Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 15 de 43

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Canção do Cuco

15 Cilada

15

cilada

 

Fora do quarto de Triss, a noite chegou ao fim. Houve movimentação no corredor, vozes abafadas, portas percutindo. Os roçares e tiques delicados dos rituais da hora de dormir. E então, ao longo de duas horas, a quietude instalou-se sobre a casa a infinitésimos degraus, feito poeira.

E essa fina camada de poeira quedou-se despreocupada, mesmo quando Não-Triss abriu a porta do quarto e plainou para o corredor. Foi como uma figura flutuando numa tela de cinema.

Por cima de um dos braços levava um xale de lã, que ela esperava servir como rede para jogar por cima de sua vítima alada. Nas mãos, carregava a caixa de costura, presente da mãe. Era feita de madeira, pintada com cenas bucólicas. O interior era coberto de seda, com as ferramentas alojadas em bainhas na parte anterior da tampa. Não-Triss tinha esvaziado o estoque de carretéis de algodão e novelos de lã da caixa, e podia apenas torcer para que fosse ampla e robusta o bastante para servir de jaula improvisada. A noite estava espinhenta feito o cardo, tensa como uma teia de aranha. Não-Triss fazia parte de seus segredos e perigos agora, mas sentia que não era a criatura mais secreta e perigosa que havia por aí. A noite não tinha favoritos. Dava quase para senti-la encaracolando-se em torno do mundo, imparcial feito um dragão; as estrelas, meras contas brilhantes em suas escamas negras.

Não-Triss entrou furtivamente no quarto proibido e o encontrou como o vira da última vez. Novamente, deslizou para debaixo da cama de Sebastian, para se esconder e esperar.

Seja lá o que for esse pássaro, ele vem à meia-noite. Se eu conseguir capturá-lo, e se ele puder falar, talvez eu possa forçá-lo a me contar o que está acontecendo. Talvez ele saiba o que aconteceu à verdadeira Triss, e ao Sebastian.

O reloginho de lareira lá embaixo soou as doze badaladas.

Passados os poucos segundos durante os quais os acordes perdidos flutuaram soltos no ar, o barulhinho que Não-Triss estava esperando escutar alcançou seus ouvidos. Foi o mesmo farfalhar seco e delicado de antes. Estava lá fora, no corredor. E chegando mais perto. E então, com um roçado feito vento passando entre cascas secas de trigo, a coisa entrou no quarto.

O cômodo estava escuro demais para vê-la claramente, mas por vezes a menina conseguia enxergar a forma alada voando de cá para lá. Uma peteca negra num jogo invisível, cada bater de asas um suspiro, os movimentos irritantes de tão imprevisíveis. Não-Triss conseguia prevê-los, no entanto. Era essa sua única vantagem. Ela sabia que o bichinho tinha vindo entregar uma carta, e que cedo ou tarde teria que empoleirar no puxador da gaveta para fazê-lo.

Agita daqui, palpita dali, farfalha acolá. Bate, bate. E pousa.

Lá estava, uma figurinha empoleirada no puxador da gaveta, tão pequena que a menina não a teria visto se não estivesse procurando. Mesmo assim, a imagem derretia em sombras perante seu olhar direto, e somente mantinha o contorno quando vista de relance. A criatura distraiu-se por um instante, deslizando um envelope pela fenda estreita entre gaveta e mesa.

Os instintos da menina pinicaram o interior de suas veias feito milhares de espinhos miúdos, fazendo seus músculos ficarem tensos e tesos.

Agora.

Não-Triss brotou do esconderijo, num movimento tão fácil quanto cair. O único ruído que fez foi um farfalhar delicado de coberta, agitada quando ela passou. No entanto, a criatura empoleirada escutou, e olhou ao redor em tempo de ver a menina endireitando-se, de pé. Seu grito de choque soou como o rasgar de uma cicatriz. A criatura abriu as asas, mas Não-Triss já estava lançando o xale.

O tecido envolveu a criatura, mas mesmo a pesada lã não foi o bastante para prendê-la. Um instante depois havia uma bola de lã trombando às cegas ao redor do quarto, quicando nas paredes. O tempo todo ela sibilava e gritava, com uma voz que era como brasa quente caindo num poço. Não-Triss escutava apenas xingamentos cacarejados e injúrias abafadas.

Ela deu uns pulinhos na tentativa de capturar o bicho, apenas para sentir os fios deslizando por entre seus dedos. Apoiada na mesa, pousou tão leve que nem chegou a tremer, e saltou para o centro do cômodo, capturando as pontas soltas do xale com as duas mãos. Pousou com uma bufada triunfante de ar, mas no instante seguinte seus pés foram tragados do piso novamente quando a criatura batalhou para ganhar altura. Não-Triss prendeu-se ao xale como quem se prende à vida; e foi erguida, gingada contra prateleiras e largada no chão numa chacoalhada tão súbita e cruel, que pousou toda esquisita.

– Sua sirigaita! – gritou o pequeno bicho. – Sua fedelha!

Foi se cansando com o tempo, embora a torrente de xingamentos guinchados continuasse. Quando Não-Triss endireitou os pés no chão, lançou-se para cima da maçaroca agitada de xale cada vez mais enrugado, e forçou o embrulho para dentro da caixinha de costura. Antes que ele pudesse escapar das mãos da menina de novo, ela fechou a tampa com tudo e sentou-se em cima.

A criatura soltou um berro lamuriento de terror, feito uma guinada no vento antes da tempestade.

– Me tira daqui! Me tira daqui ou vou tocar fogo em você! Vou fazer ninhos com seus ossos!

A caixa sacudia-se debaixo de Não-Triss, e dava para ouvir algo sendo lacerado lá dentro. E deu pra imaginar aquele biquinho cruel rasgando o xale ao meio.

– Não solto enquanto você não me disser o que sabe! – a menina sibilou de volta. – O que você é?

– Só um mensageiro! Entrego cartas!

– Onde está o rapaz que escreveu essas cartas? Cadê o Sebastian?

– Não sei! Não conheço nenhum Sebastian! Não sei o que tem nas cartas! Não é culpa minha! Não é culpa minha!

– De quem é, então? Quem te mandou?

A resposta que a criatura deu podia ser um nome. Ele resvalou sobre o tímpano assim como o luar desliza pelas ondas da superfície de uma piscina. Não era familiar, mas Não-Triss já fazia ideia de quem teria enviado a criatura-pássaro.

– Esse é aquele homem que chamam de Arquiteto?

– Isso! Magia-de-bloco. Dentro-fora-magia-de-esconder. Me solta!

– Ele roubou a outra de mim, a Theresa verdadeira?

– Sim! Agulhas e alfinetes, ardendo! Me solta!

– Cadê ela?

– Eu não sei. Sou só mensageiro. Arquiteto deve saber. Picanço deve saber.

– Picanço?

A caixa sacudia tanto que Não-Triss teve que firmar os pés no chão para não cair.

– O que te fez. Aaaai!

O que me fez. É verdade, então. É verdade mesmo. Uma pontinha despercebida de esperança de que Pen estivesse errada secou e morreu.

– O que eu sou?

– Boneca de pano, boneca de espinho, boneca do sétimo dia! Boneca cruel! Boneca assassina!

– Para! – ralhou Não-Triss, quicando forte contra a tampa da caixa, sua mente mais uma vez em fervilhante turbulência de raiva e medo.

– Isso é de matar! – insistiu a voz novamente, agora avolumada num tom de aparente dor e pânico. – De matar! Me solta! Para de me matar!

– Ora, pare de se debater se não quer se machucar! – sussurrou de volta Não-Triss, mas os barulhos da caixa começavam a preocupá-la.

O bater das asas tornara-se mais frenético e intermitente, e havia um roçar ocasional, como se algo duro e pesado espreitasse ali dentro.

– Por favor! – Com toda a esquisitice da voz, o pânico pareceu autêntico. – Tira isso de mim! Tá me matando!

Em seguida veio um sussurrar incoerente que fazia um sissisissisissi…

Uma tesoura.

Num sobressalto, sentindo um frio penetrar a espinha, Não-Triss lembrou-se da tesoura da mãe chacoalhando por conta própria na mão dela e daquela tesoura enorme de ferro que quase lhe caiu na cabeça na porta da costureira… e da tesoura alojada no forro de seda da tampa da caixinha de costura. As tesouras pareciam virar-se contra Não-Triss, querendo machucá-la. Se o bichinho fosse como ela em algum sentido, talvez ela tivesse acabado de trancá-lo numa caixa junto de um objeto que iria querer matá-lo…

Foi como um tapa na cara. Fosse o que fosse o animal, mesmo tendo sido enviado por inimigos, a menina não o tinha visto fazer nada que justificasse sua morte.

– Promete que não vai me atacar! – ela sussurrou.

– Prometo! – veio um guincho.

– Promete que não vai mentir pra mim!

– Prometo!

– Promete que vai ficar e responder minhas perguntas!

– Três perguntas, três respostas. Prometo!

Não-Triss teria gostado de arrancar mais promessas, mas de dentro da caixa saía um choro, uma lamúria terrivelmente ofegante, e ela teve medo de que, se esperasse mais um instante, a criatura lá dentro viesse de fato a perecer. Ela não tinha como saber se o cativo se preocuparia mesmo em cumprir com o prometido, mas deslizou para fora da caixa de costura e correu abrir a tampa.

Nenhuma criatura alada sublevou-se dali, e por um instante ela receou ter sido lenta demais. Mas quando espiou dentro da caixa, deparou-se com uma situação de dar dó. De algum jeito a tesoura conseguiu cair de sua bainha, de modo que as duas pontas se fincaram na base, cada uma de um lado da garganta do bicho-passarinho. Ele parecia estar ileso, mas obviamente aterrorizado demais para mover-se, com medo de cortar-se naquelas lâminas hostis.

– Socorro… – ele sussurrou.

Quando o fitou diretamente, Não-Triss enxergou apenas um contorno afundado no forro de seda. Contudo, ao mirar com mais intento as lâminas, a figura ficou visível, e deu para ver que ela tinha o rosto de uma senhorinha magra branca de medo, com as sobrancelhas franzidas.

Não-Triss estendeu a mão para o cabo da tesoura, mas hesitou. Ocorreu-lhe que libertar a tesoura talvez não fosse a melhor ideia, caso as lâminas estivessem esperando pela chance de fechar-se no pescoço da cativa num corte dos mais satisfeitos. Depois de escolher uma taça de premiação numa das prateleiras, botou-a por cima da cabeça da senhora-pássaro, para evidentes confusão e ultraje desta. Quando ela liberou as lâminas, estas de fato fecharam-se, mas clicaram inofensivamente contra o metal. Depois se contentaram em chacoalhar na mão da menina, roçando-se na pele dos nós dos dedos dela, até que ela arremessou o instrumento para o outro canto do quarto.

Após um rebuliço de asas, a criatura-pássaro já não se encontrava mais dentro da caixa. Não-Triss olhou ao redor do quarto em vão, receando que o bicho tivesse escapado, apesar do prometido. Foi quando reparou que havia algo se movendo em sua visão periférica. A criatura estava empoleirada sobre a moldura prateada da foto de Sebastian vestido de soldado, agarrada ao metal com mãozinhas pálidas.

As duas se olharam por um bom tempo, senhora-pássaro e boneca de espinhos, e então a primeira alçou voo repentinamente para empoleirar-se na escrivaninha, com ares de permissividade.

– Amigas, agora – ela sussurrou numa voz suave feito o som do chocalho. – Não vai contar a ninguém sobre isso? Nem a eles? – Ela acenou com a cabeça para a porta, para os quartos além. – Nem… pra ele? – Um temeroso olhar de relance para a janela banhada pelo luar, e Não-Triss pensou no Arquiteto.

Esta não disse nada. O instinto avisava-lhe que havia perigo em fazer promessas, e a menina desconfiava no súbito bom humor da criatura.

– Sei o que você está pensando em perguntar – prosseguiu a senhora-pássaro, aproximando-se da outra pela beirada da escrivaninha em saltinhos muito sociáveis. – Quer saber onde pode encontrá-lo. Não pergunte isso, pois não posso responder. Temos nossos bicos fechados para esse assunto, e não poderíamos falar nada sobre isso mesmo que quiséssemos. E, enfim, se você for esperta não vai querer encontrá-lo. De todos os Outros dessas partes, ele é o mais poderoso e perigoso. Poderia te rasgar aos pedaços.

Outros? Não-Triss quase fez a pergunta em voz alta, mas conteve a palavra no último instante. Quase desperdiçara uma de suas preciosas perguntas.

– Não é com ele que você tem que falar – continuou o ser alado. – Isso eu vou te contar de graça. Você tem que falar com o Picanço. O Picanço foi quem te criou. Ele sabe como fez e por quê. Sabe algo dos planos do Arquiteto. E não pertence ao Arquiteto; nós, sim. Ele só trabalha para aquele quando o preço é justo. Então talvez ele não te mate. Se você for esperta. E se souber onde encontrá-lo.

Não-Triss fechou os olhos e suspirou. A dica ficou clara. Mas havia mais alguma coisa de útil para perguntar? A criaturinha já dissera que nunca ouvira falar de Sebastian, nem sabia onde se encontrava a verdadeira Triss, não podia revelar a localização do Arquiteto e ignorava o conteúdo das cartas que entregava.

– Certo – ela murmurou –, onde posso encontrar o Picanço?

– Ele vive no Côncavo, embaixo da Ponte Vitória – respondeu o bichinho, em tons frescos e triunfantes. – Claro – ele continuou, meio zombeteiro –, saber onde ele fica não basta para você conseguir chegar lá.

Não-Triss quase se bateu. Não tinha alternativa a não ser fazer essa segunda pergunta subsequente. Sem ela, a primeira parte da informação era inútil.

– Como posso chegar ao Côncavo para encontrar o Picanço? – ela perguntou, os dentes cerrados.

– Vá até a travessa da Nespereira logo no final da ponte, fique de frente para os tijolos e comece a andar. Daí continue andando até que o barulho do tráfego suma e você comece a escutar as gaivotas. Claro – e dessa vez ficou muito evidente o tom jocoso na voz dela –, saber como chegar ao Côncavo não é o mesmo que saber como entrar e sair a salvo.

Não-Triss hesitou por um bom tempo. A breve vantagem que tivera contra o invisível pândego escapava-lhe por entre os dedos. Contudo, ela já tinha se comprometido com duas perguntas, e não havia mais caminho de volta.

– Me diga – ela disse, finalmente, rendendo-se –, como faço pra entrar e sair do Côncavo a salvo?

A criatura inclinou-se para a frente, e um sorriso de prazer abriu-se misturado com um brilho de honestidade.

– Arranje um galeto, e uma adaga ou faca. Antes de entrar no Côncavo, enfie a lâmina no chão do jeito que conseguir. Essa é a única maneira de manter a passagem aberta para quando precisar sair. Não preste atenção à música alguma que ouvir tocando. E aconteça o que acontecer, lembre-se do porquê de estar ali. Se tiver perguntas a fazer, continue perguntando e deixe bem claro que não vai embora enquanto elas não forem respondidas. Mantenha o galeto amarrado e quieto até que perceba que está em perigo.

A criatura observou a menina por mais alguns segundos, então as fagulhas em seus olhos ganharam um brilho de malicioso deleite.

– Mas ande logo, pirralhinha! Você só tem mais três dias! Três dias! Três dias!

E então ela se foi, apenas com um sopro de som, como quando alguém roça o dedão numa folha de caderno.

Tarde demais, Não-Triss reparara que a calada da noite não estava mais tão calada quanto estivera pouco antes. Lá da rua ela começou a ouvir vozes distantes, confusas, e o latido de cães muito atiçados. Ainda assim, ela demorou muito para assimilar a muvuca toda, tendo a mente ainda desnorteada pelas palavras da senhora-pássaro.

Por isso mesmo ela estava tão despreparada quando a porta subitamente se abriu, e a menina flagrou-se banhada pela luz de velas.