As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
5.3. Os "Netos de Gandhi"
O "Bloco dos Netos de Gandhi" é um dos mais expressivos blocos Afro no Carnaval de Belmonte. Além de ser um dos mais antigos da cidade, é também o que agrega um grande número de participantes, principalmente por sua brincadeira de homenagear o "Afoxé Filhos de Gandhi", um dos blocos de Afoxé mais antigos de Salvador. Sua história é fortemente marcada pela religiosidade do culto aos Orixás, fator determinante para que a brincadeira tivesse início (SOARES, 2014).
O "Bloco dos Netos de Gandhi" data do final da década de 1970. A sua trajetória nos desfiles começou como uma brincadeira organizada por um grupo de mulheres moradoras da Biela, foram elas: dona Estrelita, dona Ana Ursulano, dona Aurea, dona Nenem e dona Juranice. De início, elas tiveram o apoio do Pai de Santo Walmir Matalandê, e o "[...] objetivo do bloco era fazer uma brincadeira de Carnaval inspirada na cultura dos terreiros, com as pessoas vestidas de almas e de baianas" (SOARES, 2014, p. 195).
Outra versão apresentada por Soares é a de seu Celso, o atual presidente do "Bloco dos Netos de Gandhi", que relata como surgiu a iniciativa de Estrelita e os membros da família Ursulano de montar o "Bloco das Almas". A inspiração para o bloco veio do ritual religioso organizado pelo Pai de Santo Gildásio, que começou a realizar a entrega de oferendas para os moços e exus na sexta-feira de Carnaval, seguindo pela avenida Rio-Mar, com cânticos de culto aos Orixás, ao som dos tambores tocados pelos cambones, em cortejo, acompanhado pelas filhas e filhos de Santo, até o local da "entrega". Este movimento festivo religioso atravessava a principal rua da cidade e o Carnaval, cativando alguns foliões, que, com o passar do tempo, começaram a se juntar à brincadeira, vestidos de branco ou usando um lençol branco. "Com o passar do tempo, a entrega virou uma brincadeira tradicional que abre o carnaval belmontense." (SOARES, 2014, p. 184, grifo do autor).
Com o crescimento da brincadeira na sexta-feira de Carnaval, houve também a ampliação do bloco, o que demandou mudanças significativas na sua organização. Em homenagem ao "Bloco Afoxé Filhos de Gandhi", que acontece em Salvador, as lideranças do "Bloco das Almas" mudaram o seu nome para Filhos de Gandhi. Outras transformações ocorreram quando seu Celso assumiu a organização do bloco na década de 1990, a convite de uma das fundadoras do "Bloco das Almas". Seu Celso é filho de Belmonte, mas passou uma longa temporada em Salvador, onde vivenciou e experimentou, em seu cotidiano, os Afoxés, os blocos Afro, as escolas de samba e os Candomblés de rua, nas festas populares de Salvador, manifestações, em sua maioria, marcadas pela expressiva participação afrorreligiosa.
Seu Celso, ao assumir o bloco, realizou mudanças significativas, entre elas a mudança do nome, de "Bloco Filhos de Gandhi" para "Netos de Gandhi", ação que foi associada por muito tempo à criação da Associação Beneficente Cultural Netos de Gandhi, com o desenvolvimento de atividades voltadas para a área social. Já no que se refere à brincadeira, o bloco ganhou mais incrementos, com a inclusão das baianas, da saudação aos Orixás, com as participantes vestidas com as indumentárias em referência aos Orixás, e a permanência do tabuleiro para a "entrega".
O "Bloco Netos de Gandhi" nasce do fluxo do desejo da brincadeira do Carnaval e de "entrega" religiosa, como se pode perceber no registro desta fotografia do desfile da sexta-feira de Carnaval, quando o bloco entrou na avenida Rio-Mar, com as mulheres vestidas saudando os Orixás, Iansã, Oxossi, Oxum, a Cigana, os Caboclos e a Baiana, com o tabuleiro representando a entrega da oferenda para os Orixás. Nesse fluxo, o bloco, agora organizado por seu Celso, segue provocando desterritorializações religiosas, políticas e sociais nos espaços da cidade de Belmonte.