Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 24 de 43

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Canção do Cuco

24 Picanço

24

picanço

 

Conforme chegou mais perto, Não-Triss viu que a oficina era coberta por um monte de feno acinzentado, manchado de um verde aguado. O homem não esperou por elas, apenas se abaixou para passar pelas folhas mais baixas e desapareceu loja adentro.

A ideia de acompanhar um estranho para dentro de seu lar não era muito agradável, mas Não-Triss estava muito menos interessada em ficar esperando na rua.

Pen tremia um pouco menos. O rosto continuava pálido, mas para o alívio da outra, sua expressão recuperava parte do brilho ousado, meio inseguro, de sempre.

– Era ele! – Pen exclamou, trêmula. – O outro homem do Grimmer, amigo do Arquiteto, o que te chamou pra fora da água!

Não-Triss já tinha adivinhado isso. A lembrança vaga que tinha do que vira debaixo da superfície do Grimmer lhe mostrara os contornos desfocados dos dois homens parados na margem acima dela. O mais alto sem dúvida era o Arquiteto, mas ao lado dele havia outro homem, mais baixo e forte.

– Sim. Ele é Picanço, e vamos perguntar pra ele sobre o Arquiteto. Talvez ele não seja nosso inimigo. Mas com certeza não é amigo. – Não-Triss umedeceu os lábios conforme se aproximou da porta. – Pen, fique bem perto de mim. Tudo aqui é truque e cilada. Não coma nada. Não dance se tocar música. Não toque em nada. E – ela correu acrescentar, quando a menina fez uma carinha teimosa – não me deixe fazer nada dessas coisas também. Temos que cuidar uma da outra.

Com um braço guardando firme o embrulho do galo e o outro agarrado ferozmente a Pen, Não-Triss avançou para dentro da loja.

Lá dentro havia pouca iluminação. Boa parte vinha da porta, mais uns poucos feixes pálidos vindos das janelas estreitas. Acima, Não-Triss viu o sapê pontudo atrás de pesadas vigas. Havia uma dúzia de mesas, todas cobertas de ferramentas, mãos de porcelana, ervas e penas. Em suportes e aparadores ficavam dezenas de bonecas, quase todas incompletas. A maioria era confeccionada com uma mistura de galhos verdes, folhas, porcelana e madeira. Todas em tamanho real, a maioria bebês, mas havia efígies ocasionais de crianças mais velhas e até de mulheres adultas, com as barrigas inchadas, sugerindo gravidez.

Não-Triss, incomodada, notou que as bonecas mais próximas começaram a virar seus rostos incompletos na direção dela, fitando-a com hostis olhos de vidro.

O homem que as cumprimentara sentou-se numa cadeira de balanço e as analisou com grandes olhos verdes, mais brilhantes que os botões de um uniforme de soldado. Agora que ela o via de perto também, Não-Triss reparou que ele era só um pouquinho mais alto do que ela. Tinha uma cara pesada de buldogue. Os cachos que brotavam de debaixo do chapéu-coco eram grisalhos. O nariz era bastante comprido, ligeiramente curvado para baixo, o que fez Não-Triss pensar numa ave de rapina.

– Senhor… Senhor Picanço? – disse Não-Triss. Não sabia ao certo que tipos de maneiras eram aplicadas naquele estranho lugar.

– Apenas Picanço.

O homem sorriu. Por um átimo de segundo, Não-Triss pensou ter visto algo que não era um rosto humano. O bico de um pássaro fechando. Um bico curvado – esperto, sábio, mas possivelmente cruel. Logo a impressão se foi, e restou apenas o homem de chapéu-coco, sorrindo para ela.

Ele apontou dois banquinhos gastos para as meninas, com almofadas de veludo azul. Quando se sentaram, ele as fitou com ar de admiração.

– Ora. Isso é muito inesperado. – O Picanço parecia interessado e genuinamente encantado. – É, eu juro que não esperava ver você aqui. E com a irmãzinha junto! Tá aí um time que eu nunca pensei que veria. – Ele se inclinou para Não-Triss com cara de quem queria fofocar. – Você sabe o que a jovem Penny fez, não sabe? Com a pobre e leal Theresa?

– Sei – Não-Triss correu responder, reparando que Pen ficara envergonhada.

O Picanço assentiu, parecendo ainda mais satisfeito, e olhou para Pen.

– E você, você adora zanzar pelas ruas com essa aí, né? Não tem medo dela, não?

– Não tenho medo de nada – Pen declarou, fria feito gelo.

– Maravilha. – O Picanço olhou diretamente para as marcas de garras na bochecha de Pen e soltou um riso muito contente, tocado por algo similar à admiração. – Por que não? Qual o problema com um pouco de mutilação e traição entre amigos? Ah, não façam essa cara azeda. Estou impressionado. Não me lembro da última vez em que fiquei tão impressionado.

Ao falar, o homenzinho lançava olhares ocasionais para Pen, mas a maior parte do tempo dirigia-se a Não-Triss. Havia curiosidade naqueles olhos brilhantes, e satisfação, mas também um pouco de orgulho.

– Incrível – ele disse baixinho. – Você é incrível, se posso dizer.

– Foi você que me fez, não foi? – Não-Triss perguntou. A pergunta soou mais como acusação. A ideia também a fez sentir-se vulnerável, como se fosse um livro do qual alguém lera todas as páginas secretas.

– Foi. – O Picanço piscou para ela, sacando do bolso da camisa o que parecia ser uma caixinha prateada de rapé. – E quando fiz, me superei, devo dizer. Só não tinha noção do quanto eu havia me superado até agora. – Ele abriu a caixa, e para a surpresa de Não-Triss ali não havia rapé algum. Em vez disso, havia um naco de manteiga em cima de um chumaço de musselina. O Picanço lambeu a manteiga com uma língua preta esguia, e estudou-a com olhos estreitos e especulativos. – Eu adoraria, muito mesmo, saber como vocês descobriram como fazer pra chegar aqui. Sem contar que você sabia que tinha que fincar um punhal no chão e trazer o pássaro com você.

Não-Triss não tinha intenção alguma de revelar o modo como obtivera a informação. Embora manhosa fora a criatura voadora, ela não queria vê-la sofrer.

– Talvez eu tenha ouvido das minhas folhas e gravetos – ela sugeriu. – Você me fez nesta oficina, né? Vai ver eles têm boa memória.

– Pode ser. – O Picanço não pareceu muito convencido, mas inclinou a cabeça, considerando essa possibilidade. – Mas… o fato é que, vindo aqui, você nos colocou a todos numa situação complicada. Um belo de um dilema. Eu poderia exagerar e dizer “numa saia justa”. Resumindo: o lugar é secreto, e por bons motivos. A segurança de todo mundo aqui depende disso. Então vocês não deveriam estar aqui. Não deveriam saber como chegar aqui. Definitivamente não deveriam saber que estamos aqui. E agora que sabem, não podemos deixá-las partir. E o problema é que, claro, graças a esse seu galeto aí, não podemos de fato impedir que partam.

– Se a gente contasse mesmo pra todo mundo e a polícia viesse te prender, seria muito bem feito pra você! – disse Pen, muito brava.

O Picanço ignorou o surto da menina e parou para dar outra lambida na manteiga. Parecia estar esperando por alguma coisa, e Não-Triss não sabia o quê.

– Então… o que você vai fazer? – ela perguntou, finalmente.

Ele deu de ombros.

– Isso, minha querida, depende de você. Você deve ter vindo aqui por algum motivo. O que quer de mim?

– Tenho perguntas – Não-Triss respondeu. – Perguntas sobre o Arquiteto, sobre mim, sobre… a outra de mim.

– Ah, deve ter mesmo. – O Picanço piscou, pensativo, e passou a língua preta mais uma vez na manteiga. – Perguntas perigosas, com respostas perigosas.

Ele respirou por entre os dentes de um jeito que Não-Triss reconheceu. Era o hesitar típico das tendas do mercado, o barulho que as pessoas faziam antes de começar a pechinchar.

– Você quer fazer um trato, não é? – ela disse.

– Isso mesmo, ou ficamos aqui olhando uns para os outros até a trombeta final – respondeu, plácido, o Picanço. – Você quer respostas. Eu quero proteger o meu pessoal. Então vamos fazer um trato. Você segura a sua língua, eu solto a minha. Todo mundo fica feliz.

– Triss, não confio nele! – Pen declarou. – Ele estava junto com o Arquiteto! Ele vai mentir pra gente e nos trair. É melhor jogar o galo nele e fugir!

O Picanço abriu um sorriso curto e impaciente para Pen.

– Você me lembra uma garotinha que eu conheci há muitos anos. Um belo dia, muito de repente, a cabeça dela caiu. Foi muito triste.

– Mas a gente não sabe mesmo se pode confiar em você! – Não-Triss correu intervir, antes que as hostilidades se avolumassem.

– Isso podemos consertar – respondeu o Picanço. – Como posso explicar? Tem uma… promessa especial que pode ser feita. Se alguém quebra a promessa, então uma maldição terrível recai sobre ele. Estou disposto a prometer responder todas as suas perguntas com sinceridade, se as duas prometerem nunca revelar a outra alma viva qualquer coisa que tenham aprendido no Côncavo.

O trato parecia interessante, mas depois do que vivenciara com a senhora-pássaro, Não-Triss parou para pensar. Pen, por sua vez, não precisou pensar nem um pouco.

– Isso não é justo! – anunciou. – São duas promessas por uma! Se a Triss e eu vamos prometer, então você devia prometer duas coisas!

– Ela tem razão. – Não-Triss mordiscou o lábio inferior. – Você está pedindo pra gente não avisar as pessoas em Ellchester que tem uma vila de… de criaturas mágicas e perigosas morando bem acima das cabeças deles! Você tem que prometer que ninguém que mora aqui vá causar problema em Ellchester. Nada de roubar crianças ou machucar pessoas, e nada de armadilhas…

– Não posso prometer isso.

O sorriso do Picanço já era, e ele parecia bastante sério.

– Então você admite! É exatamente isso que eles vão fazer!

O ânimo de Não-Triss afundou quando ela imaginou o vil bando de criaturas do Côncavo descendo para as ruas de Ellchester.

– Alguns deles, sim. – A franqueza do Picanço gerou certa segurança. – E geralmente, não sempre, mas geralmente, é porque o humano fez coisa errada, se intrometeu… ou convidou. – Ele ergueu uma sobrancelha e olhou direto para Pen. – Você acha que essa aí é a primeira a fazer um trato com o meu pessoal?

Pen ficou vermelha de fúria, mas o Picanço prosseguiu com a honestidade.

– E que promessas você poderia fazer pelo resto do seu povo, humanazinha? Pode prometer que ninguém de Ellchester vai mentir, roubar, sequestrar, machucar ou matar? Não. Claro que não. Porque Ellchester é uma cidade. Bem, esta aqui também. Uma confusão de solícitos, inofensivos, maldosos e maliciosos. Acredite em mim, não era nossa intenção nos misturar, muito menos morar tão perto do seu povo. Esta cidade é um campo de refugiados. Estamos todos aqui não porque queremos, mas porque não temos mais pra onde ir. Os lugares que eram nossos… não podemos mais viver neles.

– Por que não? – Pen perguntou.

– Isso é uma longa história.

O Picanço abriu o sorriso torto, e Não-Triss pensou ter entendido o significado. História que só vou contar se fizermos nosso trato.

– E se… a gente contar pras pessoas que vocês moram aqui? – Não-Triss teve a sensação de que tudo acabava de ficar mais complicado.

O Picanço ficou em silêncio por um instante, depois fechou a caixinha de manteiga.

– Teríamos que ir embora. Eu… sobreviveria. Alguns dos outros também, os mais espertos e adaptáveis. O resto… – Não houve nada de lamentoso em seu dar de ombros. – A maioria não encontraria jeito de viver. Alguns são muito velhos, ou muito perdidos no passado, alguns são estranhos demais, ou muito burros. Um ou dois são… coisas desagradáveis, e talvez fosse melhor se morressem. Mas são o meu povo, e essa é a última chance de mudar, de encontrar lugar neste mundo. Gostaria que eles tivessem essa chance. E se eles falharem em tirar vantagem disso… então que fiquem com os ossos de lagarto nos seus museus.

Não-Triss fitou Pen, e viu as mesmas lascas da indecisão que sentia no cenho franzido da menina.

– Vejo que vocês duas ainda estão chateadas com a recepção que lhes foi dada quando chegaram aqui – comentou o Picanço. – Não censuro vocês. – Ele fitou os rasgos no quadril de Não-Triss e fez tsc, tsc. Mais uma vez Não-Triss pensou ter visto um bico de pássaro muito forte partindo algo muito pequeno. – As crianças não foram gentis com você, né?

– Crianças? – Não-Triss ponderou que a maioria das figuras parecia mais baixa do que adultos.

– Quem mais poderia ser tão cruel? Esperem aqui. – Ele foi até a porta e assoviou, depois foi ouvido conversando. – As entranhas da senhorita, traga-as aqui. Não, todas elas. Saberei se tiver alguma coisa faltando. Entrem do modo que são, nada de disfarces, nada de formas.

E dentro da oficina entrou uma parada de criaturas com caretas e cabeças baixas, deformadas, de quadris magros e roupas rasgadas. Muitas usavam casacos feitos inteiramente de penas desbotadas. Uma tinha orelhas de lebre e uma fissura entre nariz e boca que lembrava a de um focinho de animal. Algumas tinham patas, e uma tinha um rabo comprido que ia lá para trás. Contudo, seu desleixo era o mesmo que de crianças miseráveis. Cada uma, por sua vez, foi até Não-Triss depositar algo na mão dela – folhas, gravetos, pedaços de papel e, finalmente, o galho longo de videira que ela viu ser retirado pelo seu quadril.

Eram crianças. Crianças monstruosas, sim, mas Não-Triss não se sentiu com direito de criticar.

– Pequenos horrores – o Picanço disse com afeto, e deu a essa frase familiar um novo sentido. – Mas o que era de se esperar? Largue um pássaro ferido numa caixa cheia de gatinhos… e o que verá não será nada bonito. Eles só fazem o que foram feitos pra fazer.

– Você os viu? – Pen sussurrou. – Pareciam assustados, Triss. Com medo da gente.

Era verdade, Não-Triss compreendeu, e finalmente visualizou a grandiosidade da decisão que tinha de tomar. Alguns dos habitantes do Côncavo eram aterrorizantes, mas ela queria mesmo que fossem todos destruídos? E se o Picanço tivesse razão, e alguns deles fossem inofensivos, indefesos ou burros, ou simplesmente jovens demais para entender o que faziam?

Eu também sou um monstro. E eles provavelmente têm tão pouca culpa na história quanto eu.

Ela se inclinou e sussurrou bem no ouvido de Pen.

– Pen… não quero forçar todos eles a sair, senão vão morrer. Você quer?

Houve uma pausa.

– Não – Pen sussurrou de volta, num tom rabugento. – São só burros. E… a gente pode voltar com outro galo. Eu acho que ele é o mais assustador por aqui. Não gostei dele.

Não-Triss reparou que gostava sim do Picanço, mas tinha gostado também do Sr. Grace. Ambos tinham o mesmo ar de candura, passavam a mesma sensação de confiança.

– Picanço – ela disse lentamente –, talvez a gente faça a promessa que você quer… mas a Pen tem razão. Precisamos que você faça duas promessas. Uma é responder a todas as perguntas com sinceridade. A segunda… é que nunca vai agir contra nenhuma de nós. De jeito nenhum. Nunca.

O Picanço ficou em silêncio por um bom tempo, e pareceu pensar muito. A expressão dura e bicuda no rosto dele intensificou-se.

– Suas megeras espertinhas – ele disse finalmente, bem seco.

Não-Triss suspeitou que isso contasse como um sim.