As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
9. Palavras finais
"Somos 'Nagôs', somos todas brasileiras. Em terra gostamos da brincadeira. Salve as 'Nagôs Africanas'."
Bloco das Nagôs Africanas
Assim como começar uma escrita é difícil, fechar o seu ciclo também não é uma tarefa fácil, mas a intenção aqui está longe de colocar um ponto final nela, muito pelo contrário, essas linhas finais pretendem muito mais seguir no sentido das continuidades que se movimentam em espiral. É nesse sentido que o livro acontece das continuidades, que, em seu efeito, levanta dúvidas sobre o que já foi posto em dado momento como concreto, gerando interrupções em frases impostas ou criadas sobre nós, mas também prolonga ideias, feitos e existências negras advindas do não dito, do silenciado e do que não se pode falar. Este texto inclina-se em seu desejo oculto de supressão das práticas dominantes de falar sobre nós, para nós e por nós.
Saúdo pai, saúdo mãe, saúdo todos os Orixás, minhas "Nagôs" em primeiro lugar!
Bloco das Nagôs Africanas
As "Nagôs Africanas" vêm em primeiro plano neste trabalho como demonstração de respeito a cada uma delas, como demonstração de aprendizado dos seus ensinamentos, pois elas nos ensinam a saudar os nossos ancestrais, nossos mais velhos. O processo de conhecer cada uma das componentes do grupo que participou da pesquisa permitiu-me entender seus campos de força e como elas lidam com eles em seus modos de existir e agir enquanto mulheres negras, assentadas em suas ancestralidades, religiosidades, relações de amizade, afetos, que subjetivamente acontecem como estratégias que fazem a diferença na sobrevivência das vidas negras.
Cada encontro com as "Nagôs" foi repleto de aprendizagens, de saberes que não estão nos livros nem nas salas de aula das universidades pelas quais passei, mas nos saberes vividos, transmitidos e aprendidos pela oralidade, pela observância e pelo silêncio, metodologias de ensino e aprendizagem que vêm mantendo a nós, pretas e pretos, vivos.
Saudar as "Nagôs Africanas" na realização deste trabalho é também reconhecimento dos mais de cinquenta anos de sua existência. As "Nagôs" escrevem a história afrodescendente da diáspora no movimento de elaboração cartografias e grafias negras. Suas músicas falam das trajetórias de lutas e audácias negras em buscar ocupar espaços negados, por meio da dança, música, reza, Afoxé, axé e do ato de potência da alegria em cantar. Seus festejos exaltam as religiosidades e corpos negros. por meio dos toques dos tambores, criando pontos de subjetividades negras, territórios de amizades, familiaridades, afetividades e de bem viver.
As "Nagôs", em suas grafias e cartografias, apresentam Belmonte por outras linhas: históricas, arquitetônicas, econômicas, culturais, religiosas, de saber/poder, de ensino e aprendizagem a partir de suas metodologias advindas da oralidade e calcadas na ancestralidade. É a partir de seus ritmos que novos mapas se abrem e apresentam as potencialidades produzidas pelas "Nagôs Africanas" sobre Belmonte e a população afro-belmontense, como também revelam as linhas que dividem a população negra e a cidade, o Carnaval das grandes atrações dos blocos afroculturais da cidade, das mulheres negras, do grito de cada uma delas, por respeito em poder dizer "ser negro é lindo!". Elas evidenciam outros territórios negros, forjados nas relações étnico-raciais que as marcam e dividem nas geografias socioeconômicas e políticas da cidade.
Os movimentos das "Nagôs" acontecem como linhas de corte, que por um instante interrompem o estabelecido pela lógica racial de subalternização, escapam pelo acontecimento e, por suas práticas, agenciam territórios, criam suas escritas sobre si e sobre a afrodescendência em Belmonte.
Aê, "Nagô"! Vamos cortar dendê, vamos cortar dendê, "Nagô"!
Bloco das Nagôs Africanas
O canto chamando para o corte do dendê feito pelas "Nagôs" tem, em seus significados, efeitos filosóficos. Com a chamada para a lida do trabalho de cortar o dendê, o sentido do cortar dendê na chula está para além do seu fazer operacional. Ele é produzido e aplicado pelas "Nagôs" dentro de suas concepções filosóficas. E é isso que elas trazem para o desfile, o convite para o corte. Diante de estruturas sociais impostas a nós afrodescendentes, aquelas que nos impedem de nos movimentarmos e nos desumaniza, por meio das relações de desigualdade, de subalternidade, de trabalho, de gênero, de raça, ouvimos as "Nagôs" nos convidarem ao corte. O corte realiza aberturas para outras maneiras de ver e pensar o mundo, com pedagogias e filosofias ancestrais, que produzem aberturas para uma existência "Nagô" de ser e estar na sociedade. Esse corte interrompe fluxos coloniais e criam outros fluxos contracoloniais, abrindo canais de diálogo com as filosofias já predominantes e se apresentando como outra possibilidade de leitura do mundo.
As dinâmicas das "Nagôs" escapam dos modelos pré-prontos, dos gessos teóricos acadêmicos criados nas relações binárias de raça, cultura, mulheres negras e práticas culturais negras. Elas agem produzindo concepções de mundo sobre si, sobre o seu entorno, se fazem existir no espaço onde estão e ali propõem e geram mudanças epistêmicas no sentido do carnaval, da dança, do ensinar e aprender sobre a cultura afro-brasileira e assim, com produções filosóficas, humanizam, produzem saberes, discursos próprios e outros, advindos da sua relação com o mundo, convidando teóricos a conversar e se aproximar de suas cosmologias e cosmopolítica afrodiaspórica.
As práticas didáticas das "Nagôs" acontecem nas rodas dos ensaios na Biela, nas conversas no momento da troca de roupa de concentração do bloco, no ensinamento das músicas pela oralidade, nas movimentações das danças, na organização das baianas dentro do bloco, na figura da baiana do meio com o seu tabuleiro na cabeça, cheio de frutas, em cada objeto escolhido para compor o tabuleiro, nas bijuterias, nas cores, comprimento e quantidade das saias, nos rituais de saída e chegada dos desfiles, no respeito e diálogo com suas religiosidades, no sentimento de família e amizade, na alegria de poder cantar e dançar sua negritude, mas também no silêncio das palavras, na fala dos seus corpos e em suas participações em universidades e escolas, ensinando sobre a história do negro que não está no livro didático. É em cada um desses métodos que a pedagogia "Nagô" acontece.
É neste campo do saber que reforço o quanto as "Nagôs Africanas" de Belmonte têm a contribuir ou, melhor dizendo, tem contribuído para o ensino das relações étnico-raciais propostas nas leis e diretrizes bases da educação básica, para a efetivação das políticas de ações afirmativas, nas lutas antirracistas, acenando para uma sociedade menos desigual e que respeite as diferenças humanas, uma vez que elas reconfiguram e redesenham a si, ao outro e ao mundo, com suas práticas, linguagens, metodologias, saberes e filosofias, forjando práticas pedagógicas de liberdade, do canto, da reza, da dança do corpo em movimento que, ao se movimentar, produz saberes e multiplica-se em territórios de existências e vivências humanas.
Todo mundo dizia que as "Nagôs" não saíam, as "Nagôs" estão na rua com prazer e alegria!
Bloco das Nagôs Africanas
Contrariando o dito pelas estruturas de uma sociedade fundada nas estruturas escravagista e racializada, as "Nagôs" seguem rompendo com as forças que as impedem de se movimentar, criando outros círculos e circuitos filosóficos, sem perder de vista os já consolidados, elaboram e reconfiguram enunciações culturais e contraculturais sobre a cultura negra. Deslocam identidades culturais, cortam colonialismos, ultrapassam geopolíticas, agindo geopoeticamente, geofilosoficamente, agindo "Nagô", com prazer e alegria. Territorializam e reterritorializam as ruas do carnaval, os salões das universidades, dançam em sala de aula, em um movimento de tessituras que opera movimentos de tradições e do novo. Ativam ancestralidades e religiosidades. Entre brincar e enunciar-se; entre ser mulher e ser mulher negra, entre o local e o global, suas escritas e oralituras configuram-se em pedagogias e filosofia "Nagô".
Tomados por um estado de liberdade, prazer e alegria, os grupos afrocarnavalescos ou culturais de Belmonte expressam, pelas brincadeiras, um estado do ser negro, subjetivo e controverso ao embrutecimento social, político e cultural, causado pelo processo de negrificação submetido aos africanos, em detrimento do capital e da modernidade ocidental europeia, que ainda perdura na atualidade. É dentro desse contexto de violência que os fundamentos das "Nagôs" estão entrelaçados em suas ancestralidades e descendência africanas, constantemente reelaboradas na diáspora, ainda transpassadas dentro das realidades atuais de cada participante, sendo traçadas em linhas de fuga e configuradas em potencialidades de resistência em agir, que, em seu efeito, propõe outros modos de pensar o ensinar e o aprender.
É dentro desse estreito terreno que o som dos tambores das "Nagôs Africanas", as gingas dos seus corpos, os fundamentos de suas ancestralidades produzem prazer e alegria, como potência em agir contra as violências estruturais que fazem sangrar corpos negros, constantemente, ao longo de mais de quinhentos anos de história. O prazer, a alegria e a audácia em sair de "Nagô" têm por efeito o afronte que estilha as estruturas de violências raciais, pela subversão do prazer e da alegria gerados pelas "Nagôs", pois elas são mobilizadas e atravessadas pelo antes, o agora e o porvir negro...
Amar, brincar e compartilhar aprendizagens e saberes são ações que geram potências que intervêm no interior dos corpos negros, produzindo movimentos em atos insurgentes, dissidentes e pulsantes pelos desejos de liberdade, de ser e humanizar-se. Espaços de enunciações, de escuta, escritas de si e do coletivo configuram-se dentro e fora do bloco, de maneira audaciosa e libertária! As "Nagôs" e sua cartografia afro-baiana são abertas em movimento espiralar, em que todos se encontram, se enxergam e seguem, em continuidade, em movimento conectável por dimensões, podendo adaptar-se a montagens de qualquer natureza, podendo também ser preparadas por um indivíduo, um grupo ou uma formação social. É por isso que a subjetividade da liberdade é uma das linhas que constrói a cartografia afro-belmontense.
Figura 6 – As Nagôs de Belmonte
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Figura 7 – As Nagôs de Belmonte
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Figura 8 – As Nagôs de Belmonte
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Figura 9 – As Nagôs de Belmonte
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.
Figura 10 – As Nagôs de Belmonte
Fonte: Acervo pessoal da pesquisadora.