A única memória de Flora Banks
Capítulo 10
Tem gente gritando. Não sei como entraram na nossa casa. Fecho os olhos com força. A mamãe e o papai vão mandar essas pessoas embora. Vou permanecer aqui e esperar tudo ficar quieto.
Coisas são arrastadas. Pés marcham. Portas batem. Coisas são movidas e empurradas, e não sei o que é isso.
Abro os olhos. Estou deitada de costas olhando para um teto estranho, e por um longo, longo instante tento ficar calma. Tenho dezessete anos e beijei um garoto na praia.
A luz do sol entra pelas beiradas de uma persiana. É dia. Estou em uma cama estreita de solteiro e visto um pijama cor-de-rosa que sei que é meu. Essa é a única coisa familiar. Acordei em um mundo estranho e novo.
Pego meu caderno.
E levanto de repente. Estou em Svalbard. É assustador, mas não importa, porque hoje vou surpreender Drake. Tenho que encontrá-lo imediatamente, porque os pais vão notar que sumi. Vim para cá sozinha, e estou aqui agora, morrendo de fome, e o café da manhã, de acordo com minhas anotações, deve estar servido. São oito e meia da manhã, e essa é uma boa hora para tomar café. Vou tomar café, aí vou procurar meu namorado. Depois disso, vou começar a me lembrar de tudo.
Abro a persiana. O ar do lado de fora é tão frio que brilha, porque estou no Ártico, o Ártico de verdade, e, quando olho para o lado, consigo ver o céu azul e profundo. Tudo é brilhante e limpo, e sou tomada por uma energia que me faz querer dançar e cantar.
Visto jeans e uma camiseta, um pulôver e meias grossas. Não vou me dar o trabalho de vestir aquele casaco enorme só para atravessar a rua para ir ao outro prédio. Vou deixar para vesti-lo quando sair para encontrar o amor da minha vida.
Drake vai adorar esse casaco. Mal posso esperar para que ele o veja. Eu não usava o casaco quando o beijei na praia. Usava um vestido branco e sapatos amarelos.
Vejo no meu celular que mandei uma mensagem para ele. Vejo que ele não respondeu. Ainda não. Escrevo uma mensagem cuidadosa para minha mãe:
Tudo bem aqui em Penzance! Beijos, Flora e
Paige
Sim, é isso mesmo, penso.
Tem alguns garotos trancando a porta dos quartos e gritando uns para os outros, e um deles diz “bom dia” quando passa na frente do meu quarto a caminho da escada, que desce pulando os degraus e gritando:
— Esperem por mim!
O outro prédio é dominado pelo ruído típico do café da manhã. Tiro os tênis, porque um cartaz avisa que é isso que devo fazer. Olho pela janela para a área do café no fundo de uma sala grande, onde pessoas saudáveis e confiantes comem de um jeito saudável e confiante. Tento compor uma expressão saudável e confiante para não chamar atenção e, calçando apenas meias, entro para me juntar ao grupo.
Quero me sentar com pessoas para me sentir normal. Porém não tem ninguém sozinho, e ninguém olha para mim, então ponho minha bolsa em uma mesa vazia e vou pegar comida.
O café da manhã é estranho, mas ainda assim penso que poderia comer tudo que tem ali e repetir. Tem pão preto e peixe com fatias de queijo. Tem alguns vegetais, e alguma coisa em uma embalagem com uma listra vermelha, uma amarela e uma verde onde está escrito “Kvikk Lunsj”, que eu pego porque quero saber o que é. Tem um desenho de um homem fortão usando touca de lã no verso, por isso deduzo que deve ser bom.
Com certo esforço, consigo tirar o que acredito ser café de um recipiente e derrubar só um pouco. Pego um copo de suco, e, quando vejo cereal, pego uma vasilha também, e acrescento leite, iogurte e fruta em conserva. Demoro um pouco para distinguir o que é leite e o que é um tipo estranho de iogurte grosso em uma embalagem parecida com a de leite, mas consigo diferenciar os dois. Tenho a sensação de que não como há muito tempo, e estou decidida a me alimentar bem enquanto tem comida gratuita disponível.
Ninguém olha para mim. Sento e começo tomando um gole do café fraco, e olho meu celular. Não tem nenhuma mensagem. Abro os e-mails. Cada parte de mim está desesperada por Drake.
Comi quase todo o cereal quando percebo que tem uma pessoa parada na minha frente.
— Posso? — ela pergunta, apontando uma cadeira.
Respondo que sim movendo a cabeça com satisfação, e ela deixa suas coisas na cadeira e vai pegar comida. É evidente que já esteve aqui antes. Eu a vejo pegar pão preto, peixe defumado e pepino, café preto e suco de laranja, tudo em questão de segundos.
Ela tem cabelo crespo, usa óculos redondos e roupas apropriadas para o frio. Todo mundo está vestido para enfrentar o frio, menos eu. Sou a única vestida com um jeans ruim que a mãe comprou.
— Oi — a garota fala em inglês. — Eu sou a Agi.
— Flora — respondo. Ela corta um ovo cozido e põe as fatias sobre o peixe.
— É da Inglaterra? — ela pergunta. — Austrália, talvez?
— Inglaterra. Você é norueguesa?
— Não, sou finlandesa. Por um fio. — E olha para mim. — É assim que se fala? Por um fio? Essa expressão tem a ver com o contexto?
— Hum... — Não sei o que dizer. — Talvez. Sim.
— Que bom. E aí, está sozinha em Spitsbergen? Por quê? Eu também estou, e não somos muitas. E acho que você é muito jovem.
— Vim visitar uma pessoa. — Olho para minha mão. Estou em Svalbard. Sinto que é como um sonho, mas estou realmente aqui.
— Ah, então não está sozinha de verdade.
— Bem, estou — respondo.
Agi parece tão desapontada que quero animá-la.
— Na verdade, não contei a ele que viria. Hoje mesmo vou sair para procurá-lo. Tenho que encontrá-lo hoje.
Ela arregala os olhos numa reação de espanto.
— Veio até aqui para fazer uma surpresa? E agora não sabe onde encontrar esse rapaz?
Percebo que Agi tem uma pele bonita e sedosa. É como a pele da Paige. Paige e eu nos conhecemos quando tínhamos quatro anos, no primeiro dia de aula. Paige não é mais minha amiga. Li isso no meu livro e continuo pensando na informação. Paige não é minha amiga. Jacob está muito doente. Os pais pensam que estou em Penzance. Drake é meu namorado. Tenho que encontrá-lo agora. Tem um monte de coisas que eu preciso tentar lembrar.
— É isso mesmo — confirmo. — E você?
Estou tentando agir de um jeito normal, e acho que estou conseguindo. É bem animador.
— Ah, eu adoro viajar sozinha. Tenho um blog, mas, como escrevo no meu idioma, não tenho muitos leitores. Por isso quero melhorar meu inglês, até conseguir escrever no idioma mundial e ganhar muitos seguidores internacionais.
Acho que não sei o que é um blog.
— Você escreve sobre viagens? — pergunto, cautelosa.
— Sim! É um blog de viagens! Por isso eu estou aqui, é claro. Viajo sozinha e escrevo minhas aventuras. O nome do blog é Aventuras de uma Garota na Estrada. Talvez eu tenha que dar um título diferente em inglês. Hoje vou fazer um passeio em um micro-ônibus, porque quero ver tudo que é acessível por estrada em Longyearbyen. As estradas só existem em torno da cidade. Não vão além, porque não tem nenhum lugar aonde ir de carro. Vou visitar o silo global de sementes, a igrejinha, as velhas minas. A parada toda.
Agi olha para mim em dúvida, e eu assinto. Não sou a melhor pessoa para dizer se as frases dela funcionam ou não.
— Ah, que legal — digo. — Eu também iria, mas hoje vou procurar o Drake. Tem que ser hoje. Eu o beijei na praia. Estou completamente apaixonada por ele. Vou encontrar o Drake, e é ele que eu amo. A única coisa que quero para o resto da vida é ficar com ele. Vou encontrá-lo e talvez nem volte para casa. Talvez fique aqui com ele para sempre.
Paro e respiro. Não acho que o que eu disse tenha soado racional. Não foi normal. Queria não ter falado nada disso.
Agi está comendo e olhando para mim. Ela me encara por um bom tempo. Olha para minhas mãos, para o FLORA seja corajosa, para o Estou em Svalbard e para as outras palavras e números. Mastiga um pouco de pão e peixe. Eu também olho para o meu nome no dorso da mão e me sinto boba.
— Uau — Agi fala depois de um tempo, quando engole a comida. — Você é uma garota interessante. Gosta desse garoto, então.
— Amo.
— E vai fazer o quê?
— Acho que vou a pé até a cidade e vou perguntar às pessoas por ele. Vou descobrir onde ele mora.
— Como é o nome dele?
— Drake. Drake Andreasson. Ele tem dezenove anos.
— Drake Andreasson. Um adolescente chamado Drake Andreasson. Vou perguntar também. Vou perguntar no passeio de micro-ônibus. Onde ele estuda?
Dou de ombros.
— Aqui.
— Se não conseguir achar o Drake, talvez eu te veja de novo aqui hoje à noite.
— Eu tenho que encontrá-lo. Tenho que encontrá-lo hoje.
— Espero que encontre. Essa história é romântica. Você precisa encontrá-lo hoje, e vai encontrá-lo hoje.
— Isso.
— Ele vai ficar feliz por te ver.
Pego o celular e olho para a tela de novo. Estou conectada ao wi-fi, mas não tem nenhum e-mail. Alguns e-mails sem importância foram baixados, mas não o que eu quero.
Agi termina de beber o café e levanta com a bandeja.
— Tenha um supermegadia, Flora — ela diz.
— Obrigada. Você também.
— A gente se esbarra mais tarde?
Sei que tem uma resposta apropriada para isso, mas não lembro qual é e só assinto.
A pousada fica no limite da cidade. Sei que devia estar com medo e confusa, mas não estou. Vou ver o Drake. Ele me faz lembrar.
Escrevo o nome de Agi na mão, e no caderno eu anoto: Procurar Agi no hotel hoje à noite se eu estiver lá. Tenho certeza de que não estarei, mas é bom lembrar que tenho uma amiga.
Visto o casaco de pele e calço os tênis. Levo todo o dinheiro comigo, porque, além de procurar Drake, eu também vou comprar um par de botas como as que todo mundo usa por aqui. Afinal, é possível que eu fique. Drake disse que me ama e pediu para eu vir. Provavelmente vou ficar aqui morando com ele. Terei muitas lembranças, serei uma pessoa normal, e essa nova vida começa hoje.
Tenho a chave do meu quarto, e a palavra “chave” escrita na mão para lembrar de verificar se está comigo. Levo minha bolsinha com o caderno dentro dela.
O céu é azul e limpo, sem nenhuma nuvem. Longyearbyen, que é como se chama esta cidade, fica em um vale com montanhas dos dois lados e um rio também emoldurado por montanhas. Montanhas por todos os lados. São cobertas de neve, mas a neve não é densa, e a paisagem é cheia de pedras pretas e salientes.
“Vai ser incrível”, disse Drake. “Frio. Já estive lá uma vez. Faz muito tempo. Fomos a Svalbard nas férias para ver o sol da meia-noite. Eu tinha dez anos e queria morar lá para sempre. Vai ser épico.”
É épico. É enorme e de tirar o fôlego. O ar é frio e claro. Respirar aqui é diferente de respirar em casa. O ar limpa meus pulmões. Cada passo que dou me deixa meio tonta. Essa sou eu, Flora Banks, andando por uma rua no Ártico. Cada passo é um triunfo. Olhei o mapa e decidi que caminho devo seguir. Vou para o lugar onde Drake deve estar, e vou encontrá-lo, e tem que ser hoje, esta manhã, porque ninguém sabe que estou aqui e logo vão começar a me procurar.
Isso tudo é tão estranho que nem sinto medo. Poderia ser um outro universo. É tão diferente de todo o resto na minha cabeça que ignoro a preocupação e o medo. Sei que Jacob está doente, mas não posso fazer nada, porque estou no Ártico. Nada importa neste momento, exceto encontrar Drake.
Ando cada vez mais depressa, já sentindo calor com o casaco de pele. Adoro sentir os músculos das minhas pernas me levando até meu namorado. Adoro o jeito como meu rosto formiga quando o frio de fora encontra o calor dentro de mim. Sei que vai ter uma galeria de arte à esquerda, e tem. Quero entrar ali, e a acrescento à lista em constante transformação das coisas que quero fazer com Drake. Gostaria de conhecer Spitsbergen com ele. Queria andar de mãos dadas. Queria ir para o apartamento dele, ficar na cama com ele e abraçá-lo, beijá-lo e estar com ele.
Estou ansiosa para ver sua cara quando ele descobrir que estou aqui.
Passo por uma escola, por mais alguns prédios, e por uma rua que vira para a esquerda, onde tem mais prédios, inclusive uma igrejinha. Olho em volta, para o caso de Drake morar por aqui, mas não há nem sinal de casas. Sigo em frente. Canos de metal que parecem velhos, mas importantes, seguem paralelamente à rua. Uma placa mostra a silhueta de um homem com um chapéu elegante, talvez um aviso para os carros, embora quase nem haja automóveis aqui.
Não sei como esses carros chegaram aqui. As ruas em Longyearbyen não vão a lugar nenhum, aquela mulher falou. A mulher com quem eu estava conversando há pouco. Olho minha mão: Agi. Agi disse isso. Elas levam as pessoas para fazer coisas em Longyearbyen e no entorno, mas não vão a lugar nenhum além disso, porque a cidade é cercada pelo nada do Ártico. Não tem nenhum lugar para onde ir de carro quando as ruas da cidade acabam. Os carros devem vir de outro lugar, como o combustível, e todo o resto, na verdade.
Levo vinte minutos para chegar ao centro da cidade. Nem mesmo eu sou capaz de me perder quando só tem uma rua.
Entro em uma loja que vende coisas para vestir no tempo frio. As paredes e o assoalho são de madeira, e o lugar é tão quente que quero tirar o casaco, mas não posso, porque teria que carregá-lo e isso seria incômodo.
Dou mais uma olhada no celular. Tenho sinal cheio, mas não recebi nada. Ligo para o celular da minha mãe, mas a ligação cai na caixa postal, e eu deixo o recado apropriado.
Uma mulher de bochechas coradas se aproxima e fala alguma coisa em um idioma que não entendo. Digo que estou procurado um par de botas, depois me pergunto se ela entende inglês. A mulher começa a me mostrar coisas.
— Os três As — diz, passando imediatamente para o inglês. — É disso que você precisa.
— Os três As?
— A lã, à prova de vento e à prova d’água — ela explica. — É assim no Ártico. Nem tanto no verão, e também nem tanto se você não vai sair para fazer trilha.
— Gosto desta aqui. — Aponto para uma bota marrom com forro de pele e cadarço. Ela olha para os meus pés e se afasta para ir buscar a bota no tamanho certo, e eu sento e abro meus e-mails. Não me interessam os três As, só quero alguma coisa melhor que tênis.
Escrevi no pulso com letras bem pequenas: Drake disse: "se você estivesse aqui as coisas seriam diferentes". E: "você não pode vir, pode?"
Pronuncio as palavras em voz alta. Eu posso ir. Sim. Eu posso.
Quando estou pagando pelas botas, que couberam perfeitamente, pergunto para a mulher:
— Você conhece um garoto chamado Drake Andreasson?
Ela me encara por um segundo.
— Drake?
— Ele estuda no polo Norte. Tem uma coisa de satélite.
— Uma coisa de satélite? Estuda? Tenta se informar na UNIS ou no Instituto Polar. Acho que eles devem saber.
— Obrigada. Posso calçar as botas agora?
— É claro, querida. Vou pegar uma sacola para você pôr os tênis.
Amarro as botas, ponho os tênis na sacola que a mulher me deu e saio para ir procurar o Instituto Polar. Vou andando e digitando no celular, e pego uma caneta para escrever no braço também. Isso é melhor que andar por aí torcendo para encontrar o Drake. É assim que vou encontrá-lo.