As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

Dandara dos Santos Silva · Capítulo 13 de 26

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As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte

5.2. O samba de roda das Marisqueiras e a Mariscagem

5.2. O samba de roda das

 

Marisqueiras e a Mariscagem

 

A brincadeira do samba de roda das mulheres negras belmontenses, na areia da praia do Mar Moreno, no dia do festejo em saudação a Yemanjá, diz muito sobre o modo como elas se movimentam no lugar onde vivem e como, a partir de tais movimentos, provocam desterritorializações e constituem novos territórios a partir da máquina-corpo:

 

[...] definida como um sistema de cortes. Não se trata de modo algum do corte considerado como separação da realidade, mas de expandir a realidade vivida formada por linhas de fuga que emergem de seus movimentos variáveis, dado que toda máquina é corte e é fluxo, movimento no qual irrompe o desejo. (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 54, grifo do autor)

 

O corpo-dança, o corpo-marisqueiras e o corpo-brincante dessas mulheres constituem-se como espaço de produção dos territórios negros a partir de subjetividades que exprimem sua condição social, que muitas vezes é marcada pela segregação social, fomentada pela "subjetividade capitalística", em relação à população negra. Nesse sentido, os corpos dessas mulheres, abastecidos pelo desejo, realizam movimentos de cortes nos fluxos da máquina capitalística que interpõem sobre suas realidades. Neste movimento maquínico, elas engendram uma "subjetividade dissidente" que, neste caso, é a subjetividade das mulheres negras em Belmonte (GUATTARI; ROLNIK, 1996).

As produções culturais ocorrem das relações constituídas no terreno dos encontros onde culturas se chocam e identidades são postas em jogo a partir dos lugares de enunciação criados desde espaços antes subalternizados. Logo, as produções culturais negras ou as identidades culturais são formuladas no decorrer das experiências vividas pelos grupos sociais no lugar onde vivem.

Podemos perceber tais enunciações a partir dos modos de vida dos moradores da Biela, como as marisqueiras, pescadoras, pescadores e trabalhadores agrícolas, quando falam da lida da mariscagem, da pesca, da venda de quitutes, do trabalho nas matas, com a panha de mangaba, cajá e dendê, da religiosidade e das ancestralidades de modo subjetivo durante suas apresentações artísticas. Pode-se acompanhar as linhas de fuga que fazem correr, fluir e cortar e que, assim, consequentemente, desterritorializam os territórios e criam as identidades culturais que os atravessam durante suas apresentações.

Em minha primeira visita ao bairro, em conversa com o senhor Celso, um dos membros mais antigos do bloco afrocarnavalesco "Netos de Gandhi", ele me disse que a Biela é conhecida como o "bairro dos pescadores". Essa afirmação é percebida ao adentrar as ruas da Biela, pois é comum encontrar, nas paredes das residências, placas indicando a venda de peixes, crustáceos, como siri, guaiamum, caranguejo, camarão, dentre outros, predominantes na fauna do território de Belmonte e tão apreciados na culinária local.

No mangue, no rio, no mar, em casa, no cotidiano comunitário, nas ruas e nos blocos culturais, a vivência no bairro é construída a partir dos fluxos de contatos entre os moradores, agregando um conjunto de comportamentos que perpassam os espaços sociais, culturais, estéticos e cognitivos. A partir de seus movimentos "maquínicos", os moradores e moradoras engendram novos territórios por meio das suas práticas culturais, a exemplo da formação dos blocos afrocarnavalescos como os "Netos de Gandhi", os "Negros Mirim", as "Nagôs Africanas", o "Samba de Roda das Marisqueiras", o "Ubuntu" e as "Africanas".

A mariscagem é um conjunto de práticas que se constituem a partir da coleta de mariscos, o que envolve o ato de limpar e catar os crustáceos. Essa atividade é desenvolvida predominantemente por mulheres, o que não quer dizer que seja exclusiva delas, mas que elas se ocupam da mariscagem com maior intensidade, pois, com a saída dos homens para a pesca em alto-mar e rio adentro, as mulheres ficam em casa e, logo, são as responsáveis por prover os alimentos para seus filhos, além de também participarem da renda familiar com a venda dos mariscos.

Elas fazem do mangue uma das principais fontes de sustento para a família, conseguindo conciliar as atividades domésticas e o cuidado dos filhos com a mariscagem. Tal conciliação, entre as tarefas que envolvem a ida ao mangue e o labor de casa, é viável por conta da primeira depender do horário da maré baixa, quando a extração dos mariscos é possível. Logo, a jornada de trabalho dessas mulheres começa entre a ida ao mangue, os trabalhos de casa e o trato do marisco, que envolve limpar e catar o que foi pescado no mangue e, por fim, realizar a venda do catado.

Os manguezais, localizados nas comunidades ribeirinhas, representam, para as famílias que vivem na sua proximidade, uma fonte de sustento e desenvolvimento econômico. Isso acontece pelo fato de o rio e o mangue serem locais onde é encontrada uma diversidade de peixes e crustáceos, favorecendo a aglutinação humana e a formação de importantes territórios econômicos e de desenvolvimento da pesca e da mariscagem extrativista, atividades que movimentam significativamente a economia da cidade de Belmonte e do Território da "Costa do Descobrimento".

Por conta da mariscagem e da pesca, atividades fundamentais para o sustento de algumas famílias, surgem espaços de ocupação ligados a essas práticas no núcleo urbano de Belmonte. Entre eles, está o Bairro da Biela, que se constitui como um território de produção pesqueira, destacando-se por abrigar a colônia de pescadores Z-21 e a Associação de Marisqueiras e Pescadoras de Belmonte. A organização desses trabalhadores e trabalhadoras colaborou significativamente para o desenvolvimento das atividades econômicas da cidade e do bairro. A atividade da pesca extrativista ou artesanal, segundo apontam o Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável e Solidário (BAHIA, 2016) e o Documento de Monitoramento das embarcações produzido pela Veracel Celulose (2014), é responsável pelo desenvolvimento socioeconômico da cadeia produtiva da região da "Costa do Descobrimento".

A extração de mariscos consiste em uma das principais fontes de renda e sustento para boa parte das famílias que moram na Biela. Dona Dezinha, em entrevistas, relatou que criou seus filhos vivendo da pesca e da mariscagem no Rio Jequitinhonha e no Rio de Santa Cruz Cabrália:

 

Dona Dezinha: Olha, minha fia, criei meus filhos na lida da pesca, já pesquei muito nesse rio e também lá no rio de Cabrália, onde é a balsa hoje, quando eu ia pescar passava dias por lá. (Entrevista em 18/08/2018)

 

A mariscagem é uma prática contínua entre as mulheres da comunidade, construída dentro de um contexto histórico de segregação e relações sociais, de gênero e raça, em que as mulheres muitas vezes eram as únicas provedoras da família, como foi o caso de dona Dezinha.

O canto, as rezas e o trabalho coletivo fazem parte do cotidiano das marisqueiras, sendo que sua atividade foi estruturada pelas linhas da oralidade e ancestralidade, transmitidas de geração a geração, por aquelas que dela vivem. A ida ao mangue, na maioria das vezes, se dá em parceria ou em grupo, o que possibilita a transmissão dos saberes relacionados à prática da mariscagem.

Um exemplo do trabalho coletivo envolvendo a oralidade se dá na pesca do aratu, uma espécie de caranguejo menor, em que elas ficam paradas sem fazer muitos movimentos, cantando para conseguir capturá-lo. Segundo as marisqueiras, quando os pequenos crustáceos as ouvem, saem dos esconderijos; por isso, durante a pesca, elas costumam rezar em voz alta para atrair os aratus. O mangue torna-se uma encruzilhada e serve "[...] como ponto de encontro de diferentes caminhos que não se fundem numa unidade, mas seguem como pluralidades" (ANJOS, 2008, p. 80). Durante a lida da mariscagem, uma multiplicidade de encontros ocorre – afetividades, religiosidades, dificuldades, alegrias. O mangue se desterritorializa.

As músicas estão presentes no dia a dia das marisqueiras, tornando-se práticas desterritorializantes, pois são carregadas de subjetividades coletivas e individuais que forjam novos espaços e ultrapassam o limite do mangue e da casa. Os cantos das marisqueiras se configuram em territórios de mariscagem, quando elas formam o samba de roda para festejar, brincar e agradecer nas festividades da cidade.

Atualmente, o samba de roda das marisqueiras é organizado pela Associação das Marisqueiras e Pescadoras de Belmonte, localizada no Bairro da Biela, local de moradia da maioria das marisqueiras. A associação foi fundada em 2001, mas só veio a ganhar força política organizacional a partir de 2009, quando as marisqueiras e pescadoras passaram a compor o coletivo de Mulheres da Reserva

Extrativista de Canavieiras (RESEX)21. A formação do coletivo se deu em prol da transformação e da qualidade de vida, por meio de cursos de capacitação, seminários, conferências e espaços de aprendizagem para a capacitação empreendedora e acúmulo de capital social entre as mulheres da RESEX. Tais iniciativas foram apoiadas pelo projeto de capacitação e fortalecimento da Rede de Mulheres das comunidades Extrativistas do Sul da Bahia, entre

2009 e 2011, com o apoio da ONU Mulheres22.

A iniciativa das marisqueiras de Belmonte de compor um Coletivo de Mulheres das comunidades Extrativistas do Sul da Bahia transformou, de maneira significativa, suas realidades em Belmonte e na Biela. A partir do conhecimento adquirido na organização coletiva, somado às experiências do lugar onde vivem, elas conseguiram articular parcerias e diálogos com os poderes públicos e privados da região, visando à garantia de políticas públicas e direitos sociais básicos, versados nas questões de gênero referentes às atividades da mariscagem e pescaria. Trata-se, pois, de benefícios previdenciários, licença-maternidade, seguro pelo defeso, da construção da sede da Associação das Marisqueiras e Pescadoras, dentre outros, conquistados em parceria com as esferas do público e do privado. Hoje as marisqueiras de Belmonte são referência de organicidade coletiva dentro do Território Identidade "Costa do Descobrimento".

O samba de roda das Marisqueiras de Belmonte representa muito mais do que uma brincadeira ou um momento de lazer, configura-se em um movimento de fluxos desejantes que cortam os territórios hegemônicos de poder, marcando a Biela como uma encruzilhada por meio de agenciamentos coletivos e individuais na configuração de novos espaços subjetivos constituídos a partir do cotidiano das mulheres negras belmontenses.