As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

Dandara dos Santos Silva · Capítulo 11 de 26

Páginas do PDF

As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

5. Territórios negros dissidentes

5. Territórios negros

 

dissidentes

 

Espaços encontram-se reconfigurados a partir de práticas negras, locais como o bairro, a cidade, as atividades de trabalho e o bloco, na perspectiva de uma "espacialização" das "Nagôs Africanas" e das culturas negras locais de Belmonte. Com isso, preciso dizer que a noção de território aqui apresentada encontra ressonâncias com a concepção filosófica de Deleuze e Guattari (1992, p. 46), quando dizem que:

 

O conceito é evidentemente conhecimento, mas conhecimento de si, e o que ele conhece é o puro acontecimento, que não se confunde com o estado de coisas no qual se encarna. Destacar sempre um acontecimento das coisas e dos seres é a tarefa da filosofia quando cria conceitos, entidades. Erigir o novo evento das coisas e dos seres, dar-lhes sempre um novo acontecimento: o espaço, o tempo, a matéria, o pensamento, o possível como acontecimentos...

 

O diálogo com a filosofia da diferença, com seu modo de produzir conceitos, absorvendo a dimensão dos acontecimentos, colabora na compreensão do conceito de território em sentido mais amplo, ultrapassando o uso que dele fazem a etologia e a etnologia, por exemplo. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e articulam a outros territórios existentes e aos fluxos cósmicos.

 

O território aqui é relativo ao vivido, é um sistema de apropriação, subjetivação, um conjunto de projetos e representações, de comportamentos, de investimentos no tempo e nos espaços sociais, culturais, estéticos e cognitivos. (GUATTARI; ROLNIK, 1996, p. 323)

 

A partir da concepção de território apresentada por Guattari e Rolnik, analiso as produções das "Nagôs Africanas" e dos grupos culturais negros do Bairro da Biela. É possível notar que os grupos, considerando suas organicidades durante as apresentações pelas ruas da cidade, escapam do mapa oficial do Carnaval e produzem uma outra cartografia, uma cartografia dissidente. A territorialização pelos blocos se dá pela produção de subjetivações, isto é, pelas relativas às vivencias cotidianas e expressas pelas danças, pelas músicas, pelos toques dos tambores. É nos momentos das apresentações dos blocos que as construções estéticas e cognitivas podem ser lidas e compreendidas como reterritorialização do espaço do Carnaval e da cidade.

Organizadas em duas fileiras, as mais velhas estão nas pontas, próximas aos tocadores, e as mais novas no outro extremo. Ao meio vem a baiana, dona Honorinda, toda vestida de branco, com sua saia contendo sete camadas, em respeito ao rito religioso do Candomblé, e o tabuleiro na cabeça, cheio de frutas. Ainda no meio, junto com a baiana, estão as porta-estandartes Carol e Pedrinha – são as mais jovens do grupo. A voz de dona Dezinha, puxando as chulas cantadas por todas, sem microfone ou carro de som, com a força das suas cordas vocais de mais de setenta anos, e ao ritmo dos tambores tocados pelos cambones, ecoa pelas ruas. Os cambones conduzem os atabaques, função tradicionalmente ocupada por homens, e são atravessados pela presença feminina de Soleni, que também compõe o grupo de tocadores, de modo que sua presença feminina provoca rasura no espaço hegemonicamente masculino. E, assim, as "Nagôs Africanas" seguem provocando descentramentos.

Durante o percurso, elas seguem pelas ruas de Belmonte, passando por pontos que não pertencem exatamente ao circuito do Carnaval oficial da cidade. Elas próprias decidem seus percursos, traçam seus caminhos.

No rito do desfile, a trajetória segue uma linha tecida a partir de suas afetividades, que acabam por marcar os pontos de parada da brincadeira. Junto aos moradores da rua, as "Nagôs" se relacionam com sua religiosidade, entre outros elementos. O cortejo, por fim, cruza o circuito oficial. Esse momento parece ser um dos de maior relevância, quando a brincadeira é manifestada da mesma forma que nos outros pontos de parada. Ao se apresentarem naquele espaço, as "Nagôs" seguem no mesmo ritmo, dando continuidade à sua tessitura. De volta para a Biela, pois, nesse momento, o fluxo é contínuo, preanunciam os outros carnavais.

Elas não estão centradas em uma única vontade de participar do Carnaval e realizar o percurso estabelecido pela prefeitura. Mas cortam esse espaço e formam outros percursos, outros territórios negros dissidentes no Carnaval, e no lugar onde acontecem estão suas relações cotidianas. É muito difícil entrar na Biela e perguntar por uma das baianas que brincam nas "Nagôs", por exemplo, a uma criança moradora do Bairro, e ela não saber imediatamente indicar onde cada uma das "Nagôs" mora ou, no mínimo, saber de quem as "Nagôs" são parentes.

As linhas dessas mulheres negras nos guiam em direção aos "territórios negros" dissidentes que emergem das suas inquietudes e produções do "lugar onde se vive", contrastando com suas condições socioeconômicas apontadas pelo IBGE (2010). Não é pelo fato de a Biela agregar um grande número de pessoas da população negra que ela é vista como "território negro" (SILVA, 2009). É preciso ponderar que a inserção da população negra em bairros populares não se deu simplesmente por livre escolha, mas foi provocada por um longo processo histórico de exclusão racial, implantada desde o colonialismo, com a escravidão.

A concepção de território negro aqui é enveredada por dimensões e linhas de força como as do "afeto". Por meio dessa análise, percebe-se como a população negra, em situação de desigualdade de condições, consegue romper com o espaço desenhado pelo Estado e, a partir de seus movimentos, construir novos espaços consolidados pela afetividade. Assim, a população negra reterritorializa "o local onde se vive" a partir da criação de redes de sobrevivência, resistência, existência, irmandade e afetividade.

 

[...] mesmo a senzala, desenhada pelos senhores brancos como espaço de confinamento dos escravos [...], configurou-se como território negro. [...] Foi também no interior dessa arquitetura totalitária que floresceu e se desenvolveu um devir negro, afirmação da vontade de solidariedade e autopreservação que fundamentava a existência de uma comunidade africana em terras brasileiras. O confinamento na terra de exílio foi capaz de transformar um grupo – cujo único laço era a ancestralidade africana – em comunidade. (ROLNIK, 1989, p. 2)

No desfile das "Nagôs Africanas", quando dançam pelas ruas da Biela, todo o bairro se movimenta. Ou nas palavras de Angela Davis:

 

Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras, muda-se a base

do capitalismo. (DAVIS, 2017)20

 

É a partir desse movimento das ruas que se revela o jeito negro de viver da Biela, construído por laços de afetividades, transformando o bairro em um território negro. O processo de formação dos territórios negros segue em direção ao rompimento de espaços com circuitos fechados, transformando-os em multiplicidades. Ou seja, o lugar onde se vive é produzido coletivamente de dentro para fora por uma espécie de dispositivo coletivo que elabora e reelabora suas formas de ser, fazer e estar no mundo.

Quando entrarmos no Bairro da Biela, logo tem-se a impressão de que suas ruas são semelhantes aos demais bairros populares da cidade. No entanto, após transitar por suas ruas e avenidas com um pouco mais de atenção, passa-se a perceber suas rasuras, como, por exemplo, crianças descalças brincando na rua observadas pelos olhos atentos dos vizinhos sentados na porta de casa ou por aqueles que passam pela rua.

A disposição das casas também nos chama a atenção, pois são construídas umas bem próximas das outras, parede com parede, demonstrando certa proximidade entre os moradores, embora seja sabido que boa parte das pessoas residentes possuem ligações familiares. As linhas de fronteiras entre a casa e a rua são quase inexistentes, percebidas desde o hábito dos moradores de pôr as cadeiras na calçada para conversar no final da tarde, até pelo fato de as portas de entrada das casas estarem rentes às calçadas. A relação dialética entre a casa e a rua constitui novos espaços que separam as fronteiras do espaço fechado que normatiza as relações entre o público (rua) e o privado (casa/residência).

Segundo Roberto DaMatta (1997, p. 96), os espaços da rua e da casa significam mais que ambientes distintos, eles revelam "[...] papéis sociais e ideologias, ações e objetos específicos, pois todos esses elementos constitutivos de uma sociedade e cultura não estão soltos ou individualizados na estrutura social". Tal dinâmica pode ser notada na Biela, quando percorremos o bairro e notamos as gaiolas de pássaros penduradas nas janelas das casas, prática que fala muito sobre o cotidiano dos seus moradores e de como são estabelecidas as dinâmicas sociais e culturais no bairro. Tais dinâmicas podem ser percebidas também quando os trabalhadores da pesca se sentam à porta de casa para consertar ou confeccionar redes de pesca. Tais práticas revelam os elementos simbólicos que configuram os espaços da rua e da casa como outros espaços sociais ao produzirem símbolos e significados no bairro.