As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
Sobre a autora
Posfácio: autoria negra, pele
das chuvas, pensamento
nascente
1. Transfluir: escritas de águas, terrais
Lá, diante do mar, uma mulher negra avista as escritas na pele das águas. Acompanha, como uma aula, todo desenho que fazem as águas quando transfluem pelos céus e retornam às terras, seus lençóis e funduras, a pele da chuva. "As águas cicatrizam feridas coloniais", sopra Carla Akotirene, "a água para as mulheres negras é fundamento epistemológico" (AKOTIRENE, 2020, p. 32).
A pele da chuva é escrita. A pele preta da chuva escreve. As águas como fundamento – sejam feitas de assombros, de orvalho ou de tempestades – são incorporações dos vivos e dos mortos– em meio ao vivo –, performam e pensam vidas pretas sulcando caminhos e abrindo sentidos para a diáspora negra no interior das práticas discursivas acadêmicas, no cerne de modos e fluxos de pesquisas e de produção de conhecimentos nas universidades brasileiras.
A pele da chuva torna-se a escrita de comunidades ancestrais, memórias do presente, do passado e do futuro.
As colonialidades e o monopólio epistêmico ocidental, como processos históricos, ainda não terminaram de passar; fazem perdurar no tempo presente dispositivos para o genocídio, para a opressão, para o silenciamento e para o epistemicídio dos povos pretos.
Mas a ancestralidade das águas é èmí (sopro da vida), é ofó (encantamento), é às.e. (energia vital) e, no contínuo-descontínuo das geografias e das memórias do atlântico negro, a ancestralidade torna-se nossa palavra sem medo.
"Nos tiraram tanto, que nos tiraram o medo" (SÁ, 2020, p. 6) 1, diz uma mensagem serigrafada com tinta vermelha, em um muro erguido na cidade de Cachoeira de São Félix (BA). Na leitura de um livro, escutamos um possível ritornelo, ecoando e ampliando a mensagem grafada: "[...] e, se adquiri e conservei o conhecimento da arte de escrever foi por necessidade, tendo descoberto que a escrita e o medo são incompatíveis" (LLANSOL, 1985, p. 13).
As chuvas não param de cair sobre os mares, águas doces encontram a pele salgada das águas; muitos naufrágios, seculares travessias. E aqui, neste lugar editorial que fundamos, tão próximo a nós, foi possível acompanharmos, cartografarmos, revisarmos juntas, comentarmos e editarmos escritas de reexistências.
"Colombo! fecha a porta dos teus mares" (ALVES, 1997).
Estamos (ainda) em pleno mar.
Retornar à terra. Fomos chamadas ao encontro com as águas,
somos Ialodês 2! E, no contexto das violências interseccionalizadas e perenes – raça, gênero, classe, sexualidade, racismo religioso etc. –, a pergunta-interlocução de Akotirene nos parece precisa: "[...] levantar-se ou continuar caída? Sentir ou não as feridas da colonização? É da mulher negra o coração do conceito de interseccionalidade" (AKOTIRENE, 2020, p. 24).
No processo de edição dos dois novos livros da série de livros Transfluência (2022-2023), tomamos para nós, coordenadoras editoriais, algumas das perguntas e dos apontamentos de Carla Akotirene (2019) e de Glória Anzaldúa (2021). Fazemos isso para, por meio de um gesto – uma ação e um projeto – editorial de publicação de autorias de mulheres negras no campo oficial dos discursos técnico-científicos, indagarmos: é das mulheres negras a pele da escrita? Da escrita crítica de um pensamento feito de nascentes?
2. Livros-escola, dissertações-carta
21 mayo 80
Queridas mujeres de color, companheiras no escrever –
Eu me sento aqui nua sob o sol, máquina de escrever contra os joelhos, tentando visualizar vocês. Mulher negra fincada na mesa do quinto andar de algum apartamento de Nova York. Sentada numa varanda do sul do Texas, uma chicana abana mosquitos e o ar quente, tentando despertar as brasas amornadas da escrita. Mulher indiana caminhando para a escola ou para o trabalho, lamentando a falta de tempo para trançar a escrita dentro de sua vida. Não é fácil escrever esta carta. Ela começou com um poema, um poema longo. Eu tentei torná-la num ensaio, mas o resultado foi madeira, frio. Eu ainda não desaprendi as merdas esotéricas e pseudo-intelectualizadas da lavagem cerebral universitária em minha escrita. Como começar de novo. Como chegar perto da intimidade e da proximidade que quero. Que forma? Uma carta, óbvio (ANZALDÚA, 2021, p. 44-45).
Os livros de autoria de mulheres negras que compõem a edição II da série Transfluência, a saber, Leia-me negras: insurgências afroafetivas, de Fátima Santana Santos, e As nagôs estão na rua com prazer e alegria: uma cartografia afro-baiana de Belmonte, de Dandara dos Santos Silva, são resultantes da trajetória acadêmica de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).
Da defesa de dissertação à publicação dos livros, passaram-se quase três anos. Como processo de adensamento e revisão estilística dos registros de pesquisa, cada uma das autoras mergulhou nas águas das própria escrita, intensificando as suas escolhas acerca de modos enunciativos, ao mesmo tempo que vivenciavam processos de apropriação de um lugar específico: o de intelectual.
Diante do livro, o medo. Medo de abrir palavra na página que sempre lhe foi negada. Portanto, coordenar o processo de edição desses dois livros da série Transfluência foi assistir a uma certeira e afirmativa tomada de posição diante da autoria. Como é difícil para nós pensar que podemos escolher nos tornar escritoras, muito mais do que sentir e acreditar que podemos! O que temos para contribuir e para dar? Nossas próprias expectativas nos condicionam (ANZALDUA, 2021).
E como casulo, metamorfose ou encantamento, estes livros surgem da força e da dedicação dessas duas pesquisadoras negras, que discutem, propõem e salvaguardam saberes e estéticas de senhoras e crianças, mais velhas e mais novas, cidadãs do Estado da Bahia.
Há a dimensão de uma espécie de ilé è.kó. (escola, curso), de ilé è. kó. gíga (universidade), de ilé ìkáwè (biblioteca), de criação de biblioteca contracolonial, mergulho em materialidades ancestrais negradiaspóricas, neste processo compositivo, do Design Gráfico à elaboração discursiva, passando por muitas etapas que seguem se configurando como etapas formativas do PPGER-UFSB.
O livro é cura e veneno a um só tempo? Dá lugar à manifestação (às incorporações) do verbo? A força da enunciação da palavra pode ser estratégia de cicatrização das "feridas coloniais", as quais se refere Carla Akotirene? Pode a palavra transfluir, dar passagem?
Nem toda palavra tem potências de cura. Para arriscar travessias e reexistências, é preciso desacostumar as rotas previsíveis dos naufrágios e das subalternizações às práticas e aos saberes hegemônicos de produção de conhecimento. Como exercício de navegações na pele das águas e das memórias pretas, a escrita dos livros de Fátima Santana e Dandara Silva atingiram seu ponto de "língua de fogo", ao modo Anzaldúa, tornando-se, de um modo contundente e de uma só vez, poema longo, ensaio, cartografia, autoetnografia, escrevivência, enunciação coletiva de mulheres negras, pensamento-nascente, dissertações-carta.
Ao longo do processo de edição, entre incontáveis trocas e aprendizagens, com o livro de Dandara Silva, fabulamos e compreendemos o quanto as Nagôs de Belmonte (BA) podem transmitir de saberes e conhecimentos à teoria da diferença de Deleuze e Guattari. Com o livro de Fátima Santana, acolhemos a decisão crítica e metodológica de uma educação antirracista e afroreferenciada, capaz de propiciar experiências de felicidade para a infância preta.
Para fazer ressoar as vibrações da palavra sem medo, para afirmar escritas técnico-científicas subjetiva e politicamente implicadas, para saudar a ancestralidade negra diaspórica e para celebrar modos de pesquisa que são organicamente vida, chamamos Audre Lorde à cena deste nosso posfácio. Neste fim que é também começos, ressaltamos:
Na medida em que aprendemos a suportar a intimidade da investigação e a florescer dentro dela, na medida em que aprendemos a usar o resultado dessa investigação para dar poder à nossa vida, os medos que dominam nossa existência e moldam nossos silêncios começam a perder seu controle sobre nós (LORDE, 2020, p. 45).
Cynthia Cy Barra e Laura Castro
Coordenação Editorial do Projeto Transfluência
Ilhéus; Salvador, Bahia, novembro de 2022.
Referências
AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019. Coleção Feminismos Plurais.
ALVES, Castro. "Espumas flutuantes". In: Poesias Completas. São Paulo: Ediouro, 1997. (Prestígio). Disponível em:
http://www.bibvirt.futuro.usp.br. Acessado em: 12 de novembro de 2022.
ANZALDÚA, Gloria. "Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do Terceiro Mundo". In: ANZALDÚA, Gloria. A vulva é uma ferida aberta e outros ensaios. Trad. Tatiana Nascimento. Rio de Janeiro: A Bolha Editora, 2021. p. 43-62.
LLANSOL, Maria Gabriela. Um falcão no punho. Lisboa: Relógio D ´água Editores, p.1985.
LORDE, Audre. "A poesia não é um luxo". In: Audre Lorde, irmã outsider: ensaios e conferências. Trad. Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. P. 45-49.
SÁ, Tereza Cristina Soares de. A escrita de mulheres negras no sul da Bahia: uma poética dissidente de resistência e ancestralidade. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino das Relações Étnico-Raciais – PPGER), Instituto de Humanidades, Artes e Ciências (IHAC), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Itabuna, p. 6, 2020. Disponível em:
https://sig.ufsb.edu.br/sigaa/verArquivo?
idArquivo=623871&key=d66ab80f07772716573cd95b0874f766. Acessado em: 12 de novembro de 2022.
Sobre a autora
Dandara Silva, nascida mulher preta, periférica e pobre, na cidade de Salvador/BA, em 14 de abril de 1986. Estudante de escola pública, foi cotista no curso de licenciatura em História, pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus XVIII, formando-se em 2015. Mestre em Ensino e Relações Étnico-Raciais (2019), pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais (PPGER), da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), campus Sosígenes Costa. Atualmente é professora de História, na Educação Básica. Tem experiência nas áreas de História, Ensino e Relações Étnico-Raciais, com ênfase em História, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino de História; Lei 10639/03; Ensino e Relações Étnico-Raciais; Cultura Popular Negra. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Políticas e Currículos Pós-Críticos (GEPEP/UFSB/CNPq).
http://lattes.cnpq.br/6576230530529409
Notes
1. Percurso e encontro com as “nagôs
africanas” de Belmonte
1. "Negras de ganho" eram mulheres negras, libertas ou livres,
que desenvolviam atividades comerciais, informalmente ou em parceria, com os seus senhores, vendendo quitutes para a sociedade escravista. Tal atividade, de acordo com a condição de cada uma, lhes permita acessar suas alforrias se elas fossem escravizadas; já às "Negras de ganho" livres, o trabalho lhes possibilitava a sobrevivência. Essa atividade era também comum entre homens e crianças.
↩
2. A cidade de Belmonte fica no Território de Identidade "Costa do
Descobrimento", que é um modo de organização política e geográfica feita pelo Governo do Estado da Bahia em parceria
com o Ministério de Desenvolvimento e Agrário. No capítulo
três, desenvolvo a apresentação desse território.
↩
3. Temática do DVD dos quarenta anos do Ilê Aiyê, gravado em
Salvador, em novembro de 2014.
↩
4. Vale ressaltar que ainda é reduzido o número de pesquisas
realizadas sobre a temática na região do Extremo Sul da Bahia e, em específico, sobre Belmonte.
↩
5. O Caderno Cartográfico das Nagôs Africanas de Belmonte
encontra-se anexado à dissertação de mestrado: As Nagôs estão na rua com prazer e alegria: uma cartografia afro-baiana de Belmonte–Ba, disponível em:
https://sig.ufsb.edu.br/sigaa/verArquivo?
idArquivo=467473&key=e-2436458d83c5b-
46124676d2ed9b24f9. Acesso em: 17 maio 2022.
↩
6. Tal leitura pode ser feita quando as "Nagôs Africanas"
estabelecem diálogo, por exemplo, com a Secretaria de Cultura de Belmonte, sobre a sua participação no carnaval, pois a programação oficial da festa não leva em consideração a particularidade do bloco, formado majoritariamente por senhoras com idades entre sessenta e oitenta anos, colocando-as para desfilar em um horário inapropriado. Por isso, há necessidade do diálogo com os gestores públicos. Também, podemos notar esse espaço de disputa quando elas cantam suas chulas, músicas que rememoram suas ancestralidades e seus feitos de subversão da ordem, ao saírem para o desfile no seu momento adequado, ou quando falam das estratégias de sobrevivência da população negra.
↩
2. Saúdo pai, saúdo mãe, saúdo todos
os orixás! Minhas “nagôs” em
primeiro lugar
7. Trecho da música "Minhas Nagôs em primeiro lugar", de autoria
das "Nagôs Africanas".
↩
8. Sobre esse tema, ver os trabalhos de Soares (2014) e Costa e
Ribeiro (2015).
↩
3. “Eu vim de longe! Eu vim de
longe...”
9. Refiro-me à História enquanto ciência, a que faz contraponto às
memórias subjetivas e às histórias passadas de geração a geração, compartilhadas numa dada comunidade.
↩
10. Este o pensamento preciso de Avtar Brah: "[...] desejo por um
lar (que difere de um desejo por uma pátria) [...]" (AVTAR BRAH, 1996, p. 180 apud WALTER 2011, p.12). Essa distinção traz elementos à questão abordada. Nem toda diáspora sustenta uma ideologia de volta possível, mesmo que as condições de vida dificultem o sentir-se em casa no novo país. No caso da diáspora africana, a volta era impossível. Dessa forma, a teorização na/da encruzilhada diaspórica transcultural pode fornecer uma compreensão não essencialista de formações identitárias e de cidadanias interculturais e transnacionais.
↩
11. Segundo Munanga (2014, p. 4-5), "[...] os estudiosos desse
campo de conhecimento chegaram à conclusão de que a raça não é uma realidade biológica, mas sim apenas um conceito aliás cientificamente inoperante para explicar a diversidade humana e para dividi-la em raças estancas. Ou seja, biológica e cientificamente, as raças não existem.".
↩
12. Vale ressaltar que a referência ao termo discurso, neste
trabalho, não é a uma simples reprodução das palavras de modo neutro ou aleatório e puramente cognitivo para estabelecer a comunicação, mas, sim, no sentido foucaultiano, como um sistema que produz um imaginário social, que constrói espaços políticos e sociais, estabelecendo relações de poder e controle. "Suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade." (FOUCAULT, 2010, p. 8-9).
↩
4. “Na bahia tem ‘nagô’? Oh! Tem
nego jê! Na bahia tem ‘nagô’? Oh!
Tem angola!”: Encruzilhadas negras
13. Música "Na Bahia tem 'Nagô'", cantada pelas "Nagôs Africanas"
de Belmonte.
↩
14. A Biela é um dos maiores bairros de Belmonte, onde se
encontra a residência de dona Dezinha e sempre se inicia o desfile das "Nagôs". Falaremos mais a fundo sobre o bairro ao longo deste capítulo.
↩
15. A região da "Costa do Descobrimento" (Território de Identidade)
é composta por oito municípios: Guaratinga, Itabela, Eunápolis, Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália, Belmonte, Itapebi e Itagimirim.
↩
16. Refiro-me à "cartografia do desejo", tal como desenhada por
Felix Guattari e Sueli Rolnik (1996).
↩
17. "Biela é uma peça de máquina que transforma o movimento
retilíneo alternado do pistão em movimento circular contínuo do eixo do motor." (FERREIRA, 2001, p. 105). Por analogia, penso o bairro da Biela também como uma ferramenta de movimentação e maquinação utilizada pelas "Nagôs".
↩
18. Infelizmente não obtivemos (obtive?) dados que apresentassem
um contingente demográfico específico do bairro, mas, ainda assim, acreditamos (acredito?) que seja um dos mais populosos da cidade devido à sua extensão.
↩
19. Munanga (1999), em seu livro Rediscutindo a mestiçagem no
Brasil: Identidade nacional versus identidade negra ao estudar dados do IBGE, destacou que, a partir do levantamento feito
pelo historiador Clóvis Moura, após o censo de 1980, ilustra-se com eloquência a adesão popular ao mito de democracia racial brasileira e ao ideal do branqueamento sustentados pela mestiçagem. Há um total de 136 cores de pele nomeadas pelos brasileiros. Inquiridos os brasileiros não brancos sobre a sua cor, eles responderam que era: "Acastanhada, agalegada, alva, alva-escura, alvarente, alva-rosada, alvinha, amarelada, amarela-queimada, amarelosa, amorenada, avermelhada, azul, azul-marinho, baiano, bem-branca, bem-clara, bemmorena, branca, branca-avermelhada, branca-melada, branca-morena, branca-pálida, branca sardenta, branca-suja, branquiça, branquinha, bronze, bronzeada, burguezinha-escura, burro-quando-foge, cabocla, cabo verde, café, café-com-leite, canela, canelada, cardão, castanha, castanha-clara, cobrecorada, cor-de-café, cor-de-canela, corde-cuica, cor-de-leite, cor-de-ouro, cor-derosa, cor-firme, crioula, encerada, enxofrada, esbranquecimento, escurinha, fogoió, galega, galegada, jambo, laranja, lilás, loira, loira-clara, loura, lourinha, malaia, marinheira, marrom, meio-amarela, meio-branca, meiomorena, meio-preta, melada, mestiça, miscigenação, mista, morena-bem-chegada, morena-bronzeada, morena-canelada, morena-castanha, morena-clara, morena-cor-decanela, morenada, morena-escura, morena-fechada, morenão, morena prata, morena-roxa, morena-ruiva, morenatrigueira, moreninha, mulata, mulatinha, negra, negrota, pálida, paraíba, parda, parda-clara, polaca, pouco-clara, pouco-morena, preta, pretinha, puxa-parabranca, quase-negra, queimada, queimadade-praia, queimadade-sol, regular, retinta, rosa, rosada, rosaqueimada, roxa, ruiva, ruço, sapecada, sarará, saraúba, tostada, trigo, trigueira, turva, verde, vermelha, além de outros que não declararam a cor." (MOURA, Clóvis. 1988, p. 64 citado por MUNANGA, 1999, p. 120). O que significa o total de 136 cores levantadas nessa pesquisa? Emprestando os argumentos do próprio autor citado, demonstra como o brasileiro foge de sua realidade étnica, de sua identidade, procurando, mediante simbolismo de fuga, situar-se o mais próximo possível do modelo tido como superior, isto é, branco: "
[...] a identidade étnica do brasileiro é substituída por mitos retificados, usados pelos próprios não-brancos e negros especialmente, que procuram esquecer e/ou substituir a concreta realidade por uma enganadora magia cromática na qual o dominado se refugia para aproximar-se simbolicamente, o mais possível, dos símbolos criados pelo dominador." (MUNANGA, 1999. p. 120).
↩
5. Territórios negros dissidentes
20. Esta citação de Angela Davis é referente à palestra:
"Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo", proferida no salão nobre da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em comemoração ao Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha. Evento organizado pelo Instituto Odara, Coletivo Angela Davis, Núcleo de Estudos Interdisciplinar da Mulher (NEIM), da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e da UFBA.
↩
21. "A Reserva Extrativista de Canavieiras (RESEX), como as
demais RESEX, tem o objeto de estudo sob a ótica da atividade pesqueira das comunidades locais que fazem parte dessa reserva, é uma unidade de conservação federal gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Localiza-se no sul da Bahia, nos municípios de Canavieiras, Belmonte e Una, sendo que dos 100 mil hectares da área, 83% correspondem à parte oceânica, 12% são restingas e manguezais, o restante (menos de 5%) constitui áreas de terra firme. A criação dessa RESEX tem como objetivo proteger os meios de vida e a cultura da população extrativista residente na área de sua abrangência e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais da unidade." (CAVALCANTE, 2011, p. 16-17).
↩
22. "A Rede de Mulheres – nome vulgarmente denominado no local
– foi criada em 2009, pelas pescadoras e marisqueiras da região Sul da Bahia, unidas pelo ideal de 'dar voz' às demandas e necessidades das mulheres que exercem a atividade de pesca e coleta de mariscos, bem como valorizar o trabalho extrativista desempenhado pelas mulheres. A rede abrange seis municípios do sul da Bahia (Santa Cruz de Cabrália, Belmonte, Ilhéus, Itacaré, Una e Canavieiras). Desde sua constituição, tem sido possível articular políticas públicas e setoriais versadas nas questões de gênero para as extrativistas participantes, destacando-se a luta pela garantia dos direitos sociais básicos, como os benefícios previdenciários, licença maternidade, seguro pelo defeso, dentre outros. O fortalecimento da Rede tem permitido a suas integrantes maior influência nas decisões relativas à RESEX e em suas comunidades, dandolhes penetração nas instâncias da gestão de suas comunidades e da Reserva, nas quais se fomenta o poder e a liderança, em virtude do empoderamento alcançado com o acesso a novos conhecimentos," (CARMO et al., 2016, p. 171-172).
↩
6. Carnaval: nossas identidades sob
rasura
23. Utiliza-se "identidade nacional" entre aspas para enfatizar que
essa identidade não significa um dado em si da realidade, mas refere-se a uma construção social. Se a nação é uma comunidade simbólica, imaginada, forjada em nível representacional, como analisa Hall (2011), pode-se inferir que, no caso específico do Brasil, a construção dessa "identidade nacional" foi elaborada por uma elite política e intelectual, inserida num contexto específico que, profundamente influenciada pelas teorias raciais europeias e norteamericanas, buscava forjar uma aparente hegemonia da raça branca sobre todas as outras.
↩
24. "Ela (a identidade nacional?) é "imaginada" porque, mesmo os
membros da mais minúscula das nações, jamais conhecerão, encontrarão ou nem sequer ouvirão falar da maioria de seus companheiros, embora todos tenham em mente a imagem viva da comunhão entre eles." (ANDERSON, 2008. p. 32, grifo do autor).
↩
25. "Termos que designavam negros e pobres." (ALBUQUERQUE;
FRAGA FILHO, 2006. p. 223).
↩
26. Primeiras festividades carnavalescas praticadas no Brasil. Para
saber mais sobre as festas do entrudo, consultar Ferreira Filho (1998) e Germano (1999).
↩
27. "Também chamados de 'candomblé de rua', no começo do
século 20, são manifestações carnavalescas que têm como características a cadência do Ijexá (ritmo percussivo tocado nos terreiros para saudar os orixás), cânticos, indumentárias, instrumentos musicais e rituais do candomblé." (BARBOSA, 2010, p. 26-27).
↩
28. "Essa criatividade da população negra irritava as autoridades
que, exaustivamente, proibiam as 'africanizações', as apresentações de 'usos e costumes da Costa da África', mas que viam, ano após ano, o Carnaval sendo recriado a partir de referências ao continente negro." (ALBUQUERQUE; FRAGA FILHO, 2006. p. 223).
↩
29. Sobre o imaginário do carnaval, ver Bakhtin (1987).
↩
7. Afrorrizoma: uma cartografia da
cultura negra 30. Música das "Nagôs Africanas": "Eu sou Nagô".
↩
31. "Afoxé é uma festa realizada como uma obrigação pelos
integrantes do candomblé e, talvez, influenciada pelas festas de Coroação dos Reis do Congo, chamadas de congadas." (BARBOSA, 2010, p. 13).
↩
32. Sobre a Revolta dos Malês, ver Reis (1983).
↩
8. “Vamos cortar dendê, nagô!”:
Saber/ poder, afetividades,
aprendizagens
33. Dona Honorinda aponta para o tabuleiro que está em cima da
cabeça, o tabuleiro é organizado por dona Dezinha e fica guardado em sua casa, só sai para as apresentações.
↩
34. Entrevista de dona Honorinda cedida ao canal Cultura Web TV,
entre os minutos 00:30 e 1:20s.
↩
35. Entrevista de Carol cedida ao canal Cultura Web TV, entre os
minutos 2:53 e 3:31.
↩
36. Os desfiles de Afoxés, desde os primeiros registros realizados
sobre suas apresentações na cidade de Salvador, ainda no século 19, já externavam seu pensamento sobre o mundo negro na diáspora africana provocada pelo mercantilismo colonial. Os Afoxés, nesse período, eram formados predominantemente pela juventude negromestiça, que rememoravam suas heranças africanas nos nomes que batizaram os grupos afrocarnavalescos, nas suas vestimentas, nas contas utilizadas, no repertório de língua iorubá, todos esses elementos entendidos como símbolos africanos. Sendo
assim, somos levados a perceber como os Afoxés, desde as suas primeiras apresentações, têm provocado a "reflexão e existência do ser negro", uma prática do pensamento filosófico africano Ubuntu, dando início à montagem do mosaico multiétnico da representação do mundo negro diaspórico brasileiro. Antonio Risério (1995) afirma que os Afoxés do século 19 já expressavam as temáticas que hoje denominamos de étnico-raciais na sociedade brasileira daquela época.
↩
37. O Poli é uma referência ao Colégio Polivalente de Belmonte de
ensino médio, um dos maiores cidade.
↩
Posfácio: autoria negra, pele das
chuvas, pensamento nascente
1. Registro fotográfico feito por Tereza Cristina Soares de Sá.
↩
2. Este trecho do livro Interseccionalidade (2019), de Carla
Akotirene, parece-nos muito significativo para a compreensão do gesto de edição que almejamos com a continuidade da série de livros Transfluência, de autoria de mulheres negras: "Antes de serem estadunidenses, as feministas são negras e refletem experiências póscoloniais as águas atlânticas como nós, suas irmãs de barco, noutra América. Uma vez que a água para as mulheres negras é fundamento epistemológico, não sendo à toa, por identidade ancestral, sermos todas chamadas de ialodês – título consagrado a Oxum, senhora das águas e mensageira política das reinvidicações das mulheres, na Nigéria – vale considerar que distante do feminismo branco com "místicas femininas" em alusão feminina no espaço privado – Oxum representa aquela que tem autoridade no espaço público-privado para reivindicar em nome da comunidade, como marcam os pontos de vistas de Jurema Werneck e Sueli Carneiro" (AKOTIRENE, 2019, p. 32).
↩