A única memória de Flora Banks
Capítulo 17
Meu rosto ainda está cheio de bolinhas. Passo batom antes de sair, porque vai ajudar a desviar a atenção. É um batom legal e brilhante que não consigo me imaginar comprando, mas estou feliz por ter comprado. Parece quase novo.
A mulher de óculos está esperando no pé da escada. Eu me preparei para isso.
— Oi, Agi — falo, e ela sorri.
— Oi, Flora! Lembrou de mim! Como vai?
Eu a encaro.
— Esqueci de você?
— Está tudo bem. Não se preocupe, Flora.
— Desculpe. Eu... esqueço as coisas. — Não sei como explicar.
— Eu sei. — Ela toca meu braço. — Tudo bem. Eu sei que você tem problemas. Você me mostrou o caderno. Lembra? Não, desculpa. Não lembra. Você estava bem no barco, mas ficou descontrolada quando desembarcou. Perdemos você de vista, depois te encontramos sentada no píer, tentando pegar um barco emprestado para ir remando até o local das antenas de satélite. Eu ia chamar uma ambulância e você me mostrou o seu caderno. Ficou doente quando era menina e tem problemas de memória. Tudo bem. Vou ficar com você esta noite, para o caso de você esquecer as coisas. Eu posso te rememorar. Se tentar ir a algum lugar, pelo menos vai ter a minha companhia.
— Lembrar. Você vai me lembrar.
— E você vai me ajudar com o inglês! Obrigada! Podemos apertar o passo?
Assinto.
— Vamos — digo. Não sei aonde vamos, mas vou tentar não dizer isso a ela. Vou andar ao lado dela e ver o que acontece. Não vou me distrair. Não vou viajar no tempo para lugares dentro da minha cabeça. Não vou visitar lembranças ou coisas que podem ser lembranças. Vou só andar com essa mulher, com Agi, e nós vamos a um lugar fazer uma coisa. Drake vai fazer parte disso.
Começamos a andar por uma rua.
— Como foi o seu dia? — pergunto. Acho que são palavras normais.
— Ah, foi interessante — ela responde. — Depois que pus você na cama, fui andar naqueles trenós de cachorro. É menos divertido do que se pode pensar.
— Não acho que é divertido. — Tento imaginar um trenó de cachorro. Não sei nem o que isso pode envolver. Cachorros, imagino. Trenós. Se eu fosse andar de trenó, não ia querer que tivesse um cachorro.
Ela me pôs na cama. Tento descobrir se me sinto como se tivesse dormido. É impossível decidir. Talvez eu tenha dormido.
— Certo. Então é ainda menos divertido que isso. Os cachorros ficavam correndo para cima de mim. Estou cheia de hematomas nas pernas. E estava frio. É óbvio. — Ela sorri. — Mas deixa pra lá! Eu escrevo essas coisas no meu blog.
— Eu queria ler.
— É claro! Vou te dar o endereço do site de novo. Eu escrevo novamente no seu caderno.
— Ah, desculpa. Normalmente não sou...
— Eu sei. É porque você não trouxe os comprimidos. Não se preocupe. Vamos encontrar o seu Drake esta noite, Flora. É muito importante para você. Você tem um amigo aqui e nós precisamos encontrá-lo.
Continuamos andando e ela fala comigo, mas não escuto realmente. E de repente escuto, porque ouço o nome de Drake.
— Drake — ela está dizendo. — Fale sobre ele. Fale mais.
Eu sorrio.
— Eu beijei o Drake na praia.
— Sim. Você me contou. E me mostrou a fotografia dele. Ele usa óculos, tem cara de nerd. — Ela me encara. — De um jeito legal. Nerd chique.
— Nerd chique.
— Ainda não teve nenhuma notícia dele?
— Recebo muitos e-mails e mensagens. São de... pessoas.
Eu lembraria se Drake tivesse escrito para mim desde que cheguei aqui. Não lembraria? Tenho certeza que sim. Toco o telefone no bolso do casaco. Quero pegá-lo e olhar agora, mas não vou, porque seria esquisito e rude. Tento me concentrar na conversa com Agi.
Estou olhando para nós duas do alto. Estou usando um casaco de pele. Onde arrumei um casaco de pele? Ninguém tem um.
Agi, por exemplo (Agi, Agi, Agi: eu sei o nome dela), está vestida com uma grande jaqueta verde de zíper com uma cara muito mais industrial do que pele. Mas a pele do meu casaco não é de animal. Provavelmente também foi confeccionado em uma fábrica. Pelo menos tenho essa sensação. Espero que meu lindo casaco não tenha sido feito de um animal morto, porque isso seria errado.
Agi está vestida com um jeans escuro e justo e usa botas de neve iguais às minhas. Ela usa uma touca de pompom na cabeça. Eu também estou de touca, mas a minha é vermelha e não tem pompom. Não sei onde a arrumei. Agi usa luvas acolchoadas, mas eu não, e meus dedos estão gelados.
Do alto, eu nos vejo andando juntas e percebo que estamos conversando e espero que o que sai da minha boca faça sentido, porque minha versão lá embaixo está falando, mas minha versão aqui em cima está longe demais para ouvir. Agi está respondendo, o que me dá esperança. Às vezes ela ri. Uma ou duas vezes ela toca meu braço. Pelo jeito, estou indo bem. Acho que estou sendo normal.
Estou na praia com Drake. Tem um lampejo de luz. As pedras são pretas. A água é preta. O céu é preto. Estou vestida de preto e Drake está vestido de preto. Tudo é preto. Estou com Drake, está escuro e nós nos beijamos.
Estou no lugar frio, e meus pés se movem, um na frente do outro, e estou andando na rua com a mulher de óculos. Ela olha para mim, e vejo pela expressão em seu rosto que acabei de fazer ou dizer alguma coisa esquisita.
— Desculpa — peço. — Desculpa, eu só... me distraí um pouquinho. Não foi minha intenção.
— Ei, tudo bem! Não se preocupe, Flora. Eu acho você fascinante. É sério.
— Ah. Sério?
— Sim! Você é uma garota incrível! É tão jovem, tão bonita...
— Mas minha pele é horrível — interrompo. Toco meu rosto e sinto as saliências e os buracos.
— Ah, isso? Deve ser porque não está tomando o remédio. Quantos anos faz?
— Eu tinha dez anos. Agora tenho dezessete.
— Sete anos. Você tomou os comprimidos durante sete anos. Quantos por dia?
Dou de ombros. Não faço ideia.
— Alguns.
— Bom, vamos dizer que foram três. Uma substância química entrando no seu corpo vinte e uma vezes por semana, embora por um bom motivo... — Ela para. — Embora. Essa palavra existe? Ouvi em uma entrevista antiga com a sua princesa Diana.
— Embora. Sim, existe. Uma palavra só, acho. — Gosto da ideia de ter uma “princesa Diana”.
— Obrigada. Então, embora seja por um bom motivo, você passou muito tempo tomando esse remédio. Não sabe o nome?
— Não.
— Nem o efeito?
— Não.
— Bem, seja o que for, você pode estar na fissura. Ou pior que isso. Talvez eu tenha que ligar para os seus pais, afinal.
Ela olha para mim, e eu balanço a cabeça.
— Por favor, não. — Não sei por que ela está falando em fissura.
— Deve ser para controlar as coisas na sua cabeça, que foi evidentemente danificada pelo tumor. Você se incomoda por eu falar diretamente?
Dou risada.
— Não. Vou esquecer essa conversa mesmo, pode falar o que quiser.
— Sim. Você também disse isso ontem. E hoje. Acho que o que você tem é como o mal de Alzheimer, mas em uma garota jovem. É muito trágico para você. Só vive o aqui e agora.
— Não é trágico. Não é. Eu amo o Drake. Eu beijei o Drake.
— Consegue descobrir o nome do seu remédio? Acho que vamos ter que comprar. Tenho medo de que você não esteja segura sem ele.
— Vou tentar.
— Obrigada.
— Tenho dezessete anos. Quantos anos você tem? — O nome dela é Abby? Ally? Ellie? Ella? Está escapando, desaparecendo, apesar do meu esforço para lembrar. Não a chamo por nome nenhum.
— Eu? Tenho vinte e sete anos. Dez a mais que você. — Ela ri. — Uma velha, na verdade. Por isso me sinto responsável por você.
— Obrigada por me ajudar.
— Você é realmente interessante. Tem certeza de que posso escrever sobre você no meu blog?
— Já me perguntou isso?
— Sim. Talvez seja melhor escrever, para poder provar. Não quero te perturbar. Podemos escrever nosso acordo no seu caderno.
— Tudo bem.
Chegamos a uma praça que parece ser o centro de alguma coisa. Tem dois restaurantes, um supermercado do outro lado, um hotel, um bar. Queria saber se vamos ao bar. Deixo minha nova amiga tomar as decisões. Ela olha para mim como se me incentivasse, segura minha mão e começa a atravessar a praça. Ainda está claro, e o sol brilha em meus olhos.
— Espero de verdade que a gente encontre seu adorável Drake aqui. Os alunos bebem aqui — ela diz. — Seu amigo vai nos ajudar a conseguir o seu remédio. Ele vai saber o que fazer. Se não encontrarmos o Drake, vou ter que...
— Eu beijei ele na praia.
Minha amiga dá um tapinha no meu braço.
— Sim — ela fala. — Sim, eu sei. E agora você veio a Svalbard para encontrá-lo. E esta noite vamos finalmente conseguir.
— Não devemos ir ao Flambards. Não podemos ir.
Ela parece muito preocupada. Sei que precisamos encontrar Drake agora. Ou todo mundo vai tentar me fazer voltar para casa.