As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

Dandara dos Santos Silva · Capítulo 5 de 26

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As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

1.2. Metodologia

 

"Nossos passos vêm de longe...", afirma o movimento intelectual da negritude. Este trabalho se alinha a essa caminhada. Tem como fôlego continuar caminhando, seguindo os rastros deixados pelos passos já dados pelo povo preto, que, em seu percurso, deixou mapas, pistas, desvios e orientações desviantes por onde seguir. Para orientar esta caminhada, esta obra faz uso da metodologia da cartografia a partir da concepção de "rizoma".

 

A cartografia surge como um princípio do rizoma que atesta, no pensamento, sua força performática, sua pragmática. Nesse mapa, justamente porque nele nada se decalca, não há um único sentido para a sua experimentação nem uma mesma entrada. São múltiplas as entradas em uma cartografia. A realidade cartografada se apresenta como mapa móvel, de tal maneira que tudo aquilo que tem aparência de "o mesmo" não passa de um concentrado de significação, de saber e de poder, que pode por vezes ter a pretensão ilegítima de ser centro de organização do rizoma. Entretanto, o rizoma não tem centro. (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2015, p. 10)

 

O método cartográfico foi utilizado no processo de compreender, ler e interpretar as cartografias produzidas pelas "Nagôs Africanas" de Belmonte, possibilitando identificar os caminhos percorridos e os ainda por percorrer pelo grupo, bem como ler seus mapas. O método cartográfico apoia-se nas experiências vividas e de vida, no sentido de acompanhar os percursos e interpretar os processos de produção do rizoma. A cartografia não tem a pretensão de representar mapas fechados, mas mapas que provoquem aberturas, multiplicidades, movimentações.

A cartografia é utilizada no exercício de analisar as microrrelações políticas, afetivas, religiosas, de saber e de poder das "Nagôs Africanas" de Belmonte (BA), acontecidas a partir de suas trajetórias afro-baianas e belmontenses, assim como de suas práticas e linguagens culturais instrumentalizadas no espaço do bloco, que, em seu acontecimento, territorializa espaços de vivência e de vida, provocam desterritorializações, mudanças de natureza dos espaços onde estão inseridas, produzindo outras cartografias abertas que se conectam a outras afrocartografias (DELEUZE; GUATARRI, 1995).

Segundo Caliman, Sade e Tedesco (2013), "[...] quando estamos imersos na prática da pesquisa, duas questões se impõem: o que buscamos com a pesquisa e como alcançá-lo?". Considerando que a cartografia tem como ponto de apoio a experiência "saber/fazer", para alcançar os objetivos da pesquisa, foi necessário fazer uso de entrevistas como instrumento de acesso aos saberes e vivências das personagens pesquisadas. É a partir das entrevistas, realizadas com algumas das integrantes mais antigas e ainda presentes no "Bloco das Nagôs Africanas" de Belmonte (BA), que a oralidade atravessou a pesquisa em suas múltiplas dimensões.

Com isso, para o desenvolvimento desta metodologia, as entrevistas foram registradas por gravadores de áudio e vídeo, realizadas nas residências das "Nagôs Africanas", nos intervalos dos ensaios do bloco, nas pausas dos cortejos durante o Carnaval, na festa de Yemanjá e no terreiro do Pai Ujuraí. Algumas aconteceram de forma individual ou em duplas, e outras em grupo, de modo que as entrevistadas se sentissem confortáveis em compartilhar suas experiências vividas no bloco como "Nagôs Africanas" de Belmonte. Tal exercício permitiu alcançar o objetivo da cartografia de pesquisar as experiências vividas pelas "Nagôs", por meio de seu Afoxé, a "fala que faz acontecer" movimentações, instantes, fissuras, rupturas, vibrações e ritmos.

 

Em sua expressividade, sua musicalidade, sua oralidade e na sua rica, profunda e variada atenção à fala; em suas inflexões vernaculares e locais; em sua rica produção de contranarrativas; e sobretudo, em seu uso metafórico do vocabulário musical, a cultura popular negra tem permitido trazer à tona, até nas modalidades mistas e contraditórias da cultura

popular mainstream, elementos de um discurso que é diferente – outras formas de vida, outras tradições de representação. (HALL, 2013, p. 380)

 

O exercício da escuta e da fala foi necessário para que as entrevistas acontecessem, mas foi preciso também perceber elementos diferentes, outras formas de vida e outras tradições. Nesse sentido, estar atenta às movimentações físicas das "Nagôs" foi fundamental para a construção da cartografia. Por meio de seu Afoxé, as "Nagôs Africanas" agem como instrumento de corte nos desenhos decalcados sobre a cultura popular negra. Por esses motivos é que as entrevistas seguiram linhas rizomáticas, em um enovelamento de escuta, fala, movimento, dança, música, tambor.

Por certo, na perspectiva do rizoma, "[...] as pistas aqui apresentadas não formam uma totalidade, mas um conjunto de linhas em conexão e de referências, cujo objetivo é desenvolver e coletivizar a experiência do cartógrafo." (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2015, p. 14). Assim, procuro ler os movimentos das "Nagôs Africanas" no sentido afrorrizomático, analisando como elas criam suas linguagens na cultura afro-brasileira dentro dos espaços de saber/poder (Carnaval belmontense). As "Nagôs" de Belmonte seguem reconstruindo memórias, reconfigurando identidades e subjetividades, reescrevendo a história da população afro-brasileira, na história do Brasil, decorrente da diáspora africana.

Estabeleço um diálogo com o conceito de rizoma, na concepção de Deleuze e Guattari (1995), para ler, analisar e interpretar as linguagens culturais das "Nagôs Africanas" em seu processo de contato com a sociedade brasileira, provocando multiplicidades de significações na cultura afro-brasileira e nos permitindo perceber as experiências afrorrizomáticas estabelecidas nas esferas de saber/poder e resistência étnico-racial.

"Um rizoma não cessaria de conectar cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências que remetem às artes, às ciências, às lutas sociais." (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 4). Compreendo que o movimento das "Nagôs" é semelhante ao movimento cruzado dos bordados, em que as linhas se cruzam e não se fundem, produzindo sempre, a cada movimento, um novo desenho a partir de multiplicidades que desencadeiam outros pontos cruzados, entrecruzados, embaralhados, formando novos arranjos sociais, políticos e identitários, sempre móveis, sempre instáveis.

 

É preciso fazer o múltiplo, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe, sempre n-l (é somente assim que o uno faz parte do múltiplo, estando sempre subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1. Um tal sistema poderia ser chamado de rizoma. (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 4)

 

Quando as "Nagôs Africanas" entoam suas chulas, vestidas de suas ancestralidades, se movimentam em sentido rizomático, transformando tais práticas em uma tomada de poder pelo significante, do estar e ser na diáspora, entre o estar e ser negra constituída em um campo de multiplicidade. A multiplicidade nos permite entender mais sobre as identidades diaspóricas, sobre as mulheres negas que se forjam dentro delas e sobre as suas estratégias de ser e estar neste lugar.

Deleuze e Guattari (1995) nos possibilitam entender que as multiplicidades são planas e, por isso, não estão uma sob a outra, em sentido hierárquico, mas em sentidos de tessitura, compartilhamento, coletividade, que se multiplicam preenchendo cada uma o seu espaço e formando novos espaços que não se chocam nem viram uno. São "biunívocas" que, ao se tocarem, formam outros espaços diferentes, afetados pelo fora na constante formação do dentro. É dentro deste universo de subjetividade e agenciamento que analisamos as práticas das "Nagôs Africanas".

Trabalhar nas linhas da transversalidade nos permite perceber os movimentos sísmicos, de viscosidade, de fragmentações e de rupturas provocados pela cultura negra. "Tudo isto, as linhas e as velocidades mensuráveis, constitui um agenciamento." (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 2, grifo do autor), que segue no sentido da multiplicidade. Assim, busco compreender a cultura negra das "Nagôs Africanas" a partir de suas práticas musicais, corporais, religiosas e de coletividade, que produzem agenciamentos coletivos e individuais na produção de novos lugares de aprender e ensinar a história do povo negro e sua vivência na diáspora.

No que concerne à chamada coleta de dados, tal dificuldade é muitas vezes contornada pelo apelo à noção de observação participante e às entrevistas semiestruturadas. Elaborei entrevistas semiestruturadas com imersão nos espaços de sociabilidade das "Nagôs Africanas". Com elas, acompanhei o Carnaval belmontense de 2018 e de 2019. Em 2018, estive em Belmonte duas vezes por mês, e as visitas tiveram início em agosto. Esse contato facilitou o estreitamento das relações de amizade entre nós. A aproximação mais estreita com as componentes do bloco me permitiu conhecer um pouco de seus cotidianos. Dentre os diferentes espaços de convivência, almocei na casa de dona Railda e Honorina, fui ao terreiro de Ujuraí, com dona Dezinha e Dita, onde fui muito bem recebida por todas e todos, além de ter sido convidada para participar de uma feijoada ofertada a Ogum. Um festejo de extrema lindeza.

Em janeiro de 2019, residi em Belmonte com o apoio de uma colega da UFSB, que me cedeu sua residência. Estar ali foi significante para entender o cotidiano das "Nagôs", o que me permitiu acompanhá-las durante alguns dias de modo coletivo e individual. Nesse período, pude ir a uma festa de caboclo junto com dona Railda e, nesse encontro, observar como ela sempre está acompanhada de suas filhas e netos. Foi possível também fazer uma maior aproximação com dona Honorina, na sombra da varanda de sua casa, e ter mais contato com sua trajetória nas "Nagôs". Foi nesse verão que consegui me aproximar de Soleni, a última a ser entrevistada, devido à dificuldade de horários livres para que pudesse me receber. Foram realizados registros fotográficos das apresentações e ensaios, bem como dos encontros individuais com as integrantes do grupo, em especial com Carol e Pedrina, que apontaram o caminho a ser percorrido.

Ao longo do processo, muitos foram os espaços de escuta, seguidos de transcrição e escrita dos textos. Constituímos um "texto-agenciamento", uma espécie de "livro-multiplicidade", elaborado em diferentes momentos, em diversas circunstâncias, marcado por diferentes velocidades. Tais relações ocorreram durante os encontros de escuta e observação das apresentações das "Nagôs Africanas", quando elas, a todo momento, me capturavam e envolviam em seus/nossos universos culturais.

Foi em um dos encontros com Carol e Pedrina, as porta-estandartes do grupo, no momento em que fui apresentar as intenções da pesquisa a ser desenvolvida com o bloco, que surgiram as pistas metodológicas para este trabalho. Pois, enquanto conversávamos sobre o grupo, elas me relataram sobre seus modos de fazer, suas formas de organização, enfim, sobre a gestão de suas vidas enquanto integrantes das "Nagôs".

De forma curiosa, perguntei a elas se existia algum critério na disposição dos lugares das mulheres no momento da fila e, consequentemente, na roda. Busquei saber quais eram os critérios e se consideravam fatores como o tempo de participação no grupo, idade ou desempenho de alguma função específica no grupo. E elas responderam:

 

Carol: "Olha, assim, na verdade, quem fica... quem puxa são as mais velhas, que agora está sendo dona Quelé e (Tia Railda) Railda, que são, são as mais velhas, né? Que tem mais tempo de grupo, e elas tem a função de puxar a roda. Elas têm na hora."

Pedrina: "Na hora do apito, quando dona Dezinha consegue... apita, elas fazem uma roda ou então no samba troca de lugar, troca a fila, movimenta a fila, né? Troca uma de lugar com a outra, pode ser dando..."

Carol: "Puxando a fila pelo lado direito ou, então, no samba que elas sambam no meio e fazem a troca, né? No meio, uma vai pro lado da outra." (Entrevista em 25/09/2018).

 

E foi a partir do modo como elas se organizam que Carol sugeriu que eu organizasse o meu trabalho. Falei para elas sobre o meu desejo de realizar a escrita do trabalho, agora tornado livro, com o protagonismo delas e que tivesse como resultado final um dispositivo que as instrumentalizasse culturalmente e politicamente e que, ao mesmo tempo, contribuísse para as ações de aprendizagens desenvolvidas nos espaços de ensino e aprendizagem escolarizados.

Desse diálogo, emergiu a proposta de fazermos uma espécie de caderno, tomando como modelo de inspiração os "Cadernos do IPAC", como, por exemplo, o exemplar sobre a Festa da Boa Morte (BAHIA, 2011), que acontece anualmente na cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, ou o exemplar sobre os desfiles de Afoxés da Bahia (BAHIA, 2010), que trata das trajetórias históricas desses blocos afrocarnavalescos em Salvador. A coleção intitulada "Cadernos do IPAC" foi realizada em parceria entre o Instituto Artístico e Cultual da Bahia e a Fundação Pedro Calmon, autarquias da Secretária de Cultura da Bahia. E o referido projeto teve início a partir de 2010 (BAHIA, 2011).

E assim começamos a caminhar na elaboração do que se tornaria o caderno cartográfico das "Nagôs Africanas". A produção do caderno foi critério de exigência parcial para a obtenção de grau de mestre pelo PPGER, tendo como proposta colaborar como

dispositivo de ensino e aprendizagem 5.

Nesse mesmo encontro com Carol e Pedrina, traçamos os caminhos metodológicos para o desenvolvimento da pesquisa. Elas propuseram que iniciasse as entrevistas com as mais velhas, pois elas possuíam mais tempo de grupo e, na sequência, com as que desempenhavam determinadas funções no grupo. Dessa forma, elas também estariam inseridas, já que, embora sejam as mais novas no que diz respeito à idade, possuem uma trajetória de vida dentro do grupo desde a infância. Então, elas listaram cada uma dessas mulheres, apontando seu tempo de grupo, bairro onde moram, nomes e como elas participariam da pesquisa. Chegamos a

um total de nove mulheres, conforme relacionadas no Quadro 1.

 

Quadro 1 – Relação das entrevistadas

NOME IDADE FUNÇÃO

Maria da Aproximadamente Organizadora e moradora da Biela. Hora: entre setenta e

Dezinha oitenta anos.

Benedita: Aproximadamente Amiga de Dezinha, é quem ajuda Dita entre cinquenta e Dezinha na organização do bloco.

sessenta anos.

 

Fonte: Elaboração própria.

NOME IDADE FUNÇÃO

Honorinda Aproximadamente Baiana do Meio, integrante do grupo

entre cinquenta e há mais de vinte anos. sessenta anos.

Railda Aproximadamente Responsável por ficar em uma das

cinquenta anos. pontas das filas, orientando o grupo.

Está no grupo desde a adolescência.

Soleni Trinta anos. Combone, moradora da Biela.

Carol Dezenove anos. Porta-estandarte, participa do grupo

há mais de dez anos.

Pedrina 22 anos. Porta-estandarte, participa do grupo

há mais de dez anos.

Detinha 82 anos. Prima de Dezinha, está no grupo há

mais de vinte anos.

Fonte: Elaboração própria.

 

Dona Deza ou Dezinha, organizadora do grupo, considerada pelas meninas como a portadora do saber da cultura popular; dona Detinha, prima de dona Deza, que a acompanha na brincadeira desde o tempo que a mãe de Dezinha fazia a brincadeira; dona Quelé, também vizinha de dona Dezinha e integrante do grupo do mesmo período de Detinha; Honorinda, baiana do meio, tem a função de carregar o tabuleiro das "Nagôs"; dona Railda, faz parte do grupo desde a adolescência, quando acompanhava a mãe; Dita, amiga de dona Deza há mais de 25 anos e também integrante do grupo, responsável por acompanhar dona Dezinha quando convida as mulheres para integrarem o grupo.

Soleni marca o seu lugar nas "Nagôs" por ser a única mulher a fazer parte dos cambones, espaço ocupado majoritariamente por homens; e, por fim, as porta-estandartes ou as meninas do meio: Carol, que cresceu ao lado da casa de dona Dezinha, local onde acontece os ensaios, o que lhe permitiu ingressar no grupo aos nove anos de idade; e Pedrina, que também teve o seu contato com as "Nagôs" desde criança, levada por sua mãe Miriam e por sua tia Railda. Foi justamente a partir dessa configuração que me envolvi com as "Nagôs" e fui capturada por elas para desenvolver a pesquisa. À primeira vista, elas aparentam ser mais um grupo afrocarnavalesco, mas, quando nos aproximamos e as encontramos, podemos conhecer e adentrar o seu mapa/ cartografia e perceber seus pontos de rasura, tessitura e diferença em relação aos demais grupos culturais da cidade.