As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
6.1. O Carnaval em Belmonte
Como aponta Hall (2014), a identidade negra é atravessada por outras identidades no processo de construção social do ser negro na diáspora. As identidades desse contexto se tornam "múltiplas", são construídas por meio dos discursos, de práticas e posições que podem se cruzar ou podem ser antagônicas, estando as identidades sujeitas à historicização e em constante processo de mudanças e transformação (HALL, 2014).
A organicidade e a performance poética das "Nagôs Africanas", produzidas em seus cortejos, são também lugares de fala ou agenciamentos individuais e/ou coletivos. Isso se dá a partir de suas experiências vivenciadas nas dimensões dos locais em que elas estão inseridas ou foram condicionadas a estarem. Nas palavras de Dona Honorinda: "É audácia, é ousadia de poder dizer "tô viva, tô velha, mas não tô morta." [...] "Você se sente tão importante quando as pessoas vêm: posso tirar uma foto?" (Entrevista em 15/01/2019).
6.1. O Carnaval em Belmonte
A cidade de Belmonte é bastante conhecida na região Sul da Bahia por suas produções cultural e estética, produzidas pelas camadas populares negras, por seus mapas brincantes que afetam a todos que as vivenciam. Práticas que a Prefeitura utiliza como símbolo da cultura popular local, narrativa construída principalmente durante as festas carnavalescas. Nota-se que o discurso do Carnaval como construção da identidade local é um exercício que parte das micropolíticas, a serviço do interesse local. Por desdobramento, alimenta o "macro", a identidade nacional. Podemos notar tais práticas no tema do Carnaval de 2018, primeiro ano que acompanhei a festa como pesquisadora. O tema foi "Belmonte: Cidade Cultural", como pode ser visto no material de divulgação da prefeitura.
Figura 1 – Belmonte: Cidade Cultural – Carnaval – 2018
Fonte: Prefeitura de Belmonte (2018)
Figura 2 – Carnaval – 2019 – Arrastão da Alegria
Fonte: Prefeitura de Belmonte (2018)
As imagens acima foram retiradas do site Jornal de Belmonte e produzidas pela prefeitura para divulgar o Carnaval de 2018 (Figura 1) e 2019 (Figura 2). Nesses materiais, a prefeitura utilizou uma narrativa da cidade a partir da centralidade cultural, designando, em sua programação, quais blocos culturais participariam da festa e indicando dias e horários reservados a cada apresentação no Carnaval.
Nesse discurso, percebe-se como a prefeitura utiliza-se do termo "cultural", a partir das expressões da cultura popular negra que predomina na comunidade, para nominar a festa, mas não concede a elas um espaço apropriado para suas apresentações durante a festa. Pode-se notar que, nos banners de divulgação, seus nomes e participação aparecem de modo secundário, já que não tiveram suas fotos divulgadas, nem foram inclusas nas atrações principais da festa. Elas não foram assistidas com uma estrutura adequada para a festa, como, por exemplo, ter um trio elétrico para suas apresentações, equipamento marcante do Carnaval baiano. Assim, nota-se que prefeitura diz ser a cidade cultural, mas propõe-se muito mais a atrações externas e as agencia com maior qualidade do que os blocos culturais da própria cidade, que dão o tema ao Carnaval.
Em 2018, acompanhei a saída das "Nagôs", da Biela, que já começou com o adiantar das horas, quase às 18h. Elas não tinham como sair no horário estipulado pela organização do Carnaval devido ao calor e ao sol alto, fatores que geram mal-estar, já que o bloco é composto por uma maioria de mulheres com idades variando de cinquenta a oitenta anos. Além disso, as roupas também contribuem com o aumento da temperatura corporal.
Elas seguiram pelas ruas do Bairro da Biela no sentido do circuito do Carnaval. Durante o cortejo, pararam em frente a algumas casas, para saudar as famílias e, antes de chegarem à avenida Rio-Mar, a principal do Carnaval, cortaram o caminho e foram em direção à saída da cidade, no sentido do bairro Ponta de Areia. Dona Dezinha tinha se comprometido com uma casa que levaria a brincadeira para lá e assim o fez.
Durante todo o percurso, fui contagiada pela alegria, curiosidade, respeito e admiração que elas provocavam por onde passavam. As pessoas saíam de suas casas para vê-las desfilarem e as acompanhavam cantando, dançando e saudando sua brincadeira. No enredo, elaborado a partir de sua caminhada, percebi o momento culminante do desfile: a chegada delas à rua de uma das casas que as esperava. Na chegada, foram recebidas com muita festa, alegria, abraços e muita dança. As pessoas que as aguardavam eram também adeptas do Candomblé. Na sequência, fui avisada por uma das baianas do grupo que ali se tratava da casa do Pai de Santo de dona Dezinha, informação que me ajudou a compreender a importância do momento. Esse mesmo trajeto, independentemente do circuito do Carnaval, previsto e divulgado pela prefeitura, foi feito em 2019.
Uma vez que a festa em Belmonte se inicia oficialmente na sexta-feira de Carnaval, com os "Netos de Gandhi" e o "Ubuntu", responsáveis pela abertura oficial do Carnaval, os demais blocos se apresentaram na sequência. É importante dizer que o fato de esses grupos estarem inclusos na programação da prefeitura, com algum destaque na festa, não significa que eles tenham a mesma atenção dada às bandas maiores, vindas de outras cidades. Durante os desfiles, nos dois anos da pesquisa (2018–2019), não identifiquei uma estrutura que garantisse a apresentação dos grupos tradicionais da cidade.
O "Bloco Os Filhos de Gandhi" foi o único que desfilou em 2019 com o apoio de um minitrio elétrico. Os demais grupos desfilaram sem apoio de trio elétrico, carro de som ou microfones. Essa situação desqualificou suas apresentações, pois eles precisaram cantar sem uma amplificação eletrônica e, em alguns momentos, concorreram com os blocos maiores que, dispuseram de todos os aparatos eletrônicos de amplificação, cedidos, na maioria das vezes, pela prefeitura.
As Figuras 3 e 4 demonstram o movimento que as "Nagôs" fazem durante o Carnaval. Elas foram registradas na terça-feira de Carnaval de 2019, dia oficial do feriado, momento em que se apresentam as grandes atrações vindas de fora e os principais blocos fechados, e é também o dia em que a cidade está mais cheia de foliões. Os blocos afrocarnavalescos da cidade não são inclusos oficialmente na programação desse dia, porém, as "Nagôs" burlaram a programação, fizeram o cortejo e saíram às ruas, prática feita durante todos os carnavais.
Figura 3 – Entrada das "Nagôs" na frente do trio elétrico
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Figura 4 – Saída das "Nagôs" do circuito pela lateral do
mercado de peixe, sentido Biela
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Entoando uma chula que repetidamente dizia: "Aê! 'Nagô', vamos cortar dendê? Vamos cortar dendê, 'Nagô'. Vamos cortar dendê!", seguiram o seu ritual pelas ruas de Belmonte. Nesse movimento, elas cortaram a programação do Carnaval, cortaram a estética do Carnaval dos trios, das bandas populares, do circuito determinado pela prefeitura. As "Nagôs", na terça-feira de Carnaval, fizeram o circuito delas, seguiram seu fluxo, iniciando o desfile nas ruas da Biela, parando e visitando algumas casas, atravessando a cidade para fazer a festa em outros bairros que o Carnaval oficial não alcança. Escolhi essa sequência de fotos porque são as que mais se aproximam do movimento de corte e fluxo.
As imagens registram o momento em que elas reencontram o circuito do Carnaval e, para que conseguissem adentrar a avenida principal, local de concentração das grandes atrações, elas, literalmente, cortaram, interromperam o fluxo do trio e atravessaram a avenida, deixando todos surpreendidos com tamanha potencialidade, autonomia e autenticidade de ação.
Embora a prefeitura não tenha incluído os blocos culturais nesse dia na programação, o ápice da festa foi a presença dos blocos nas ruas belmontenses. Percebo, nessa postura da prefeitura, o que Guattari e Rolnik (1996) apontam como cultura em sua esfera profundamente reacionária, pela maneira como a prefeitura forja as atividades semióticas da festa carnavalesca ao organizar as grandes atrações que receberam mais recursos para estar na festa em detrimento dos blocos menores que receberam recursos mínimos para garantir de sua participação. Isso acontece mesmo sendo os blocos menores que dão a caracterização do Carnaval cultural de Belmonte. Tal ação da prefeitura releva justamente o modo operante de como o político age sob o mundo social, em suas esferas, de modo segmentado, separado e hierarquizado, por meio das semiotizações dominantes e editadas de acordo com seus interesses de realidades políticas e econômicas. Assim, imprime-se uma produção de cultura reacionária e capitalística, uma vez que são justamente os grupos menores invisíveis nos banners de divulgação e nos grandes outdoors que dão sentidos para as orientações das narrativas produzidas pela prefeitura. Isto é, os slogans "Carnaval cultural" ou "Belmonte, a cidade cultural" vendem a festa da prefeitura, mas os blocos culturais não aparecem nos grandes outdoors.
Esse sentido de cultura exprime muito mais o desejo de se manter cada um em seu lugar do que, de fato, reconhecer as práticas culturais da cidade como partes constituintes da festa.