A única memória de Flora Banks
Capítulo 14
— Sim, ele diz que TUDO bem. — Agi olha para mim e lhe entrego um maço de dinheiro que está em minha mão. Ela repassa o dinheiro ao homem que dirige o micro-ônibus, que conta as notas e assente. Entro no ônibus e Agi e eu sentamos lado a lado, ela no assento da janela.
Você deve sempre tentar sentar ao lado da janela. Acho que essa é uma das minhas regras. No assento da janela, dá para saber exatamente onde estamos. Mas eu consigo ver tudo pelo para-brisa.
Somos as únicas duas pessoas no ônibus. Vamos fazer um passeio, porque Agi já havia reservado, e no café da manhã ela me convidou para ir também. Eu aceitei, porque foi legal ser convidada. Não a reconheci no café, mas ela me reconheceu e sentou comigo e perguntou sobre Drake. Fingi me lembrar dela, e parece que deu certo.
Talvez a gente esteja indo ver ursos-polares. Drake pode estar perto dos ursos-polares.
O sol brilha. Este lugar é lindo. Acho que não contei a Agi que não sou normal, por isso ela me trata como se eu fosse. Ela me trata como uma amiga que escreveu nas mãos. Vou passar o dia todo me esforçando para ser normal. Esse é o desafio que faço a mim mesma. Não quero que ninguém descubra a verdade sobre mim.
Olho para minha mão esquerda. Escrevi SEJA NORMAL nela. Vejo que Agi está olhando para a inscrição.
— Eu também devia me lembrar disso de vez em quando — ela comenta.
Hoje preciso encontrar Drake. Senão os pais vão notar que desapareci. Sair em um micro-ônibus é uma excelente maneira de ir procurar.
O micro-ônibus vai parando de hotel em hotel, e mais gente vai embarcando. Agi e eu somos as mais novas. Algumas pessoas têm a idade da minha mãe, outras são mais velhas. Uma mulher se inclina para o corredor para falar com a gente. Mas não fala inglês, e eu fico no meio enquanto ela e Agi conversam.
— Ela disse que esta viagem é o sonho da vida dela se realizando — Agi me conta, empurrando os óculos para a parte mais alta do nariz.
— O meu também — respondo e sorrio para a mulher, que me mostra o polegar erguido.
Estamos andando por uma passarela de metal com corrimãos, passando por cima de pedras em direção a um píer de metal com piso de borracha para impedir que as pessoas caiam. Tem um grande barco de metal atracado ali. A palavra Landøysund foi pintada com tinta preta sobre o metal branco. Eu a soletro e tento repetir mentalmente. Landøysund. Landøysund. Landøysund.
Acompanho o grupo pela rampa de embarque e sorrio, tentando esconder a surpresa ao constatar que este é um barco de passageiros. Pensei que ficaríamos no micro-ônibus procurando ursos e o Drake. Este barco é um grande e excitante bônus. Beijei Drake em uma praia e agora vamos navegar. Isso é perfeito. Este é o lugar para encontrá-lo.
— Olha só para isso! — Agi comenta. Estamos em pé lado a lado, apoiadas em uma grade branca e olhando para a cidade distante. Tudo o que conseguimos ver é uma cordilheira de montanhas do outro lado da água, um lugar salpicado de rochas e neve. Pode ser uma colina, porque não é alta o suficiente para ser uma montanha, mas parece uma montanha. E ela se estende acompanhando a enseada. A faixa de água se estreita à nossa direita e se alarga à esquerda. Só tem uma construção visível além da água, e é um chalé um pouco afastado da margem. Consigo ver uma silhueta puxando um barco a remo para a praia, e vejo a pessoa erguer o corpo e olhar para o cenário, depois se virar e andar até o chalé e destrancar a porta.
— O típico lar, doce lar — Agi comenta, acompanhando a direção do meu olhar.
— Como é que alguém consegue morar lá? — especulo.
— Como não? Não acha que seria maravilhoso? Talvez não para sempre, mas por um ou dois anos. Na verdade eu moraria ali por um ano, exatamente. No inverno seria bem aconchegante. Dá para passar meses encolhida lá dentro no escuro.
Eu estremeço.
— Eu odiaria.
— Sim. As pessoas dizem para não vir aqui no inverno, mas isso me faz querer ainda mais. Temos invernos escuros na Finlândia. Gosto do aconchego.
Balanço a cabeça. A pessoa entrou na cabana e fechou a porta.
Escrevo no meu caderno um lembrete para não vir para cá no inverno.
Continuamos apoiadas na grade, em silêncio, até o homem que está no comando bater palmas pedindo a atenção de todos. Fico atrás do grupo ouvindo as orientações sobre procedimentos de segurança e explicações sobre aonde vamos, para longe da cidade e pela água para uma área não habitada. Procurei Drake na cidade, mas vou encontrá-lo fora dela.
— Não posso prometer um urso-polar — ele repete várias vezes. — Tem uma fêmea com dois filhotes na área neste momento, e nós os vimos na quinta-feira, mas não dá para garantir nada. Certo? Mas eu ofereço focas e papagaios-do-mar. Isso eu prometo.
Ele continua falando, às vezes em inglês, às vezes em norueguês, e eu paro de prestar atenção. Olho para minhas mãos, que estão brancas de frio. Hoje serei corajosa e normal. Ser normal é ser corajosa. Vou ficar quieta ouvindo outras pessoas. Vou fazer perguntas a elas, em vez de responder às perguntas. Vou olhar para as montanhas e para a água, e vou respirar o ar fresco e frio e ficar quieta. Vou sair deste barco sem ninguém pensar que tem alguma coisa estranha comigo. Vou deixar tudo acontecer como tem que acontecer.
Não me interessa onde estou ou por quê. Estou a bordo de um barco em um cenário de outro mundo vestindo um casaco quente. Isso, no momento, é o suficiente.
O motor começa a funcionar e nós partimos. A cidade desaparece, e a cabana também. O ritmo do mundo todo fica mais lento, quase para.
Pego uma cadeira de plástico de uma pilha e sento no convés superior para olhar o cenário. Cada preocupação que já tive, centenas de ideias sombrias que se fundiram em um vago sentimento de medo, se dissolve. Não tem nada além disso. O ar é tão puro que respirar quase dói. A água é azul, refletindo o céu em sua superfície sedosa. O barco deixa para trás linhas perfeitas e diagonais de ondas baixas.
Minha cabeça está limpa. Respiro fundo e olho para a paisagem com suas cordilheiras e seus picos, os vales cobertos de neve e as rochas pretas. Não tem nada além disso no universo.
Sorrio. Não falo com as pessoas. Só respiro, olho e existo. Este é o Ártico. Estou aqui. Este é o meu presente. Este é o meu mundo.
Sou uma garotinha, me sinto confortável assim. Sinto o mundo me envolver. Eu me sinto segura. Fecho os olhos e penso na escola, nas festas de aniversário, em irmãos mais velhos e no dia animado que teremos amanhã no Flambards. Mal posso esperar para andar no pedalinho com Jacob pedalando. Eu me perco nessa felicidade. Quero ir ao Flambards.
A água reflete as rochas como se fosse um espelho. Estou olhando para uma cordilheira de montanhas e para outra cordilheira de cabeça para baixo. Estou dentro de um barco. É maravilhoso. Eu me debruço sobre a água espelhada e olho para o rosto refletido lá embaixo.
Não é um rosto de dez anos. É o rosto de uma mulher. Ondas distorcem seus traços. Olho até alguém tocar meu ombro.
— Feliz? — ela pergunta. — Você parece tranquila. Estou incomodando? Você parece estar meditabunda.
Desvio o olhar da paisagem hipnótica e olho intrigada para a pessoa à minha frente. Não tenho dez anos. Os anos passaram depressa. A pessoa falando comigo é adulta e é minha amiga. Faço um esforço para acompanhar a conversa. Olho para minha mão. Seja normal, ela diz. Eu me esforço e tento fazer o que é esperado.
— Estar o quê? — Sento na cadeira ao lado dela. Minhas mãos estão congelando. Esfrego uma na outra.
— Meditabunda? Li em um livro de idiomas. Era um livro antigo.
— Não sei se as pessoas falam isso. — Tenho quase certeza de que nunca ouvi ninguém dizer que estava meditabundo. Sou Flora. Tinha dez anos, mas não tenho mais. Agora sou muito mais velha. Tenho que agir como adulta para ninguém saber que, por dentro, tenho dez.
— Tudo bem. Vou riscar da minha lista, se você acha que é estranho. Vou falar que você está pensativa.
— Ah — respondo. — Estou feliz, só isso.
— Eu também. Esta é a minha maior viagem. Eu economizei para isso. Um dia inteiro na água. É maravilhoso.
— Sim. É como magia. É um mundo diferente.
— E está bem agasalhada com esse casaco maravilhoso? Suas mãos estão frias.
— Sim, mas estou agasalhada. E você?
— Meu casaco é normal, não é maravilhoso. Mas, sim, estou bem agasalhada. Pega minhas luvas. Pode usar quanto quiser. Você comprou o casaco especificamente para esta viagem?
Pego as luvas, que são brilhantes e forradas, e as visto. Não sei se comprei o casaco especificamente para esta viagem, então finjo.
— Sim. Achei que seria bem quente — respondo. — Você comprou o seu casaco para esta viagem? As pessoas fazem muitas compras antes de viajar? Comprou essas luvas?
— Elas fazem, mas eu não. Não fiz para esta viagem, pelo menos. Tenho essas coisas todas onde moro. Na Finlândia, temos que usar esse tipo de agasalho no inverno. O casaco. As luvas. As botas também. Vou ter que fazer compras se for a algum lugar onde tenha praia e sol quente.
— Como é a sua vida na Finlândia?
— É legal. Eu moro em uma cidade chamada Rauma. Acho que é um lugar bonito. Tem muitas casas de madeira. Fica na água e todo mundo tem barco. Quem não tem acaba precisando dar um braço e uma perna por um barco.
— Sei.
— Isso funciona? É uma expressão curiosa. Eu não daria um braço e uma perna para ter um barco. Seria difícil navegar só com um braço e uma perna.
— Sim, seria. Realmente seria. — Balanço a cabeça para me concentrar. Tento expulsar da mente a imagem de um marinheiro com apenas um braço e uma perna. — Você sempre morou nessa cidade?
— Não. Eu nasci no norte, em um lugar chamado Rovaniemi, na Lapônia. Parte da minha família ainda está lá. Talvez tenha sido isso que me atraiu para cá, para Svalbard. A coisa do norte.
Minha estratégia de fazer perguntas sem responder nada parece estar funcionando. Faço uma atrás da outra sobre a vida na Finlândia, a vida de quem viaja muito, a vida de maneira geral, e Agi responde tudo com alegria. Sempre que ela me pergunta alguma coisa, eu sorrio, balanço a cabeça e pergunto que tipo de animais eles têm na Finlândia ou a que assistem na televisão. O barco segue em frente, navegando pela imensidão do Ártico. Duvido muito de que eu tenha sido mais feliz que agora em toda a minha vida. Se estou fazendo as mesmas perguntas várias vezes, ela não parece se importar.
Olho para minha mão de vez em quando, mas não tem nada para ler, porque minhas mãos estão quentes e eu estou usando luvas.
O tempo passa. Este novo universo me envolve completamente, e o antigo se dissolve em nada.
O homem do barco chama todos os passageiros para o convés inferior, e lá ele informa que estamos quase chegando ao ponto mais distante da nossa viagem. Ele tem falado com as pessoas durante a maior parte do tempo, mas eu o ignorei.
— Tentamos ir a Pyramiden — ele explica e aponta para a frente. — É uma velha cidade mineira russa. Já foi muito movimentada, mas em 1998 as pessoas foram todas embora. Sabiam que não havia mais dinheiro. Foi muito sinistro. Havia copos de café ainda com um pouco da bebida, comida deixada em cima das mesas. Às vezes conseguimos ir até lá dar uma olhada, mas hoje tem muito gelo. Então vamos seguir mais um pouco adiante e paramos para almoçar, depois começamos a viagem de volta. Olhem... uma foca!
Tenho um telefone, e o telefone tira fotos. Preciso tirar as luvas para usá-lo, mas não paro para ler as palavras em minha mão. Com todas as pessoas no barco, um total de vinte e duas, eu me debruço e fotografo a grande e preguiçosa foca de cara engraçada que descansa deitada em uma camada de gelo perto dali. Ela se vira, olha diretamente para nós (parece um homem de bigode, o rosto alaranjado em volta da boca, os olhos caídos) e rola para fora da placa de gelo para nadar. Quero contar a Jacob sobre a foca. Jacob teria adorado.
— É muito bonita — diz uma mulher atrás de mim. Ela é idosa, usa o cabelo preso em um coque arrumado e batom rosa-claro.
— É, sim — concordo. — E não parece muito contente com a gente, não é?
— Parece já ter visto tudo isso antes.
Concordo balançando a cabeça. Não quero dizer mais nada, nem preciso. Fico quieta.
O barco dá um tranco e reduz a velocidade, e estamos atravessando uma fina camada de gelo e seguindo em frente. Isso é empolgante, e eu tiro fotos de tudo. A cidade ao longe é estranha. É um amontoado de prédios de tijolos vermelhos congelados. Tento imaginar aquele lugar vazio, ainda com as coisas dos mineiros russos, mas não consigo.
— Olha! — alguém grita do outro lado do barco. O grito vira um coro. — Urso! Urso!
Todos nos viramos para olhar. Andando sobre o gelo entre o barco e a cidade mineira, vejo um urso-polar e dois filhotes.
Tiro algumas fotos, depois guardo o telefone e só observo. Essas criaturas são violentas. Sei disso porque está escrito no meu braço, nos cadernos, em todos os lugares para onde olho. São bonitas. Andam com elegância em seu próprio ambiente e, se percebem que tem um barco cheio de humanos olhando para eles, não se incomodam nem para olhar em nossa direção. Os filhotes parecem fofos, mas sei que adorariam arrancar e comer os olhos de alguém.
E a mãe faria qualquer coisa para proteger os filhotes. Qualquer coisa. Arrancaria os membros de quem tentasse tirar seus filhos.
Ouço um homem de casaco vermelho perguntar ao nosso guia:
— Este gelo é muito fino para eles conseguirem andar até o barco, não é?
— É, sim — responde o guia. E ergue a voz: — Pessoal! Só para que fiquem sabendo, eles não vão vir até aqui. Entenderam? Estamos totalmente seguros.
Ouço risadas e murmúrios de alívio. Todos nós olhamos hipnotizados para os ursos, que atravessam a placa de gelo em direção à cidade mineira, se afastando de nós.
EU VI URSOS-POLARES, escrevo na palma da mão esquerda, porque esse é o único espaço vazio. Fotos no telefone, acrescento em letras pequenas. É bom não estar mais usando aquelas luvas.
Vejo que Agi está me observando.
— Isso é um hábito inglês? — ela pergunta, de um jeito simpático. — Escrever na mão? Percebi que você sempre faz isso. Não vejo outras pessoas fazendo a mesma coisa. É típico da sua região?
Penso em todas as possíveis respostas que posso dar.
— Sim — digo a ela. — Sim, é isso. É um hábito nosso na Cornualha.
Almoçamos a comida que foi preparada no convés inferior, em uma churrasqueira: pedaços de bacalhau e carne, pães, salada de arroz e salada comum. Entro na fila com um prato na mão, pronta para aceitar tudo que é oferecido.
— Que carne é essa? — pergunto à mulher que está servindo a comida no balcão.
— É baleia — ela responde. — Quer experimentar?
Baleias são grandes. Tenho certeza de que não se deve comê-las. O peixe parece bom, a salada também.
— Não, obrigada — digo. — Baleia não.
— Tem certeza? É uma comida típica deliciosa.
Baleias são enormes. A ideia de comer pedaços de uma delas dispara um alarme dentro de mim. Tenho certeza de que isso não é algo que uma pessoa deva fazer. Tenho certeza de que não comer baleia é uma regra.
— Não, obrigada. Só o peixe, por favor.
— É claro. Como quiser.
Levo meu prato para o convés superior, sento na mesma cadeira e olho para o gelo, para a cidade mineira russa e para os pontinhos distantes que são os ursos-polares. Tiro algumas fotos com o telefone, mas agora ele é só uma câmera, porque não tem internet nem sinal de celular.
Se pudesse ficar aqui para sempre, eu ficaria bem. Seria feliz.
Horas mais tarde, estamos voltando para a cidade, e eu não quero voltar. Não quero mais ter que circular pelo mundo. Quero sair de novo no barco, voltar para onde estão os ursos, as focas e os papagaios-do-mar que voam perto da superfície da água. Quero ficar com essas pessoas, com o homem que diz que os ursos não vão nos pegar, com as outras pessoas e com Agi.
— Olha — diz Agi e segura minha mão. — Olha, ali estão as antenas de satélite. Está vendo?
Sigo a direção que ela aponta. No topo da colina, do mesmo lado onde fica a cidade, vejo uma fileira do que parecem ser pequenas esferas. Elas estão bem na linha do horizonte, no alto de uma encosta coberta de neve. Percebo que não são pequenas. Estão longe.
— Antenas de satélite?
— Sim. Lembra? Estávamos falando sobre elas quando você me contou sobre o seu namorado.
— Meu namorado.
Sou tomada pelo horror. Olho para minhas mãos, mas elas só dizem para eu ser normal, falam sobre os ursos e contam que estou em Svalbard. Elas me dizem para ser corajosa, e, quando levanto a manga grossa, a palavra “Drake” salta da pele e me atinge como um soco na cara. Esfrego o braço, mas o nome está escrito nele com sangue.
Drake trabalha no lugar dos satélites, e estou olhando para os satélites agora. Estou olhando para o lugar onde Drake trabalha, e ele é o homem que eu amo, e acabei de passar um dia glorioso a bordo de um barco, quando devia estar procurando por ele. Vim aqui para procurar Drake e não fiz nada disso.
Eu estava com ele em uma praia. Está começando a perder a nitidez.
Quero debruçar na grade e vomitar.
— Flora. — Agi toca meu braço. — Tudo bem? Que foi? Desculpa se falei alguma coisa errada. Estou sentindo que as coisas não foram tão bem entre você e o seu Drake. Você foi procurá-lo há dois dias, mas ele não está com você.
Respiro fundo. Estamos quase em terra firme. Quero gritar, berrar, me jogar do barco e nadar o mais depressa que posso (que pode não ser muito rápido, se é que eu sei nadar) até o lugar dos satélites e rastejar montanha acima para encontrá-lo. Mas não vou fazer isso. Não vou porque, se eu ficar aqui, agindo de um jeito calmo e normal, logo estarei saindo deste barco do jeito normal. Vou sair do barco, manter a calma, depois vou correr e fazer tudo o que eu puder para encontrar o meu Drake. Vou encontrá-lo, nem que para isso eu tenha que subir essas montanhas sozinha. Vou encontrá-lo nem que tenha que enfrentar ursos-polares. Eu o beijei na praia, mas está começando a apagar.
Fecho os olhos com força. Vasculho o interior de minha cabeça, abro caminho entre memórias de infância, da escola, de Jacob e Paige, do meu pai me carregando nas costas, empilhando pedras comigo na praia, nadando comigo no mar.
Consigo ver Drake comigo na praia, mas não ouço o que estamos dizendo.
Meu telefone começa a apitar quando voltamos a ter sinal de celular. Mensagens chegando. Olho para elas rapidamente para ver se tem alguma do Drake, mas são todas dos pais. Não leio nenhuma.
Sou a primeira a sair do barco e recuso a oferta de voltar ao hotel no ônibus.
— Vou procurar o Drake — digo a Agi e me afasto dali correndo. É muito tarde. Já é tarde demais.