As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
1.3. Algumas sinalizações no percurso metodológico
A partir do desenho da pesquisa que fiz, segui os movimentos realizados pelas "Nagôs Africanas" na perspectiva de compreender como se organizam, como colocam em prática seus saberes, sendo elas transmissoras dos saberes calcados na ancestralidade, no vivido, na oralidade e no corpo território. Assim, ensinando professores e professoras a tornar os cotidianos escolares mais alegres, mais festivos e, sobretudo, mais respeitosos com as culturas afrodescendentes.
1.3. Algumas sinalizações no
percurso metodológico
Procurei pensar a população negra não como uma categoria única, portadora de uma identidade fixa, mas compreendendo que as identidades são forjadas em constantes movimentos de negociações pessoais, culturais, sociais, políticas, religiosas, dentre outras, moduladas por fluxos desejantes dos encontros em um processo que provoca novos lugares de enunciação, outras identidades individuais e coletivas. "A identidade, nessa concepção torna-se uma 'celebração móvel': formada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpretados nos sistemas culturais que nos rodeiam." (HALL, 2011, p. 13).
Ou ainda, acompanho Stuart Hall (2014, p. 112) quando diz:
Utilizo o termo "identidade" para significar o ponto de encontro, o ponto de sutura, entre, por um lado, os discursos e as práticas que tentam nos "interpelar", nos falar ou nos convocar para que assumamos nossos lugares como sujeitos sociais de discursos particulares e, por outro lado, os processos que produzem subjetividades, que nos constroem como sujeitos aos quais se pode "falar".
É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora dos discursos que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. Além disso, as identidades emergem no interior do jogo de modalidades específicas de poder, e, por efeito, são mais uma produção da marcação da diferença e da exclusão do que o signo de uma unidade idêntica, naturalmente construída, de uma "[...] identidade em seu significado tradicional – isto é, uma mesmidade que tudo inclui, uma identidade sem costuras, inteiriça sem diferenciação interna." (HALL, 2014, p. 110).
Nas sociedades que se estabeleceram a partir da diáspora, as identidades são múltiplas, constituídas no trânsito da corporeidade, da religiosidade, da cultura, das linguagens ressignificadas pelas linhas de fuga, rabiscadas a partir de suas vivências diaspóricas afro-brasileiras, ou seja, o conceito de diáspora se desenha nas linhas de significação e ressignificação da cultura.
A expressão da cultura negra na diáspora se formula nas zonas de rasuras da diáspora e da identidade, sendo sua cultura carregada de significações e signos, força desterritorializante dos sujeitos afetados por sua ação rizomática. Essa leitura nos permite compreender a cultura afro-brasileira seguindo os sentidos dos "bulbos" da cultura afro-belmontense no desenho das "Nagôs Africanas". Lá, onde elas estão fundadas sobre as fronteiras entre o dentro e o fora são multiplicidades que provocam lugares/efeitos que fraturam o controle hegemônico fundado pelo espectro da escravidão ocidental que subalternizou a cultura africana e afro-brasileira. Nesse sentido, as "Nagôs" seguem reescrevendo a história afro-brasileira, protagonizando novos lugares de enunciação.
O trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com o "novo" que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas toma o passado como causa social ou procedente estético, ela renova o passado reconfigurando como um "entre-lugar" que inova e interrompe a atuação do presente, o "passado-presente" torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia de viver (BHABHA, 2013, p. 29).
Identificar as "Nagôs Africanas" neste lugar fronteiriço da cultura é crucial para entendermos o desenrolar das relações micropolíticas da história afro-brasileira, baiana e belmontense, pois elas ressignificam o passado marcado por dor e subalternização colonial e o compõe como causa social, política, religiosa, afetiva, como um lugar onde algo acontece e se faz presente. Elas renovam o passado reconfigurando-o com um "entre-lugar", onde o protagonismo negro se dá de modo insurgente, mesclando passado e presente.
Elas produzem novas linguagens e pontos de referência no constante fluxo de rupturas e continuidades das identidades negras. As fronteiras não são lugares fixos, nem as habitamos no estilo "pronta-entrega", mas são um lugar arbitrário. Também são assim os corpos que nelas habitam e tentam evitar "o testemunho da despossessão cultural" (BHABHA, 2013, p. 62). Pensar o "Bloco das Nagôs Africanas" como esse espaço fronteiriço, um "entre-lugar", permite concebê-las a partir de um agenciamento coletivo com linhas de fuga e linhas de vida contra as investidas coloniais.
A expressão cultural do "Bloco das Nagôs Africanas" estabelece um lugar onde acontecem as relações de subjetividade internas e externas, vivenciadas quando elas reconfiguram o espaço do Carnaval. Agem como as abelhas nas flores e no ecossistema. As "Nagôs" proliferam a cultura Afro, a identidade Afro, a história Afro e assim compõem novos espaços sociais dentro e fora do Carnaval.
Tornam o Carnaval um espaço de disputa 6 pelos saberes da população negra na sua luta pelo reconhecimento.
A escrita deste livro com as "Nagôs Africanas" encontra-se atravessada em intersecções e calcada em discussões conceituais, narrativas de acontecimentos e fotografias das mulheres componentes do "Bloco das Nagôs Africanas". Buscou-se estabelecer conexões e contatos com as temáticas discorridas, sem perder de vista os fluxos produzidos pelas "Nagôs Africanas". A estrutura deste livro encontra-se multifacetada, pois, para o seu desenvolvimento, foram realizadas entrevistas, individuais e em grupo, registros fotográficos e gravações dos ensaios e dos cortejos durante os carnavais de 2018 e 2019. As entrevistas estão organizadas dentro do texto, sempre em itálico, o nome das entrevistadas e da pesquisadora está destacado em negrito, como um modo de evidenciar as falas das mulheres no percurso do texto. Entendo que este texto foi escrito a muitas mãos: "Como cada um de nós era vários, já era muita gente. Utilizamos tudo o que nos aproximava, o mais próximo e o mais distante." (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 1).