As nagôs estão na rua: cartografia afro-baiana de Belmonte
5.4. "As Africanas" e os "Negros Mirins"
5.4. "As Africanas" e os "Negros
Mirins"
Os corpos brincantes das Africanas e dos Negros Mirins, por meio de suas posturas, gestos e movimentos dançantes do maculelê, expressam muito mais que uma brincadeira carnavalesca da diversão pela diversão; falam muito mais sobre as condições sociais, étnicas e históricas de um determinado grupo social. Sua dança opera como elemento produtor de identidades culturais. A dança do maculelê representa, para a população negra, uma memória de luta e reconhecimento que provoca multiplicidades.
O maculelê é uma prática cultural que conta ritos e lendas ancestrais africanos pela dança e por cânticos. Sua origem está associada a uma lenda africana que conta a história de um jovem guerreiro que lutou sozinho contra rivais, utilizando apenas pedaços de pau para se defender e proteger os mais velhos de sua tribo (LIMA, 2002).
Além de estarem atravessados pelas ancestralidades africanas, os elementos musicais do maculelê refletem muito as relações afetivas existentes na comunidade em que está inserido, apresentando características de tratamento em suas músicas, entre o grupo e os ouvintes. Cada música entoada tem suas designações: a música para iniciar o desfile; chegando a uma casa, é entoado o pedido de permissão para se apresentar na frente dela; em homenagem a pessoas importantes para a história do grupo e da comunidade; a de agradecimento pela hospitalidade; e a de louvação aos ancestrais e Orixás.
As africanas desfilam, organizadas em duas grandes fileiras, cada uma com seu par, de acordo com a altura, para que, no momento da dança, haja sincronia e não cause acidentes com o movimento das madeiras, utilizadas durante as apresentações. As músicas são as chulas, normalmente puxadas pelos organizadores e os participantes do bloco, e respondem ao ritmo dos cambones. Podemos perceber tais enunciações a partir da brincadeira das Africanas em Belmonte durante seus desfiles. O "Bloco das Africanas" é formado por mulheres, homens, adolescentes e crianças, um dos blocos Afro que atravessa de adultos a crianças como brincantes.