A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 5 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 4

 

— Táxi do Pete.

— Que dia é hoje, por favor?

— Sábado. Agora precisa de um táxi, meu bem?

A casa está limpa e arrumada. Passei pano, usei produtos de limpeza, tirei o pó e limpei. Joguei fora a maior parte da comida e levei o lixo para fora para ninguém encontrar os pratos ainda perfeitamente bons dentro da lata. Fotografei tudo limpo para saber que fiz aquilo. Eles vão chegar sábado à tarde, e agora é sábado de manhã. Decido enfrentar o mundo lá fora e substituir todo o pão que comi.

É estranho sentir o ar no rosto. Acho que não saio de casa há muito tempo. É um dia quente, e saio de vestido de algodão, cardigã e chinelos. Quando passo pela porta da frente, me sinto uma transgressora: subo a rua, passo por um grande prédio de escritórios e deixo minhas pernas me levarem para a Chapel Street, onde tem uma mercearia. O ar fresco queima meus pulmões. Sinto a cor voltar ao meu rosto. Penso em Drake naquele lugar frio e cheio de neve, e meus passos ganham novo ritmo.

Estou longe do computador. Quando eu chegar em casa, pode ter um e-mail. Enquanto não chega, vou relendo aqueles outros e-mails que dizem coisas maravilhosas. Ele disse que me adora. Tem um menino muito longe daqui que me ama. Ele me quer. Respondeu às minhas mensagens. O beijo dele me fez lembrar.

Quero ir para o polo Norte encontrá-lo.

Olho para minha mão. FLORA seja corajosa.

Compro três pães grandes, alguns biscoitos e um bolo molhado de gengibre. Compro leite, embora não saiba se ainda tem em casa, porque comprar leite para casa parece ser o tipo de coisa que as pessoas fazem. Eu me lembro da minha mãe comprando leite aqui quando eu era pequena. Tento comprar vinho para os pais porque eles gostam de vinho, mas descubro que não posso, porque tenho dezessete anos. Então compro uma caixa grande de chocolates.

Quando sorrio para as pessoas, elas sorriem de volta. Isso é tão animador que decido andar pela cidade, sentir o sol na pele e sorrir para mais gente, balançar minha sacola de compras e me sentir feliz, normal e desejada. Drake me deseja. Ele me beijou na praia.

Vou andando e Penzance me envolve. Entro em lojas e paro em barraquinhas. Tem muita coisa de segunda mão à venda. Olho para mim. Tenho dezessete anos. Uso um vestido infantil e chinelos, e sou ainda muito parecida com o que era aos dez anos, porém maior. Olho para uma garota que vem andando pela rua em minha direção. Ela usa um vestido vermelho e branco, com a saia justa, e sapatos bonitos com fitas amarradas nos tornozelos. Eu gostaria de ser parecida com ela, não comigo. Do outro lado da rua tem uma mulher com um casaco longo e gola de pele. Ela parece uma pessoa que poderia ir ao polo Norte. Eu não.

Em um brechó que parece uma caverna, encontro um enorme casaco de pele falsa e o experimento sobre o vestido sem graça. É tão quente quanto um cobertor, mas me faz parecer uma espiã. E é um pouco grande para mim. A mulher refletida no espelho é misteriosa, pronta para aventuras. Provavelmente teria uma pistola em um dos bolsos e não estaria usando um vestidinho infantil embaixo do casaco.

Ela teria um namorado.

— Quanto custa? — pergunto à vendedora, que está apertando com insistência um botão em algum tipo de equipamento que não vi, alguma coisa que pergunta persistentemente: “Vamos verificar a conexão sem fio?”

— O preço está na etiqueta — ela responde.

Procuro a etiqueta. Trinta e cinco libras.

— Pode dar um desconto? — Sei que estou ficando vermelha com meu atrevimento.

A mulher dá de ombros.

— Trinta? O verão está chegando. Tudo bem.

Tiro o casaco e o deixo em cima do balcão, parando para pensar se não poderia comprar também uma velha máquina de escrever, e tiro três notas de dez da bolsa enquanto ela dobra o casaco até conseguir deixá-lo do tamanho apropriado para uma sacola de papel pardo.

— A sacola não é muito grande — ela comenta ao entregá-la —, mas é um grande casaco. Lindo, realmente. Parabéns, Flora.

Estou tentando escolher as palavras para dizer que é melhor um grande casaco em uma sacola ruim do que o contrário, mas me espanto por ela saber meu nome. Olho para a mulher. Rosto redondo, cabelo curto e escuro, e eu não a reconheço. Odeio não conhecer meu próprio passado. Odeio que ela me conheça, mas eu não a conheça.

— Obrigada, então — falo e vou embora.

Paro na esquina e penso se devo vestir meu novo casaco. Eu sentiria muito calor, mas seria melhor do que carregá-lo em uma sacola de papel pardo rasgada. Ajeito as compras e ponho a mão no bolso do vestido para tatear as chaves.

Encontro um pedaço de papel dobrado várias vezes. Um mapa. Não é um mapa desenhado à mão, mas impresso, com ruas amarelas identificadas pelo nome. Alguém desenhou uma cruz em Morrab Gardens e escreveu “CASA” ao lado, e é lá que eu moro, de fato. Na Morrab Gardens, número 3. Também desenharam uma cruz do outro lado da cidade e escreveram “DRAKE”.

Olho para as anotações em meus braços e tento comparar a caligrafia. Não sei se fiz as anotações no mapa ou não.

Levo um tempo para olhar o nome das ruas e entender onde estou agora, depois marco o lugar no mapa e desenho uma linha até o local com o nome “DRAKE”, porque é o único lugar no mundo onde quero estar. Drake está no Ártico, e este mapa é de Penzance, portanto, a menos que tenha mais alguma coisa que não anotei, não acho que vou encontrá-lo lá, mas preciso ir ver, porque ele pode ter voltado.

Drake pode ter voltado. O nome dele está no mapa.

A jornada é em linha reta e eu a sigo com facilidade. Passo por muitas lojas, depois pela estação, sempre com o mapa na mão. Quando saio da rua e começo a subir uma ladeira íngreme, as compras estão pesando e me arrependo de não ter levado tudo para casa antes de começar essa caminhada para um lugar chamado “DRAKE”. A sacola com o casaco rasgou tanto que é melhor jogá-la fora na próxima lata de lixo e vestir o casaco. A que tem leite, chocolates, pães e bolo é muito mais pesada do que deveria, mas continuo subindo, pois quero saber o que tem lá e por que tenho esse mapa. Sinto como se fosse uma mensagem do universo. Uma missão. Eu queria uma aventura, e agora tenho uma.

Posso estar caminhando para Drake. Ele pode estar lá.

É uma casa de pedra cinza no topo de uma encosta, uma casa de três andares. Eu me aproximo da porta e toco a campainha.

Sei como o Drake é. Cabelo castanho e óculos. Sei como é o seu beijo. Se ele estiver aqui, vai me beijar agora, e eu vou corresponder ao beijo.

Nada acontece por um tempo, depois ouço passos lá dentro, alguém mexendo na porta do outro lado, abrindo-a, e um homem aparece na soleira. Ele não tem cabelo, mas tem olhos sorridentes e me cumprimenta com um aceno de cabeça.

Não é o Drake. Mas, se trinta anos houvessem passado sem eu perceber, ele poderia ser o Drake. Esse pensamento me assusta, e olho para mim para ter certeza de que ainda tenho dezessete anos. É difícil dizer pelas roupas, por isso me inclino um pouco para o lado para olhar meu reflexo na janela.

Ainda tenho dezessete anos, e este não é o Drake.

— Oi, Flora — ele diz.

— Oi — respondo. Tento sorrir com os olhos também. Não o conheço, mas ele me conhece.

— O Drake mandou você aqui? — ele pergunta.

Balanço a cabeça dizendo que sim.

— Ótimo — o homem continua. — Ele disse que alguém viria buscar as coisas. Não esperava que fosse você, mas entre.

Engulo em seco. Drake não está aqui. Isso teria sido maravilhoso. Porém esse homem conhece o Drake, me conhece e quer me dar “coisas”.

— Obrigada.

— Entra, Flora. Parece que já está bem carregada. Não vai conseguir levar toda a tralha hoje, vai? Não combinou com alguém para vir buscar você aqui?

Balanço a cabeça.

— Não posso levar as coisas hoje. Desculpa.

Esse homem vai me dar as coisas do Drake. Vou ter coisas que pertencem ao Drake. Preciso levar alguma coisa, pelo menos uma.

Ele suspira.

— O garoto devia ter arrumado o quarto dele antes de ir para o polo Norte. Ele nem se incomodou. Para que teria esse trabalho, se podia mandar uma namorada legal vir arrumar tudo por ele, não é?

— É. — Tento arquivar as palavras “namorada legal”. Gosto delas.

Mas não sei como responder. Sigo o homem para dentro da casa, que tem cheiro de coisas intensas como comida e perfume, e subo uma escada. Eu o sigo até uma porta, mas ele só espia pela fresta e fala:

— Kate? A amiga do Drake está aqui. Ela vai dar um jeito nas coisas dele, mas só veio avaliar o estrago por enquanto.

Não consigo ver o interior do quarto, mas assinto, porque o que ele diz faz sentido. Um gato se esfrega em minhas pernas. É um gato branco com pelos muito longos. Examino suas orelhas e vejo que estão lá. É claro que estão. Não sei por que pensei que poderiam não estar.

— Maravilha — diz uma voz do outro lado da porta, depois uma mulher aparece na minha frente. Ela tem o cabelo grisalho na altura do queixo e usa um vestido cor-de-rosa justo e uma echarpe com estampa de oncinha. — Ah. Oi, Flora. Pensei que fosse a Paige. — Meu coração dispara. Prendo a respiração e espero ser mandada embora. — Bom, você vai resolver tudo, não vai? Vem, vamos subir.

— Você é tia do Drake? — arrisco.

— Sim, eu sou, minha flor. Kate Apperley. Este é o meu marido, Jon, e aposto que ele não pensou em se apresentar de novo, não é?

Subimos outra escada, e eu chego ao quarto do Drake.

Isso é milagroso. A Paige deve ter estado aqui. Eu poderia ter estado aqui. Este é o quarto para o qual ele teria me trazido, se eu tivesse dito sim ao convite para passar a noite com ele. Esta é a cama em que teríamos dormido. Este é o nosso lugar.

Ele disse: “Ei. Olha só. Quer ir comigo para algum lugar? Tipo agora? A gente pode passar a noite...”

Eu respondi: “Minha mãe.”

As palavras mais idiotas que eu poderia ter dito.

O quarto de Drake tem teto inclinado e uma janela, uma cama de casal, uma cômoda com gavetas e uma arara de roupas com alguns cabides vazios. Inspiro o ar que Drake expirou antes de ir embora. Tem livros sobre uma mesa e roupas no chão, a maioria camisetas. Objetos espalhados por todos os lados. A cama é a única superfície limpa. Uma colcha branca e dois travesseiros a cobrem. Queria que os lençóis dele ainda estivessem aqui. Eu me deitaria na cama, se eles estivessem. Estaria atrasada, mas teria finalmente estado ali.

Kate está olhando para mim.

— Eu sei! — ela diz. — Os jovens de hoje! Estou brincando, mas queria ter vindo dar uma olhada aqui antes de ele ir embora. Só presumi que ele limparia a própria sujeira. Fui boba.

— Uau.

— Se fosse uma menina, é claro que ele teria sido mais preparado para arrumar a casa. Você não sairia de uma casa e a deixaria nesse estado, não é, querida? Não era tão ruim quando ele morava aqui. Quer dizer, ele punha a louça na lavadora e fazia a parte dele na cozinha. Bom. Mesmo assim, nós sentimos saudade dele. Mesmo que ele tenha nos deixado todas essas adoráveis lembranças.

— Também sinto saudade dele.

— Bom, dê uma olhada por aí. Empilhe tudo, se quiser. Volte com uma ou duas caixas. Não tem nada importante. É só a tralha com que ele não se importou.

— Tudo bem — respondo, e ela sai do quarto. Estou sozinha com as coisas do Drake.

Pego uma camiseta e cheiro. Volto instantaneamente à praia.

Ele disse: “Sua mãe. Ai, meu Deus. Desculpa. Foi uma péssima ideia. Onde eu estou com a cabeça? Eu não...”

Respondi: “Eu estou bem. Ah, desculpa. Eu não... nunca...” E depois: “Ela chamaria a polícia.”

“A polícia. Jesus. Eu sou um idiota. Esquece o que eu falei.”

Estraguei tudo.

Seguro a camiseta perto do nariz. Era o cheiro que Drake tinha na praia. Quero passar o resto da vida respirando só isso. É a única coisa que eu quero. Estava tão perto dele naquele momento que o único cheiro que sentia era o de Drake.

Escrevo na mão primeiro. Estou no quarto do Drake. Depois recolho todas as roupas do chão e cheiro cada uma delas. Dobro a camiseta vermelha e a ponho na sacola com o leite e o chocolate. Tem algumas coisas em cima da cômoda. Um papel com um número, uma fileira de pedras arranjadas em ordem de tamanho, uma vasilha com conchas. Arrumo tudo, como a mulher legal me pediu para fazer, e pego tudo o que consigo enfiar na sacola. Pego todas as pedras e todas as conchas. Pego o papel.

Vou voltar para pegar o resto. Vou trazer a mala para levar tudo. E vou guardar essas coisas para sempre. Vai me ajudar a preservar a memória.

Paro diante da janela e olho para fora. Sei que devo estar olhando para Penzance, mas não faz sentido. Moro em Penzance e não reconheço o que vejo. Sei que da janela de casa eu vejo a copa das árvores e o topo dos prédios do outro lado do parque. Sempre foi isso que vi da minha janela. O lugar que vejo é bonito, e Penzance é comum. Estou olhando para uma faixa de oceano à esquerda, fileiras e mais fileiras de casas, palmeiras, tudo iluminado por um sol radiante que brilha sobre as coisas e as clareia. Tem uma igreja que parece o Batman.

Agarro o parapeito. Não estou em Penzance. Vim para outro lugar. Não é a mesma área. Estou em um local diferente. Não me lembro de ter vindo para cá, mas estou aqui.

Minha mão diz que estou no quarto de Drake. Isso significa que estou no lugar frio? Svalbard? Mas aqui não parece frio.

Continuo olhando para fora, tentando entender.

A porta se abre e uma mulher entra.

— Tudo bem, minha flor? — ela pergunta.

Eu a encaro.

Quero perguntar onde estou, quem é ela, onde está o Drake. Quero perguntar em que país estamos, onde estão meus pais, o que está acontecendo e como posso ir para casa.

— Sim — respondo, em vez disso. — Sim, tudo bem, obrigada. Acho que preciso ir embora.