As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
2. Saúdo pai, saúdo mãe, saúdo todos os orixás! Minhas "nagôs" em primeiro lugar
2. Saúdo pai, saúdo mãe, saúdo
todos os orixás! Minhas
"nagôs" em primeiro lugar7
As "Nagôs Africanas", ao desfilarem, produzem no Carnaval e na rua duplo efeito: romper com os mecanismos de controle sobre as práticas culturais negras e corpos negros e evidenciar a sutileza desses mesmos dispositivos de controle e regulação social. Guattari e Rolnik (1996) convencionaram chamar essas práticas de maquínico capitalístico, por se tratar de uma produção de subjetividade de natureza industrial, fabricada, modelada para ser consumida. Podemos perceber a instrumentalização do pensamento de Guattari e Rolnik (1996), quando a prefeitura de Belmonte nomeia os grupos afrocarnavalescos da cidade como "blocos culturais ou como carnaval cultural", a fim de arquitetar um produto de consumo. Sendo assim:
[...] o que caracteriza os modos de produção capitalísticos é que e1es não funcionam unicamente no registro dos valores de troca, valores que são da ordem do capital, das semióticas monetárias ou dos modos de financiamento. Eles funcionam também através de um modo de controle da subjetivação, que eu chamaria de "cultura de equivalência" ou de "sistemas de equivalência na esfera da cultura". (GUATTARI; ROLNIK, 1996, p. 15-16)
Mas, como já assinalado no capítulo anterior, a presença das "Nagôs Africanas" no Carnaval de Belmonte se configura como um ato político rizomático, por demarcar o lugar político, econômico, social, cultural e da memória em diáspora da população afro-belmontense no campo da diferença étnica e cultural existente nos percursos das elaborações das identidades. Ato também percebido a partir dos elementos religiosos do Candomblé, religião de matriz afro-brasileira, que atravessa as mulheres do grupo. Assim, as "Nagôs" marcam o Carnaval com elementos da memória e da filosofia africana, somados às lutas por afirmação da negritude brasileira.
À vista disso, é possível refletir sobre as práticas de enunciação que essas mulheres negras produzem na cidade de Belmonte. Agora, não mais a partir de um lugar folclorizado, romantizado e fortalecedor do discurso da harmonia racial, mas, sim, do seu espaço político, social e filosófico na reflexão do ser na diáspora.
Há uma luta contínua e necessariamente irregular e desigual, por parte da cultura dominante, no sentido de desorganizar e reorganizar constantemente a cultura popular; para cercá-la e confinar suas definições e formas dentro de uma gama mais abrangente de formas dominantes. Há pontos de resistência e também de superação. Essa é a dialética da luta cultural. Na atualidade, essa luta é contínua e ocorre nas linhas complexas da resistência e da aceitação, da recusa e da capitulação, que transformam o campo da cultura em uma espécie de campo de batalha permanente, onde não se obtêm vitórias definitivas, mas onde há sempre posições estratégicas a serem conquistadas. (HALL, 2013, p. 255)
Dentro deste campo de batalha cultural, as mulheres negras das "Nagôs Africanas" têm estabelecido posições estratégicas na disputa de poder e lutam perpendicularmente em outros segmentos sociais, por estarem inseridas em uma sociedade majoritariamente branca e masculina, cujas práticas de inferiorização de mulheres negras é uma constante. Pensando desse modo:
[...] a inferiorização das mulheres negras se desenvolve a partir de um contexto onde assumem relevância características biológicas como cor da pele e sexo, que vão embasar sistemas de hierarquização social definidos como racismo e sexismo. (WERNECK, 2007, p. 10)
A atuação das mulheres negras, a partir de suas "[...] estratégias culturais capazes de fazer a diferença" (HALL, 2013, p. 339) no território cultural e demais segmentos da sociedade nos quais estão inseridas, torna-se um ato político, rizoma de sobrevivência e resistência, devido a estratégias desenvolvidas para resistirem às opressões de raça, de gênero e econômicas.
As mestras negras da cultura popular, nas músicas-danças negras, se revelam em condição de equilíbrio no que diz respeito à qualidade de produção dos fazeres e saberes da cultura popular em relação aos homens (LAGO, 2017). Além disso, no governo Vargas (1930-1945), as mulheres desempenharam um papel fundamental nas negociações de reconhecimento e desmarginalização dos fazeres culturais negros, conquistando espaços no reconhecimento de que as práticas culturais negras são também elementos constituintes da sociedade brasileira. Vale ressaltar que a predisposição do governo Vargas em dialogar com essas mulheres tinha o interesse políticos de cooptar as práticas para seu projeto de governo, que estava muito mais ligado em estabelecer uma unidade cultural embasada no discurso do brasileiro cordial do que reconhecer as diferenças étnicas culturais existente na sociedade brasileira (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006; WERNECK, 2007). Werneck (2007) chama-nos a atenção que tal projeto de governo buscou preservar a hegemonia eurocêntrica, marcada pelas linhas de divisão de raça, classe e gênero, o que perdura até os dias de hoje.
Jorgete Lago (2019), em seu artigo sobre as mestras da cultura popular em Belém do Pará, discute a invisibilidade que as mulheres negras sofrem nas pesquisas sobre cultura popular. A pesquisadora argumenta que as divisões de gênero no âmbito da cultura escapam para além do racismo institucional praticado nas esferas públicas, pois também se encontram presentes nos ambientes acadêmicos, onde há pouquíssimas pesquisas que tratam das mulheres negras como protagonistas da cultura popular (LAGO, 2019).
A importância dos mestres é vital para a existência e continuidade das manifestações populares, mas pouco se fala sobre eles. E sobre as mulheres, ou como chamarei aqui de mestras, a divulgação de seus saberes e fazeres junto aos seus grupos é quase nulo. Tal situação demonstra que, apesar da produção musical profícua dos grupos tradicionais, não percebemos uma produção acadêmica e de divulgação que seja proporcional. E, se analisarmos a partir da atuação das mestras, o descaso é maior, demonstrando a relação assimétrica na divulgação da cultura popular em Belém. (LAGO, 2019, p. 3393)
A invisibilidade a que as mulheres negras são submetidas em nossa sociedade sexista pode ser lida a partir de marcadores da cor, pelo estrato social desprivilegiado de recursos econômicos, pelo local onde residem, bairros populares urbanos ou interioranos, pelos cargos de trabalhos ditos não prestigiados, como os de lavadeiras, marisqueiras, agricultoras rurais, donas de casa e trabalhadoras ambulantes. Mas, como poderia ser parafraseado/apontado por bell hooks (2000), "Nós negros temos sido profundamente feridos":
E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais quantos materiais. (HOOKS, 200, p. 5)
As mulheres das "Nagôs" são marcadas pelas relações de gênero e pela categorização de raça e classe, por se tratar de mulheres trabalhadoras rurais e urbanas, negras, marisqueiras, donas de casa, estudantes de escolas públicas, moradoras dos bairros populares. São meninas e mulheres negras marcadas profundamente pelas linhas raciais e sociais desta sociedade onde predomina um modelo euro-americano, referenciado no patriarcado e na manutenção pela e na exploração racial.
A brincadeira das "Nagôs" é uma das mais antigas da cidade de Belmonte. De acordo com os relatos das brincantes, quem organizava as "Nagôs" era a mãe de dona Dezinha, dona Zezé, já falecida. Com a morte de dona Zezé, o esposo de dona Dezinha deu continuidade à organização do bloco. Dona Dezinha nos relata que passou a cuidar da brincadeira, depois do falecimento do esposo. Desde então, está à frente do bloco, há mais de trinta anos.
As "Nagôs" são marcadas pela predominante participação feminina, a começar pela organizadora do bloco, o que nos leva a perceber que a presença masculina no bloco só ocorre com os cambones, os tocadores dos tambores ou atabaques, instrumentos percussivos utilizados normalmente nas práticas musicais e religiosas na Bahia. Porém, essa função de tocador no Afoxé das "Nagôs" não está reservada exclusivamente aos homens. Entre eles, está Soleni, uma jovem de trinta 14 anos, moradora da Biela, que nasceu e cresceu dentro de Belmonte, aprendeu a tocar atabaque com seu avô, senhor Donga, bem novinha, já aos cinco anos de idade. Seu avô é um dos organizadores de outras brincadeiras negras em Belmonte, como "Os Negros" e o "Boi Duro". Soleni é também parente de dona Dezinha, o que nos leva a perceber que o cotidiano de sua infância e adolescência foi marcado por essas brincadeiras.
Quando a vi fazendo parte dos tocadores, fiquei bastante surpresa. E, na primeira oportunidade que tive de conversar com dona Dezinha, perguntei a ela sobre a participação de Soleni entre os tocadores. Não é comum a presença de mulheres nessa função, principalmente quando o grupo possui linguagens/linhagens religiosas Desenvolverei esse debate mais adiante, quando tratarei dos Afoxés.
Mas só ela de mulher que pode tocar?
Dona Dezinha: Só ela, por que só que sabe?! As outras não sabem. (Entrevista em 18/08/2018)
Segui nas batidas de Soleni e retornei a dona Deza ou Dezinha, como costuma ser chamada pelas amigas. Ela é uma senhora bem reservada, de poucas palavras com quem não é do seu círculo de amizade ou não se sinta à vontade. Dona Deza, atualmente, frequenta com regularidade o Candomblé de Ujuraí, seu Pai de Santo. Ela disse em sua primeira entrevista comigo:
Dona Dezinha: Rapaz, não é da agora que ando em Candomblé, não. Mas... depois, fui indo, fui indo, fui desistindo... andei muito em Candomblé por aí, moça. (Entrevista em 18/08/2018)
A mesma dedicação que ela tem pelo bloco ela tem pelo Candomblé. Dona Deza é quem faz a organização de tudo, desde pensar as cores das roupas, as contas (colares) utilizadas pelas baianas e os detalhes das roupas das porta-estandartes até o convite às brincantes. Ela sai junto com Dita, sua amiga há mais de 25 anos de amizade, de casa em casa, convidando as mulheres para participar, principalmente as que já estão no grupo há muito tempo. Além das baianas, elas vão juntas convidar os cambones para tocar, e é nesse momento que alguns homens passam a integrar o grupo.
Dona Dezinha é a responsável pelo apito, objeto que, dentro da organização do Afoxé, orienta os integrantes do bloco e a percussão nos toques e nas músicas que serão tocadas. Portadora e propagadora dos saberes da cultura popular negra, dona Dezinha, além de organizar a brincadeira das "Nagôs Africanas", também organiza um dos grupos de Boi Duro mais bonitos que já conheci. Digo isso porque o grupo de dona Dezinha já teve várias premiações dentro e fora da cidade. A festa do "Boi Duro" acontece durante os festejos de São Sebastião em janeiro. Nesse sentido/contexto, podemos reconhecer dona Dezinha como uma Mestra da Cultura Popular, termo designado/atribuído como uma forma de valorizar os conhecimentos e as experiências da cultura popular, assim como para expressar a contribuição na difusão e manutenção de manifestações tradicionais populares (LAGO, 2017).
Companheira de dona Dezinha no processo de convidar pessoas, sensibilizá-las a participarem, Dita, a amiga há mais de vinte anos, também frequenta a mesma casa de Candomblé que dona Dezinha, o que estreita ainda mais a amizade delas. Dita, Benedita, é uma senhora de mais de sessenta anos, moradora de Belmonte, já trabalhou na mariscagem e atualmente trabalha em um sítio de veraneio, na cidade de Guiaú, um distrito do município de Santa Cruz Cabrália (BA). É uma simpatia de pessoa, sempre bem sorridente, recebe muito bem a todos que chegam para conversar sobre as "Nagôs", porém é um pouco tímida .
Seguindo os movimentos das "Nagôs", encontramos também outras mulheres pertencentes ao grupo que nele ingressaram a partir dos laços de amizade, de religiosidades, de respeito e carinho pela brincadeira. Dentre elas, temos dona Quelé, ou somente Quelé, como é chamada pelas "Nagôs". Ela reside no Bairro da Biela já há muito tempo, acompanha as brincadeiras desde o tempo em que o marido de Deza as organizava. De lá para cá, não deixou mais de dançar nas "Nagôs".
Quelé é uma das baianas das pontas que ficam próximas aos tocadores. Junto com Railda, inicia as coreografias que serão realizadas. Quelé, no Carnaval de 2019, durante uma conversa, minutos antes da saída do bloco, na sala da casa de dona Dezinha, relatou que seguirá nas "Nagôs" enquanto tiver vida e saúde para brincar.
Railda Bonfim dos Santos conta que sua relação com as "Nagôs" foi construída e entrelaçada ainda quando ela era menina e durante sua adolescência, quando acompanhava sua mãe, dona Angelina, já falecida, do lado de fora da roda. Dona Railda recorda de quando sua mãe a levava junto com suas irmãs para acompanhá-la na brincadeira. Assim ela foi pegando gosto pela prática, que também desenvolveu com suas filhas e netas.
Dona Railda, assim como sua mãe, também leva suas filhas e netas para a acompanharem nos desfiles das "Nagôs". A netinha Emanuelle tem apenas dois anos e já vai aos desfiles e apresentações vestida nos trajes de baiana "Nagô".
Dona Detinha, uma senhora de mais de oitenta anos, é prima de dona Dezinha. Está na brincadeira das "Nagôs" desde quando a mãe de Dezinha fazia o desfile nas ruas da Biela, época em que as ruas ainda não eram pavimentadas. Detinha vem brincando nas "Nagôs" desde quando morava em Canavieiras, município vizinho a Belmonte, tendo o rio Jequitinhonha como limite entre os dois municípios.
A senhora conheceu as Nagô quando dona Detinha?
Detinha: Ah! Mia fia... [risos] derde que eu brinco Nagô morei em Canavieiras, brinquei nagô até não querer mais, vim pra qui, saí de lá, entrei nas nagô de Zezé, das nagô de Zezé aqui... até quando elas me quiserem, né? (Entrevista em 08/12/2018)
Detinha é vizinha de Honorinda na Biela. A sua ida e participação na brincadeira é um pouco limitada, devido a um problema de catarata nos olhos, ocasionado pela idade. Em função disso, ela só sai acompanhada, normalmente, por Honorinda, em função da proximidade e também devido aos laços de amizades existentes entre elas. Honorina é a baiana do meio, fica em destaque, pois sua roupa é toda branca. É ela quem carrega o tabuleiro. Segundo
Honorina, essa posição representa as negras de ganho 8 do tempo do cativeiro e do pós-abolição. A baiana, explica Dona Honorina:
Representa a força da mulher em ter tido a inteligência de ir pra rua vender seus quitutes e sustentar a sua família já que não foi dado nada ao negro quando foi liberto. (Entrevista em 15/01/2019)
Honorinda é uma mulher de personalidade forte e envolvida na brincadeira desde sua adolescência, quando ainda morava em Canavieiras. Ela é nascida em Belmonte. Atualmente, reside na Biela, mas passou boa parte de sua infância e adolescência no município de Canavieiras. Ela é mãe de quatro filhos. Durante sua juventude, viveu em Belo Horizonte, com seu esposo que já é falecido. Durante o tempo que residiu na capital mineira, cursou Licenciatura em Estudo Sociais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas não chegou a atuar na área. Logo após a conclusão do curso, precisou retornar a Belmonte devido a um grave problema de saúde de seu pai, motivo que a fez retornar e se fixar de vez na cidade. Também em Belmonte, criou seus filhos e retornou a participar das brincadeiras afrocarnavalescas da cidade.
No meio da roda, junto com Honorinda, está Maria Caroline Reis Rocha, uma das porta-estandartes das "Nagôs". Carol, na religiosidade dos Orixás, é filha de Oxum, orgulho que é emanado quando fala sobre a sua religião e seu pertencimento às "Nagôs". Foi nesse grupo de mulheres negras que encontrou força e lugar para viver a sua religião, sem medo e com orgulho.
Carol fala das "Nagôs" com muito orgulho e paixão no olhar. Uma menina de voz doce, como as águas de Oxum, e olhos cor de mel, como o dourado da sua mãe. Carol iniciou no grupo ainda muito nova, aos cinco anos de idade. Por ser moradora da mesma rua de dona Deza, cresceu assistindo aos ensaios e desfiles que aconteciam também na porta da sua casa.
Pedrina é filha de Miriam. O processo de integração dela ao grupo estar ligado aos laços familiares. A sua participação começou ainda na infância, quando era levada pela mãe e pela tia. Mas a grande influência e gosto pela brincadeira veio de sua avó, dona Angelina, já falecida, que também encaminhou as filhas na brincadeira, levando-as desde novas para acompanhá-la. A família de Pedrina é de trabalhadoras e trabalhadores rurais e vendedores ambulantes. Sua tia Railda atualmente vende cervejas na praia nos finais de semana que tem movimento e durante todo o verão. A prática de levar os filhos para as brincadeiras é uma forma de proporcionar um momento de lazer, já que a rotina de trabalho informal exige bastante esforço e dedicação do trabalhador e da trabalhadora.
Dentro desse contexto de lazer, sua mãe e sua tia a levavam junto com suas primas para os desfiles. Ela cresceu no cotidiano da brincadeira das "Nagôs", assim deu continuidade e está até hoje no grupo.
Pedrina é uma jovem de 23 anos, oriunda de escola pública do mesmo modo que Carol. Na escola, elas desenvolveram várias estratégias para enfrentar o racismo. É uma menina bastante tímida, mas, quando os cambones começam a tocar, ela diz que toda timidez fica de lado, e a diversão do samba toma conta.
As linhas extensivas rabiscadas pelas relações de afetividade, família, amizade, ancestralidade e de coletividade produzidas pelas "Nagôs" nos permite enxergá-las como um rizoma por sua multiplicidade de dimensões, dentre elas, as ancestrais. Os fundamentos das "Nagôs" estão em seus entrelaçamentos com suas ancestralidades, descendência africana e experiências na diáspora, transpassadas a partir das realidades de cada participante, traçadas em suas linhas de fuga, carregadas de suas potencialidades e subjetividades.