As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
8.1. Amar, brincar, criar
As "Nagôs Africanas" em muito se aproximam das práticas dos Afoxés, mas, quando nos aproximamos um pouco mais delas, percebemos, com um olhar mais atento, que elas se organizam de forma diferente. Quando digo diferente, não é o diferente pelo diferente, de forma binária ou oposta, mas o diferente das "Nagôs" remete ao conceito de diferença em Deleuze (2006). Quando elas fissuram os modelos tradicionais de Afoxé, um grupo formado majoritariamente por mulheres, cuja composição é uma das marcas de sua diferença, sem escapar de suas ancestralidades e preceitos religiosos que são características comuns dos Afoxés – por sua estreita relação com as religiões de matriz africana –, as "Nagôs" têm seus pontos de encruzilhada nos protagonismos das mulheres, nas práticas religiosas. A constituição do grupo das "Nagôs" desloca ou desterritorializa as práticas culturais negras no e para o terreno das encruzilhadas, onde não há sobreposição, hierarquia ou diluição das diferenças, mas a diferença se constitui como elemento de fusão na produção das subjetividades negras das "Nagôs Africanas", a partir de suas linguagens da dança, coletividade e afetividades (ANJOS, 2006).
Nesse ritmo, percebemos a musicalidade, a dança, o corpo, os tambores e as religiosidades negras como resistências produzidas no interior do cotidiano da população afrodescendente, como modo de responder às práticas de opressões do colonialismo em relação ao povo negro na diáspora (ROLNIK, 2007). A partir das realidades estabelecidas pelo escravismo, novos espaços se configuram constantemente e antigos espaços são ressignificados nos territórios das encruzilhadas negras na diáspora. Do território diaspórico emergiu linguagens culturais, religiosas, modos de ser e viver oxigenados por movimentos desejantes múltiplos, de onde emergem linhas de fuga e espaços de agenciamentos.
8.1. Amar, brincar, criar
As "Nagôs" transformam as músicas, as danças, o desfile e o Afoxé em linhas que escapam do desenho decalcado do Carnaval imaginado no Brasil e maquinam suas próprias produções enunciativas, fazendo proliferar suas intencionalidades sob o que se imagina ser a cultura popular negra, fazendo do bloco um forte espaço de afetividade, trocas, irmandade, aprendizagens, existências e também de religiosidade, constituído por meio das subjetividades dissidentes produzidas pelas mulheres negras que fazem parte da brincadeira.
Para além das apresentações no carnaval, as "Nagôs Africanas" forjam linhas de fugas que as acolhem, tornando-se, dessa forma, um caminho para a enunciação e "[...] automodelagem individual e/ou coletiva das práticas de liberdades." (GILROY, 2001, p. 100). As práticas das "Nagôs" podem ser lidas como um espaço coletivo necessário de existência e resistência, pois, como bem pontuou bell hooks (2000, p. 194), nesses espaços de afetividades, "[...] é possível encontrar espaços para amar, brincar, expressar criatividade, receber carinho e atenção e poder expressar as emoções reprimidas [...]".
Dona Railda: As "Nagôs" é uma grande família, todo mundo se ajuda, pra participar da brincadeira. (Entrevista em 24/11/2018)
TV Web Cultura: Como é pra você, Carol, participar?
Carol: Na verdade, é uma alegria estar nessa comunidade, porque pra explicar à geração mais nova que não é... que muita gente fala: "ah... é coisa antiga...". É antigo, sim, mas faz bem à nossa geração. É cultura, e cultura não fica antiga. Então, é uma alegria pra cada um de nós jovens que estamos aqui. E, na verdade, não são elas que chamam, a gente, de ousadas, vem, "ah não eu quero sair!". Então, a gente vai lá e, graças a Deus, a gente conseguiu um espacinho com elas, elas abriram as portas, ensinam a gente o que tem que fazer e no ensaio é só alegria! (BLOCO...,
2015)35
Como é participar de um grupo só com mulheres?
Dona Honorinda: É maravilhoso! Você precisa ver na hora de trocar de roupa, pena que Dezinha não troca roupa na frente de ninguém. [risos] ... não, não. (Entrevista em 08/12/2018)
A Senhora se troca também, dona Detinha, junto com o grupo?
Dona Detinha: Eu troco! [risos] Na hora da gente mudar a roupa, homem nenhum fica ali, só mulher. A gente fecha a porta toda e, oh!, A gente faz molequeira, brinca ali e... [risos]. (Entrevista em 08/12/2018)
Seja no Carnaval ou em outros espaços, as brincadeiras no "Bloco das Nagôs Africanas" são uma das maneiras encontradas, por mulheres negras, trabalhadoras, estudantes e donas de casa, para compartilharem suas experiências de vida, reaprenderem e estarem próximas umas das outras e, dessa forma, fortalecerem-se em rede de solidariedade, amor e respeito. Tal iniciativa pode ser vista como um ato de coragem: "É preciso uma certa coragem para estar juntos, por completo, sem abdicar ou sentir-se constrangido. Que nome damos para isso? Amizade." (LAURO, 2016, n.p.).
A organicidade afetiva das "Nagôs", como evidenciada nas falas de algumas delas, escapa ao desenho da docilidade mestiça, imaginado sobre a cultura negra para a identidade nacional. Ela emerge do saber/poder como um ato insurgente de coragem contra-hegemônico, agindo, como afirmou dona Honorinda, com "audácia e liberdade" de poder falar.
Como é, Soleni, ser essa mulher que toca em um grupo composto só de mulher, o que isso significa para você?
Soleni: Ah, significa pra mim. É muito bom pra mim, tá ali, tem muita mulher assim, dançando, tá entendendo? Dançando É muito bonito, eu gosto.
Por que você gosta? O que te faz gostar?
Soleni: Me sinto bem ali, é, ainda principalmente quando começam os ensaios. aí pra mim é muito bom. (em 18/01/2019)
O sentimento de bem viver, de liberdade presente no grupo das "Nagôs", é uma das linhas que marcam o grupo. Essa linha faz com que o cortejo não represente somente um momento em que elas participam do carnaval, mas também aquele de poderem se expressar com ousadia, alegria, audácia e liberdade, ultrapassando o desenho do Carnaval e provocando novas territorialidades "Nagôs Africanas".
Por meio dos laços afetivos internos construídos coletivamente, em linhas que proliferam uma multiplicidade de subjetividades negras engendradas em práticas de liberdades, as "Nagôs" transformam os pontos do Ijexá, as danças, suas vestimentas, suas músicas e sua estética em um território "Nagô".
O momento de troca e construção de laços de amizade se dá em gestos simples, como ajudar a arrumar as vestes, os cabelos, os demais adereços por elas utilizadas. Não se trata de ações espontâneas, e sim de trocas de saberes, resgates de tradições, modos de se importarem umas com as outras. Essas dimensões são articuladas entre si como maneira de produzir bens e relações sociais (GUATTARI; ROLNIK, 1996).
Os movimentos de construção das relações afetivas das "Nagôs" são construídos pelos laços de amizade no grupo. Esse movimento provoca um processo de desconstrução ou embate com as violências hegemônicas brancas que marcam seus corpos: "[...] a amizade é a experiência de autonomia, construída em um processo de relação com o outro de modo diferenciado, pois se constitui no campo da diferença. A amizade é autonomia, pois é o encontro que gera potência." (LAURO, 2016, p 03.).
O sentimento de pertença estimulado pelas "Nagôs" cria espaços de sociabilidade entre as mulheres negras periféricas a partir de suas maneiras de agir e diz sobre seus modos de viver. Isso faz com que possam escapar das condições ou situações de subalternidade da vida ordinária. O "Bloco das Nagôs Africanas" é espaço de alegria, família, amizade; é um lugar enegrecido, o inverso do negro negativo e marginalizado (GILROY, 2001).
O sentimento ou o motivo de pertencimento ao grupo se dá por maneiras diferentes: religiosidade, liberdade, amizade, o lazer em família e a inserção em espaços ditos masculinos. Para Carol, que iniciou no grupo ainda criança, a sua participação no grupo é atravessada pela religiosidade e pelo desejo de brincar nas "Nagôs", porém tais dinâmicas geram agenciamentos na produção, nos outros sentidos para o bloco. Um dos sentidos que destaco é como o bloco, de modo espontâneo, produz aprendizagens e ensinamentos transmitidos pela oralidade, dança, brincadeira e religiosidades.
O bloco aconteceu, para Carol, como território que colaborou na formação escolar, pessoal, social e cultural e nos marcadores de gênero e raça, no que diz respeito à sua condição social, étnica e religiosa. Carol é uma das porta-estandartes do grupo e portadora de uma voz doce e muito linda, o que lhe confere também participação para puxar as chulas nas apresentações, quando ocorrem em locais menores e quando há o uso de microfones. Geralmente, dona Dezinha a convida para cantar algumas chulas no microfone. O vínculo de Carol com o grupo se deu por meio de sua mãe e de sua avó materna. Por morarem na mesma rua que dona Dezinha, isso possibilitou que Carol crescesse vendo os ensaios das "Nagôs Africanas" na porta de casa.
Carol participa do cortejo, durante o desfile das "Nagôs", no Carnaval de 2018 nas ruas da Biela. É possível notar que a sua presença é marcante e que sua atuação vai além da dança, da organização das filas e da formação da roda. Durante as entrevistas e conversas que tive com Carol, ela falou da alegria em pertencer ao grupo, além de seu apego à religião dos Orixás, um dos fortes motivos que a levou a participar das "Nagôs".
Carol: Entrei nas "Nagôs" com cinco anos, no intuito de que eu gostava do candomblé, minha mãe não deixava eu ir, então, as "Nagôs" foi para mim... foi um pouco da raiz que eu tinha dentro de mim, um pouco de eu ficar no que eu gosto, de ouvir o atabaque, o agogô. Aí, fiquei desde os meus cinco anos saindo nas "Nagôs", quando eu... quando eu... aos dezesseis anos, eu decidi que eu tinha que procurar um jeito d'eu poder seguir minha religião, e o jeito que eu achei foi, como meu marido, ele é Ogan. Ele é Ogan de Iansã. Aí eu comecei a ir escondida pro terreiro que ele frequenta, que hoje é o meu terreiro. (Entrevista em 10/11/2018)
O Afoxé das "Nagôs Africanas" está estreitamente ligado ao Candomblé, religião de matriz africana capaz de preservar práticas africanas na diáspora, como "[...] a oralidade, a memória, a musicalidade, os rituais, as línguas, a formação dos terreiros representando as nações africanas [...]" (BARBOSA, 2010, p. 22). Isso se dá de tal maneira que o "Bloco das Nagôs Africanas" se constitui como espaço afetivo e também de territorialização com a religião dos Orixás, de modo litúrgico e múltiplo pra cada uma das mulheres que integra o grupo.
Como é lidar com a religiosidade dentro das "Nagôs", já que a senhora não frequenta?
Dona Honorinda: Pra mim, é uma boa. Porque assim, eu respeito dona Dezinha, porque ela é de Candomblé, ela é feita, tem os preceitos dela. É tanto que eu gosto de tomar uma cervejinha, mas pra sair na brincadeira dela eu não bebo. Porque eu respeito o tabuleiro que ela me dá. Então, aquele tabuleiro é o fundamento da brincadeira dela, então quem carrega tem que ter o maior respeito, não pode beber, não pode fazer sexo... então, como ela mesmo explica antes, né? Segue quem quer. Eu sigo, eu respeito porque eu quero ser respeitada, então, eu respeito os outros também. É religiosidade pra mim, quem não tem religião não tem Deus. Não tem caminho a seguir. Porque eu acho assim, que, antes de você ter um filho, antes de você arrumar seu filho, pra mandar pra uma festa, primeiro manda ele pro caminho de Deus. Você não vai se arrepender de como você vai criar. (Entrevista em 15/01/2018)
As "Nagôs" têm um cuidado com o Candomblé. Como é a relação das "Nagôs" com o Candomblé, já que a maioria das mulheres são do Candomblé?
Dona Dezinha: A maioria das "muié" que brincam nas "Nagôs" brincam Candomblé também.
Mas, na hora de sair nas "Nagôs", o Candomblé fica guardadinho ou vai pra brincadeira também?
Dona Dezinha: O Candomblé fica lá, né... [fala bem baixinho].
Ou tá com a gente no nosso corpo e a gente vai?
Dona Dezinha: Agora é o seguinte, muitas "muier" que brinca Candomblé, que sai nas "Nagôs", de vez em quando, dá um abalozinho no corpo, né... mas, se descer ali, faz vergonha. Na brincadeira de carnaval, não é pra guia nenhum descer... né, não. É diferente.
Quem toca é do Candomblé também?
Dona Dezinha: É do Candomblé também. (Entrevista em 18/08/2018)
As "Nagôs" estabelecem relações respeitosas entre elas e suas religiosidades e entre suas religiosidades e suas componentes. Nesse processo, ocorre a valorização dos sentidos que compõem a performance do grupo, como a dança, o tabuleiro, as indumentárias e o toque do Ijexá, percussionado pelos atabaques, comunicando-se com as forças do sagrado e as expressões das religiosidades dos Orixás.
As linhas das religiosidades marcam mesmo aquelas que não são adeptas da religião e as afetam marcando com suas expressões subjetivas, sendo percebidas por quem as assiste, como é relatado por dona Honorinda.
A senhora não é do Candomblé, mas, mesmo assim, é apontada como se fosse. A senhora acha que isso acontece por qual motivo?
Dona Honorinda: Por causa das indumentárias, por causa das indumentárias, do torço! Então, elas acham que todo mundo que usa torço e aquelas roupas, é... chamam de macumbeiras. Com orgulho, eu carrego no coração, na minha pele o orgulho de ser descendente de macumbeiro. Tenho o maior orgulho, tenho filhos, tenho tios, tenho primos e, pra mim, não é vergonha nenhuma. Eu não frequento porque eu sou rebelde, eu não aceito freio, eu não aceito que digam tem que comer tal hora, não pode comer isso, não pode comer aquilo... é por isso, simplesmente por isso, que eu não frequento. (Entrevista em 15/01/2018)
A maioria das mulheres das "Nagôs" são adeptas do Candomblé. As que não são, como é a situação de dona Detinha, dona Railda, Pedrina e dona Honorinda, têm o hábito de ir às casas de Candomblé por influência dos seus familiares, como no caso de dona Railda e dona Detinha, que foram levadas a esses espaços ainda quando crianças, acompanhando os pais.
Pedrina, por conta da avó, e dona Honorinda têm proximidade por ter boa parte de sua família, como filhos, primas, como Mãe Otília, guardiã de uma das casas mais antigas da cidade, e de tios que são ou foram adeptos da religião. As narrativas apontam que as casas de Candomblé são um dos principais espaços de diversão e sociabilidade para essas famílias, locais que deram a essas mulheres seus primeiros contatos com o samba e as brincadeiras em torno dos tambores.
E quando foi que a senhora começou a sambar e participar nas brincadeiras das "Nagôs"?
Dona Honorinda: Nós já nascemos na macumba, somos descendentes de filhos de santos (Entrevista em 08/12/2018).
Dona Detinha: Ah!... minha fia... [risos] Eu já nasci na macumba, minha mãe era candomblezeira, meu pai de criação era candomblezeiro. Mãe
morreu e meu pai morreu, eu fiquei, sempre filha de criação de candomblezeira e nisso eu fiquei. (Entrevista em 08/12/2018)
O "Bloco das Nagôs Africanas" torna-se múltiplo ao desterritorializar o espaço do carnaval, por meio dos fluxos que, ao apontarem multiplicidades, rompem com as relações binárias ou opostas entre Carnaval e religião; Carnaval e relações afetivas de amizade; Carnaval e convivência familiar, Carnaval e relações de gênero, raça e classe (ANJOS, 2008).
Existe uma diferença nas brincadeiras das "Nagôs" com as do Candomblé?
Carol: Se há diferença? Acho que não. É não tem diferença, acho que... é a alegria, eu acho que é a mesma alegria que eu danço nas "Nagôs", eu danço no meu terreiro. Entendeu? Não tem essa, esse modo de... "ah! A 'Nagô' é diferente", não. O toque, as danças, as cantigas que, nas "Nagôs", são as cantigas dos pretos-velhos, entendeu? A única diferença lá é que eu carrego um estandarte e na minha... na minha... no meu terreno não. No meu terreiro, eu danço mais quando é com as crianças.
Carol, então, a rua torna-se um terreiro quando vocês desfilam?
Carol: Na verdade, a rua foi o meu primeiro terreiro, né? Que, como foi o meu encontro, onde eu descobri o que eu queria ser o que eu gostava foi nas "Nagôs". Então, eu digo que a rua foi o meu primeiro terreiro. (Entrevista em 10/11/2018)
A alegria é, segundo Deleuze (2019), o aumento da potência de agir. É justamente a produção da alegria que movimenta Carol entre o terreiro, a rua e as "Nagôs", não havendo sobreposição, mas somente fluxos. Isso é o que a impulsiona em uma cosmovisão de mundo, que não se preocupa se ultrapassou ou não a linha tênue do que é cada espaço, pois se movimenta como fluxo de um corpo político de máquina de guerra (DELEUZE, 2019). A potência gerada pelo fluxo da alegria expande o sentido da rua e do carnaval, diluindo espaços e homogeneidades. Os rituais populares, principalmente o carnaval, são ritos que objetivam o encontro, não a separação. O Carnaval remete a vários universos simbólicos da sociedade brasileira, podendo ser chamado de desfile polissêmico (DAMATTA, 1997).
As linhas das "Nagôs" não param de se remeter umas às outras e são fluxos que movimentam e atraem cada uma dessas mulheres ao grupo, formando o seu mapa, não sendo um decalque dos
grupos tradicionais de Afoxé36, mas, sim, uma cartografia autônoma, constituída pelas linhas da diferença. A formação tradicional dos Afoxés normalmente hierarquiza as relações de gênero inerentes aos fundamentos religiosos do Candomblé, em que mulheres não tocam os instrumentos sagrados, nas cerimônias ou nos desfiles dos Afoxés que saem das casas de Candomblé. Mas as "Nagôs", em seu acontecimento, entrelaçam-se em suas ancestralidades e apresentam outras relações de contato com os Afoxés ao ter uma mulher como combones, uma tocadora em seus desfiles e outra como organizadora da brincadeira, não nos deixando escapar nem esquecer o protagonismo feminino nos fazeres culturais e religiosos.
O homem brinca só tocando? Ou ele dança também?
Dona Detinha e D. Honorinda: Não... não.
Dona Honorinda: Tem um só que sai de preto-velho, mas, se ele brincar o primeiro ano, bem! Se não for, ele é tirado da brincadeira.
Dona Detinha: O resto tudo é pra tocar.
Então, só tem homem dançando quando vocês convidam?
Dona Honorinda: É... ele é convidado... Ele é convidado a brincar. (Entrevista em 08/12/2018)
Enquanto os grupos tradicionais mantêm a centralidade masculina nos cargos como a dos tocadores, prática comum entre os grupos afrocarnavalescos baianos, as "Nagôs" desdobram-se por fluxos diferentes, não havendo uma divisão das funções de gênero no grupo, que tem uma mulher – Soleni – como percussionista. A presença feminina tocando tambores não é uma novidade das "Nagôs", pois estão registradas nas histórias africanas que contam suas ancestralidades ligadas aos reinos dos Orixás. Segundo Lody (1976, p. 6 apud SOUZA, 2008, p. 115-116):
No reino de Oloxum, na terra de Gexá, havia uma comunidade exclusivamente de mulheres. Nas grandes festas à rainha Gexá, que é Oxum, cortejos percorriam as dependências dos palácios, praças e
principais ruas do reino. As mulheres tocavam pequenos ilús, presos no pescoço com alças de fibra, percutindo os coutos com ambas as mãos. Isso constitui-se em verdadeiro preceito religioso, que ainda fundamenta muitos ritos ligados à orixá Oxum. Esses ilús sobreviveram no Brasil especialmente nos cortejos dos Afoxés, que, segundo muitos praticantes, possuem sua origem nos séquitos festivos de Oxum.
A percussionista das "Nagôs" – ou a combone, como são chamados os tocadores e tocadoras em Belmonte – é Soleni, mulher negra que aprendeu a tocar com seu avô, senhor Carlos Santana, mais conhecido como Donha, tendo hoje mais de setenta anos. Soleni relata que começou a tocar ainda muito nova, aos cinco anos, aprendeu vendo o avô tocar. Quando ele pegava o tambor, ela ia para o lado dele vê-lo tocar, e foi assim, observando e estando ao lado do avô, que ela começou a tocar na brincadeira dos Negros que o avô organizava no Bairro da Biela.
Soleni: Eu via ele fazendo, aí eu ficava junto. Quando eu via um tambor ali, eu corria junto pra ver, aí foi indo, eu comecei a pegar prática assim, até hoje eu toco. [...] Ah, falavam que achava muito bom, que me chamavam pra ensinar elas também, só que ainda não tive oportunidade pra ensinar, que tem muitas pessoas que querem conhecer, querem que eu ensine, tá entendendo? Mas é muito bom mesmo, muito divertido, eu queria que tivesse mais mulher, né, mas não tem, não. (Entrevista em 18/01/2019)
A presença de Soleni nas "Nagôs Africanas" se deu pelo convite feito por dona Dezinha. O convite feito trata-se de uma vivência da " [...] alteridade numa concepção de pessoa completamente diferente daquilo que a modernidade ocidental nos apresenta: o 'outro' introduzido no 'mesmo' fazendo explodir a mesmidade como possibilidade de pensar e ser [...]" (ANJOS, 2008, p. 86). Além de tocar nas "Nagôs", Soleni também toca nos "Netos de Gandhi", um dos mais antigos Afoxés da cidade e que possui ligações diretas com algumas casas de Candomblé. E, mesmo assim, enquanto mulher, ela ocupa um dos lugares dos tocadores entre os "Netos de Gandhi".
É sabido que a presença das mulheres negras em diversas atividades da vida afrodiaspórica foi determinante nas estratégias de sobrevivência da comunidade negra brasileira desde a implantação da escravidão até os dias de hoje. A cultura popular negra é marcada pela presença feminina, principalmente por aquelas que tiveram seu cotidiano marcado pelas religiosidades de matriz africana no Brasil, já que as mulheres tiveram e têm um papel fundamental nas práticas culturais.
Elas souberam negociar constantemente ao longo da história e estiveram à frente de organizações de levantes e quilombos; de irmandades religiosas seculares, como a "Irmandade da Boa Morte"; foram articuladoras da cultura popular negra, como as "Guerreiras do Samba Tia Ciata", "Bibiana" e muitas outras mulheres que souberam negociar e transgredir as redes de poder regulador.
Pedrina e Carol participaram da brincadeira ainda no período em que eram estudantes da educação básica, pois foram, algumas vezes, acionadas pela professora para contribuírem no desenvolvimento de atividades referentes à temática da história da população negra em Belmonte e no Brasil, bem como da cultura popular negra e da cultura negra belmontense. O movimento de as meninas participarem das atividades como convidadas demonstra os efeitos que tem a organização das mulheres e suas negociações nos espaços de poder, a exemplo da escola.
Pedrina: A professora chamava a gente pra fazer a cultura dentro da escola.
E o que vocês faziam?
Pedrina: A gente fazia, caruru, fazia... chamava as casas de santo pra ir
dançar no Poli37, chamava as "Nagôs", chamava os "Gandhi". (Entrevista em 22/09/2018)
Como era ser estudante e ser das "Nagôs Africanas"? Como as pessoas te viam? Como era a sua relação na escola, com seus colegas e professores?
Carol: Com meus colegas nem tanto, mas com meus professores, a partir do meu primeiro ano, né, que aí eu comecei a desenvolver com minha professora... é... uma pesquisa, minha professora de sociologia, ela pediu para que eu desenvolvesse uma pesquisa para ela sobre as "Nagôs", para a gente entender um pouquinho e passar para meus colegas. Isso foi no primeiro ano do ensino médio, que aí a gente foi fazer e passar, que antes as crianças tinham um pouco de resistência sobre ser das "Nagôs", ser
dos Negros Africanos... e não entendi o porquê. O porquê ser. Aí, a gente pegou e desenvolveu no primeiro semestre essa pesquisa, levamos o atabaque para escola, apresentamos cantigas e conversamos também com dona Dezinha, pra ela poder explicar pra a gente um pouquinho. (Entrevista em 10/11/2018)
A participação em projetos escolares, como aqueles em que as meninas falaram sobre a cultura negra, como integrantes das "Nagôs" e como estudantes, produz a diluição dos espaços hegemônicos do saber e formam novos territórios, que não são nem relativos à escola, nem ao bloco em seu cortejo puro do carnaval, mas são produções de subjetividades de saberes, enunciações e agenciamentos a partir de suas vivências e experiências aprendidas pela oralidade e suas interseções históricas, religiosas advindas de suas ancestralidades. Quando, em sala de aula, seus saberes desenvolvidos, externos ao currículo escolar, agenciam novos lugares de fala e aprendizagens sobre a história afro-brasileira e africana, decorrentes das vivências de Carol e Pedrina no bloco e no carnaval. A religiosidade, a brincadeira, o batuque do tambor, os laços de amizade e familiaridade presentes nas "Nagôs" são os signos que lhes permitem entender e estabelecer significados com seu cotidiano dentro e fora do grupo.
A participação em projetos escolares, como aqueles em que as meninas falaram sobre a cultura negra, como integrantes das "Nagôs" e como estudantes, produz a diluição dos espaços hegemônicos do saber e formam novos territórios, que não são nem relativos à escola, nem ao bloco em seu cortejo puro do carnaval, mas são produções de subjetividades de saberes, enunciações e agenciamentos a partir de suas vivências e experiências aprendidas pela oralidade e suas interseções históricas, religiosas advindas de suas ancestralidades. Quando, em sala de aula, seus saberes desenvolvidos, externos ao currículo escolar, agenciam novos lugares de fala e aprendizagens sobre a história afro-brasileira e africana, decorrentes das vivências de Carol e Pedrina no bloco e no carnaval. A religiosidade, a brincadeira, o batuque do tambor, os laços de amizade e familiaridade presentes nas "Nagôs" são os signos que lhes permitem entender e estabelecer significados com seu cotidiano dentro e fora do grupo.
Vocês foram pra dentro da escola ensinar um pouco dos saberes de vocês?
Carol: Sim.
E como foi a recepção da escola?
Carol: A recepção da gente foi boa, né? Eu não sei se foi porque era na minha sala e eu tava lá pela frente, mas foi melhor do que a gente esperava... a gente não esperava que os meninos fossem cantar as músicas, que foi o que aconteceu, cantaram junto, alguns colegas quiseram aprender a tocar, outras a dançar e, assim, foi maravilhoso, né? Que a gente pode ver que não, não, só a gente que tava lá. Sentir aquele prazer, como o pessoal que ia nos ver, como eles quando iam para a praça ver as "Nagôs" dançar, ficavam se perguntando "como é? Que ia ser?". O porquê e sentir aquela alegria, aquela alegria que a gente tentava transmitir. Foi muito bom pra a gente saber o que eles sentem. Que a gente conseguia transmitir essa alegria para eles. (Entrevista em 10/11/2018)
Como é que vocês faziam para falar sobre o negro na escola?
Pedrina: Com carinho e amor que a gente tinha, pra mostrar a eles que macumba não é nada de feitiço. (Entrevista em 22/09/2018)
O falar não se restringe ao ato de emitir palavras, mas de poder existir. As "Nagôs Africanas", quando colocam seu bloco na rua, evocam e produzem lugares de fala, produzem multiplicidades e evidenciam as relações estruturantes de poder; elas rompem o espaço do Carnaval e ocupam também outros espaços, como o acadêmico. As "Nagôs" constantemente são convidadas a participar de eventos nas universidades públicas da região, como, por exemplo, no campus XVIII da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Eunápolis, e na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), campus Sosígenes Costa, em Porto Seguro. É a partir das experiências das "Nagôs Africanas", dentro e fora dos espaços da rua ou dos espaços acadêmicos, que podemos refletir sobre como o falar produz significado, ultrapassa as fronteiras hegemônicas e escapa da forma essencialista de emitir palavras. As "Nagôs Africanas" vão constituindo movimentos de produções de signos pela dança, pela música, pelas vestimentas, pelo samba, pelo toque do tambor, pelas religiosidades, pela organicidade do grupo, pelos espaços que ocupam e, assim, elas seguem provocando agenciamentos, tanto nas integrantes do grupo quanto em quem as assiste. O "Bloco das Nagôs Africanas" é reterritorialização de condições sociais, de exclusão e invisibilidade sociais, de gênero e de raça e opera como um território de existências de mulheres negras. As "Nagôs" produzem conexões com outros saberes, provocando outras possibilidades de pensar e estar no mundo e de desenvolver modos de aprender e ensinar sobre a trajetória afro-brasileira e africana.