A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 10 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 9

 

Estou diante de uma janela, e lá fora tem uma montanha nevada. A neve cai em flocos pequeninos que flutuam na frente da janela, soprados pelo vento. Quando olho diretamente para fora, só vejo a encosta branca da montanha salpicada de preto onde as rochas rompem o manto branco. Se me viro de lado e olho no sentido diagonal, enxergo um trecho de céu cinzento e a encosta de outra montanha. Há estacas de madeira brotando do chão, e todo o resto é montanha.

Não é a paisagem que vejo da janela do meu quarto. Eu devia ver copas de árvores. Tinha que ter um parque. Este não é o meu quarto. É um quarto pequeno, com duas camas, uma escrivaninha e uma janela. Não é um quarto que eu conheço. Meu quarto é cor-de-rosa. Aqui, as camas têm lençóis brancos e nada é rosa. Tem uma fileira de pedras em ordem de tamanho sobre a mesa.

Olho para minha mão e para o braço. A palavra Svalbard foi escrita várias vezes. Drake falou em “Svalbard” na praia. Ele ia para Svalbard. Seu curso é em inglês porque tem gente do mundo inteiro, o que é uma sorte, porque ele é péssimo com idiomas. Há números anotados no meu pulso: 5827. Embaixo deles está escrito: Estou em Svalbard. A palavra Drake aparece várias vezes.

Drake mora em Svalbard agora. “Vai ser incrível.” Foi o que ele disse sobre isso. “Frio. Já estive lá uma vez. Faz muito tempo. Fomos a Svalbard nas férias para ver o sol da meia-noite.”

Vejo a mala em cima de uma das camas, e um grande casaco de pele que tem meu nome na etiqueta. Olho dentro da bolsa e encontro outras coisas minhas. Pego um guia da Noruega, muitas roupas quentes e uma camiseta vermelha que é muito grande. Finalmente encontro um caderno com um adesivo na capa em que está escrito:

A HISTÓRIA DA FLORA. LEIA SE ESTIVER CONFUSA.

Abro na primeira página. A caligrafia deve ser da minha mãe:

Você é Flora Banks,

Você tem dezesseis dezessete anos e mora em Penzance, na Cornualha. Quando tinha

dez anos, apareceu um tumor no seu cérebro, e os médicos o removeram quando você tinha

onze. Parte da sua memória se foi com ele. Você lembra como fazer coisas (como preparar

uma xícara de chá, como ligar o chuveiro) e consegue lembrar da sua vida antes da doença,

mas desde a cirurgia não consegue construir novas memórias.

Você tem AMNÉSIA ANTERÓGRADA. Consegue manter as coisas na cabeça por

algumas horas, depois esquece. Quando esquece as coisas, você sente uma confusão

repentina. Tudo bem. Isso é normal para você.

Na sequência tem várias coisas riscadas, impossíveis de ler. As anotações novas estão escritas com a minha letra.

Você tem um namorado, Drake. Você o beijou na praia e ele te fez lembrar. Você vai a

Svalbard para encontrá-lo, porque ele mora lá, e ir a Svalbard vai curar seus problemas de

memória. Você é capaz de fazer mais coisas que qualquer pessoa, e Drake sempre

acreditou na sua capacidade. Ele é seu futuro mágico. Quando for a Svalbard, você só vai

precisar encontrar Drake e tudo vai ser felicidade. Você vai viajar de avião.

Você tem quase certeza de que Jacob vai morrer. Ele está muito doente na França e os

pais estão com ele. Você sempre esquece que ele está doente, e sempre fica triste quando

lembra. Não tem nada que você possa fazer sobre isso, exceto ficar fora do caminho para

os pais se concentrarem nele. Você precisa encontrar Drake bem depressa, antes de os pais

perceberem que saiu de casa.

Meu irmão está doente e provavelmente vai morrer, e vou sentir saudade dele, embora

só o tenha conhecido quando era muito pequena. Os pais não sabem que estou aqui.

Quando encontrar Drake, minha mente vai voltar a funcionar.

Vim para cá de avião; isso me deixa sem fôlego. Eu amo Drake e ele me ama. Leio nossa correspondência, os e-mails que imprimi e guardei dentro do livro, e acabo chorando incontrolavelmente de amor e tristeza. Jacob está muito doente. Eu amo Jacob. Vim aqui para encontrar Drake. Eu amo Drake. Ele me pediu para vir.

Esta pode ser a primeira vez que vou dormir em um quarto que não é o meu, o quarto cor-de-rosa em Penzance. Aquele quarto é seguro. Sinto uma pontada repentina de saudade. Aquele quarto era seguro, este é estranho. Vim sozinha até o Ártico. Isso explica a montanha coberta de neve do lado de fora da janela.

É dia, e não sei que horas são. Olho o celular. Ele marca 00:30, mas não acredito nisso. Se fosse mais de meia-noite, estaria escuro. As palavras “sol da meia-noite” surgem em minha cabeça. Talvez eu esteja olhando para o sol da meia-noite. Essa ideia provoca uma euforia inacreditável.

Tem uma mensagem da minha mãe:

Tudo bem em Penzance? Tentei ligar no fixo,

ninguém atendeu. Tudo aqui está uma correria, mas

vamos tentar ir para casa amanhã. Beijos

 

Digito: Parece que estou no Ártico!!! Olho para as palavras, sei que não são as certas. Apago e escrevo de novo:

Sim, tudo bem, obrigada! Não se preocupe.

Espero que esteja tudo bem. Amo vocês.

Mando a mensagem, mas me preocupo com a possibilidade de ela soar estranha. Mas eu estou estranha. A mensagem deve ser normal.

Minha mãe responde imediatamente:

Tomou os comprimidos?

 

Respondo com firmeza:

Sim.

 

Olho em volta, mas não vejo nenhum comprimido. É melhor eu ir procurar Drake primeiro, decido, e depois me preocupo com isso.

Tem gente conversando do lado de fora do quarto. Não é inglês, mas gosto do som das palavras. Elas têm um ritmo legal.

Abro a porta e vejo dois homens no corredor. Os dois acenam para mim com a cabeça e dizem “oi”, depois continuam conversando. Um deles veste camiseta azul e short largo, o outro usa calça folgada e colete.

Eles não parecem me achar estranha, nem um pouco.

— Oi — respondo. — Tem um banheiro?

— Ali — fala o de short. Seu cabelo é preto e brilhante, e ele tem olhos simpáticos. — À direita.

— À direita — repito. Tem muitas portas à direita. Vou tentar abrir algumas até achar a certa.

— As quatro portas — diz o outro homem. — Todos são banheiros, mas nem todos funcionam.

— Normalmente, só dois funcionam de cada vez — diz o amigo. — Razões diferentes. Tem um rodízio.

Não sei do que essas pessoas estão falando.

— Rodízio?

— Às vezes um funciona, às vezes outro. Uma lâmpada queimada, uma fechadura quebrada. Sabe como é.

— Ah. Obrigada. — Preciso escovar os dentes, essas coisas. Na verdade, devia tomar um banho. Aposto que não me lavo há um tempão.

Quando saio do quarto segurando o nécessaire e uma toalha, com QUARTO 5 escrito no braço com marcador à prova d’água, o homem de cabelo escuro sumiu. Mais adiante no corredor, pessoas deixaram trenós cheios de coisas coloridas na frente da porta. De fato, quase todos os quartos têm um trenó do lado de fora, menos o meu. Talvez eu devesse ter um também. Pulo (por dentro) de animação com a ideia de andar de trenó. Nunca neva em Penzance.

Então lembro que beijei um garoto. Tenho dezessete anos. Devo ser velha demais para me animar tanto com um trenó.

— Preciso de um daqueles? — pergunto ao homem loiro e aponto para um trenó.

Ele ri.

— Não, a menos que planeje acompanhar nossa expedição amanhã. Tenho certeza de que podemos arrumar espaço.

— Qual é a sua expedição?

— Guias do Ártico. Estamos treinando. Amanhã saímos para um acampamento de três noites.

Sei que deveria estar impressionada, e espero dar essa impressão, porque não consigo nem imaginar o que significa ser um guia do Ártico e quanta coragem e frieza isso deve exigir.

— Que horas são? — pergunto. — Você sabe?

O homem dá de ombros.

— Uma, acho. É difícil dormir aqui, não é?

— Uma da manhã?

— Sim.

— Sério?

— Você é inglesa?

— Sim, moro em Penzance. De onde você é?

— Eu? Da Noruega. A maioria que faz o curso é de lá. Mas todo mundo fala inglês, é claro. Nós estudamos em inglês.

— Já encontrou por aqui um garoto chamado Drake? — pergunto. — Ele fala inglês. O curso dele é em inglês, o que é uma sorte, porque ele é péssimo com idiomas.

Ele dá de ombros de novo.

— Não, não que eu saiba. Conhece esse garoto?

— Sim — sorrio. — Vim aqui para encontrá-lo.

O primeiro banheiro que tento abrir tem uma porta sem tranca. A segunda está trancada, e um vapor perfumado passa pelas frestas laterais. A terceira tem uma lâmpada que não funciona e não tem janela, o que impossibilita o uso. Fico aliviada ao entrar no último banheiro. A luz funciona, a porta tem tranca, e, quando ligo o chuveiro, a água é quente. Limpo a sujeira acumulada desde a última vez que fiz alguma coisa assim, tomando cuidado para deixar QUARTO 5, Estou em Svalbard e 5827 escritos no braço, e lavo o cabelo pensando em como foi que consegui chegar aqui. Acho que já estive em outros lugares. Estive na França. Tomei banho na França.

Não, os pais estão na França. Não eu. Até agora, só tomei banho em Penzance.

Visto o pijama cor-de-rosa e enrolo o cabelo molhado com uma toalha. Volto ao quarto e olho para a neve. Definitivamente, não está escuro lá fora.

Estou aqui para encontrar o Drake. Digito o nome dele no meu celular para ver o que acontece, e descubro que tenho um número de telefone salvo como “Drake/Paige”. As últimas mensagens que troquei com esse número são bem antigas. A que recebi diz:

oi, é a paige com o celular do drake. derrubei o

meu. estamos no lamp and whistle. vem logo.

chego em 20 min.

 

Não gosto dessa conversa e a deleto.

Oi, Drake. Pode me mandar seu endereço por

mensagem de texto? Ou e-mail? Quero

mandar uma coisa para você. Beijos, Flora

 

Quero encontrá-lo e deixá-lo me ver na neve. Quero que a gente percorra um longo caminho, um em direção ao outro, e quero que a gente se reconheça gradualmente à medida que for se aproximando. Imagino a gente correndo um para o outro, ganhando velocidade para se jogar em um abraço.

Aperto o botão, e a mensagem vai direto para o telefone dele. Passo algum tempo pensando em como acessar meus e-mails, mas, no fim, acho que tudo vai dar certo. Quando Drake mandar o endereço por mensagem de texto ou e-mail, eu vou receber imediatamente.

Ainda está claro, mas parou de nevar. A neve brilha: deve estar sol, embora eu não o veja. Eu poderia sair e andar um pouco, mas estou meio cansada.

Olho o relógio de novo. Meu celular agora diz que são três da manhã.

Escuto. Nada importante acontece no corredor. Não tem mais ninguém conversando. Os guias do Ártico ficaram quietos.

Está totalmente claro, plena luz do dia. Lembro de Drake falando: “Fomos a Svalbard nas férias para ver o sol da meia-noite. Eu tinha dez anos e queria morar lá para sempre”. É isso. Este deve ser o sol da meia-noite.

Não estou cansada. Estou cansada. Não sei. Não quero dormir. Preciso dormir. Meu cabelo secou há muito tempo. Amanhã vou ter que encontrar o Drake. Se nada der certo, vou sair perguntando até descobrir onde fica o lugar do satélite, e vou até lá e vou ficar sentada ao lado de um satélite até ele aparecer.

Quero ir ao Flambards.

Esse pensamento é idiota. Estou no Ártico.

Com um esforço supremo, eu me aproximo da janela. Só quero ficar ali sentada e esperar as pessoas começarem a levantar. Mas é noite, e preciso dormir. Tenho que dormir à noite, ou vai dar tudo errado e vou estar cansada demais para procurar o Drake.

Estendo o braço e puxo o cordão que abaixa a persiana. A luz ainda penetra pelas beiradas, mas está suficientemente escuro, e logo estou na cama e meus olhos se fecham.