A única memória de Flora Banks
Capítulo 21
— Flora!
Tem alguém me chamando. Distante, só consigo ouvir mais ou menos. Não sei quem são essas pessoas ou o que estão fazendo, mas sei que não quero vê-las.
Quero sumir, desaparecer no tempo e no espaço. Quero flutuar para o céu. Quero deixar meu corpo para trás.
Já fiz isso. Estou sozinha no lugar frio. Isto não é real. Nada disto é real. Posso ficar aqui para sempre, sentada na neve neste lugar frio com seu céu azul.
Eu beijei um garoto na praia. Levanto a manga da blusa. Cortei o nome dele no meu braço. Não quero ver as letras, por isso pego um punhado de neve e esfrego na palavra para fazê-la desaparecer.
Quando alguém senta ao meu lado, não viro para olhar.
— Achei você! Meu Deus!
É um homem que não conheço. É um homem que não é o Drake. Ele tem cabelo no rosto e na cabeça, e eu me afasto dele. Criei um assassino que veio acabar com essa parte minha sentada na neve.
— Ei — fala o assassino —, vamos lá. Levanta. Todo mundo está te procurando.
Ele fica em pé e grita alguma coisa para a encosta da montanha em um idioma estranho. Depois estende a mão para me ajudar a levantar, mas eu não a aceito. Ele olha em volta, senta de novo ao meu lado e toca a manga do meu casaco. Ele tem uma pinta marrom no rosto. Para um assassino, ele é gentil.
— Vamos, Flora, você não pode ficar sentada aqui. Não é seguro. Não quer morrer, quer?
Dou de ombros.
— Bom, tudo bem. Talvez você queira. Mas eu não quero, e as outras pessoas que estão procurando você também não. Vem. Temos que entrar.
Não me mexo.
— Lembra de mim?
— Não. — É inútil fingir.
— Toby. Vendi muito café para você, apesar de normalmente eu não cobrar. Vi você diariamente nos últimos quatro dias.
Balanço a cabeça.
— Vou ficar aqui.
Ele se senta ao meu lado.
— Você bebeu demais, e a culpa é nossa. Minha e da Agi. Mas não é motivo para isso. Sua vida é difícil. Você ficou perturbada. As pessoas ficam. O tempo todo. Vem, vamos entrar e conversar. Tem gente preocupada com você.
O homem tem um rosto bondoso, está dizendo coisas legais, mas não quero ele aqui.
— Diz para elas irem embora.
— Elas não vão. Escuta, Flora, você precisa ir para um lugar fechado, porque aqui está em perigo, e está colocando em risco todo mundo que está te procurando.
— Não vou.
— Vai sim. — Ele olha em volta, evidentemente torcendo para alguém aparecer e ajudá-lo. — Escuta, se for preciso eu vou te carregar. Tem ursos aqui. As histórias são terríveis. Se você não for comigo, eu vou ter que te levar.
— Não sou criança.
Sou sim. Fui criança minha vida inteira. As pessoas pegam as crianças e as carregam, quando elas se recusam a cumprir ordens. Tenho dezessete anos, mas estou regredindo, ficando menor. Logo vou deixar de existir.
— Eu te achei incrível, Flora, desde que te conheci. Deu para ver que você é diferente. Veio até Spitsbergen para procurar um garoto. E continuava falando dele, sobre como ele te fez lembrar, como tinha que encontrá-lo depressa, antes que seus pais chegassem. Você é alguém que faz o que tem que fazer. Encontrou o garoto. Não pode desistir agora. Você tem amnésia, mas está viva. Pode viver a sua vida.
Alguém já me disse isso.
— Não posso — respondo. — Eu desisti. Vai embora, por favor.
— Aqui não é seguro, Flora. Eu tenho uma arma.
— Vai atirar em mim?
— Não. É porque estamos no território dos ursos.
— Já atirou em um urso-polar?
— Não. Tive que aprender a usar uma arma para poder esquiar. Mas coisas horríveis acontecem, e você não deve sair assim nunca, sozinha e sem proteção. No inverno é pior, porque não dá para ver nada. Consegue imaginar o inverno aqui?
— Agora deve ser inverno. Está frio.
Ele sorri.
— É verão. Por isso nunca escurece.
— Achei que fosse só na minha cabeça.
— No verão nunca fica escuro por aqui. No inverno nunca tem luz. É escuro como a noite de novembro até o fim de janeiro, quando o sol começa a aparecer. Em março os primeiros raios de sol atingem a cidade, e é tempo de festa. É muito mais fácil ser feliz. Não venha para cá no inverno.
Estremeço.
— Não venho.
Pego a caneta, ergo a manga até onde posso e escrevo no braço: NÃO IR A SVALBARD NO INVERNO. Essa pode se tornar uma das minhas regras.
— Pronto. Agora vamos voltar — ele diz.
Balanço a cabeça. Tento dizer “não posso”, mas não consigo falar. Ele passa um braço em torno dos meus ombros e, surpresa por ele ser um ser humano de verdade, quente, me apoio nele. Faço um esforço para parar de chorar antes mesmo de começar realmente.
— Sou uma imprestável — falo. — Não consigo fazer nada. Não sou nem uma pessoa de verdade, porque não sei o que está acontecendo. Não tenho ideia do que estou fazendo aqui. Eu beijei o Drake em uma praia.
Olho para ele esperando a validação. Lembro de ter beijado Drake na praia. De algum jeito isso me trouxe aqui, para a neve, sozinha.
O sol me ofusca. A luz incide diretamente em meus olhos. Estou olhando para a frente, porque não posso encarar esse estranho enquanto falo essas coisas. Não interessa com quem estou falando. Só preciso falar.
— Não sou humana. Só existo, como um animal.
— Bom, se me permite opinar — o homem responde com tom cuidadoso —, penso que você está falando bobagem. Não acha que todo mundo se sente assim? Meio maluco, como se não fosse uma pessoa de verdade, como se não existisse? Todo mundo se sente assim de vez em quando. Lembro que falei com você quando perdeu a sua bolsa. E daí? Você não lembra disso, e talvez seja bom. Isso não me faz melhor que você. Sou um estranho do seu ponto de vista, mas isso é o que eu acho. Eu vejo uma garota que sofreu uma terrível lesão cerebral. Alguém que, ao que parece, é trancada pelos pais para ser mantida segura. Mas aí dentro tem uma personagem, uma viajante, e sua lembrança desse garoto Drake a impulsionou a agir. Eu acho, Flora, que você não veio aqui procurar o Drake, mas a si mesma. Não foi o Drake. Ele nem é um herói romântico, na verdade. Foi você. Talvez você tenha vindo aqui porque ouviu o Drake falar sobre o lugar para onde ia, e isso despertou seu interesse. Eu vim de Oslo, e Svalbard despertou meu interesse, embora eu nem seja realmente do tipo aventureiro. Como você, senti que tinha que vir. Algumas pessoas têm que vir para cá. Precisamos deste lugar. — Ele move a mão mostrando o horizonte irregular, as pedras, a neve, o território selvagem que parece não ter fim. — Precisamos ser fragmentos na natureza selvagem aqui no polo. O sol da meia-noite. A escuridão do meio-dia. A aurora boreal. Foi isso que te trouxe, Flora, que te fez vir. Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci.
Olho para ele.
— Você está sendo legal, só isso.
— Estou falando sério. Eu respeito você. Você é melhor que as pessoas que chama de “normais”, porque tem muitas coisas para superar, e tem superado todas elas. Mas agora, por favor, vem comigo. Vamos andar bem devagar e com muito cuidado de volta ao chalé, porque tem um urso-polar a dois picos de nós, e eles correm muito. Temos que ir imediatamente.
Chegamos à porta, e o homem cujo nome não sei (acho que não, pelo menos) me empurra para dentro e se vira para voltar à colina. Ele é mais corajoso do que parece, esse homem barbudo do café.
— A casa do Drake — ele diz. — Entra. Tem seis pessoas aqui fora te procurando, e tem um urso. Acho que é a mãe com os filhotes, o que significa que ela é protetora. Espere aí dentro, perto da porta. Cada vez que alguém voltar, feche a porta. Tem mais cinco pessoas aqui fora. Vou procurá-las e avisar que você está segura.
Fico dentro da casa, paralisada. Ele disse que é a “casa do Drake”. Isso significa que o Drake está aqui? Se alguém for morto por um urso porque estava me procurando, vou achar o urso e me oferecer como comida também. Se o urso levar um tiro, a culpa vai ser minha. O urso não está fazendo nada errado. Está apenas sendo um urso.
Espero não ter causado a morte de ninguém fazendo coisas idiotas. Posso ter causado. E pensar que não vou saber se causei ou não me deixa arrepiada. Se esse urso rasgar alguém por minha causa, vou esquecer e seguir em frente como sempre, e ninguém vai me contar.
Depois de alguns minutos, a porta se abre e duas mulheres entram. Olho para elas. Não sei quem são.
Uma delas, a que parece uma bailarina, guarda um rifle em um cofre atrás da porta e o tranca.
— Flora! Você voltou! — diz a outra, a que usa óculos. Ela me abraça. — Ah, graças a Deus, Flora. Isso é maravilhoso. Ah, Flora, desculpe ter deixado você beber cerveja.
Parece que a conheço, mas não conheço.
— Tem um urso — aviso.
— Sim — diz a outra mulher. — Senta. Está tudo bem. O Toby e os outros sabem o que estão fazendo. Garanto que ele vai trazer todo mundo de volta. É mais durão do que aparenta. — Ela parece nervosa.
Sento no chão ao lado da porta. Quero ver as pessoas voltando. A mulher de óculos senta ao meu lado e segura minha mão.
— Sou eu — diz. — Agi. Sua amiga.
Agi. Tento pôr o nome dela na cabeça.
A próxima pessoa que passa pela porta é Drake. Meu coração pula quando o vejo: é o meu Drake. Eu o beijei na praia. E eu amo o Drake. Tem uma mulher com ele, uma mulher mais velha, mas tudo que vejo é o garoto que eu amo.
É o Drake. Quase caio quando fico em pé. Drake! Vim a Svalbard para ver o Drake, e agora ele está aqui. Caminho na direção dele quase sem respirar. Ele vai curar minha mente e fazer tudo ficar melhor.
— Drake! — sussurro.
Ele olha para mim, e vejo que está com medo. Aconteceu alguma coisa.
— Drake — repito.
Ele toca meu braço de um jeito meio estranho e me leva para outra sala. Tem um tapete no chão e um sofá bonito. Ele me faz sentar. A mulher que parece bailarina sai da sala.
— Flora — ele fala. — Você não lembra, não é?
Balanço a cabeça. Não lembro.
— Você me beijou na praia — respondo. — Eu me lembro disso.
— Você não me beijou na praia. Você pensa que lembra disso, mas não aconteceu. Acha que escrevi e-mails para você, mas não escrevi. Você mesma escreveu. Tudo saiu da sua cabeça. Sinto muito, Flora. Fico feliz por você estar em segurança.
Não olho para ele. Não consigo. Resmungo alguma coisa e tento me afastar.
— Eu me sinto muito mal com tudo isso — ele continua. — Quando você esteve aqui, agora há pouco, não fui muito legal com você. Desculpa. Você fugiu, e, quando vimos que não tinha entrado no barco, tivemos que ligar para a Henny e pedir para ela trazer mais gente para procurar você. Achei que você tinha desaparecido para sempre. E teria sido minha culpa. É bom te ver segura.
Não suporto ouvir a voz dele. Alguma coisa desligou dentro da minha cabeça, e não estou apaixonada por ele. Agora não consigo nem imaginar. Não amo o Drake. Não o conheço. Ele é um estranho, e não consigo pensar em nada para dizer a ele. Não o beijei na praia. Não ia querer beijar esse garoto, e ele não ia querer me beijar.
Vou sentir saudade de ter sentimentos. Vou sentir saudade de pensar que tenho uma lembrança de verdade. Não vou sentir saudade do Drake, porque esse garoto não é o Drake da minha cabeça. Eu o inventei. Cada pedacinho dele.
— Tudo bem — falo. Esfrego a parte de dentro do braço onde sei que seu nome está gravado na minha pele. — Sério.
— É?
— É. Eu tinha duas pedras. Joguei as duas fora.
— Eu costumava pegar pedras que tinham um formato bonito. Em Penzance. Só porque elas estavam lá. Essas pedras eram só isso. Você pegou na casa da minha tia Kate.
— Você não me deu uma pedra?
— Não. Você foi na casa da Kate e do Jon. Eles me contaram. Ia voltar para pegar todas as minhas coisas, mas acho que acabou vindo para cá.
— Eu fui na casa deles?
— Foi.
— Ah. — Fico feliz por ter jogado as pedras fora. Nada é o que pensei que fosse.
A mulher que parece uma bailarina é uma cientista russa chamada Nadia, e esta é a casa dela. Ela faz café para todo mundo, depois distribui uma bebida escura e quente que Agi diz que é conhaque. Bebo tudo que colocam na minha frente. Drake desaparece, vai para outro cômodo, e eu fico satisfeita. Eu achava que o conhecia, mas ele é um estranho.
Vou ter que escrever um grande bilhete para mim sobre isso, para o caso de eu voltar a fazer papel de idiota de novo, de novo e de novo. É fundamental lembrar de parar de procurá-lo. Tenho que escrever isso no caderno com urgência. Olho em volta procurando minha bolsa. Está no canto. Vou buscá-la correndo e sento de novo no sofá.
— Há quanto tempo você conhece o Drake? — pergunto a Nadia, como se o tempo tivesse algum significado.
Ela dá de ombros.
— Umas duas semanas. As coisas funcionam de um jeito diferente aqui. Ele costuma ficar aqui, mas não é exatamente... — Nadia parece disposta a falar mais, mas para, e a verdade é que não quero saber.
Ficamos todos sentados em silêncio. Ainda tem alguém lá fora, com o homem que chama Toby e faz café e sabe atirar em ursos, e que foi mais legal comigo do que todo mundo, exceto Jacob, e eu não sei quem é. Tenho a sensação de que todo mundo que conheci no Ártico está nesta sala.
Fecho os olhos com força. Quero sair do meu corpo, flutuar para longe, voltar ao cume e olhar para o urso, para as pessoas, para Toby com sua arma. Espero que o urso não tenha que morrer. Eu tento, tento, mas continuo aqui, presa no meu próprio corpo. Pego uma caneta e um caderno na bolsa e escrevo: EU NÃO BEIJEI O DRAKE EM UMA PRAIA E ELE NÃO ME MANDOU NENHUM E-MAIL. Não posso me esquecer disso. Depois começo a ler minhas anotações mais recentes.
Um tiro é disparado lá fora. Explode e ecoa. Eu pulo e derrubo o caderno. Todo mundo fica tenso. Eu sinto, mas não olho para ninguém, porque não quero ver aquelas caras.
Puxo os joelhos contra o peito e apoio a cabeça neles. Vai ter sangue na neve. Um urso, que vivia em seu habitat, sentiu o cheiro de comida e foi atrás dela, e foi morto por minha causa. Quero desaparecer. Quero voltar para a neve, onde é meu lugar. Quero encontrar o corpo do urso. Toby disse que era uma mãe com seus filhotes. O que vai acontecer com os filhotes agora?
A porta é aberta. Dois homens passam por ela e a fecham.
— Olhem! — Nadia grita da sala de estar, e, por ter gente suficiente aqui, e por causa do tom da voz dela, corro para ver o que ela está olhando.
Pela janela, vemos um urso-polar andando calmamente, se afastando da casa, voltando para seu território. Dois ursinhos seguem o urso maior.
Seu pelo é branco amarelado. O corpo balança de um lado para o outro quando anda. O urso é enorme e aterrorizante. E anda tranquilamente, as pernas grossas, as patas imensas. Os bebês vão logo atrás.
Viro e olho para Toby.
— Tinha outro?
— Não. — Ele sorri. — Só os três. Assustei a mãe. Ela chegou mais perto do que eu gostaria de ter visto.
Começo a chorar e o abraço. Ele afaga meu cabelo e me afasta.
— Tem alguém aqui para te ver — diz e me vira para um homem que reconheço.
— Eu chego e sou perseguido por um urso — diz o homem. Ele usa um casaco de náilon cujo zíper acabou de abrir, e embaixo da jaqueta tem um pulôver de tricô estampado. O cabelo está todo bagunçado. Já o vi muitas vezes antes, mas nunca o vi aqui. Ele nunca esteve no lugar frio.
Não acredito que é ele. Não me atrevo a dizer a palavra. Olho para minhas mãos. Levanto as mangas para olhar os dois braços. Na parte interna de um deles, em letras trêmulas, escrevi: meu pai está vindo.
Olho para ele. A palavra parece apropriada.
— Pai? — Conheço meu pai. Sempre conheci meu pai. Conheço meu pai.
Ele assente. É claro que é meu pai. Eu o conheço. Conheço desde sempre, minha vida toda. Corro para seus braços e espero que ele me abrace para sempre.
Sentamos no sofá e eu me apoio nele.
— O Jacob é real?
Isso é o que eu preciso saber. Se inventei os e-mails de Drake, devo ter feito a mesma coisa com os de Jacob. Acabei de ler sobre Jacob no meu caderno. Ele aparecia, escrevia para mim justamente quando eu precisava. Drake escreveu mensagens maravilhosas dizendo exatamente o que eu queria ouvir. Quando ele parou de escrever, Jacob começou, e mandava de longe incentivo e respostas e apoio. Quero que as mensagens de Jacob sejam reais, mas sei que não são.
— Jacob? — Meu pai olha para mim, me leva a sério. — Sim, Flora. O Jacob é real. Ele é seu irmão. Tem vinte e quatro anos e está em Paris. Receio que ele não fique conosco por muito mais tempo. Tive que me despedir dele antes de vir para cá.
— Mas ele... escreveria coisas assim? — Pego a bolsa e procuro o telefone dentro dela. Encontro o e-mail de Jacob e mostro para o meu pai. — Isso. Ele teria escrito isso? Parece alguma coisa que ele diria? Foi ele que escreveu, não fui eu?
Observo o rosto de meu pai enquanto ele lê. Ele assente, respira fundo, parece se acalmar.
— Ah, sim. — E me devolve o celular. — Sim. É seu irmão. Ele não mudou. Então vocês sempre estiveram em contato. Eu devia saber. Ele nunca nos contou. Nem mesmo quando ficamos desesperados tentando descobrir onde você estava.
— Mas é ele.
— Sim. É ele. Com toda a certeza. Você vai me contar, Flora? Vai me contar tudo que puder?
Olho em volta. Agi está conversando com Toby. Eu os observo por um segundo e vejo que parecem que vão se beijar. Drake e Nadia discutem em outra sala. Ouço a voz deles, mas não o que dizem. A mulher mais velha está falando ao telefone.
Começo a contar para ele tudo que posso, falando tão rápido quanto possível antes que as coisas desapareçam da minha cabeça. Sei que o relato é atrapalhado, e tem coisas que estou confundindo, mas acabei de ler tudo e sinto que a maioria das informações ainda está na minha cabeça.
— ... e eu cheguei aqui — falo, as palavras se atropelando. — E o Drake me contou agora há pouco que não nos beijamos. Eu o vi beijando outra pessoa. Não fui eu. Só na minha cabeça. Eu lembrava disso, mas estava errado. — Odeio dizer essas palavras, mas tenho que explicar tudo, por isso continuo falando. — E todos os e-mails. Ele não escreveu. Fui eu. Mas eu não sabia o que estava fazendo. — É difícil pôr as palavras para fora.
Meu pai segura minha mão.
— Aposto que você escreveu e-mails melhores do que ele jamais poderia ter escrito.
Olho em seus olhos claros e vejo que ele também está chorando.
— Sim! — respondo. — É verdade. — Rio, apesar de tudo. — Acho que escrevi os melhores e-mails que já foram escritos.
— Não conheço o rapaz. Posso estar cometendo um erro de julgamento. Mas parece que ele não é o tipo de pessoa que pode mandar para alguém “os melhores e-mails que já foram escritos”. Ele devia agradecer por você ter feito dele alguém um milhão de vezes mais interessante. Não acho que seja um Casanova. — Ele suspira. — Ah, Flora. Você não está tomando os comprimidos, está?
— Não.
— Mas é você mesma. Você é a Flora. Minha Flora. Fez muitos amigos, veio ao polo Norte e encontrou o garoto. Está viva. Lúcida. Você é capaz. Acho que nós temos que deixar você ser essa Flora. A verdadeira Flora. Eu soube na última vez, sério, mas agora você é adulta. Não é uma criança que tem que ser protegida de tudo, certo? Sinto muito, querida.
— Não, na verdade não. — Sinto que tenho que corrigir uma coisa. — Não sou muito capaz.
— Você é um milhão de vezes mais capaz do que jamais deixamos você ser. E agora eu receio que tenha que te levar de volta para casa. E... — Ele respira fundo.
Sinto as coisas começarem a perder a nitidez e tento me agarrar a elas.
— A sua mãe — ele continua — é muito protetora. Ela te adora. Faz isso por amor. Foi isso que afastou o Jacob, exatamente como ele disse. Nós mentimos para você. Ele está certo. Você já saiu de casa antes. Essa é a terceira viagem, e tenho certeza de que você vai fazer outras. Temos que pensar na sua independência. Tudo que sua mãe sempre quis foi manter você segura. Ela te ama. Não posso obrigá-la a nada. Estou aqui para te levar de volta, e eu...
Ele para de falar e engole a saliva. Depois passa a mão no cabelo espetado.
— Bom — continua —, estou em conflito. Só isso. Não tenho alternativa. Tenho que te levar de volta. Mas entendo que, provavelmente, você não quer ir.
Assinto. Essa é a terceira viagem que faço. Eu sou capaz. Eu viajo. Meu pai acredita em mim. Escrevo e-mails melhor que o Drake. Eles vão pensar na minha independência. Não tenho tomado os comprimidos, mas estou bem.
Henny me dá uma bebida. É quente e fumegante. Seguro a caneca com as duas mãos.
Isso tudo é muita coisa para eu pensar, e tomo um gole da minha bebida e me encolho junto do meu pai.