As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

Dandara dos Santos Silva · Capítulo 17 de 26

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As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

5.6. As "Nagôs Africanas"

Durante o desfile de 2019, o Orixá homenageado foi Omolu, como pode ser conferido na fotografia abaixo. Honorinda, junto com os integrantes do bloco, adeptos do Candomblé, organizou um belo altar para a divindade Omulu na carroceria de um carro, muito bem arrumada, com pipocas, folhas e palhas da costa. Sentado ao lado da bacia de pipoca está o seu neto, responsável por distribuir pipocas para quem assistia ao desfile e se aproximava do altar. Ela relatou que é de costume distribuir acarajé no final do percurso, só que nesse ano não foi possível devido pois a prefeitura não liberou recursos para a compra do material.

 

5.6. As "Nagôs Africanas"

 

Podemos dizer que o "Bloco das Nagôs Africanas" está localizado no Bairro da Biela, por dona Dezinha, a atual organizadora da brincadeira, além de os ensaios e início do desfile acontecerem na porta de sua casa. Digo "podemos" pois o bloco não tem uma sede própria para seus ensaios e organização das apresentações. Tudo acontece na casa de dona Dezinha, quem recebe os convites para participar dos eventos e festejos, como também quem decide as cores utilizadas pelo grupo, quem faz os convites às baianas e aos combones para desfilar.

No início da trajetória das "Nagôs", segundo os relatos das brincantes, quem organizava o bloco era a mãe de dona Dezinha, dona Zezé, já falecida, na época em que o bairro ainda não era pavimentado. Dona Detinha: "A brincadeira era com o pé no chão, saíamos com a poeira nas canelas.". Dona Honorinda confirma a fala de dona Detinha, "saíamos com a poeira nas canelas." (entrevista em 08/12/2018).

Com a morte de dona Zezé, o esposo de dona Dezinha deu continuidade à organização do bloco. Dona Dezinha relata que passou a cuidar da brincadeira depois do falecimento do esposo e que desempenha a função há mais de trinta anos. Ela lembra que acompanha as "Nagôs" desde a sua mocidade, mas que não sabe ao certo quando o bloco foi fundado. As "Nagôs" e os "Netos de Gandhi" são os blocos culturais, em atividade, mais antigos da cidade.

 

Quando a senhora começou com as "Nagôs"? E quando as "Nagôs" começaram a sair na rua em desfiles?

Dona Dezinha: Não sei, não... mas, rapaz... quando eu comecei a sair? Não comecei sozinha, não, moça, comecei com o rapaz que morava. Eu comecei com ele, mas foi o tempo, ele faleceu, tem que continuar, né, moça?

E já fazia muito tempo que seu marido organizava as "Nagôs"?

Dona Dezinha: Não, começou a fazer quando estava na minha companhia. Logo quando a gente começou a fazer os índios... os índios na companhia dele. Nos índios... depois terminamos os índios. Começamos as "Nagôs". Ele faleceu, aí eu fiquei tomando conta das Nagô. (Entrevista em 18/08/2018)

 

Em outro momento, durante uma das conversas com Detinha e Honorinda, também sobre as "Nagôs" e sobre como a brincadeira começou, elas relataram sobre quando a mãe de Dezinha era viva e fazia o samba de prato na porta de casa. Relataram também sobre quando começaram no grupo, nos permitindo compreender que o grupo possui uma trajetória de mais de cinquenta anos.

 

A senhora tem quanto tempo nas "Nagôs"?

Detinha: Oh! Menina, eu tenho é tempo! Tempo, tempo, mesmo... (Entrevista em 08/12/2018)

Honorinda: tem mais de cinquenta anos... (Entrevista em 08/12/2018)

Detinha: Tenho. Tem um bucado, um bucado de anos mesmo. Desde muderna que eu brinco com as "Nagôs". (Entrevista em 08/12/2018).

A senhora lembra quando a mãe de dona Dezinha começou a organizar? E como era quando era ela que organizava?

Detinha: Não. Assim como as outras sambam, né... (Entrevista em 08/12/2018)

Ela fazia a mesma organização que dona Deza faz?

Detinha: Era. (Entrevista em 08/12/2018)

Honorinda: Aqui é uma cultura assim, que passa de um filho pro outro. (Entrevista em 08/12/2018)

Detinha: A Dezinha desde pequena brinca esse negócio de "Boi duro", fazia boi duro... Essa Dezinha, desde pequena gostava de "Boi duro". Ficou mais pra idade começou a ensaiar os negócio dos Nego, né, da "Nagô", das "Nagôs", tudo ali, brinca vai, ela já brincou dos índios, já fez índio já fez tudo ela. (Entrevista em 08/12/2018)

E como foi que vocês começaram a se juntar pra fazer o samba?

Detinha: Lá na Biela, os ensaios são tudo na rua! (Entrevista em 08/12/2018)

Honorinda: Agora tá bom, minha fia! Se a gente quiser vim pra casa tomar banho, pode vim, de primeira vinha de poeira até aqui [faz a marca no joelho]. (Entrevista em 08/12/2018)

Detinha: Era... agora que ta de passeio, né? Mas toda vida foi ensaio na porta. (Entrevista em 08/12/2018)

 

Há também o relato de dona Railda, uma das baianas que está nas "Nagôs" desde a adolescência. Ela ficava ao lado do cortejo junto com as irmãs, acompanhando a mãe entre as baianas, dançando.

 

A senhora lembra de quando a sua mãe começou nas "Nagôs"? Ela começou junto com dona Dezinha ou o bloco já existia e ela entrou depois?

Dona Railda: Já existia.

Quanto tempo já tem que a senhora começou a participar das Nagôs?

Dona Railda: Já tem um bucado de tempo... eu acho que já tem uns... [busca na memória] Eu já tinha Crispim... Eu acho que já tem uns vinte

anos já que eu brinco nas "Nagôs". Porque o meu menino caçula já tá com 23 anos e eu não fui mais pra roça. (Entrevista em 24/11/2018)

 

As falas de dona Dezinha, dona Detinha, dona Honorinda e dona Railda evidenciam um pouco da temporalidade do grupo, demonstrando que o tempo do grupo é o tempo da mocidade delas, de quando Dezinha era casada, o tempo de quando não havia asfaltamento nos bairros, ou seja, a temporalidade do grupo é a temporalidade das vivências afetivas construídas dentro de suas realidades sociais e culturais.

Os relatos das integrantes exprimem suas memórias. De acordo com José Carlos dos Anjos (2006, p. 46), no ato de reconhecer a origem, as memórias estabelecem delimitações, colocam o passado sobre o presente. E é justamente a partir do cruzamento desses fragmentos de memórias das integrantes das "Nagôs" que linhas cartográficas se engendram de forma rizomática, pois não "[...] tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual a memória cresce e transborda [...]" (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 15).

No cortejo, as "Nagôs" já chegaram a agregar mais de cinquenta baianas desfilando no Carnaval de Belmonte. Sua composição está estruturada com as baianas vestidas com roupas semelhantes às usadas no Candomblé; as porta-estandartes, duas garotas sempre mais novas; a baiana do meio, que carrega o tabuleiro; os cambones; e dona Dezinha, que vem no meio, puxando as chulas, organizando as baianas e os cambones, com seu apito.

As "Nagôs" também são atravessadas pela religiosidade dos Orixás, desde a representação do tabuleiro, elemento presente em todos os blocos da cidade, até o cuidado com o toque realizado nos cânticos, para que nenhuma das integrantes "rodem" durante a brincadeira, pois, como D. Deza sempre alerta: "Candomblé é coisa séria."

As "Nagôs" estão presentes na maioria dos festejos da cidade, na festa do Carmo, no Carnaval, na festa de Yemanjá. Sempre que convidadas, elas marcam lindamente suas presenças, encantando a todos que as assistem. Dona Deza também organiza um dos grupos de "Boi Duro" da Biela, também um dos mais antigos do bairro. A brincadeira do "Boi Duro" é marcante no cotidiano da população da Biela. Durante o período da pesquisa de campo, pude perceber como essa brincadeira é tão presente entre as crianças, que, com improvisos de caixas de papelão, brincam de "Boi Duro" nas ruas da Biela.

Os blocos afrocarnavalescos ou culturais de Belmonte, durante suas apresentações, ensaios e desfiles, provocam desterritorializações por meio de múltiplos comportamentos que resultam em práticas que atravessam os espaços sociais, culturais, econômicos, estéticos, afetivos e cognitivos. Fabricando subjetividades dissidentes que rompem com as fronteiras que circundam o território das identidades culturais, causam fissuras e possibilidades de escapes e criação de novos sentidos, rompendo com as representações estereotipadas. As linhas de fuga emergem dos processos criativos de singularização e desterritorialização e, nesse movimento, as identidades se constituem em territórios de subjetividades.

A afirmativa dos blocos Afro como territórios negros não se dá simplesmente por eles agregarem uma maioria da população negra como foliões, uma vez que a presença da população negra antecede a formação dos blocos. Mas, justamente porque a sua formação se dá pelas produções subjetivas, ocorrem no cotidiano do lugar onde se vive, os blocos funcionam como encruzilhadas, por serem locais de encontros, trocas, negociações, conexões que provocam multiplicidades. A multiplicidade reside na singularidade ou subjetividade de cada bloco no processo de territorialização e desterritorialização, provocando lugares próprios de enunciações e agenciamentos, que, a partir de suas ações, criam outras linhas cartográficas afetivas, afrorreligiosas, negras, belmontenses e baianas.