A única memória de Flora Banks
Capítulo 25
— Flora!
O homem está olhando para mim, sorrindo, transferindo o peso de um pé para o outro.
— Flora — ele repete. — É bom ver você de novo. Como se sente?
Ele é careca e velho, e está usando uma camisa com as mangas dobradas, calça e gravata.
— Bem — respondo, e é verdade. Estou bem animada. Sentir coisas é animador.
Paige está ao meu lado, segurando minha mão. Estamos na praia, onde ninguém pode nos ver da rua. Só pode nos ver quem está na praia ou passando de barco. O vento nos despenteia, e a água está agitada, formando um milhão de ondinhas.
Acabamos de descer uma escada, e na grade acima dela tem um cartaz perguntando se vimos um gato sem orelhas. Se vir um gato sem orelhas, você deve levá-lo para casa. Isso devia ser uma regra.
— Sou o dr. Joe Epstein. Neurologista. Estou interessado em você há muitos anos, Flora. Nós nos conhecemos em Paris, quando você esteve lá e o seu irmão me procurou. Lamento muito sobre o Jacob. Muito mesmo. Uma perda terrível. Ele era um jovem complexo e fascinante. Agora você é adulta, e eu gostaria de saber se está interessada em me deixar ajudar com as suas dificuldades de memória.
Hesito.
— Você pode me ajudar de verdade?
— Gostaria de tentar.
— Não sei se te conheço. Não conheço. — Estou com medo desse homem. Ele está falando sobre Jacob. Não entendo o que está acontecendo.
— Eu sei. Desculpa. Olha, eu tenho uma coisa no meu celular para mostrar. Para confirmar o que estou dizendo.
Não sei do que ele está falando, mas vejo o homem bater com o dedo na tela.
— Pronta? — ele pergunta. — Aqui. Isto prova que nós nos conhecemos. Gravamos isso no nosso último encontro para você ver. Olha.
Ele se aproxima, para do meu lado e vira o telefone para Paige e eu podermos ver a tela.
Olho para o aparelho. O homem está na tela. Eu também estou, e também tem um rapaz com uma grande mancha vermelha de um lado do rosto e traços que me fazem chorar, porque é meu irmão mais velho, a pessoa que mais amo no mundo, o garoto que me deixava pintar suas unhas dos pés. Mas ali ele aparece adulto e marcado.
O lado vermelho de seu rosto tem a pele lustrosa e esticada, mas ele parece feliz.
— Oi, Flora — diz Jacob, e o som da voz dele me faz sorrir. — Sou eu, seu irmão Jacob, em Paris, onde eu moro. Olha. — Algumas casas aparecem na tela, e também tem um rio com barcos. — Você está aqui, Flora. Veio me visitar e nós estamos nos divertindo muito. Adoro ter você comigo. Estamos com o Joe Epstein, que sabe tudo sobre memórias como a sua. Aqui está ele. Estamos gravando este vídeo no meu celular e no dele para você saber que o conhece.
O médico aparece na tela. Ele tem a mesma aparência de agora, mas no vídeo está vestido com uma camisa xadrez azul.
— Oi, Flora — ele diz. — Como o Jacob contou, sou Joe Epstein. O Jacob e eu estamos em contato há algum tempo. A sua mãe não quer que eu participe da sua vida, não quer que eu escreva trabalhos sobre você nem que apresente o seu caso em conferências. E eu respeito o direito dela de tomar essa decisão.
— Mas eu não — Jacob anuncia. — E daqui a dois anos você vai ser adulta e a decisão vai ser sua, não dela. O Joe é um neurologista brilhante e quer ajudar. Acho que devemos dar uma chance a ele. Assim que você fizer dezoito anos, pode vir morar aqui comigo, se quiser.
Eu apareço na tela e assinto. Olho para o meu irmão na tela e aqui na praia com um amor profundo. Sinto um arrepio. Quero ver o Jacob.
— Então, quando nos encontrarmos de novo, Flora — diz o homem na tela —, este sou eu. Espero que isso faça sentido para você e que possamos conversar.
O filme para. Olho para o médico real.
— Cadê o Jacob? — pergunto.
Vejo o médico e Paige trocarem um olhar.
— Flora — diz Paige, passando um braço sobre meus ombros. — Flora, o Jacob morreu. Sinto muito. Ele ficou doente e morreu. Eu sinto muito, muito mesmo.
Fecho os olhos. Quero esquecer isso. Quero que essa informação desapareça da minha cabeça.
Paige olha para o médico.
— Temos pouco tempo — ela avisa.
— Flora — ele fala —, parece que você teve recentemente o que chamamos de uma “ilha de memória”. Uma lembrança clara e, até onde sabemos, precisa permaneceu com você. Há muitas razões para isso ter acontecido, mas pode ser o começo da suspensão da sua amnésia. Você apresenta essa condição há um tempo incomumente longo. Eu ficaria muito feliz se você aceitasse passar um tempo comigo. O seu caso é incomum e fascinante, e eu adoraria tentar ajudá-la no que for possível.
Olho para Paige sem saber o que fazer. Ela afaga minha mão.
— Tudo bem — ela diz. — Podemos conversar melhor sobre isso antes de você concordar com alguma coisa. Pode ver o vídeo de novo, se quiser. Pode ver quantas vezes quiser. O dr. Epstein mandou para mim, e agora eu também o tenho no meu telefone.
Assinto. Ela olha para o homem.
— Pronto. Obrigada, dr. Epstein. Nós vamos entrar contato assim que ela... — Vejo que Paige olha para mim. — Depende, é claro, do que você quer, Flora. Podemos tirar você daqui, se quiser. Mas você não é obrigada a nada. Não está mais tomando os comprimidos. Pode simplesmente dizer aos seus pais que está indo embora. Ou pode ir e deixar uma carta para eles.
É um dia quente. Afasto o cabelo da testa. Não consigo imaginar a vida longe daqui, mas estou desesperada para fazer coisas, fazer as coisas acontecerem. Estive em Paris. Acabei de ver um filme de mim mesma em Paris. Paris é a capital da França. Aprendi isso na escola. Se posso ir a Paris, também posso ir a outros lugares. Posso fazer coisas. Tem um mundo inteiro lá fora.
— Sim — respondo.
Não sei exatamente com que estou concordando, mas sei que é isso que quero. Há algum tempo, não sei quanto, comecei a acordar e percebi que minha vida se resume a olhar para a televisão e dormir.
Lamento por aquele gato sem orelhas. Eu gostaria de encontrá-lo.
— Tem certeza? Isso vai exigir muito de você, e não vai poder escrever muitas coisas no braço, o que significa que, por enquanto, vai ter que confiar em mim.
— Eu confio em você.
— E no dr. Epstein.
— Sim. Porque o Jacob disse isso.
— Nós podemos ir embora e viver uma aventura. Mas só se você quiser. Não vou sequestrar ninguém. Você pode escolher.
— Eu beijei um garoto na praia. Eu lembro disso.
— Beijou. Você beijou um garoto na praia. E você tem dezoito anos. É adulta e tem opções. O dr. Epstein vai encontrar a gente em Paris de novo, se você quiser conversar com ele de verdade. Eles não podem mais te obrigar a ficar aqui.
Sorrio para ela. Embora não saiba muito sobre nada, sei que tenho uma história. Sei que ela não acabou. Há nuances e sombras de aventuras, pessoas e novos lugares. Não sei o que Paris tem a oferecer nem o que o dr. Epstein pode fazer, mas quero estar lá para descobrir.
— Sim — falo em voz alta. Olho para minha mão. Leio as palavras escritas nela. Olho para Paige e falo em voz alta: — Flora... seja corajosa.