Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 40 de 43

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Canção do Cuco

40 Passeio da meia-noite

40

pAsseio da meiA-NoitE

 

De seu cantinho escuro, Trista e Pen observaram Dot ajudar Charles a caminhar. O Sr. Grace apagou o fogo do braseiro com cuidado, depois ganhou a noite sob seu novo casaco cor de crepúsculo, deixando pegadas finas e retas feito um pontilhado num corte de tecido.

– Tô com enjoo – disse Pen, bem baixinho. – Acho que vou passar mal.

Trista flagrou-se com as mãos unidas contra o peito, talvez em busca de furinhos feitos à tesoura.

– Ele matou os dois. – Sua voz soou rouca e distante. – Não precisava ter matado.

– Eu não gostava deles. – O rosto de Pen se enrugava todo, e seus olhos brilhavam muito. – Mas… eles estavam com medo…

– … e não machucaram ninguém – Trista completou. – Enquanto não foram atacados. – Sua mente não parava de rever a cena. – Talvez aquele homem quisesse mesmo machucar Dot. Pelo menos foi isso que o Sr. Grace pensou. Mas às vezes ele erra. Estava errado quanto a mim.

– O que vamos fazer? – Pen choramingou.

Trista respirou fundo, depois concluiu que não tinha palavras para responder. O que podiam fazer, afinal?

Se ela não fizesse nada para impedir o Sr. Grace, o que aconteceria? Se conseguisse infiltrar-se em meio aos Outros, e encontrasse o refúgio deles, o homem não desistiria enquanto não destruísse o forte e todos lá dentro. Se ela avisasse aos Outros da existência dele, contudo, estaria quase com certeza assinando sua sentença de morte. E como contatar os Outros sem entregar sua presença ao Arquiteto?

– Não sei, Pen – ela respondeu, cansada. – Não sei.

Trista fitou sua não-irmã, seu rostinho franzido, a poeira de neve nos cabelos, as pernas curtas tremendo de frio. E tudo ficou muito mais simples.

Talvez mais tarde eu venha a escolher um lado na grande batalha, mas salvar pessoas vem em primeiro lugar. Tenho que libertar a alma de Sebastian e deixá-lo escapar do inverno. E tenho que salvar meu outro eu.

Tenho que salvar Triss.

Por ela e por Piers e Celeste. Por Violet, para que não seja enviada à cadeia por assassinato. Por Pen também, ou ela vai crescer sabendo que causou a morte da própria irmã. E por mim, seja lá o que vai me acontecer, para que a minha vida não tenha sido em vão.

Ela fechou os olhos e focou-se na voz frágil de Triss ao telefone. Triss dando a dica do sapo, aterrorizada com a possibilidade de ser enterrada viva.

Enterrada viva…

Trista abriu os olhos e ficou encantada com o girar frenético da neve.

– Pen, já sei pra onde vai o comboio! Já sei onde fica o refúgio, pra onde o Arquiteto vai levar a Triss!

– O quê? – A curiosidade de Pen abriu caminho por entre a tristeza. – Onde?

– Não é o Côncavo. Você ouviu o que disse aquela Outra senhora: é um lugar novo, as pessoas começaram a se mudar pra lá. É a nova estação de trem. Claro que sim! A gente foi tão burra! E é lá que o Arquiteto planeja enterrar a Triss viva! Ela tem formato de pirâmide, Pen. Pirâmides são tumbas. E amanhã de manhã, o seu pai vai ficar responsável pela Cerimônia de Inauguração, vai colocar a tampa na pirâmide e selar Triss lá dentro.

O sangue de Trista pulsava de certeza. O Arquiteto não poderia ter resistido à elegância e a ironia depravada de tal solução.

Dentro dos olhos escurecidos e horrorizados de Pen, Trista viu quando a menina compreendeu. No fim das contas, Triss não era mais a ameaça, o torcer do conflito nas entranhas da menina. Triss era o sapo escutando o dilúvio de terra caindo por cima da tampa da caixinha que lhe servia de caixão.

– Pen – disse Trista –, preciso que faça uma coisa pra mim. Vai ser difícil, mas é muito importante. Você tem que ir pra casa. Tem que encontrar o seu pai e contar que o Arquiteto vai levar Triss para a estação. Se ele não tiver notícias minhas nem dela até amanhã de manhã… é porque eu falhei, e ele precisa arranjar um jeito de impedir a cerimônia. Ele podia falar pra todo mundo… que a estação pegou fogo, ou que tem um cachorro preso lá dentro. Qualquer coisa pra impedir que coloque a tampa.

– Mas ele nunca me escuta! – Pen protestou.

– Ele vai escutar dessa vez! – Trista insistiu. – Todo mundo vai tentar te acalmar, e te levar pro médico, e te dar um remédio e mandar você dormir. Mas você tem que falar com o seu pai, não importa o que aconteça.

Pen olhou para trás boquiaberta, para as ruas cobertas de neve. Pareceu menor ainda, e Trista sentiu uma pontada de angústia por mandar a menina cruzar a cidade sozinha à noite. Mas as Velhas Docas, naquele momento, eram ainda mais perigosas.

– Você podia vir comigo! – Pen exclamou. – Já que a gente sabe pra onde o Arquiteto vai levar a Triss, você não precisa mais ir atrás deles…

– Preciso sim – Trista interrompeu gentilmente. – Você viu como foi complicado entrar no Côncavo! Depois que o Arquiteto esconder a Triss numa parte secreta da estação, como é que alguém vai encontrá-la? Tenho que tentar salvá-la antes que ele possa fazer isso.

Trista puxou o cobertor e envolveu a cabeça e os ombros de Pen, transformando a menina numa personagem da cena da manjedoura.

– Se você se perder ou ficar com medo, encontre um policial ou diga pra alguém que pode te entregar e ganhar a recompensa – Trista aconselhou. – Eu não quis te mandar pra casa antes por receio do Sr. Grace querer te fazer mal, mas agora ele não está mais lá. Está aqui.

– Não tô com medo – disse Pen com trêmula ferocidade, debaixo de seu cobertor-roupão. – Nunca tenho medo.

– Eu sei. – O abraço foi rápido, frio e molhado. – Então vá! Rápido!

E lá se foi a figurinha de cobertor, feito um fantasma robusto, os pés diminutos deslizando sobre a neve fresca.

Adeus, Pen.

Trista ficou só. Sentiu frio e uma estranha leveza, como se a presença de Pen fosse um casaco quentinho, porém pesado. Ela tirou os sapatos emprestados sem pensar duas vezes, e os largou numa posição desengonçada no beco.

A neve queimou-lhe a sola dos pés com seu frio, e ela se sentiu viva, muito viva, saboreando cada segundo. Abriu a boca e provou os floquinhos, sentindo a língua pinicar e os dentes arderem.

Agora não tem ninguém pra me julgar, pra me criticar. Ninguém pra impressionar, ninguém pra desapontar. Chegou o momento de descobrir quem eu realmente sou.

Ela fuçou no braseiro em busca do casaco da Outra, para o caso de ter sobrado tecido suficiente para ser usado como disfarce. Não restara nada, exceto uns farrapos chamuscados e um cheiro de pena queimada.

Trista escalou a frente de uma pensão, saltando de peitoril em peitoril, e encontrou uma fresta escondida entre as saídas das chaminés. Duas delas estavam quentinhas por causa da fumaça, atenuando a fisgada do frio, e ainda por cima dava para ficar de olho na rua sem ser avistada contra o pano do céu. Ali ela se aninhou para esperar, acocorada feito uma gárgula esguia, os cabelos úmidos cobertos pela neve que caía.

Desse ponto alto, ela via a neve como um enorme cardume branco, que desviava e tremulava a cada sopro do vento. Ela o viu acumular-se incansavelmente sobre peitoris e batentes de porta, pesando sobre as calhas com gentil malandragem, até estas ameaçarem se partir.

Vez por outra, Outros caminhavam casualmente por essa ou por aquela rua, sozinhos ou em dupla. Nenhum pareceu notá-la. As pegadas que deixavam na neve eram muito vagas; alguns deixavam sulcos duplos como os do rastro de um veado, ou a marca de uma cauda arrastada pela crosta da neve.

Os habitantes humanos se retiraram, como se notassem a presença de estranhos. O barulho diminuiu gradualmente nos prédios comerciais à beira do rio. Nenhum estalar de cascos nem gaguejar de motores interrompia o deitar-se do silêncio. Era a neve aceitando o seu domínio.

Sinos de uma igreja distante anunciavam o passar do tempo, mas suas vozes soaram abafadas e aturdidas, como vigias noturnos perdidos na nevasca.

Conforme a escuridão aprofundou-se, mais barcos chegaram aos deques, abrindo caminho por entre os montes de neve como quem afasta cortinas de gaze. Havia uma pequena balsa feita de cascas de nozes cujas velas de teia de aranha quase se rasgavam sob o peso dos flocos de neve. Em seguida veio um peculiar barquinho redondo de vime com rebordo tão irregular que lembrava uma casca de ovo quebrada ao meio. Muito timidamente aproximou-se uma jangada de troncos pintados unidos por lacinhos modeladores, lotada de crianças quietinhas vestidas de cinza.

Toda vez que Trista piscava, parecia haver mais Outros amontoados na rua, esperando, mudos, metidos em seus casacos cor de nuvem. Logo estavam todos juntinhos em cada deque, encostados em cada parede, em cada porta. Alguns pousavam levemente nos telhados próximos, dobrando as asas como quem fecha um guarda-chuva ou alisando-as com bicos dentados.

Quando estava perto da meia-noite, Trista chegou a sentir. A neve rodopiava com o seu respirar. O frio se intensificou, esticando sua sombra por toda a cidade. Por todas as Velhas Docas os Outros ergueram as cabeças para admirar a escuridão, e soltaram uma exclamação demorada de empolgação.

Em outro canto da cidade, os sinos das igrejas dispararam uma algazarra muda de badaladas. Trista quase não escutou. Sua atenção voltava-se para o bonde negro que súbita e impossivelmente apareceu do nada, plainando por sobre a ferrovia sem trilhos.

Quando alcançou o nível dos deques, o veículo parou num bater de coração sem ter que desacelerar. Os dois vagões atrás pararam do mesmo modo sobrenatural sem nem encostar um no outro.

Quando não se moviam, pareciam assustadoramente comuns. Tanto bonde quanto vagões possuíam degraus retráteis na frente e atrás. Pelas janelas dos vagões, Trista divisou a guarnição de madeira de sempre e propagandas de sabonete. Como nos bondes normais, havia cabines abertas na frente e atrás, podendo ser conduzido de cada ponta, e vívidos faróis redondos.

Nenhum motorista de pele oleosa enfrentava bravamente o vento amargo, contudo. Não havia ninguém manuseando os controles do bonde.

Metade dos Outros subiu a bordo dos vagões, encontrando lugares dentro dos salões inferiores ou escalando a escada em espiral para a “galeria” a céu aberto do andar de cima. Outros se juntavam em torno das entradas, espevitados de ansiedade.

As portas do bonde em si não foram abertas, nem ninguém tentou entrar. Apenas por um átimo de segundo, Trista viu o Arquiteto por uma das janelas do andar inferior, acenando com a mão protegida por luva num gesto de graciosa realeza. Ao lado dele estava uma pessoa menor, o rosto pálido debaixo do chapéu…

Ting, ting. O bonde soou seu sino, uma cristalina nota misteriosa em meio a toda aquela normalidade.

Sem aviso, o bonde pôs-se em movimento mais uma vez, serpenteando-se pelos deques com crescente velocidade. Os Outros que não tinham subido nos vagões correram atrás, como uma onda de água amarronzada, subindo e descendo. De todos os telhados ao redor, criaturas ganharam o céu, algumas abrindo asas que eram como capas ou folhas gigantes, outras levitando vagarosamente como moscas de teto a teto.

Trista respirou fundo e correu do esconderijo para juntar-se aos demais. O primeiro salto quase foi seu último. Ela não considerara quão traiçoeiros a neve tornaria os declives dos telhados. A cama branca cedeu sob o peso da menina, de modo que ela perdeu o equilíbrio e quase mergulhou para o pavimento lá embaixo. Um tapa certeiro numa chaminé a endireitou, contudo, e ela continuou, pousando sempre nas quatro patas para que suas garras-espinhos pudessem fincar-se no sapé ou nas fendas entre as telhas.

Mais à frente, o bonde fez uma curva puxada à direita, para longe do rio, bem na direção de uma fileira de casas. Sem esforço, ele subiu pela fachada da primeira casa, trazendo consigo os próximos vagões, depois subiu no telhado, deixando duas marcas arrastadas na neve. Lá, o bonde e os vagões mudaram de curso mais uma vez, deslizando ao longo da fileira de telhados, tombados de lado pelo declive. Uma massa acinzentada, meio nebulosa, de indivíduos os seguia, feito um enxame de mosquitos gigantes.

Trista correu atrás, confiando no instinto, nos pés e nas garras. Sentia os cabelos se agitarem a cada salto, o vento batendo contra os dentes à mostra. O coração pulsava forte, mas não importava, como um aparelho perdido numa gaveta esquecida.

A menina mal enxergava os demais membros do bando, mas estavam todos em volta dela. Batiam as asas perto de seus ouvidos. Ela pisoteava as marcas e pegadas que eles deixavam nos telhados. Vez ou outra ela captava o brilho de olhos cor de líquen, ou dentes à mostra num sorriso de camaradagem. Sentia o sabor dos flocos de neve e percebia que estava de boca aberta, estava rindo.

Muito de repente tudo se tornou brincadeira. O bonde dançava para cá, para lá, e ela acompanhava, aumentando a velocidade. Era um gatinho perseguindo um pedaço espevitado de lã. Focava toda a sua energia e sua força.

Trista saltou para a plataforma de embarque nos fundos do vagão de trás. Avaliara bem a trajetória e sabia que pousaria em segurança. Seus joelhos dobraram por reflexo, prontos para suavizar o impacto, e o braço estendeu-se para agarrar o corrimão. Antes que seus pés tocassem o piso, contudo, todo o vagão transformou-se perante os olhos dela.

O ruminar do motor passou para um estalido de cascos e um ranger de rodas de carruagem. Em vez de pousar os pés numa plataforma de metal, Trista atingiu o que parecia ser uma parede lisa de madeira, sacudindo a cabeça e ficando sem ar. Ela arranhou, tentando se agarrar, deixando marcas finas de garras na madeira pintada de preto, mas não conseguiu prender-se e caiu.

Ela atingiu o declive do telhado e rolou por cima de um montinho de neve, até tropeçar por cima da beirada.

Somente porque se agarrou à calha no último instante, a menina não capotou para a rua lá embaixo.

Ela ficou ali pendurada, sem ar, por alguns segundos, a boca seca. Abaixo de si, dava para ver alguns fragmentos de seu corpo caindo, soltos pelo impacto e pelo esforço. Folhas secas, páginas de diário amassadas, mechas de cabelo… não havia tempo para coletá-los.

Com seus dedos compridos dos pés, a menina roçou os tijolos e, com dificuldade, ergueu-se de novo para cima do telhado.

Onde o vagão tinha virado uma carruagem preta? Onde estaria seu sibilante comboio voador? Sumiram, engolidos pela nevasca. Mas por cima dos telhados ao redor havia rastros que até mesmo a neve começava a querer borrar. Patas de raposa, pés descalços de criança, passadas mais longas… e entre eles as marcas de rodas e os buracos redondos de cascos de cavalos.

Trista limpou a neve dos cílios e pôs-se novamente à caça.

Foi seguindo as marcas por cima dos telhados de casas muito simples, depois ganhou as ruas bonitas e bem cuidadas do bairro comercial.

Vez ou outra um puxão nas laterais do corpo indicava que ela tinha perdido um graveto, uma bugiganga, um pedaço de papel.

Ali na frente! Três carruagens pretas avançavam pelos telhados, envoltas por uma névoa ampla de criaturas que voavam e saltitavam.

Com as pernas tremendo, Trista arriscava saltos mais amplos e violentos na batalha para alcançar o comboio. A menina passou para o telhado do conselho da cidade, depois pulou na ponta de um monumento à guerra e finalmente saltou para a traseira da carruagem de trás de novo.

Dessa vez, os pés dela procuraram a plataforma traseira, e ela meteu as garras na estrutura de madeira da carruagem. Conseguiu ficar presa mesmo quando a “carruagem” mudou de forma de novo e de novo. Num momento, ela estava presa ao estepe de um grande Daimler preto. No seguinte estava abraçada à cauda de uma enorme cobra negra. Finalmente, o estranho veículo tornou a ganhar as dimensões do vagão. A menina pousou com um baque na plataforma traseira, agarrando-se ao corrimão para se endireitar.

Ofegando, Trista arriscou uma olhada pelo vidro da porta mais próxima, para o salão inferior do vagão.

Ela foi confrontada com uma cena suspeita de tão inocente. Luz elétrica emanava de pequenas lâmpadas arredondadas acopladas ao teto. Acima delas, pôsteres rosa e verdes anunciavam “Serviço de Mudança do Picanço” e “Ellchester, Sua Nova Casa!”. Todos os lugares estavam ocupados por passageiros bem vestidos, em silêncio, a maioria cuidando da própria vida, ou fitando os demais com muda serenidade. Todos usavam casacos marrom-acinzentados, xales marrom-acinzentados e chapéus marrom-acinzentados. Alguns liam, mas as letras dos livros e jornais formigavam e fervilhavam. Trista conseguiu enxergar a Outra esquisita que conhecera na casa de chá; ela empoava o nariz discretamente com pó compacto.

Nos fundos distantes do vagão estava o Picanço, lambendo manteiga do potinho prateado.

Não dava para arriscar-se passando pelo corredor. Os refugiados recém-chegados podiam até não saber quem ela era, mas o Picanço sabia. O único jeito de passar sem que ele a visse seria subindo no andar superior.

Assim que sumiu da janelinha, Trista teve a impressão de que uma das figuras se mexera, que um chapéu se erguera, que um rosto pálido se virara para olhar para ela.

Tremendo as pernas, a menina escalou os degraus na escada em espiral enquanto a neve soprava em seus olhos e suas roupas chicoteavam-na ao vento. No topo, a corrente de ar ficou ainda mais violenta. A “galeria” sem teto era coberta de bancos de madeira maciça, lisos de umidade. Grudados neles estava um punhado de figuras muito indistintas, que eram jogadas daqui para lá conforme o vagão fazia desvios e dava pinotes. Às vezes eles perdiam o apoio e ficavam totalmente soltos, e batiam as asas, desesperados, na tentativa de alcançar o veículo e retomar seus lugares. Nenhum deu a mínima para Trista.

A menina ficou de quatro para escapar do pior que trazia o vento cheio de neve, e foi engatinhando ao longo dos bancos, com a neve engrossando seus cabelos e queimando suas orelhas. Quando chegou lá na frente, correu agarrar-se ao corrimão de segurança, grudando-se nele com os dedos das mãos e dos pés, e preparou-se para saltar para o vagão seguinte.

A lacuna não era grande, mas abria e fechava sem aviso conforme os vagões tombavam e vergavam, então a menina hesitou, tentando avaliar a distância. Naquele momento, os vagões passavam por entre uma coluna espessa de fumaça de chaminé, cegando-a e fazendo-a tossir. Por um instante, ela pôde apenas prender-se ao corrimão, tentando conter a tosse.

Ao piscar para expelir as teias de aranha dos olhos, ela escutou o estalar distante de passos na escada em espiral. Em pânico, olhou para trás, pensando que veria o Picanço vindo em sua direção.

Havia de fato alguém se aproximando dela ao longo da galeria, com um braço escondendo o rosto, a capa roubada se debatendo, o cabelo açoitado pelo vento imperdoável.

Quem vinha era o Sr. Grace.