As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
1. Percurso e encontro com as "nagôs africanas" de Belmonte
1. Percurso e encontro com as
"nagôs africanas" de Belmonte
"Em vez de tomar a palavra, gostaria de estar à sua mercê e de ser levado muito para lá de todo o começo possível. Preferiria dar-me conta de que, no momento de falar, uma voz sem nome me precedia desde há muito: bastar-me-ia assim deixá-la ir, prosseguir a frase, alojar-me, sem que ninguém se apercebesse, nos seus interstícios, como se ela me tivesse acenado, ao manter-se, um instante, em suspenso. Assim não haveria começo; e em vez de ser aquele de onde o discurso sai, estaria antes no acaso do seu curso, uma pequena lacuna, o ponto do seu possível desaparecimento."
(FOUCAULT, 2010, p. 5-6)
Abro esta escrita solidária aos sentimentos expressos por Michel Foucault, por ocasião de sua aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970, quando explicita as dificuldades dos começos. Difíceis começos!
Mas, se começar é preciso, tenho que confessar que iniciar um texto também não é uma tarefa fácil, pois a sensação que fico é a de que as palavras certas para um bom início são difíceis de encontrar. E, sem elas, a vontade que tenho é de sempre começar do meio para o início ou até mesmo do final, pois discorrer sobre temas que me instigam sempre vem acompanhado da necessidade de falar sobre nossas lutas seculares como povo preto e do tempo presente, das nossas memórias, modos de existência, sobrevivência, de viver e ser nesta sociedade estruturada na cripta do racismo, que se desenvolveu na usurpação do povo de etnias africanas, reduzindo-o a objetos da máquina do capitalismo.
Foi a partir do desejo de compreender os modos de ser, viver e sobreviver do povo preto nesta sociedade capitalista, racista, machista, heteronormativa e profundamente preconceituosa que me predispus a estudar este tema. Ele não nasceu depois de leituras acadêmicas ou das aulas na universidade, mas, sim, da vivência desde a minha infância, adolescência e, mais tarde, como mulher negra, periférica e camelô. Nasceu da minha vivência familiar construída com três "Ps" – Preta, Pobre e Periférica –, como costuma dizer minha mãe, sempre com muito sorriso no rosto e ao som do Ilê, que, por suas letras, batuques, danças e belezas, nos ensinou o que é ser "PPP". Condição que, para nós, não é motivo de vergonha, mas, muito pelo contrário, de orgulho e luta, para conseguir subverter e sobreviver a esta estrutura desigual imposta a nós.
Desde que comecei o curso de História no campus XVIII na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Eunápolis, tinha a certeza de que estudaria partes da minha história, da história da população negra, soteropolitana, baiana ou brasileira. Sabia que esses temas emergiriam como um encontro já esperado.
Assim que ingressei no curso de História da Uneb, só pensava em
escrever sobre as Negras de ganho1, isso porque cresci educada por elas. Minha mãe e as minhas tias são baianas de acarajé, sendo a minha avó materna e suas irmãs o nosso elo mais próximo com nossas ancestralidades. Elas desenvolviam o trabalho no tabuleiro de acarajé para garantir que seus filhos e filhas pudessem frequentar a escola. Todas tiveram pontos de acarajé em vários bairros de Salvador: um na Liberdade, próximo à entrada do Curuzu, em frente à antiga delegacia, e em Marechal Rondon, Pernambués e no Nordeste de Amaralina. Todos em bairros populares e majoritariamente ocupados pela população negra, em que elas também possuíam residência.
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Pois bem, aos 25 anos, ingressei finalmente em uma universidade pública, local que era o meu sonho, sempre acreditei que estudaria em uma universidade pública, pois sabia que ali era o lugar onde deveria estar. Passei no vestibular da Uneb para o curso de Licenciatura em História. Eu tinha plena convicção do que estava fazendo ali, meus objetivos, sonhos, riscos e desafios que estavam por vir, mas, antes de tudo, sabia da luta dos meus ancestrais para que eu pudesse chegar ali, o que me manteve como estudante daquela instituição.
A vivência dentro da Uneb e na cidade de Eunápolis me permitiu ir além da universidade e da cidade e conhecer as "Bahias" que existem dentro da Bahia e, assim, conhecer suas encruzilhadas fora do eixo Salvador-Recôncavo Baiano. De início, senti estranheza, pois era distante em lonjura e do cotidiano afrocultural com o qual convivi e conhecia em Salvador. Estava diante da "Costa do Descobrimento", um dos 27 Territórios de Identidade do Estado da Bahia, região fortemente atravessada pela cultura do turismo em torno de Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália e pela produção agroexportadora da celulose, por meio da Veracel Celulose. Essa empresa tem fábrica instalada no município de Eunápolis, mas o plantio de eucalipto – matéria-prima para a produção de celulose – se estende pelos oito municípios da "Costa do Descobrimento". Essas duas atividades econômicas foram determinantes no processo recente de crescimento populacional dos municípios desse Território de Identidade, pois foram fortes atrativos migratórios para pessoas de outras regiões do Brasil, principalmente dos estados mais próximos, como Minas Gerais e Espírito Santo. Por conta da forte presença de capixabas e mineiros, as práticas culturais da "Costa do Descobrimento" sofreram significativa influência desses grupos. O que eu experenciava no território era distante da cultura viva que estava habituada em meu cotidiano em Salvador e no Recôncavo Baiano. Sentia ali pouca expressividade das práticas culturais negras que conhecia. Esse novo universo cultural de uma "outra Bahia dentro da Bahia", que se desenhou para mim, a princípio, como uma "Bahia feita também de capixabas e mineiros", foi necessário para que pudesse desejar conhecer mais as formas específicas da negritude da Bahia na "Costa do Descobrimento". Assim, pude ir ao encontro de Belmonte, cidade que me descentralizou e levou a conhecer outras vivências afro-baianas, muito próximas às que conheci em Salvador. Foi em meio a esta fase de (re)conhecer a Bahia da "Costa do Descobrimento" que atualizei minhas sensibilidades sobre a cidade de Belmonte. Antes de visitá-la, eu já conhecia Belmonte, pelas memórias de uma vizinha, dona Dora, natural de Canavieiras, que, durante a minha infância, me contava histórias sobre Belmonte e Canavieiras. Ou pelas histórias de meu pai, que ia trabalhar nas festas dessas cidades. Agora, passados tantos anos, eu pude (re) conhecer Belmonte a partir do meu olhar, dos sons, do meu paladar... As minhas vivências começavam a ter materialidade no que via, ouvia, sentia.
Lembro-me do primeiro contato com a cidade de Belmonte, do forte sentimento que me veio no momento: Ah! Aqui posso me sentir na "Bahia" que conheço, aqui tem um cheiro familiar, aqui me reconheço nas pessoas nas ruas, pois, diferentemente de Eunápolis, em Belmonte, eu via a população negra tal como a via em Salvador. Em Belmonte, vi a bandeira do Esporte Clube Bahia hasteada nas casas. Sem contar que ali voltei a sentir o cheiro do dendê fritando acarajé às 17h, pude comer comida baiana, pois encontrei, em vários lugares, a venda de moqueca, catado, caranguejo, guaiamum, camarão, vatapá, caruru.
Conhecer Belmonte foi diferente também porque Eunápolis, sede do campus XVIII da Uneb, onde me graduei, tem sua população formada pela migração de mineiros, capixabas, baianos da microrregião do Sul da Bahia e até estrangeiros, em sua maioria brancos. Esses migrantes se estabeleceram em Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália, cidades potencialmente turísticas, além de Eunápolis, por conta da indústria madeireira, agrícola e,
posteriormente, de celulose. Quando cheguei em Belmonte2, vi um cenário diferente, pois lá pude perceber a população negra – na estética, na comida, na religião, nas festividades e no dia a dia.
A minha primeira visita a Belmonte aconteceu no período do Carnaval, foi justamente quando conheci a brincadeira das "Nagôs Africanas" ou "As Nagôs", como são popularmente conhecidas na cidade. Foi por meio do "Samba das Nagôs", sua batida nos tambores, no Carnaval, que fui levada para um tempo e lugar que ainda não conhecia. Esse acontecimento me atravessou e levou a esta pesquisa. Elas foram o ponto-chave do surgimento da produção deste trabalho, pois, somente nesta cidade, além de Salvador, vi as brincadeiras de Afoxés, blocos Afro e Candomblés de rua, práticas negras que cresci vivenciando com os meus familiares.
O encontro com a brincadeira das "Nagôs Africanas" provocou vários outros encontros, configurando-se em uma verdadeira encruzilhada (ANJOS, 2006). Entendo encruzilhada como um lugar que tanto pode ser o começo, a abertura de um fluxo, quanto o fim de um território existencial. Por perceber um reencontro comigo mesma e com minha ancestralidade, cantada e performatizada por aquelas mulheres também negras, pude sentir que os nossos fluxos continuam correndo, construindo e desconstruindo modos de ser e viver na diáspora negra baiana, mostrando-me os caminhos do povo negro em seus movimentos. Bifurcam-se e recriam, assim, caminhos e espaços de sobrevivência/ existência.
A experiência no Carnaval belmontense conectou-me com minhas memórias afetivas das músicas negras que cresci ouvindo – Edson Gomes, Ilê Ayê, Muzenza, Olodum, dentre outros grupos negros da música afro-baiana. Tais influências culturais colaboraram com a minha formação pessoal e coletiva, pois ficava encantada ouvindo as histórias sobre a África, os africanos e afrodescendentes que as músicas cantavam. Sentia que a minha negritude era "bonito de se
ver" 3!
Entendia, a partir das músicas afro-baianas, que nós, negros e negras, também fomos protagonistas da história. Aprendi que lutamos e não nos curvamos aos racismos e às opressões que sofremos ao longo dos séculos. Foi a partir deste processo de aprendizagem que busquei realizar esta pesquisa, agora, atravessada pelas "Nagôs Africanas" de Belmonte. Tal empreitada tornou-se possível a partir da implantação do curso de mestrado profissional do Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia (PPGER/UFSB), campus Sosígenes Costa, sediado em Porto Seguro, espaço em que me tornei estudante.
A implantação do PPGER, no território baiano "Costa do Descobrimento", possibilitou a estudantes da região o desenvolvimento de pesquisas que versassem sobre manifestações culturais de matriz africana em diversas áreas do conhecimento. A entrada no PPGER foi a concretização de mais uma etapa na realização de um sonho. Ao ingressar no mestrado, um pouco mais madura do que na graduação, convicta dos meus objetivos, tive melhor desenvoltura na escolha das disciplinas, dos textos e das atividades que desenvolvi durante o curso. A maturidade e o compromisso com que procurei realizar esse processo de formação foram fundamentais para me manter acreditando na importância desta pesquisa para mim, para as mulheres negras e para a luta do povo negro que tanto lutou e ainda luta para que formações como essa sejam ofertadas na perspectiva de fazer avançar a educação das relações étnico-raciais no Brasil.