A única memória de Flora Banks
Capítulo 11
Estou sentada em uma rocha, e tem trechos de neve à minha volta, com pedras escuras que parecem brotar do gelo. Estou vestida com um grande casaco de pele e uso botas quentes, jeans e, provavelmente, se abrir o casaco, vou descobrir que estou de pulôver.
Estou bem agasalhada, sentada em cima de uma rocha e olhando para uma encosta coberta de neve. Não tem ninguém aqui. O ar é frio em meu rosto. O sol brilha no céu azul.
Moro em um lugar quente onde tem mar e onde as coisas são verdes. Este lugar é diferente. Este lugar é frio e claro. Não pode ser real. Não me preocupo com onde estou, porque sei que estou dentro da minha cabeça. Aqui é mágico, e não quero acordar.
Sentei em uma praia e beijei o Drake. Aquilo foi real. Isto aqui não é.
Olho para minhas mãos. Em uma delas está escrito FLORA seja corajosa. Eu sou a Flora.
Minha mão esquerda tem as palavras: Procurando Drake. Na parte interna do pulso tem 5827 e Estou em Svalbard. As palavras Instituto Polar? estão escritas no braço, que também tem Ártico, caderno e Agi e algumas anotações sobre um passaporte.
Tem um caderno no meu colo. Eu o abro e começo a ler. As páginas me dizem que tenho amnésia anterógrada e que Drake é meu futuro mágico.
Vou até as últimas páginas escritas.
NÃO saia da cidade, porque lá fora tem ursos-polares e eles comem gente. Se sair da
cidade, vai precisar de uma arma e vai ter que saber usá-la, e isso significa que SÓ POSSO
SAIR DA CIDADE SE ESTIVER COM ALGUÉM QUE TENHA UMA ARMA. NÃO
SAIA DA CIDADE MESMO QUE SEJA BONITO. FIQUE SEMPRE EM UM LUGAR
ONDE HAJA PRÉDIOS.
Olho para a encosta à minha frente. Não há prédios. Tem um caminho de rochas que sobe para o que acho que é uma montanha. Tem outro caminho feito de linhas paralelas que atravessam a neve, mas não tem nenhuma cidade, definitivamente. Estou sentada sobre uma grande rocha preta.
Fico em pé. Desrespeitei uma regra que não me lembro de ter aprendido, e, embora isto seja um sonho, não quero ser comida por um urso-polar nele. Ursos-polares são brancos, a neve à minha volta também é branca. Pode haver centenas deles camuflados por aqui. Eles podem estar prestes a atacar, arrancar meus membros, me dividir entre eles para que cada um tenha um pedaço e o vencedor fuja com meu cérebro imprestável entre os dentes.
Tenho que ir para um lugar seguro. O sol brilha em meus olhos. Não sei como chegar onde estão os prédios. Podia andar o dia inteiro e me afastar cada vez mais, penetrar mais e mais no território dos ursos. Se eu pensar com firmeza nos prédios, talvez os faça aparecer.
Meu coração bate tão depressa que o corpo todo reverbera no ritmo. Estou em pé, embora as pernas tremam tanto que mal possam me sustentar.
Beijei o Drake e preciso encontrá-lo.
Em vez de encontrá-lo, vim para um lugar cuja primeira regra é “não sair da cidade sem uma arma”, e saí da cidade sem uma arma. Vim oferecer aos ursos-polares um pouco de carne humana fresca. Posso estar a quinze quilômetros da cidade, seja qual for a cidade. Não estou com fome ou sede, o que significa que não devo ter saído há muito tempo. Eu me viro, olho em volta, tento decidir qual é o caminho mais provável para voltar à segurança.
Então paro. Olho de novo para a colina, que parece distante e coberta de neve. Olho novamente para o outro lado e dou risada. Rio e rio, rio alto, descontroladamente, e não consigo parar. Sou o ser humano mais estúpido que já viveu.
Eu estava sentada em cima de uma grande rocha preta olhando para a montanha, em um lugar frio e quieto onde vivem ursos-polares. Mas a rocha estava ao lado da rua, e a rua ficava em uma cidade, e só não ouvi nada atrás de mim porque não tinha carros passando. Assim que me viro, vejo que estava sentada perto de casas, ruas e sinais maravilhosos de que este é um lugar de humanos, não de ursos.
Minha jornada para a cidade dura cinco passos. Fiz os prédios aparecerem pensando neles, porque tudo isso está dentro da minha cabeça.
Não entrar no território dos ursos-polares. Essa agora é uma das minhas regras de vida. Paro e escrevo no meu caderno.
Escolho uma direção e ando pela rua. Tem duas pedras no meu bolso, e eu seguro as duas com uma das mãos enquanto vou andando. São pedras especiais. Uma é a minha, a outra logo será do Drake. Nós nos beijamos na praia, quando a maré subiu. Vou encontrá-lo e vamos nos beijar de novo, na neve. Vamos nos beijar muitas vezes, e vou me lembrar de cada beijo.
Todas as pessoas pelas quais passo estão vestindo jaqueta de náilon em vez de um grande casaco de pele como o meu. Elas têm faces rosadas, sorriem e dizem “oi”, e eu retribuo. Parece que é assim que as coisas funcionam neste lugar, que não fica perto de Penzance porque é a cidade de Longyearbyen, na ilha de Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard, cercado pelo mar Ártico. A lista de nomes difíceis me faz sentir triunfante.
Meus pais não sabem que saí. Se voltarem para casa e descobrirem que não estou lá, eles vão chamar a polícia, e aí eu vou ser levada para casa sem ver o Drake de novo.
Encontro o caminho para o Instituto Polar olhando o mapa e pedindo informações a um homem simpático, mas o lugar está fechado. Olho para a porta por um tempo antes de me atrever a tentar abri-la. Empurro, e a porta se move um pouco, mas não abre. Não sei que dia é hoje nem que horas são, o que significa que pode ser hora de estar fechado mesmo. O museu vizinho está aberto, mas o prédio da universidade está fechado.
Fico olhando para a porta. Preciso dela aberta. Este é o lugar onde Drake estuda, e eu vim até esta porta, mas ele não está aqui. Olho dentro da bolsa, pego o caderno para poder anotar tudo isso. Sento no degrau.
Tem uma mulher um pouco distante, olhando para mim.
— Aqui é a universidade? — pergunto em voz alta. Ela pode ser uma aluna. A mulher franze a testa, e eu repito a pergunta, depois me lembro de acrescentar: — Você fala inglês?
— Eu tento — ela diz. A mulher tem o cabelo longo e preto e uma cara rabugenta. — Este é o Norsk Polarinstitutt. A universidade UNIS fica logo ali.
Olho na direção para onde ela aponta e vejo outra parte do mesmo prédio. Nenhum deles aqui é muito bonito, mas gosto deles porque tenho tanta certeza quanto posso ter de que Drake trabalha dentro deles.
— Conhece Drake Andreasson?
Ela dá de ombros.
— Talvez. Não sei. Você o perdeu?
— Sim.
— Ele é aluno aqui? Já foi ao Nybyen?
— Acho que não. O que é Nybyen?
— A moradia da universidade.
Decido anotar isso também. Meu telefone faz um barulho dentro da bolsa, notificação de mensagem, e quando o pego a mulher vai embora.
O sol brilha forte em meu rosto. Algumas pessoas passam por ali. O horizonte é uma fileira de montanhas. O sol brilha alto, e, embora algumas nuvens encubram o topo das colinas, o céu é azul.
Este não é um lugar de verdade. Não pode ser um lugar de verdade. As pessoas não parecem normais. Nada é como eu acho que deveria ser, e Drake não está aqui. Sei como Drake é, e nenhuma dessas pessoas é ele.
Olho para a foto dele no meu celular antes de ler as mensagens.
Quando vejo a palavra “mãe” fico contente, mas a mensagem dela é confusa.
Querida, espero que você e a Paige estejam bem.
Obrigada pela mensagem e pelo recado na caixa
postal. Ainda estamos aqui. Tudo bem com você?
Por favor, continue mandando notícias. Essa coisa
toda com o Jacob é horrível. Talvez você possa vir
a Paris. Acha que a Paige traria você? Ligo mais
tarde para pensarmos em um plano. Beijos, mamãe
e papai
Paris. Jacob. Dou uma olhada no caderno. Jacob Banks é meu irmão, que está doente em Paris. Meus pais estão com ele, e estou fingindo que estou com Paige em Penzance.
Eu moro em Penzance. Vou morar em Penzance para sempre, mas hoje não estou lá. Hoje estou no Ártico. E vim para cá sozinha.
Lembrar de Jacob o invoca, porque, quando olho os e-mails pelo celular, as palavras “Jacob Banks” pulam na tela.
Sabe-se lá como, ele me mandou um e-mail.
Querida Flora,
Obrigado pelo cartão. O meu Jacques trouxe para mim. Felizmente os pais não viram. Na próxima, mande dentro de um
envelope! Minha irmãzinha. Você se apresentou de um jeito todo formal, sem saber que nos conhecemos. Isso me afeta
sempre, todas as vezes. Está tudo bem com você? Você parecia muito preocupada porque a mamãe e o Steve não voltaram
para casa. Minha culpa. Sinto muito. Houve uma emergência comigo quando eles estavam tentando ir embora. Não se
preocupe. Eles estão bem. Você está em Penzance com a sua amiga? Ou não? Tudo acontecendo conforme o planejado, ou
você fugiu para viver uma aventura? Se estiver vivendo uma aventura e não vier me ver, vou ficar muito ofendido. Por favor,
responda. Preciso de você para me manter entretido durante esta doença cansativa. E se cuida. Responda assim que puder.
Faça todas as perguntas, como sempre fez.
Beijos, seu irmão Jacob
Leio de novo e de novo. As coisas não fazem sentido.
Sempre há coisas que não fazem sentido.
Você se apresentou de um jeito todo formal, sem saber que nos conhecemos.
Fugiu para viver uma aventura?
Olho em volta, quase esperando vê-lo ali parado, rindo de mim. Nós nos conhecíamos quando éramos novos. Não nos conhecemos mais.
Fico surpresa apenas brevemente por estar em uma paisagem nevada com ar brilhante e um horizonte recortado por montanhas. Fugi para viver uma aventura, como Jacob disse. Não sei como ele sabia disso. Não é possível que eu já tenha feito isso antes. Nunca saí de Penzance. Decido encontrar um lugar quente onde eu possa sentar e tentar escrever uma resposta sensata para meu irmão. Eu amo o Jacob. Ele me deixava pintar suas unhas dos pés. E ele disse para eu fazer perguntas, e eu vou fazer. Tenho muitas perguntas.
Sinto as pedras no bolso enquanto caminho. Elas se chocam, fazem barulho. Olho para cada rosto que passa, mas nenhum deles pertence a Drake.