As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
3. "Eu vim de longe! Eu vim de longe..."
3. "Eu vim de longe! Eu vim de
longe..."
O exercício de falar primeiro das "Nagôs Africanas", apresentando cada uma delas a partir do vínculo e diálogo que construímos juntas, foi o meu primeiro passo para desenvolver o método da escrita deste livro. Foi feito assim a fim de compreender/expressar os movimentos que emergem dos fazeres afrodiaspóricos realizados por elas, em microrrelações afetivas, políticas e sociais. Apresentá-las e conhecê-las foi fundamental para notarmos suas linhas de fuga e bifurcações, propostas por Deleuze e Guatarri (1995), além do viés, proposto por Stuart Hall (2013), sobre os movimentos da diáspora. Esses movimentos nos levam às linhas investigativas desses autores já quando nos deparamos como nome dado ao bloco "As Nagôs Africanas". Nome carregado de significados e sentidos, uma vez que o termo "Africanas" nos remete, imediatamente, à África, ao outro lado do Atlântico local, lugar de encontro entre povos e etnias africanas – interseção de etnias que, no desconhecido mundo colonial, se encontraram e, agora, nesta nova realidade diaspórica, se africanizam em seus corpos, de maneiras diversas e pouco conhecidas.
É dentro desse contexto que as "Nagôs Africanas" nos permitem ler sobre o corpo africano e pensá-lo como uma das ferramentas, corpo-mapa, corpo-carta, cartografias, que o sujeito em diáspora utilizou para se relacionar com o ecossistema em seu entorno, com sua ancestralidade e com sua terra. O sujeito em diáspora fez do seu corpo linguagem, reza, filosofias africanas, canções, concepção de mundo, religiosidades, memórias, irmandades, alegrias e viu também seu corpo ser embrutecido pelo colonialismo. São essas algumas linhas que o nome "Nagôs Africanas" evidencia quando desfila pelas ruas de Belmonte. Como bloco de Carnaval, composto por mulheres negras, ao entoarem suas histórias e não se esquecendo dos dolorosos efeitos da escravidão em seus corpos cantados em suas chulas, elas performatizam o movimento da diáspora e os efeitos do colonialismo.
Segundo Mbembe (2014), o corpo africano, ao ser negrificado, passou a ser construído, dentro da máquina social mercantil, como técnica indissociável do capitalismo, inventada com o objetivo de excluir, embrutecer e degradar.
Humilhado e profundamente desonrado, o negro é, na ordem da modernidade, o único de todos os humanos a ter a carne transformada em coisa, e o espírito, em mercadoria – a cripta viva do capital. Mas esta é a sua manifesta dualidade – numa reviravolta espetacular, tornou-se símbolo consciente de vida, força pujante engajado no ato de criação e até de viver em vários tempos e histórias ao mesmo tempo. (MBEMBE, 2014, p. 19)
Os povos africanos que foram extraídos das suas terras originárias pelo mercantilismo europeu – a partir do século 16, por via do tráfico atlântico negreiro, que visava alimentar o sistema escravocrata nas Américas –, em sua partida, a única bagagem que lhes foi possível carregar foi o próprio corpo. Ao adentrar o universo ocidental colonial, esse corpo se tornou espaço de existência e, ao mesmo tempo, continente e limite no sistema colonial escravista (ROLNIK, 2007).
Nesse sentido, ao longo das páginas deste livro, por meio dos registros das câmeras, foi possível identificar, pelos corpos em dança, pelo som dos tambores, pela musicalidade e das religiosidades, "a imagem-movimento" (DELEUZE, 1983) das "Nagôs Africanas" em seus processos de produção de subjetividades. Isto é, as "Nagôs" realizam uma dialética/ travessia entre signos e significados, atualizando suas práticas culturais afrodiaspóricas. Nas palavras de Deleuze (1983, p. 9), "[...] o movimento assim concebido será, portanto, a passagem regulada de uma forma a outra, isto é, uma ordem de poses ou de instantes privilegiados". Uma dança, em um corpo-reza, dança-reza, corpo-festa, corpo-negro, produz subjetividades afrodiaspóricas.
Em um sábado de Carnaval, no momento da chegada das "Nagôs" à casa de Ujuraí, Pai de Santo de dona Dezinha, a dança se fez presente. A chegada das "Nagôs" se transformou em um corpo-território de alegria, expresso por seus movimentos harmonizados pelas chulas cantadas por dona Dezinha e marcado pelos toques dos atabaques. A dança tornando-se imagem provoca quase que uma visão instantânea da realidade experimentada pelas "Nagôs Africanas". Pois, por meio das imagens das "Nagôs" dançando, é como se fosse possível exprimir suas realidades em um devir, presentes nas suas expressões (DELEUZE, 1983).