Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 16 de 43

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Canção do Cuco

16 Flagra

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Não deu tempo de mergulhar para debaixo da cama. Seus olhos tinham se ajustado ao escuro, e a luz da vela a cegou, por isso ela quase não enxergou as duas figuras em pé logo atrás.

– Triss! – exclamou a mãe, tomada por raiva e incredulidade. Havia admiração e medo em sua voz.

Não-Triss apenas ficou boquiaberta fitando a luz. Como tinha sido tola! Por algum motivo ela supusera que a feroz batalha travada contra a criatura alada fosse inaudível para ouvidos comuns, como a gritaria de Angelina na casa de campo. Compreendera, então, que na verdade tinha sido bastante audível, o bastante para acordar a rua toda.

A luz avançou lentamente quarto adentro, e Não-Triss viu que quem segurava a vela era seu pai. Ela imaginou como devia ser a cena para eles: um espécime desgrenhado, boquiaberto, pego no flagra, acocorado feito uma gárgula de igreja no tapete bagunçado.

– Triss, o que está fazendo aqui? – A voz do pai soou muito, muito tranquila.

– Nada – ela sussurrou.

Uma mentira idiota, mas ela já quase não se importava mais. O que tinha de errado em mais uma mentira idiota naquela casa cheia de mentiras idiotas?

A mãe ainda pairava no escurecido corredor, e Não-Triss pôde ver em seus olhos as estrelas de luz refletidas. Olhando ao redor, a menina compreendeu todo aquele silêncio. O quarto sagrado estava um caos. Boa parte das taças de Sebastian tinha sido arrancada das prateleiras durante a briga com a criatura voadora, e diversas fotografias tombaram. O tapete fora caoticamente desarrumado, e a madeira das estantes e da escrivaninha exibia marcas aqui e acolá de arranhões finos, porém profundos.

– Triss – começou mais uma vez o pai –, vou tentar te dar uma chance. Por que você entrou neste quarto? O que… acabou de acontecer? Havia mais alguma coisa aqui dentro com você?

Sim. Eu enfrentei um bicho voador e o forcei a me prometer coisas às tesouradas.

Não-Triss olhou para as próprias mãos, que apertavam o tecido sobre os joelhos. E fez que não.

– Então de onde foi que veio aquele barulho terrível? – perguntou a mãe.

Não-Triss nem teve que olhar para a mãe para saber qual expressão ela tinha no rosto. Um olhar hesitante, frágil, olhos brilhantes de incerteza e nervosismo.

– Ah, por que a gente não põe a culpa na Pen? – Não-Triss ouviu-se dizer, numa voz que soou mais brutal e dura do que a sua. Alguma coisa nela estourara, e as palavras foram saindo, apesar de seus esforços para represá-las. – É o que a gente sempre faz, não é? É pra isso que ela serve, né? Colocamos toda a culpa na Pen e depois mudamos de assunto. E nada mais importa, contanto que a gente não toque no assunto.

O silêncio que se seguiu foi terrível. Havia toda uma conversa que poderia ter se desenvolvido, ela compreendeu. Só que não tinha mais como desenvolver. Ela arrancara as páginas que faltavam do script, e caíra da beirada tortuosa do papel rasgado.

Por um momento não houve nada que ela quisesse mais do que se libertar, gritar com ele por mentirem por tantos anos e pedir uma explicação. Lá estavam eles, agindo como se ela tivesse se comportado de modo estranho e traiçoeiro, e o tempo inteiro eles vinham escondendo as cartas enviadas pelo filho morto. A injustiça da situação a preencheu de uma raiva à la Pen.

No momento seguinte ocorreu-lhe que foi para Triss que eles mentiram durante tantos anos, e que ela também tinha seus muitos segredos para guardar. Se desse vazão à raiva, poderia acabar revelando o monstro que era. Ou talvez já tivesse entregado muita coisa.

– Vá para o seu quarto, Triss.

A voz do pai soou tão distante que Não-Triss levou um instante para entender que as palavras dele foram para ela.

Muito lentamente, a menina ficou de pé. Conforme passos inseguros a levaram de volta ao quarto, sua mente apinhou-se com todas as desculpas e histórias que ela deveria ter usado quando lhe pediram explicação.

Eu estava sonâmbula. Tive um pesadelo. Acho que gritei enquanto dormia. Muito.

Tinha um pássaro no quarto. Ficou esperneando e trombando nas paredes. Entrei aqui pra ajudá-lo a sair pela janela.

Sonhei que Sebastian tinha voltado, então entrei aqui pra ver se ele estava dormindo na cama dele. Mas ele não estava, e fiquei muito triste. E chorei muito.

Por que ela não dissera nada assim? Qualquer coisa, apenas para que os pais pudessem forçar-se a acreditar nela, e pudessem voltar para a cama com as mentes um pouco mais tranquilas. Mas era esse mesmo o problema, ela concluiu. Naquele momento ela não quis que eles ficassem tranquilos. Não quis facilitar as coisas para eles nem acrescentar mais uma mentira na pilha de mentiras confortantes que parecia ser a única coisa que sustentava o teto.

– Idiota – ela sussurrou, sentindo os olhos ardendo e os cílios grudados em teia de aranha. – Idiota! Qual é o meu problema? Por que eu não menti, simplesmente? Agora eles vão pensar que…

Mal dava para começar a imaginar o que os pais poderiam pensar.

A empolgação perante a vitória sobre a criaturinha se dissolvera, deixando apenas pavor. Aprendera algo com as respostas dela, talvez o bastante para continuar a investigação, mas a que preço? Era tarde demais para oferecer aos pais uma explicação inocente para sua presença no quarto de Sebastian, para a gritaria esquisita e o furdunço que ocorrera, sem contar os arranhões na mobília. Qualquer desculpa plausível que ela resolvesse dar agora soaria como história inventada em retrospecto, e por muito bom motivo.

Mas eu tenho que inventar uma história, ela concluiu. Até amanhã. Algo que explique tudo, até mesmo por que eu gritei com eles, e por que não quis me explicar na hora. Ou vou ficar atolada de médicos nos próximos três dias, e só tenho três dias. Pelo menos foi o que disse o pássaro.

Só três dias.