Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 23 de 43

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Canção do Cuco

23 Movimentos e brilhos

23

movimentos e brilhos

 

Não-Triss dizia a si mesma que estava andando por cima de uma ponte, não por baixo. Era o único jeito de manter a calma. O caminho adiante era tão amplo que trinta homens poderiam cruzá-lo lado a lado. Havia paredes curvadas no topo de cada lado, e elas lançavam a passarela em sombras cada vez mais envolventes. Além dessas paredes laterais o céu estava lustroso como uma tampa de panela oleosa, e contra ele era possível divisar figuras circulando e passando. Eram planas feito patins de gelo e exclamavam com suas vozes que lembravam as das gaivotas.

E adiante…

− O que é aquilo? – Pen sussurrou.

Cerca de trinta metros à frente, o caminho escuro desaparecia dentro de uma enorme montanha negra que bloqueava totalmente o caminho, feito um buraco cavado por uma toupeira gigante. Ou talvez seja o ninho dos andorinhões, só que sob as ondas, pensou Não-Triss ao lembrar-se por um instante do que ficava em cima, e do que ficava embaixo. Estava tão escuro que ela quase escutava um sibilo quando a luz era sugada do ar. A massa do buraco negro era irregular em forma, tinha um contorno tortuoso e cheio de espinhos.

Conforme as meninas chegavam mais perto, entretanto, a mancha preta parecia recuar. O monte opaco reduziu-se a um aglomerado de pequenos prédios escuros, que se juntaram, se ajeitaram e se sentaram uns nos ombros dos outros, como se alguém os tivesse empilhado como um monte de pedras. As janelas eram muito finas e não tinham vidro; os telhados, baixos e tortos que nem pão molhado, e alguns tinham degraus no meio para que a pessoa pudesse chegar a outros apartamentos mais acima do monte. Escadas inclinadas e cordas balançando, de modo que o conjunto lembrava um tabuleiro de jogo de aventura. Havia torres, mas não elevadas como as das igrejas, e sim perigosamente esguias e adornadas com cata-ventos que giravam sem intervenção do vento. Havia mastros também, nos quais ondulavam bandeiras rasgadas, de cores gastas e sujas demais para se reconhecer.

− É uma vila – Não-Triss respondeu, evidenciando claramente sua surpresa com seu tom de voz.

− Mas a gente tá embaixo da ponte, não tá? – Pen fechou a cara. – Por que tem uma vila embaixo da ponte do papai? Ele sabe disso?

Boa pergunta!

− Não sei – Não-Triss respondeu. – Mas queria saber.

Havia movimento na casa-monte. Não era um foco único de atividade que atraísse o olhar, mas sim um remexer universal, como o fervilhar sutil de um formigueiro ou o vapor que desprende do pavimento num dia de verão. Vez por outra flâmulas brandiam com indolente deliberação, feito o rabo de um cavalo espantando um mosquito. Os contornos dos telhados ondulavam, como se criaturas quase invisíveis passassem correndo por eles. Havia rostos nas janelas também. Não-Triss nunca via nenhum deles diretamente – eram rápidos demais para ela −, mas suas aparições fugidias deixavam um rastro nos olhos.

− Acho que aquelas pessoas estão olhando pra gente – Pen sibilou. – Quem são eles?

Não-Triss lembrou-se do que a senhora-pássaro dissera sobre o Arquiteto. De todos os Outros dessas partes, ele é o mais poderoso e perigoso. O Sr. Grace usara o mesmo termo na casa de campo, quando dissera que ia jogá-la no fogo. O único jeito de mostrar aos Outros que não estamos pra brincadeira. O homem acreditava que Não-Triss era filha dos Outros, ou uma boneca criada por eles. Se o Picanço era quem a tinha feito, então presumivelmente ele também era um Outro.

− Outros – ela disse, em voz alta, testando a palavra.

− O que é isso? – Pen perguntou.

Não-Triss deu de ombros, tentando parecer calma apesar do martelar de seu coração. – Acho que logo vamos descobrir.

O vento mudou e açoitou, e veio dessa vez trazendo música nas costas. Não-Triss estava careca de saber que haveria música, mas escutá-la a surpreendeu mesmo assim. O fato é que esperava ouvir instrumentos antiquados – flautas, pífanos, rabecas e tambores. Em vez disso, ouviu o trinado metálico e ousado do saxofone, o berro de uma corneta e o guinchar e trinar de um clarinete que tocavam apenas para estraçalhar.

Não-Triss escutara jazz com sapatos muito bem limpos e jazz de pés sujos e sorriso maroto. Aquilo era jazz também, mas um jazz descalço sobre a relva e cego de êxtase, com musicalidade irregular feito rajadas de vento e interminável feito o crescer de uma videira. Não era música humana – deu para dizer de imediato. Era mais verdadeira, mais pura e caótica, mas também… mais fria. O jazz humano era uma imitação desajeitada dessa música, mas tinha sangue, oxigênio e calor.

As melodias a chamavam, mas ela sabia que não devia responder. Seus pés estavam pinicando, mas, se ela os deixasse se mexer um pouquinho que fosse, começaria a dançar e não conseguiria mais parar.

Não preste atenção a música alguma que ouvir tocando, dissera a senhora-pássaro.

− Não dê ouvidos à música! – ela sussurrou. – Não dance!

Apesar de sua determinação, contudo, seus passos começaram a acelerar, tentando acompanhar o ritmo da música. Pen também acelerava junto, até que se acertaram num trote sincopado. E então, muito de repente, não estavam mais se aproximando da vila, estavam bem no meio dela, e Não-Triss teve a estranha sensação de que já fazia algum tempo que tinham chegado.

Um homem se curvou para as meninas, como se agradecesse pela dança. Não-Triss conseguir ver o rosto dele apenas de relance quando ele se levantou. O nariz longo e pontudo encontrava e tocava o queixo, dando uma volta feito alça de xícara. Logo ele não estava mais ali, tinha se perdido no meio de uma multidão da qual vinha um falatório animado, mas que confundia os olhos quando se tentava olhar diretamente para ela. O bando fluiu ao redor das meninas, aparentemente ignorando a presença delas. Não-Triss sentiu sua determinação vacilar, dissolvida na timidez e na insegurança de uma criança perdida no turbilhão dos adultos de uma cidade desconhecida.

Parte de sua mente tentou convencê-la de que ela estava numa rua comum, limpa e refletindo a luz do sol depois da chuva. Contudo, seus olhos aguçados notaram algo de estranho nas poças, o jeito com que as gotinhas inchavam na superfície para então voar “para cima”, obedecendo ao chamado da gravidade contrária. Parte de sua mente fora atraída pelas vitrines reluzentes das lojas e os sorrisos doces pintados de vermelho das imaculadas vendedoras. Contudo, seus olhos notaram a bizarrice das louças, os relógios de ouro cujos ponteiros andavam para trás, as fileiras de pequenas pontas de lança feitas de sílex, prata e vidro, as jaulas de bodes do tamanho de ratos.

Tudo aquilo passou batido por Pen.

− Olha!

A menina partiu para a vitrine mais próxima, quase desequilibrando Não-Triss com o tranco.

Um segundo antes, Não-Triss podia ter jurado que a loja era uma ferraria. Agora, no entanto, a vitrine ostentava bolos fofos, carolinas de morango e tortinhas de geleia, aninhados obsequiosamente em torno de amplas estátuas de gelo com formato de cisnes dorminhocos e donzelas de vestido longo brilhando com frutas cristalizadas. Atrás deles havia grandes jarras de doces reluzentes multicoloridos – quebra-queixo, pirulito, balinhas, bombom de fruta, caramelos, balinhas de licor e docinhos de gelatina de marca. Outros doces eram desconhecidos – ovinhos prateados, cristais pintados de menta e algo que parecia ser morango amarelado com folhas pretas.

– Olha – Pen repetiu, admirada, olhos escancarados e redondos feito rodas-gigantes. – Triss, você tem dinheiro aí?

– Não, e não temos tempo pra fazer compras!

Não-Triss arrependeu-se por ter trazido Pen, essa menina tão distraída, consigo. Ter sido chamada de “Triss” de novo pela companheira absorta também não ajudou em nada.

– Tô com tanta fome – Pen declarou, teimosa, resistindo aos esforços da outra de arrancá-la dali. – Eu podia entrar e… você podia chamar atenção aqui fora. Finge que tá doente, ou…

– Não! – sibilou Não-Triss, ofendida. – Não vou te ajudar a roubar doce! – Ela olhou para trás para se certificar de que não tinha ninguém escutando. – Pen, as coisas não são as mesmas aqui. Se te pegarem roubando, não vão só ligar pros seus pais ou pra polícia. Vão… – Ela não sabia muito bem o que fariam, pois confiava em seus instintos, mas não tinha os fatos. – Vão… te devorar!

– Não fala besteira – Pen murmurou, mas a semente da dúvida acabava de ser plantada.

Um instante depois ela recuou da vitrine, os olhos brilhando em choque. Não-Triss olhou para a vitrine, e um movimento chamou sua atenção. Os caramelos em um dos jarros maiores se mexiam, roçando o papel laminado que os envolvia, brilhante como a carapaça de um besouro. Envergonhada, Pen finalmente deixou-se ser levada da loja de doces.

– Onde a gente tá? – ela perguntou. – Que lugar é esse? O que tem de errado?

– Não acho que seja real – Não-Triss sussurrou de volta. – Ou vai ver é real, mas não tem mesmo essa aparência. Achei tudo e todo mundo aqui… estranho e perigoso. Que nem o Arquiteto. E a tela de cinema que tentou te devorar. Que nem eu. Melhor a gente se apressar…

Antes que ela pudesse terminar a frase, Pen soltou a mão e correu para o meio da multidão. Quando Não-Triss a alcançou, a menina curvava-se para acompanhar uma partida de dados que dois meninos travavam sobre a poeira. Quando o dado parou, Não-Triss viu que em vez de pontinhos ele tinha rostos pintados, todos de boca aberta, tentando se expressar.

– Não! – Não-Triss agarrou a mão de Pen no instante em que ela a estendia para o dado. – Lembra da tela de cinema?

Mas a atenção de Pen já tinha novo alvo, seguida de perto pelo restante do corpo. Não-Triss quase não tinha o que fazer senão acompanhar; não havia como impedir que Pen puxasse cordas, se esticasse para colher pêssegos de árvores de metal ou se curvasse sobre barris de salmoura para brincar na água, a fim de ver o céu azul ondular e reluzir.

Sempre que uma nova distração atraía Pen, Não-Triss tinha uma sensação cada vez maior de pânico. As agulhadas de centenas de olhares pinicavam sua pele. Tinha certeza de que ela e Pen eram as presas numa floresta lotada de caçadores, e que toda palavra ou ação impensada de sua parceirinha atraía predadores maliciosos. Logo eles desistiriam de todo esse disfarce amigável…

Mas fomos notadas desde o começo, ela ponderou. Tudo não passa de uma mentira, um jogo. As pessoas ao redor só estão fingindo cuidar da própria vida. O fato é que estão de olho na gente. Todos eles.

O que a senhora-pássaro dissera sobre ficar a salvo no Côncavo?

Não preste atenção a música alguma que ouvir tocando. E aconteça o que acontecer, lembre-se do porquê de estar ali.

– Pen, a gente não pode se distrair! – ela exclamou.

Penetrando a multidão, ela encontrou Pen parada em frente a uma fonte ornamental, observando os arcos cristalinos de água com fascinação muda. Não-Triss agarrou a mão da menina pela décima vez e tentou tirá-la dali.

Pen não se mexeu. Continuou olhando para a frente, como se estivesse hipnotizada.

– Qual é o seu problema? – sussurrou Não-Triss, cada vez mais alarmada e preocupada. – Oh, por favor, por favor, Pen, a gente tem que ir em frente! Eles estão chegando… posso sentir!

Ela puxou Pen pelo braço ainda com mais urgência. Seus esforços foram em vão. Pen não saía do lugar, não mexia um músculo.

A mente de Não-Triss deu um salto mortal e voltou ao chão. Ela respirou fundo e fechou os olhos, bem apertados, por alguns segundos. Quando os abriu, sua visão clareou. Estava sozinha na rua, agarrada com firmeza à alça de uma antiga bomba. Em altura e volume era quase do tamanho de Pen, e fora pintada da mesma cor da jaqueta da menina.

Não-Triss girou, bem a tempo de ver a verdadeira Pen desaparecendo, virando uma esquina, seguindo uma mulher alta e majestosa de sobretudo verde. Ela pôs-se a correr e alcançou as outras duas no instante em que a mulher abria a porta de uma casa tomada por madressilvas. Um ar quentinho, cheirando a carne assada, emanou lá de dentro.

– Aonde vocês vão?

Não-Triss agarrou Pen pelo ombro, fazendo-a parar quase dentro da casa. A cara da menina era pura confusão, como costumava ficar quando ela não tinha acordado de todo.

– Minha menina está cansada e com fome – disse a mulher. Era mais alta que o pai de Triss, e, no entanto, toda essa altura não era de assustar. O sorriso dela era como a luz do sol brotando da pele. Os olhos acinzentados, meio nebulosos, entendiam tudo, perdoavam tudo. – Só estou trazendo ela pra casa, pra jantar, e depois dormir bem e bastante numa cama de pena de ganso.

Não-Triss escutou as gaivotas rindo sem parar.

Sete anos de escravidão, cutucavam elas. Sete anos esfregando o chão e moendo farinha. Sete anos cuidando dos pirralhos que só mordem e arranham.

– Ela não é sua menina – Não-Triss declarou, puxando uma Pen sonâmbula porta afora, e não viemos aqui ver você!

A mulher abriu o mais gentil dos sorrisos, e sem se mexer nem se alterar foi ficando mais alta. Ou talvez fosse Não-Triss que ficava menor, mais frágil, diminuída perante o calor daquele sorriso feito vapor na janela.

– Triss? – Pen piscou, ainda meio sonolenta. – Que tá acontecendo? Onde estamos?

Em todo canto da falsa cidade os ruídos cessaram, como se a multidão tivesse desistido de todo o zanzar fingido e parado onde estava para fitar silenciosamente as duas meninas. Os prédios perderam sua aparência diurna alegre, e tornaram a revelar-se o cogumelo venenoso que Não-Triss avistara no início, seco feito ossos velhos. Ela foi tomada por um medo terrível.

Uma dor fria e ardida a rasgou por dentro. Com um grito seco ela girou e, ao fazê-lo, algumas folhinhas secas flutuaram até seus pés que nem confete marrom.

Ao olhar para baixo, ela viu um rasgo no vestido, bem na lateral do quadril. Para seu horror, reparou que ao longo da fenda não via mais pele, apenas folhas mortas, frondes de samambaia e papel rasgado. Alguma coisa tinha acabado de abrir-lhe um corte, e seu recheio estava vazando para fora.

Quando pôs a mão livre na fenda, sentiu uma dor similar do outro lado. Virou-se a tempo de ver uma dupla de criaturas do tamanho de crianças espiando suas entranhas expostas, cutucando as folhinhas com dedos compridos. Deu para sentir o roçar das unhas delas feito lascas de vidro contra o abdômen.

– Sai daqui!

Ela se afastou, protestando em vão. Mas a multidão se aproximava, cansada de observar e armar arapucas. Não-Triss ainda não tinha olhado para o rosto de nenhum deles, mas podia ver e sentir seus olhos – duros, infantis e multicoloridos como bolinhas de gude. Não importava para onde ela se virava, havia sempre dedos maliciosos atrás dela, cutucando os ferimentos. Um dos braços estava ocupado com a tarefa de segurar o embrulho com o galeto, o que tornava impossível defender-se adequadamente.

Um galhinho comprido de videira foi puxado de uma das fendas e carregado por uma figura toda risonha. A dor era excruciante, mas pior foi a tontura e a fraqueza que se seguiram, a sensação de ter perdido parte do corpo.

São todos uns monstros. Vou ser despedaçada por monstros.

Mas eu também sou um monstro.

Quando dedos cruéis cutucaram-na mais uma vez, ela girou contra os atormentadores e sibilou o mais alto que pôde, mostrando os dentes-espinhos.

– Não me toque! – Não-Triss ergueu a voz para ser ouvida por todos da multidão que a cercava. – Eu mordo! – Ela sentiu o ardido de suas garras-espinhos brotando das pontas dos dedos.

A massa que a cercava recuou no mesmo instante, feito palha na brisa. Os olhares duros e frios ao redor perderam o brilho, e ficaram fracos, complacentes. Por um momento ela achou que os manteria distantes, mas então um suspiro insistente abriu caminho entre a multidão.

– Elas sabem como faz pra entrar!

– Elas sabem onde estamos!

– Vão contar pra todo mundo! Não podemos deixar que saiam!

A multidão começou a se aproximar mais uma vez. Não-Triss sabia que tinha segundos para agir. Ela puxou Pen, ainda atordoada, para trás de si, virou-se para o bando… e tirou o pano da cabeça do galo. Encontrando-se abruptamente devolvido ao mundo, o bicho deu um pulo, bateu asas e grasnou.

Foi um barulho de ensurdecer, de fazer até as ruas tremerem feito um sino golpeado. De todos os lados veio um urro sobrenatural. Os inimigos de Não-Triss curvaram-se, mãos tapando os ouvidos, e guincharam, atormentados.

– Queremos falar com o Picanço! – Não-Triss gritou, esforçando-se para se fazer ouvir por cima da barulheira.

Aqueles gritos não eram humanos. Aquilo era similar ao som que ela escutara saindo da própria boca nos momentos de maior aflição, mas multiplicado por cem.

– Vão embora! – berrou o bando. – Vão embora, ou vamos te rasgar! Vamos te esfolar!

Não-Triss reparou que a multidão se dividia, oferecendo uma rota de fuga. Adiante, dava até para ver o tentador arco da ponte-passarela que ela e Pen usaram para chegar ao vilarejo. Atrás de si, sentia Pen tremendo. As mãozinhas agarravam-se às roupas dela.

Contudo, Não-Triss não viera até ali para simplesmente fugir. Ela fechou a cara.

– Queremos falar com o Picanço! – tornou a gritar.

A barulheira ficou tão terrível que os ouvidos dela arderam. A multidão avançou para envolver as duas meninas, e Não-Triss foi beliscada, cutucada, arranhada, unhada e mordida por todos os lados. Ao seu redor girava um mosaico maluco de rostos incompletos. Traços oblíquos numa pele dura.

Caras enrugadas de morcego com olhos humanos. Meninas sem cor de cabelos molhados.

Foi preciso reunir toda a força de vontade para não bater em retirada. Toda a força para segurar firme as pernas do galeto. Contudo, Não-Triss manteve-se firme, enquanto o pássaro esticava o pescoço para berrar e berrar e berrar.

As penas do galo reluziam uma cor de bronze brilhante, e a crista era pura chama. O bicho sacudia a plumagem, espalhando raios de sol. Aqueles que eram tocados pelos raios gritavam e recuavam, como se chamuscados por brasa.

Ao redor, os prédios tremeram e chacoalharam feito uma gaiola cheia de galinhas assustadas. Tijolos soltos e montes de sapê sacudiram-se, libertando-se, e caíram para cima, deixando buracos nos tetos. Rachaduras apareceram na rua, de onde vazava cascalho e pedrinhas soltas, que também voaram e desapareceram. Poças flutuaram para cima numa chuva amarronzada. Algumas das criaturas menores foram içadas do chão e tiveram que prender-se às cornijas das casas para não serem tragadas para o alto.

Não-Triss sentia o próprio corpo ficando mais leve, solto. Havia a possibilidade de cair a qualquer momento. Ela fechou os olhos bem apertados.

Uma voz cindiu o tumulto. Não era alta, mas fazia-se ouvir, como uma nota de violoncelo em meio ao rugido de uma tempestade.

– Deixe-as em paz. Vou conversar com as senhoritas… se cobrirem o pássaro.

Todo o beliscar e arranhar parou abruptamente. Não-Triss abriu os olhos e viu a multidão recuando, embora relutante. Com a mão trêmula, ela puxou o pano por cima da cabeça do galo.

Foi preciso um ou dois segundos para que o mundo recobrasse o equilíbrio com uma sacudida e uma chacoalhada. Quando a cabeça parou de girar, Não-Triss reparou que tinha em frente uma rua deserta, assombrada apenas por movimentos muito sutis nas janelas e esquinas. Pen agarrava-se ao braço dela, muito ofegante, aterrorizada.

Mais adiante na rua, Não-Triss viu uma oficina com a porta aberta. Bem na entrada havia um homem baixinho e troncudo de chapéu-coco. Estava de mangas de camisa, mesmo com toda aquela algazarra, como se tivesse saído para fumar um cigarro. Quando ela olhou, ele ergueu a mão e acenou casualmente, chamando-a.

Desconfiada, com Pen agarrada no braço, Não-Triss foi ter com o homem de chapéu.