As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
1.1. Problemática da pesquisa
É dentro desses campos de avanços nas pesquisas e estudos voltados para as relações étnico-raciais que esta pesquisa agora se configura em formato de livro, desdobrando-se os caminhos de consolidação de práticas e autorias contra-hegemônicas, gestadas em programas de pós-graduação e em graduações nas universidades públicas brasileiras, resultantes das políticas de ações afirmativas no campo da educação.
1.1. Problemática da pesquisa
O PPGER resulta, dentre outros fatores, das demandas oriundas das Leis no 10.639 (BRASIL, 2003) e no 11.645 (BRASIL, 2008), que estimulam o aprofundamento e a expansão de pesquisas e intervenções relacionadas ao campo das relações étnico-raciais e suas problemáticas nos diferentes espaços educativos.
Trabalhar com a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena" nos currículos escolares, tal como a legislação propõe, não significa ter que pensá-la enclausurada nos espaços escolares ou em outros espaços formalmente destinados a ensinar pessoas. Ao contrário, defendo o argumento de que as instituições sociais, inventadas para moldar condutas a partir de uma perspectiva eurocentrada e condizente com as exigências das sociedades capitalistas, não sejam os melhores espaços para aprender/ensinar os saberes étnico-raciais. Isso porque, conforme nos mostra os estudos da professora Eliana Póvoas (2018, 2019), para escapar das armadilhas das identidades fixadas pelas normativas institucionais e desestabilizar os caprichos da disciplina e seus efeitos sobre os corpos negros, presentes nos processos de escolarização, são produzidos, dentro e fora das escolas, movimentos de subversão dos dogmas, das normatizações e dos mecanismos de controle.
Partindo desse entendimento, penso o "Bloco das Nagôs
Africanas" da cidade de Belmonte (BA) 4 como um espaço de ensino-aprendizagens em constante processo de desconstrução de estereótipos raciais, tal como proposto pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (BRASIL, 2004). Por efeito disso, o "Bloco das Nagôs Africanas" constitui-se em um espaço de experiência educativa que envolve todas as camadas da sociedade, afetando de modo significativo os sujeitos envolvidos em seu cotidiano.
Trabalho com a hipótese de que as "Nagôs" de Belmonte têm muito que ensinar aos processos de escolarização e suas tentativas de "ensinar" as relações étnico-raciais a partir de modelitos prêt-à-porter, produzidos com compreensões equivocadas sobre os modos de saber/fazer do povo negro. A justificativa para minha hipótese é que os grupos afrocarnavalescos são elementos fundantes do Carnaval de rua e suas apresentações, além de significar festa, também demarcam um lugar educativo, político e cultural da memória negra em diáspora da população afro-belmontense no campo da diferença étnica e cultural existente nos percursos das formações das identidades.
Quando penso o espaço da rua, do bloco, das danças, dos cantos e do "Bloco das Nagôs Africanas" como espaço de ensino e aprendizagem, desloco-me a refletir sobre como o ato de subjetivação do fazer negro belmontense, protagonizado pelas mulheres das "Nagôs", estimula o acontecimento das multiplicidades subjetivas que perpassam espaços, corpo, rua, escola, diretrizes, relações étnico-raciais, discursos, Carnaval, festa etc., provocando o acontecimento do ensinamento e do aprender dentro do espaço do vivido, por meio de corpos territorializados e desterritorializados, produzindo espaços habitáveis.
O "Bloco das Nagôs Africanas" nos convida ao estudo das relações étnico-raciais da população negra da Bahia e de Belmonte a partir do espaço vivido, dos acontecimentos e dos agenciamentos coletivos e individuais. Os grupos afrocarnavalescos se apresentam em desfiles realizados a partir dos elementos religiosos do Candomblé, trazem para o Carnaval os elementos da ancestralidade e da filosofia africana, somada às lutas por afirmação da negritude local. À vista disso, é possível pensar as práticas culturais negras na cidade de Belmonte não mais a partir de um lugar folclorizado, pré-fabricado, mas, sim, do seu espaço educativo, político, social e filosófico.