Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 9 de 43

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Canção do Cuco

9 Um ponto no tempo

9

um ponto no tempo

 

– Sebastian… – Triss mal percebeu que sussurrara o nome em voz alta.

O que ela esperava, afinal? Uma lista de demandas do misterioso “ele”, talvez. Não estava preparada para aquilo.

Triss segurava a carta de Sebastian com as mãos trêmulas, aturdida por lembrar-se tanto e, ao mesmo tempo, tão pouco dele. Sabia que houvera dias especiais em que se divertiram muito, como no aniversário em que ele a ajudou a se vestir de rainha egípcia, e um piquenique em que ele a carregou nos ombros por horas. Era todo um folclore familiar, recitado pelos pais num ritual fino e solene nas poucas ocasiões em que sentiam ser apropriado mencionar o filho que se fora. Ao longo dos anos, os pais arrebanharam as lembranças vagas de Triss sob o escrever apurado de suas histórias, até que ela não soube mais de que realmente se lembrava.

Aquilo era diferente. Era chocante, como o calor de uma lágrima caindo sobre a pele. Subitamente Sebastian era uma pessoa, uma pessoa perdida, assustada, desesperada, que sofria. A carta causou-lhe uma dor profunda de compadecido terror, e ela reparou que amava mesmo o irmão falecido, apesar da bruma dos anos.

Mas ele está morto.

Sebastian morrera cinco anos antes, durante um amargo inverno. Chegara uma carta de seu comandante, falando sobre uma detonação ocorrida no lado dele da trincheira, oferecendo seus mais profundos sentimentos, que não havia possibilidade de alguém ter sobrevivido. Não havia dúvida.

Triss não compreendia o comportamento dos pais. A gaveta estava abarrotada de envelopes. Fazia meses, ou talvez anos, que as mensagens de Sebastian vinham chegando, e os pais dela sabiam disso. Trocavam palavras solenes sobre o filho há muito perdido, e o tempo todo vinham trancafiando as sentidas cartas dele numa gaveta e fingindo que elas não existiam. Aquele sofrimento digno era uma mentira. Era tudo mentira.

Os pais comentaram sobre as cartas terem sido enviadas por “aquele homem”, o misterioso “ele” que pensavam ter atacado Triss. Entretanto, pensando melhor agora, ocorreu-lhe que eles não chegaram a dizer que “ele” as havia escrito. De fato, o pai afirmara que receber a carta “do próprio” seria diferente do “que acontece sempre”.

Como Sebastian poderia ainda estar combatendo numa guerra que acabara fazia cinco anos, e como poderia escrever cartas de além-túmulo? Se os pais não eram mentirosos cruéis e hábeis, e se Sebastian realmente escrevera a desesperada carta, então ele precisava de ajuda. De um jeito ou de outro, era preciso solucionar o mistério das cartas.

O esboço de uma ideia começou a se formar na mente de Triss. A gaveta estava abarrotada a ponto de explodir. Com que frequência a esquisita criatura esvoaçante vinha invadindo a casa dos Crescents para entregar cartas? Todo mês? Toda semana? Ou toda noite?

Seja o que for, é estranho e assustador, mas também é menor do que eu. Então, se ele vier de novo amanhã à noite, talvez eu consiga capturá-lo.

Chovia muito forte, e as gotas de chuva caíam bem em cima da casa, pousando no carpete e na mobília, e Triss compreendeu que eram na verdade folhas mortas. Pousavam sobre os ombros da família, sentada à mesa do café, todos tentando fingir que nada acontecia.

– Foi a Triss! – Pen gritava, estridente e radiante. – Olha!

A menina apontou para o teto, e quando Triss olhou para o alto reparou, horrorizada, que buracos imensos tinham sido abertos nas lajes e no telhado, de modo que o brilho acinzentado do céu atravessava por ali. Triss pôde até identificar as marcas de seus dentes em algumas vigas.

Não fui eu, tentou protestar. Mas era mentira, e ela sabia disso. Estava muda, soltava apenas um farfalhar como o caminhar de alguém na floresta.

– A Triss comeu o teto! – Pen gritou. – A Triss comeu o teto! Só restaram quatro, agora! Só quatro!

Triss acordou com um susto e passou um longo minuto ofegando e esperando que o coração se acalmasse. Era sonho, apenas um sonho. A menina rolou de lado, e seu rosto amassou alguma coisa áspera que fez um estalo ao ser pressionada. Ela se sentou num pulo.

Havia folhas secas sobre o travesseiro, muitas delas. Lentamente, ela passou os dedos pelos cabelos, e sua mão voltou com um punhado de mais folhas marrons partidas. Os olhos foram até a cadeira que ela posicionara contra a porta, e seu coração afundou no peito. Somente então ela percebeu o quanto torcera para que a maliciosa Pen fosse a responsável pelo misterioso aparecimento das folhas.

Triss sentou-se com cautela e puxou as cobertas. Havia mais folhas no lençol ao redor, algumas dentro da camisola, e alguns gravetinhos e tufos de feno.

Com a boca seca, a menina limpou os detritos mais uma vez, depois se aproximou da penteadeira, em busca da escova de cabelos. Para sua surpresa, encontrou floquinhos de folhas secas presos às cerdas, apesar do fato de ter certeza de ter removido tudo, exceto uns poucos fios de cabelo. Fitando o objeto, contudo, uma suspeita terrível adentrou sua mente feito uma aranha.

Não. Não pode ser.

Ela tinha que confirmar. Depois de sacudir fora todos os fragmentos de folhas, Triss arrancou uns fiozinhos de cabelo da própria cabeça e os entrelaçou na escova. Depois se forçou a desviar o olhar por um tempo – contou bem baixinho até trezentos. Quando tornou a olhar, seus ânimos afundaram feito uma pedra. Não havia mais cabelo por entre as cerdas da escova. Em vez disso havia um pedaço esquelético de folha, seco feito asa de mariposa morta e mais frágil que qualquer renda.

As folhas do meu cabelo, a terra no chão – eu não trouxe lá de fora. E a Pen não as espalhou pelo quarto.

Saíram de mim.

– A Triss tá pálida. Não acham que ela tá pálida? – badalava a voz de Pen repetidamente na mesa do café. – Tá tudo bem com ela? O que o médico falou? Ela vai ter que voltar nele de novo?

Sentada, cuidadosamente dissecando um ovo, Triss reparou que estava quase com ódio da irmã. Estava tudo similar demais ao sonho do qual ela batalhara para se desvencilhar. Pelo menos não tinha mais aquela fome voraz, mas era difícil sentir-se aliviada por isso quando se lembrava de ter comido a boneca. Queria chorar, mas as lágrimas pareciam presas numa massa grudenta atrás dos olhos. Não conseguia parar de pensar nas folhas na escova de cabelo, e na carta de Sebastian, agora escondida sobre o colchão.

Muito confusa, a menina conseguiu acompanhar um pouco da conversa dos pais. O pai tinha que retornar finalmente ao trabalho naquele dia, e ia para Ellchester. A nova estação que projetara estava quase terminada. Tinha forma de pirâmide, seguindo o frenesi por tudo o que era do Egito que se seguira à descoberta da tumba de Tutancâmon no ano anterior. Dez anos antes era somente história debaixo de terra, mas qualquer coisa relativa ao Antigo Egito passara a ser a coisa mais moderna que existia.

– Acabaram-se as férias, pelo visto – suspirou o pai de Triss. – Querem que eu vá à construção aprovar as coisas, o que significa que, caso algo dê errado depois, vão poder botar a culpa do que fizeram em mim. E claro que, assim que estiver completa a estrutura principal, vão querer que eu esteja presente na Cerimônia de Inauguração para que a imprensa possa tirar fotos.

A “Cerimônia de Inauguração” envolvia usar um guindaste para baixar a pontinha no topo da pirâmide, simbolizando a conclusão da obra.

– Mais algazarra – murmurou a mãe de Triss, num tom de martírio combinado com orgulho.

– Eu sei, eu sei. – O pai de Triss abriu um sorriso discreto. – Mas só faltam quatro dias. Só mais quatro e acabou.

Triss sacudiu violentamente, e começou a tremer. As palavras eram similares demais às que ouvira no pesadelo, e por algum motivo a preencheram com horror incontrolável.

– Triss! O que foi?

A mãe foi estender a mão para a filha, mas esta se retraiu.

– Dor de cabeça! – conseguiu soltar, e fugiu da sala.

O armário de remédios foi assaltado em busca de todas as suas tropas de emergência. Agora havia uma fileira de frascos alinhados na mesa de cabeceira de Triss. Deitada chafurdada até o queixo, de pijamas, a menina inspecionava os ranques, sem sentir muita segurança. Algum daqueles vidrinhos poderia impedir que ela se desfizesse em folhas? E que tal xarope de figo para resgatar Sebastian? Pelo visto, não. Ela também não esperava grandes efeitos da cânfora na vasilha de água quente colocada ao lado da cama, nem da flanela úmida esticada sobre a testa.

Teria que passar o dia todo na cama. Sabia disso no instante em que aceitou. Ver o passar das horas era uma tortura. O que ela estava fazendo? Esperando que se desfizesse ou ficasse maluca? Quatro dias, quatro dias, quatro dias… Por que essas palavras ficavam martelando a cabeça dela? Não dava para entender como ela conseguia ficar ali deitada na cama, ficando cada vez mais pálida e fraca, enquanto o mundo girava sem ela.

Triss ouviu uma porta de carro batendo. Havia um pequeno Morris azul estacionado do outro lado da pracinha, ela reparou, e alguém acabara de sair, mas a silhueta foi tampada pelas árvores do canteiro central.

Quando a pessoa chegou mais perto, Triss a reconheceu. Era o Sr. Grace, o alfaiate que colocara jazz para ela e a deixara comer bolo no dia anterior. Ela o observou subindo os degraus até alcançar a porta de entrada da casa dos Crescents, e um instante depois a campainha tocou.

A euforia inicial passou para angústia um momento depois. Por que ele viera? E se os pais o tivessem encontrado e descoberto que ele era do tipo que curtia jazz? Talvez não mais permitissem que ela voltasse à loja.

O que ele foi fazer lá?

Com sua persona furtiva, que já estava se tornando uma segunda natureza, Triss saiu de fininho do quarto e parou no topo da escada. Uma vez que que Margaret já tinha encerrado seu expediente, foi a mãe quem atendera à porta. A cozinheira era notoriamente surda e alegava que nunca escutava a campainha. Triss não ousou espiar pelo canto, por medo de ser flagrada, mas permaneceu onde estava, escutando.

– … sinto muito por incomodar. – Quase não dava para ouvir o alfaiate. – Sra. Piers Crescent? Meu nome é Jacob Grace, da Grace & Scarp. Seu marido e sua filha visitaram nosso estabelecimento ontem.

– Ah, é da costureira? – A mãe de Triss parecia perplexa e um pouco vexada. – Mas… eu entendi que a primeira prova ficou para a semana que vem…

– Sim, exato. Mas receio que sua filha tenha esquecido as luvas dela na nossa sala VIP, e como eu estava passando por perto, resolvi entregar.

– Ah, entendo! Que gentil. – Pausa. – Hã… Sinto muito, Sr. Grace, mas estas luvas não são da Triss.

– É mesmo? – O alfaiate pareceu surpreso. – Ah. Nossa, que bobeira que eu dei. Elas são tão pequenas que achei que fossem dela. Nesse caso, minhas sinceras desculpas por incomodar.

– Uma pena o senhor ter perdido a viagem. – O tom da mãe perdeu um pouquinho do gelo.

– Ah, não tem problema, fico feliz por ter a chance de perguntar como vai a mocinha hoje, em todo caso.

– A Theresa está… bem, acho que ela já se recuperou do choque que levou na sua loja, se é a isso que se refere.

– Na verdade, não era a isso que eu me referia. – Pela primeira vez o Sr. Grace falou com mais seriedade, e um tanto hesitante. – Sra. Crescent, eu tive a sorte de passar um tempinho com a sua filha durante a visita à nossa loja, e notei alguns… sintomas. Sintomas que me preocuparam porque… me lembraram de outro caso. Mas se a sua filha está bem hoje e já se recobrou, então posso tirar a preocupação da cabeça.

– Sr. Grace – a mãe de Triss perguntou com firmeza, um pouco nervosa –, do que está falando?

Houve uma longa pausa.

– Por favor, peço mil desculpas – veio a resposta, tão suave que Triss teve dificuldade de compreender as palavras. – Sinto muito mesmo, Sra. Crescent. Não cabe a mim fazer quaisquer comentários sobre a saúde da sua filha. Vocês são, obviamente, pais amorosos, e sem dúvida oferecem a melhor ajuda médica para ela. Não sou médico nem amigo da família. Por favor, me desculpe, e passe minhas felicitações à jovem Theresa.

– Pare! Espere! – A voz da mãe ficou mais distante e com menos eco, como se ela tivesse seguido o alfaiate, que partia, um ou dois passos porta afora. – Minha filha… não está totalmente bem ainda. Se você reconhece os sintomas dela, e tem alguma ideia do que pode tê-los causado…

– Você não ficaria grata, Sra. Crescent. – Um suspiro, e mais uma pausa, durante a qual Triss pensou ter ouvido o raspar de caneta no papel. – Olha. A loja tem telefone: se você ou seu marido precisarem, liguem para esse número e peçam para me chamar. Mas, Sra. Crescent, contate-me apenas quando estiver desesperada. Não antes.

Triss ouviu os passos do alfaiate indo embora, e um pouco depois, a porta fechando. Voltou furtiva para o quarto, a mente num tumulto só.

O que significava tudo aquilo? O que o Sr. Grace tinha ido fazer ali? Devia ter visto a menina colocando as próprias luvas ao sair. Será que ele fingiu achar que as luvas perdidas eram dela para ter desculpa para aparecer?

Ele queria falar com a minha mãe sobre mim. A primeira sensação foi de ter sido traída. Tivera certeza de que ela e o Sr. Grace criaram um laço de confiança, e que ele não contaria a ninguém sobre os seis pratos de bolo. De que outro sintoma ele poderia estar falando? Enfim, os adultos são assim, às vezes. Eles decidem que as promessas que fazem a uma criança não importam, contanto que pensem que estão fazendo algo pelo bem da criança.

A segunda sensação foi uma gotinha trêmula de esperança. E se o Sr. Grace soubesse mesmo o que tinha de errado com ela? E se pudesse fazer algo para ela melhorar?