A única memória de Flora Banks

Emily Barr · Capítulo 17 de 29

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A única memória de Flora Banks

Capítulo 16

 

Estou em uma cafeteria, lendo os e-mails no meu telefone. Tem um café com leite grande ao meu lado, e, quando o percebo, bebo um pouco. Ainda está quente e é delicioso. Tem um homem ali perto, um homem que trabalha aqui, e ele se aproxima quando vê que o estou observando. Ele tem o rosto e a cabeça cheios de cabelos e uma pinta na bochecha.

Toco meu rosto. Tenho mais manchas que ele.

— Tudo bem com seu café? — ele pergunta.

— Sim, obrigada. Está perfeito. — Sorrio e espero que ele pense que sou normal.

— Ótimo. Está tudo bem, Flora? Outro dia você ficou muito preocupada com a sua bolsa.

— Minha bolsa?

— Sim. Essa bolsa aí. Quando a deixou embaixo da mesa. Lembra?

Assinto, fingindo lembrar.

— Sim. Isso mesmo. Estou bem, obrigada. Um pouco... — Não consigo terminar a frase, porque não sei que palavra usar para concluí-la. Um pouco super-humana? Um pouco destemida? Um pouco viva?

— Um pouco confusa. Sim. Acontece com as pessoas por aqui. É um lugar incomum. Quando foi que você dormiu pela última vez?

Dou risada.

— Não lembro. — Rio muito disso. Não consigo lembrar. Rio até chorar, depois vejo que ele está olhando para mim e tento me controlar. — Está tudo bem. Estou bem. — Esse homem é legal, e eu gostaria de tentar explicar, mas não sei como. — Preciso me ajudar a lembrar as coisas — continuo. Estendo as mãos, levanto as mangas, mas vejo a palavra DRAKE entalhada em meu braço e abaixo a manga. — Elas não ficam na minha cabeça. Mas ficam nas minhas mãos.

— Você precisa tentar dormir logo.

— Vou tentar — concordo. — Se eu perceber que é noite.

— Não venha para cá no inverno. É pior.

Balanço a cabeça concordando, tentando dar a impressão de que sei do que ele está falando, e o homem continua:

— Bom, o rapaz por quem você perguntou outro dia? Drake? Acho que ele esteve aqui mais cedo. Posso ver a foto de novo?

Ele pega meu celular em cima da mesa, o que acho um pouco rude. Pego o telefone de volta e descubro que a foto de Drake já está na tela, embora eu estivesse lendo meus e-mails. Ela não devia estar ali. Drake sempre está em primeiro lugar. Está escrito no meu corpo, dominando meu celular. Está em todos os lugares, menos na minha frente.

Eu amo o Drake.

— Sim — ele diz. — Sim, era ele. Falei que tinha uma moça procurando por ele. Acho que o rapaz não esperava ouvir essa notícia de um funcionário da cafeteria.

Encaro o homem. Ele viu Drake! Drake esteve aqui, neste café. Eu o encontrei. Vim ao lugar certo. Ele está aqui. Penso muito nisso, tento juntar essa informação à minha outra lembrança. Drake está neste momento, e este momento pode ficar na minha cabeça.

— O que ele disse? — consigo perguntar.

— Alguma coisa como: “Tem certeza de que está falando com a pessoa certa?” Perguntei onde você poderia encontrá-lo, e ele disse que está sempre por aí.

— Tudo bem. — Sinto as lágrimas voltarem aos meus olhos e tento me livrar delas piscando. Quando levanto a cabeça, o homem foi atender outro cliente, e eu me permito chorar só por um momento. Acontece que só quero ficar aqui sentada e chorar, chorar e chorar. Choro enquanto as lágrimas duram, balançando a cabeça e afastando pessoas que querem me ajudar. — Estou feliz — digo a elas em meio às lágrimas. — Estou feliz.

Quando paro de chorar, bebo mais um gole de café, mas agora ele está frio.

Há novos e-mails no meu telefone. Eu me esqueci deles, e agora os leio, começando pelo mais antigo de Jacob Banks.

Ah, Flora. A única coisa previsível sobre você é que vai fazer alguma coisa surpreendente. O Ártico? Estou fazendo o

possível para os pais não descobrirem, mas não vai demorar muito. Quase morri, só para segurá-los aqui. Para sorte da sua

aventura, minha saúde está tão ruim que eles têm que ficar comigo, só por precaução. Quando me sinto melhor, lembro aos

dois que você tem quase dezoito anos e está com a Paige, e que é a minha vez de ser paparicado. Suas mensagens têm

chegado na hora certa e deixado os dois tranquilos. Então, garota brilhante e insana. Só vou encobrir sua loucura se você me

mandar notícias uma vez por dia, pelo menos. De preferência duas vezes, ou mais. Espero que encontre esse garoto que

merece tanto esforço. De qualquer maneira, vou contar aos pais onde você está em dois dias, então você tem até lá para

encontrá-lo.

A ideia das suas aventuras é melhor para mim do que qualquer merda “paliativa” que eles me dão, mas também estou maluco

de preocupação com você. Você não vai lembrar, mas, na última vez que ficou sem tomar o remédio, teve uma fase maníaca

antes de estabilizar em um tipo estranho de adorável anormalidade. Estou apavorado com você aí. É perigoso. Se as coisas

ficarem estranhas, VÁ PARA O AEROPORTO E COMPRE UMA PASSAGEM PARA PARIS. Escreva isso na sua mão

direita agora. Vai.

Obrigado por me fazer perguntas, porque isso me faz sentir útil. Vou preencher as lacunas de costume:

Você e eu somos meios-irmãos. Temos, é desnecessário dizer, a mesma mãe. Temos pais diferentes: o seu é o Steve. O meu é

um filho da mãe que fugiu, e, quando a mãe se casou com o Steve, ele me deu seu sobrenome para podermos ser a família

feliz e unida que somos hoje.

Conto mais quando tiver tempo. Enquanto isso, você TEM que ligar para a nossa mãe e dizer a ela que está tudo bem. Se ela

não estivesse enlouquecida aqui comigo, você não teria conseguido pôr esse plano em prática. Você diz que lembra de mim te

pegando no colo quando você era criança. Eu fazia isso o tempo todo. Você era brilhante. Você é. MANDE NOTÍCIAS.

Beijos, Jacob

Jacob não parece estar surpreso por eu ter fugido. Escrevo no meu caderno: “Já viajei antes??”

O e-mail seguinte é mais curto.

Flora? Escreva para mim. Por favor. Diz que está bem. Só isso. Só preciso saber. Caso contrário, vou ter que falar a verdade.

Beijos, J

O seguinte é ainda mais curto.

Flora! Bj, J

Depois veio a mensagem pelo celular. Sei que preciso escrever para ele, essa pessoa que apareceu do nada e que é o irmão na minha cabeça. Respondo sua última mensagem.

Desculpa, estou bem. Estou me sentindo

incrível, na verdade. Posso fazer qualquer

coisa. Não se preocupe comigo. Espero que

você esteja bem. Beijos, Flora PS Ainda não

achei o Drake, mas quase. Estou agora

mesmo em um café onde ele também esteve!

Estou no caminho certo.

 

Depois escrevo um e-mail mais longo, também para Jacob, contando tudo que consigo lembrar. Abro meu coração, mas, assim que envio a mensagem, não sei mais o que contei. Mando outra mensagem e pergunto se já fugi antes. Não é possível. Mas, se fugi, eu não saberia. E Jacob parece pensar que eu já fugi, então preciso que ele me fale.

Mando outra mensagem fazendo perguntas, perguntas e mais perguntas. Quero saber tudo sobre ele, sobre mim, sobre nossa família. Quero que ele me conte todas as coisas que esqueci. Eu sei, é pedir demais. Não sei o que não sei. Só sei que quero saber tudo.

O telefone começa a tocar na minha mão. A tela diz que é minha mãe. Fecho os olhos com força. Jacob disse que tenho que falar com ela. Ele tem razão. Tenho que atender, mas preciso fingir que estou em Penzance.

Estou em Penzance. No momento, só tenho uma vaga ideia do que Penzance significa.

Aperto o botão.

— Oi, mãe! — Atendo com a voz mais alegre e animada que consigo produzir.

— Por que a notificação de chamada internacional? — O tom dela é firme. Não sabia que a voz dela poderia me fazer sentir assim. Derreto. Viro uma poça no chão. Tenho doze anos. Tenho nove. Tenho seis. Tenho três.

Preciso me concentrar. É difícil, mas volto ao presente. Não tenho resposta para a pergunta difícil.

— Não sei. — É só o que eu consigo dizer.

— Está em Penzance?

— Eu moro em Penzance — respondo.

— Sim, mas não é onde você está agora.

Não digo nada. Não sei o que dizer.

— Flora?

— Oi.

— Flora... onde você está?

Respiro fundo. Tinha alguma coisa na mensagem de Jacob sobre minha mania virar uma adorável normalidade. Tento usar esse recurso. “Adorável”, digo a mim mesma. “Normalidade”, acrescento.

— Você me pediu para ir para a França — falo com a mais adorável e normal das vozes. Li isso no meu caderno. Torço para que seja verdade.

— Falei que nós íamos conversar sobre a possibilidade de você vir para a França. Que nós planejaríamos as coisas. E isso foi dias atrás. E você mandou várias mensagens estranhas sobre... Bom, sobre querer ir ao Flambards.

Não consigo pensar em nada para dizer.

— Estou bem — respondo. — Fiquem com o Jacob. Estou bem. Garanto. Não precisamos ir ao Flambards.

Ela está falando, mas não consigo ouvir porque não sei o que fazer. Sei que, se contar que estou no Ártico, ela vai chamar a polícia e eles virão até aqui, até este lugar coberto de neve, e me levarão embora, e ainda não encontrei Drake. Preciso encontrar Drake, e ele vai me ajudar a explicar tudo isso para todo mundo. Não preciso mais ter medo. Posso fazer qualquer coisa. Minha mãe ainda não entende isso.

Não sei o que falar, por isso desligo. Se eles ligarem para a polícia em Penzance, ninguém vai me encontrar, porque não estou lá.

Drake não vai acreditar no que fiz para encontrá-lo. Mas ele vai saber que isso significa que vamos ser felizes para sempre.

Eu beijei o Drake na praia. Tem uma imagem nebulosa disso na minha cabeça. Eu me levo até a praia. Faço um esforço para voltar lá. As pedras são pretas. Beijei um garoto. Mas não consigo segurar a lembrança. Estou em uma caixa de metal e meus ouvidos zumbem. Tudo está ficando estranho. Não devemos ir ao Flambards.