As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

Dandara dos Santos Silva · Capítulo 22 de 26

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As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

8. "Vamos cortar dendê, nagô!": Saber/ poder, afetividades, aprendizagens

8. "Vamos cortar dendê, nagô!":

 

Saber/poder, afetividades,

 

aprendizagens

 

Os corpos das "Nagôs" produzem uma dialética poética da relação corpo, grupo, ritmo (Ijexá) e religiosidades pelas danças, expressões corporais, indumentárias, turbantes, colares e contas. A dança rompe com os movimentos cotidianos do corpo. Nela, os pés marcam o ritmo, o tempo das músicas, e as coreografias são feitas com o tronco do corpo e os braços dando sentidos à música, como, por exemplo, cortar dendê ou na dança registrada na fazer uma coreografia em saudação aos Orixás. A dança se configura como uma resposta ao ritmo do Ijexá produzido pelos atabaques, agogô e pelos cantos. O movimento é composto pelo toque no corpo, e o corpo dança ao som do Ijexá (ROSA, 2015).

As roupas das "Nagôs" que compõem o grupo marcam semelhanças com os Afoxés, pois são muito parecidas com as utilizadas no terreiro. Trazem as características africanas utilizadas nos primeiros cortejos (SANTOS, 2010). A roupa é composta por uma saia longa, com muitos babados, e o tecido normalmente usado é o cetim. As "Nagôs" usam um pano branco amarrado na região do peito, por cima da blusa. Esse material é chamado de pano da costa e fica por cima da bata. Elas sempre usam o torço branco, uma grande tira de pano amarrada na cabeça, sendo as suas roupas muito semelhantes às utilizadas nos Candomblés frequentados durante os ritos religiosos.

Durante os desfiles, as baianas se organizam em duas fileiras, uma paralela à outra. Durante as coreografias, formam uma grande roda ou, a depender da música, fazem um movimento de entrelaçamento. Normalmente, as baianas que ficam próximas da percussão são as que têm mais tempo de grupo, como e dona Railda, uma em cada fileira. A estrutura da roda é imaginária, não havendo delimitações espaciais; somente os tambores são fixos e, conforme aumenta o número de pessoas, aumenta o espaço da dança, deixando mais definida a forma circular (ROSA, 2015).

No meio da roda formada ou entre as fileiras de baianas, fica a "baiana do meio" toda de branco, com seu tabuleiro de frutas na cabeça, e as porta-estandartes, as meninas mais novas, são responsáveis por carregar o estandarte do grupo. Dona Honorinda afirma que a "baiana do meio" e as demais representam as estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelas mulheres negras durante o período escravocrata e no pós-abolição, ao burlarem a ordem da segregação racial e social da sociedade escravista, criando estratégias de sobrevivência com a venda dos quitutes e frutas, no tabuleiro, pelas ruas das cidades.

 

Dona Honorinda: Porque nós representamos uma coisa muito importante. O negro foi libertado, mas não deram condições dele trabalhar, a única condição que o negro teve, principalmente a mulher, que toda vez foi mais

inteligente que o homem! O que foi que ela fez? Tá aqui33. Utilizou um tabuleiro, um pedaço de tábua e foi vender frutas e verduras pra que ela ganhasse o seu sustento e não vivesse de vida, de prostíbulo, então foi onde a negra brasileira, a negra escrava buscou o seu sustento através do trabalho. Então, eu represento a negra brasileira, todas representam, umas dançando e outras trabalhando, que é isso aqui, o trabalho do negro escravo, quando foi liberto por não ter trabalho, ou ele se prostituía ou não tinha como não sobreviver, então, um pedaço de tábua. Hoje é mais bonitinho, né?! Todo decoradinho e tal! E ele vendia, era nos cestos e

depois nos tabuleiros. (BLOCO..., 2015) 34

 

As manifestações negras corporais produzem um arsenal de códigos que compõem a memória coletiva (ROSA, 2015). A dança subverte a ordem e elabora espaços de sobrevivência e existência negra no mundo colonial e pós-colonial, produzindo expressões corporais como potência de subjetividades negras no mundo. Com isso, a marca da diferença é escrita pelas "Nagôs" pelo movimento dançante. Como bem pontuaram Silva e Rosa (2017, p. 258), nas sociedades e culturas em que a dança é forma de oração, como os próprios deuses se apresentam dançando, é possível reconhecer a centralidade conceitual e simbólica do corpo, bem como suas linhas de fuga na criação de estratégias de se posicionarem no local onde estão inseridas.