você e o meu irmão Jacob. Todos os outros mentem para mim. Eu tive que vir encontrar você. Olha... o seu nome está no meu braço. — Levanto a manga da blusa.
Drake faz uma careta. Nadia olha para o meu braço.
Ela o empurra para o lado e passa um braço sobre meus ombros.
— Senta aqui, Flora — ela diz. Seu inglês tem sotaque americano, mas ela é russa. Ela é Nadia, a cientista russa. Eu lembro o que Henny falou.
Percebo que estou chorando. Lágrimas correm pelas minhas faces. Toco meu rosto. A pele não é tão áspera como eu esperava.
A sala de estar é quente e aconchegante. As paredes são pintadas de vermelho-escuro. Os sofás e as poltronas são fofos e cobertos de almofadas. Tem um tapete no chão e dois grandes aquecedores. Em um canto, uma mesa com um computador e uma pilha enorme de papéis. Ouço música tocando ao fundo, alguma coisa com orquestra cantada por um homem de voz grave.
Nadia me leva ao sofá e me faz sentar.
— Vai, Drake, pelo amor de Deus — diz Nadia. — Ela veio até aqui para procurar você. Tem o seu nome cortado no braço. Lide com isso.
— Mas, Nadia — Drake responde em voz baixa, como se assim pudesse me impedir de ouvi-lo —, eu não sei do que ela está falando. Ela é amiga da Paige. Aquela que perde a memória. Eu já falei sobre ela. Os pais tentam mantê-la em casa. Eles mentem para ela. Sobre isso ela tem razão.
Não consigo falar, porque parece que estou chorando muito.
— Bom, se tentam mantê-la em casa, acho que não estão se esforçando muito. — Ela olha para mim. — Para quem nós podemos telefonar? — Nadia toca meu ombro. — Vou buscar alguma coisa para você beber. Fica aqui sentada. Está tudo bem. Você vai ficar bem. Drake, por favor, fala com ela. A menina não está bem, mas não é perigosa. Seja gentil. Ela é jovem. Não acredito que você a deixou lá fora na neve.
Enquanto Nadia vai até a cozinha, Drake senta ao meu lado no sofá. Ele toca meu ombro de um jeito hesitante, e eu me apoio em seu peito e choro, choro e choro. Sinto o tecido da camiseta ficando molhado com minhas lágrimas e fungo, mas continuo chorando. Ele tem exatamente o mesmo cheiro de que me lembro.
— Flora — Drake fala quando paro para respirar. — Flora, vamos conversar sobre isso. Consegue se acalmar para a gente conversar?
Com um enorme esforço, eu me controlo. Paro de chorar. Respiro fundo. Quero me afastar, sumir, ter três ou sete anos, acordar em um lugar e um tempo diferentes, mas faço um esforço e fico bem ali. Não vou para o teto. Isso é importante.
Estou com Drake. Só preciso dizer as palavras certas na ordem certa, e tudo vai ser perfeito.
— Flora — ele diz —, não sei o que você pensa que aconteceu entre nós, mas não aconteceu. Você era amiga da Paige. Só isso. Eu nunca te beijei em praia nenhuma, Flora. Eu nunca te convidei para vir aqui.
Fito seus olhos escuros. O cabelo cai sobre o rosto. Ele se afastou um pouco, e agora não nos tocamos mais. Queria que ele pusesse um braço sobre meus ombros, mas sei que isso não vai acontecer.
Ele me beijou na praia. Beijou. Não vou deixar Drake sair dessa. Sei que ele me beijou porque eu lembro.
— Você me beijou. Eu estava na praia e você chegou. Disse coisas lindas. A Paige sabe. Por isso ela não fala mais comigo.
— É. — Ele suspira profundamente. — E é aí que a coisa fica complicada. Caramba. A última coisa que eu esperava era que isso me seguisse até aqui. Olha só. A Paige me mandou vários e-mails furiosos logo que eu cheguei aqui. Ela me acusou de dormir com você. Disse que sabia de tudo. E me falou coisas horríveis por eu ter me metido com alguém tão vulnerável quanto você, estragado a amizade entre vocês duas e ter sido um canalha egoísta. Esse tipo de coisa. E a verdade é que ela tem razão de estar furiosa comigo. Eu fui até a praia naquela noite em Penzance e beijei uma garota. Não foi o meu melhor momento. Eu beijei a Lily. Ela estava na festa. É amiga do meu primo. Ela estava na festa e eu estava bêbado, e estava me preparando para deixar a Cornualha para sempre e... bom, uma coisa levou a outra, e eu sou um idiota, não sou um cara muito legal às vezes, e estava de partida, e acabei sentado na praia com ela, era minha última noite na Cornualha e... sim, eu beijei a garota. Mas foi a Lily, Flora. Não foi você. Mas eu olhei em volta e você estava lá, apoiada na grade, olhando para a gente. Eu sabia que você ia contar para a Paige.
Ele está mentindo. Sei que está mentindo. O rosto dele diz que é mentira.
— Mas nunca imaginei que você diria à Paige que eu te beijei. Sinto muito por isso ter mexido tanto com a sua cabeça. Tanto que você acha que lembra. Entendeu? Sinto muito. De verdade.
Nadia está na nossa frente. Não sei há quanto tempo ela está aqui. Quando olho em sua direção, ela me dá um copo com um líquido escuro.
— Bebe — diz. — É conhaque. Lamento por você se sentir desse jeito. Acho que você é muito corajosa e o Drake é um idiota.
— Ele está mentindo — respondo. — Eu sei que ele me beijou. Eu lembro. Sei que coisas ele me disse. — Não posso contar, porque me sinto humilhada. Respiro fundo. — E tem as mensagens que ele mandou. Os e-mails mais lindos. Ele era diferente de como é agora. — Olho para Drake. — Completamente diferente. Eu sei que ele escreveu os e-mails, porque li todos hoje de manhã.
— Juro que não mandei e-mail nenhum. Nunca mandei um e-mail para você em toda a minha vida. — Ele olha para Nadia. — É verdade. Sério.
— Mandei uma mensagem para você. — Eu vi no meu telefone há uma hora. Sei que mandei uma mensagem para ele.
— Você nem tem o meu número aqui. O número antigo que eu usava na Inglaterra não funciona mais. Se mandou alguma mensagem, eu não recebi.
Nadia está perfeitamente maquiada, vestida com um jeans justo e uma blusa preta salpicada de tachinhas. Não parece uma pessoa que mora em um chalé isolado em um lugar frio.
Pego minha bolsa.
— Tenho os e-mails bem aqui. — Abro a bolsa, consciente de que tem uma grande chance de eles não estarem ali, de eu ter tirado os e-mails de lá para mostrar para Henny ou jogado as folhas no mar gelado. Mas eles estão lá. — Olha.
Não sei bem para quem dar o maço de folhas de papel, mas acabo entregando a Drake, porque as mensagens são dele. Nadia se espreme ao lado dele no sofá, e eu me afasto para abrir espaço. Drake não desliza para o espaço que acabei de ceder. Nadia se senta ali.
Meu Drake, o amor da minha vida, não me quer perto dele.
Drake lê as próprias palavras e parece incomodado quando deixa as folhas com Nadia e se levanta e começa a andar pela sala. Não consigo mais olhar para ele. Não sei o que pensar. Não sei se tinha alguma Lily na festa ou se ele está dizendo qualquer coisa por saber que ninguém no mundo vai acreditar em mim, se ele me desmentir.
Nadia lê cada palavra impressa.
Drake abre o laptop.
— Olha — diz —, o endereço de e-mail que tem aí não é o meu. Essas mensagens foram enviadas por DrakeAndreasson@hotmail.com. Meu e-mail é... — ele olha rapidamente para mim — um endereço do Google. Acho que ninguém mais usa Hotmail, usa?
— É verdade — Nadia confirma com um tom gentil. — Esse endereço não é o que o Drake costuma usar, mas... — ela o encara com ar duro — talvez ele tenha um e-mail que eu não conheço. Drake... se você escreveu essas mensagens, tudo bem. Eu não me importo, de verdade. Mas vou me importar se você estiver brincando com a cabeça de uma menina doente. Isso me incomodaria muito.
— Eu não escrevi. Você sabe que eu nunca estive nas antenas de satélite, não sabe? Não escrevi uma palavra do que tem aí.
— Quem foi, então? — pergunto. Bebo todo o conhaque do copo que Nadia pôs em minha mão e fico em pé. Estou furiosa. — Olha para esses papéis. Os e-mails existem. Eu vim até aqui, até este lugar frio, por causa dessas mensagens. Elas significam tudo. Mudaram meu universo. Eu vim aqui te procurar. Você disse: “Se você estivesse aqui as coisas seriam diferentes”. Bom, eu estou aqui. Eu sei que não quer me ver, mas você não pode mentir na minha cara desse jeito. Todo mundo mente, menos o Jacob, e isso vai parar. Essas mensagens são reais. Vou te mostrar. Vou mostrar as mensagens na minha conta de e-mail. Na minha caixa de entrada.
Ele se afasta do computador. Sou movida pela mais absoluta fúria. Meus dedos tremem. Sento na cadeira, que é um modelo especial, sem encosto.
Estou no teto me observando. Meus dedos castigam o teclado. Nadia se levanta e para atrás de mim com Drake. Ele tenta segurar a mão dela, mas ela se esquiva. Não parece muito amistosa com ele.
Drake olha para a tela. Fica paralisado.
Ela olha para a tela. Fica paralisada.
Volto ao meu corpo e também olho para a tela. Estou fazendo um esforço enorme para não ficar paralisada, como eles.
— Estão vendo? — pergunto, mesmo sabendo que tem algo errado. Ouço o tremor em minha voz. — Aí estão. As mensagens. Bem aqui.
Estou olhando para a caixa de entrada na tela, mas todas as mensagens nela vêm de Flora Banks. Essa não pode ser a caixa de entrada da minha conta. Fiz alguma coisa errada.
Olho para o topo da tela. Essa conta pertence a DrakeAndreasson@hotmail.com. E ali estão todas as mensagens da nossa correspondência. Todas elas.
— Você tem essa conta no seu computador — falo, mas minha voz desaparece.
— Flora. — Agora Drake está bravo. — Você mesma fez o login nessa conta. Você fez isso. Escreveu as mensagens. Criou a conta. E depois veio aqui. Você me perseguiu, quando não devia ter autorização nem para sair de casa. Nunca. Vou chamar a polícia, e eles vão te levar para casa. Você... — Ele para e sopra o ar pela boca.
Olho para a tela. Meus dedos acabaram de fazer isso. Eles me levaram diretamente à conta de e-mail de Drake. Tento pensar em uma explicação diferente. Ela já estava lá, na tela. Ele fez o login enquanto Nadia lia os e-mails. Ia tentar deletar a conta.
Eu escrevi as mensagens.
Não posso ter escrito as mensagens. Eu as recebi. Não posso tê-las escrito também.
— Para, Drake! — Nadia está dizendo. — Escuta o que você está falando, por favor. A garota não está bem. Ela precisa de ajuda. A gente precisa cuidar dela. Mas temos que chamar a polícia, porque eles vão nos ajudar a cuidar dela.
— Não — protesto. Estou em pé. — Não chamem ninguém. Não façam nada. Esqueçam. Esqueçam tudo isso. Estou indo embora.
Pego meu casaco em uma cadeira e corro para a porta da frente. Nenhum dos dois faz muito esforço para me impedir de ir.
— Você está... — Nadia está dizendo a Drake quando saio. Ela continua falando, mas eu vou embora.
Não posso voltar, então corro para o outro lado. Os dois barquinhos estão na praia, na minha frente, mas subo a encosta atrás do chalé. O sol está brilhando. A subida vai ficando mais íngreme. Pedrinhas brotam da neve. Alguma coisa que parece uma raposa foge de mim ao longe.
Estou no topo de uma colina, e, embora saiba que fiz algo terrível, não tenho ideia do que é.
Há um minuto ou uma hora eu sabia, mas isso desapareceu da minha cabeça, e não tive tempo de anotar nada, e agora está tudo perdido. Sei que tenho de ficar longe, mas não sei do que estou me escondendo.
Estou no cume de uma montanha em um lugar gélido e impossivelmente bonito. Lá embaixo, bem ao longe, tem uma faixa de água de um lado, com dois barcos a remo na margem. Do outro, o nada. Montanhas se estendem até onde a vista pode alcançar. O céu é do mais profundo azul, o sol é ofuscante. Tem um pouco de neve no chão, mas sinto calor, porque estou vestindo um pesado casaco de pele. A paisagem é clara e nevada. Não pode ser real. Estou me escondendo em algum lugar dentro da minha cabeça.
Quando olho para trás, vejo uma cabana lá embaixo, perto dos barcos; corri para longe dela, subi a montanha, me afastei de tudo que tem dentro dela. Não devia estar aqui fora sozinha, pois sei que existe algum perigo.
Prefiro correr o risco a enfrentar o que tem na cabana.
Como não há árvores aqui, preciso atravessar o cume antes de conseguir me esconder. Assim que passar por ele, estarei em território aberto. Seremos apenas eu, as montanhas, as rochas e a neve. Em pé no topo da montanha, tiro duas pedras lisas do bolso do casaco. Não sei por que estou fazendo isso, mas sei que é essencial. As pedras são pretas e, juntas, se encaixam perfeitamente na palma da minha mão. Eu as jogo, uma depois da outra, com toda a força, o mais longe possível. Elas desaparecem entre as rochas cobertas de neve, e eu fico satisfeita.
Logo terei sumido de vista. Vou encontrar um lugar onde me esconder e não vou me mexer até me lembrar do que fiz. Não importa quanto tempo leve. Provavelmente vou ficar aqui, neste lugar gelado, pelo resto da vida.