Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 4 de 43

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Canção do Cuco

4 Guerra

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Havia algo de terrível e desconfortável em ouvir a mãe soluçando.

Foi um alívio quando finalmente a mãe de Triss fungou e se recompôs, limpando as lágrimas cuidadosamente com as pontinhas de dois dedos, no intuito de não borrar a maquiagem. Ela tornou a trancar a gaveta e pôs a chave no bolso, depois se levantou e deixou o quarto, fechando a porta cuidadosamente, como se houvesse um doente dormindo na cama vazia.

Triss permaneceu onde estava, escutando os passos da mãe se afastando no corredor.

Uma porta distante se fechou, e por detrás dela veio um murmurar baixo de vozes. Finalmente Triss ousou rastejar de debaixo da cama. A gaveta trancada a provocava, e a menina deu no puxador um tranco rápido e fútil, mas a gaveta não pretendia ceder.

Respirando fundo, ela abriu suavemente a porta e deslizou para fora, fechando-a logo em seguida. O corredor estava vazio, e Triss deu graças, sem fazer som, enquanto passava para porta oposta.

Por favor, me deixe acertar dessa vez… Para seu alívio, a porta deu para um quartinho que ela reconheceu de imediato. Coberta de patchwork na cama, o livro novo das Fadas das Flores na mesa de cabeceira, papel de parede de prímula… sim, era o quarto dela. Tinha um odor fraco de óleo de fígado de bacalhau e do pot-pourri das gavetas. Uma antiga mancha de chocolate em pó em forma de língua, que nunca fora totalmente removida do carpete, dava uma sensação familiar de aspereza embaixo do pé.

Uma onda de alívio quebrou-se em cima da menina, até perder sua borbulhante inércia e retroceder, deixando-a no frio da incerteza. Até mesmo ali, em seu pequeno reino, ela não sentia conforto nem segurança.

A mãe disse que as cartas são daquele homem, com quem estão preocupados. Eles acham que ele me atacou, então correram me trazer pra casa, onde estarei segura. Mas se ele deixou cartas na escrivaninha do Sebastian, então deve ter entrado no quarto de algum jeito.

Não estou segura em casa. Seja quem for, esse homem tem como entrar aqui.

O armário agigantava-se contra ela do canto do quarto. A imaginação de Triss instantaneamente o apinhou de medonhos assassinos. Quando ela abriu a porta com tudo, porém, nada além de vestidos inofensivos a encarou de volta.

Por impulso, a menina passou os dedos sobre golas de renda e túnicas de algodão, tentando provocar as memórias. Sua mão parou num pequeno blazer cor de creme, com um chapéu de palha pendurado por cima do mesmo cabide. Isso sim atiçou uma lembrança, mas também um emaranhado doloroso de sentimentos.

Dois anos antes, Triss usara esse uniforme durante a curta estadia na Escola Preparatória da Santa Brígida. Adorava ir à escola, mas ela a deixava doente.

Triss não notara quando começara a ficar doente. Na verdade, achava que estava melhorando, estava mais radiante e feliz. Após passar tanto tempo numa única casa, deixá-la todas as manhãs a preenchia de uma excitação quase dolorosa. Os pais mudaram, contudo, parecendo descontentes e de pavio curto. Tudo se tornara equivocado e azedo, e a menina sentia interiormente que era tudo culpa dela. Volta e meia os pais reparavam no comportamento dela à mesa do café e concluíam que ela estava empolgada demais e a mantinham em casa. Diariamente os dois a interrogavam sobre a escola, e declaravam que as professoras haviam sido negligentes de algum modo que a menina não reparara.

Certo dia, Triss foi pega fofocando no meio da aula e ficou de detenção. Foram apenas dez minutos, mas seus pais aprontaram um furdunço. Após amargas recriminações, os Crescents retiraram as filhas da escola. Triss implorara ao pai que a permitisse continuar frequentando, o que o deixou agitado como ela jamais vira. Ele estava fazendo tudo aquilo por ela. Estava defendendo a filha. Por que ela estava tentando dar as costas ao lar? A menina chorara e chorara por horas depois disso, até sentir o estômago doer e a cabeça arder. Então, claro, ela entendeu que devia mesmo estar doente, e que seus pais estiveram o tempo todo com a razão.

Saber que o uniforme não servia mais preencheu Triss com um desejar entristecido, junto de uma fagulha de culpa por senti-lo. Ela fechou a porta do armário para não ver mais. Ao fazê-lo, pensou ter visto um lampejo de movimento na visão periférica. Ficou tensa e olhou ao redor do quarto, com os sentidos formigando.

Tudo ao redor estava imóvel, mas sua visão retornara. Da penteadeira e da mesa de cabeceira, as bonecas de pano que a mãe costurara a fitavam, junto da bebezinha francesa de boca vermelha como cereja e uma bailarina de porcelana que o pai lhe dera depois da primeira febre mais séria, quase como por consolação. Em qualquer outro dia, a presença delas teria sido confortante, mas ao vê-las naquele momento, Triss só conseguia pensar no rosto trincado de Angelina.

As bonecas não se mexiam, nada além de montes mudos e molengas de tecido e porcelana. Ou talvez estivessem rígidas, observando-a, esperando que ela desviasse o olhar para poderem tornar a se mexer…

Parem de olhar pra mim.

A menina não suportava pensar que todas as bonecas poderiam lentamente virar suas cabeças para olhar para ela, emanando palavrinhas de porcelana, ou começar a gritar. Triss saiu da cama toda atabalhoada e pegou uma fronha de travesseiro. Às pressas, pescou todas as bonecas e as meteu dentro da fronha, e deu um nó na abertura. Procurou por algum lugar para esconder a trouxa, então abriu uma gaveta e congelou, olhando lá dentro.

No interior da gaveta ela viu os diários que tinha escrito por anos a fio, cada um com sua capa diferente de couro ou tecido. Estavam todos abertos, com uma franja de papel rasgado mostrando de onde todas as páginas haviam sido arrancadas. Haviam sido arrancadas do mesmo modo como as do diário que ela havia levado consigo na viagem.

Isso mudou tudo. Um diário destruído num ato de despeito impulsivo era o tipo de coisa que Pen com certeza faria se tivesse a chance. A destruição de sete diários em dois locais diferentes sugeria método e planejamento. Seria Pen tão organizada assim?

Talvez não tivesse sido ela. Talvez o inimigo misterioso do pai tivesse entrado no quarto de Triss e mexido nas coisas dela.

− Mãe…

Era para ter chamado a mãe, mas em vez disso a palavra saiu num gemido, não tinha força na voz. No momento seguinte, Triss sentiu-se acanhada e envergonhada perante os livros torturados e correu fechar a gaveta, feliz de ninguém ter ouvido nada.

A menina acabou arremessando a fronha de bonecas dentro do armário, e mergulhou de volta na cama. Por um bom tempo ficou perfeitamente imóvel, procurando escutar algum som vindo de dentro. Não ouviu nada além do silêncio.

Até mesmo em seu forte acolchoado, os perfumes da cozinha a perseguiam. Evidentemente, a Sra. Basset, a cozinheira, fora encontrada afinal. Apesar de Triss se empenhar em entender tudo o que acontecera, sua mente logo se tornou escrava do estômago, e sua atenção fixou-se no bocejo vazio que se abriu dentro dela.

Quando foi chamada para o almoço, a menina teve que usar de toda a sua força de vontade para descer as escadas devagar, em vez de correr. Os pais, felizmente, estavam distraídos e não pareceram notar a refeição desaparecendo logo após ter sido posta na frente dela, nem a flagraram servindo-se de novo muito discretamente.

Triss não entendia como eles conseguiam ficar sentados à mesa tão mansos e calmos, e falar sobre banalidades do dia a dia como se tivessem importância. A mãe reclamava que a cozinheira pedira a terça-feira toda de folga, para compensar as férias que lhe haviam sido prometidas.

Mais uma vez, Pen não desceu para almoçar, e Triss foi torturada pela visão da comida da irmã gradualmente esfriando e congelando na mesa. Somente apertando as mãos unidas com muita força no colo ela conseguiu se conter e não a atacou.

− Ela vai acabar ficando fraca desse jeito – suspirou a mãe. – Triss, poderia, por favor, levar o prato lá no quarto dela? Se ela não atender, deixe em frente à porta.

− Posso!

Triss lutou para conter a ansiedade enquanto a mãe buscava uma bandeja.

Ela levou o almoço de Pen para cima, e conseguiu esperar até não estar mais sendo observada para furtivamente cutucar a comida. Só uma batata – ela não vai dar falta. E… esse pedacinho de bacon. E uma cenoura. Foi preciso muito autocontrole para parar por aí, e Triss passou para o quarto de Pen com pressa, para poder tirar o restante da refeição do caminho da tentação.

− Pen? – ela chamou baixinho, batendo na que acreditava e torcia que fosse a porta de Pen. – Seu almoço está aqui fora! – Não teve resposta. Triss imaginou se Pen estava sentada lá dentro, taciturna, ignorando a irmã, ou se a menina teria pulado pela janela e fugido em mais um surto de vadiagem. Deixou a bandeja no chão. – Pen, vou deixar aqui em frente à porta.

Por favor, venha até a porta e pegue a comida, Pen. Por favor. Acho que não consigo resistir se você não vier.

Pen não apareceu. O vapor perfumado do prato entrava pelo nariz de Triss, e mesmo quando a menina fechava os olhos podia ainda ver a casquinha dourada da torta com seu molho brilhante, e os pontinhos pretos de pimenta na polpa cremosa das batatas…

Foi demais para ela. Com um solucinho de desamparo, Triss caiu de joelhos e pescou o garfo. A comida de Pen estava ainda mais gostosa do que a dela, melhor do que tudo. Ela tentou fazer cada garfada durar mais, mas não conseguiu. Tentou parar, mas não pôde.

E enquanto lambia o prato, trêmula, escutou um som fraco de voz no escritório do pai, o escritório que deveria estar vazio.

Triss baixou o prato vazio na bandeja, e se aproximou cautelosamente do escritório. Quando colocou o ouvido na porta escutou uma voz muito similar à de Pen, falando num tom baixo, contínuo e furtivo. Quando olhou pelo buraco da fechadura, Triss viu Pen, de fato. A menina estava de costas, mas dava para ver exatamente o que estava fazendo. Estava tendo liberdades com o mais augusto e sacrossanto dos objetos: o telefone. Triss sentiu que suas sobrancelhas erguiam-se. Não poderia ter ficado mais surpresa se tivesse pegado a irmã surrupiando emprestado o carro da família.

Era um telefone castiçal preto alto, fixado à parede para facilitar o uso, de modo que era preciso somente uma mão para usá-lo, em vez de duas. Encontrava-se em altura conveniente para o pai de Triss, mas Pen erguia-se nas pontas dos pés, sobre uma cadeira, para nivelar o rosto ao bocal do aparelho. A mão direita sustentava o pequeno fone cônico no ouvido.

Triss não compreendia as palavras que a irmã murmurava. Pen era um verdadeiro disparate empoleirada ali feito uma criancinha brincando de ser o pai num faz de conta. Somente suas palavras sussurradas tornavam o assunto um pouco mais sério.

Com a irmã assistindo à cena toda, Pen pendurou o fone de volta no gancho e desceu. Triss endireitou-se, e poucos segundos depois Pen abriu a porta do escritório. Vendo-se face a face com a irmã, a menina congelou. O rosto, uma máscara de horror e culpa.

− Com quem estava falando, Pen? – perguntou Triss.

Pen respirou fundo, mas não encontrou palavras. O rosto ficou vermelho e contorcido, e Triss quase viu na mente da irmã o ponderar apressado de uma variedade de mentiras e negações, para ver se algum serviria. Então os olhos de Pen pousaram no prato vazio perto da porta, e quando retornaram ao rosto da irmã, o horror foi substituído por ultraje e incredulidade.

− Você comeu meu almoço! – a voz saiu-lhe tão estridente que foi mais um guincho. – Você comeu, não foi? Comeu, sim! Roubou meu almoço!

− Você não veio pegar! – Triss protestou, sentindo os pelinhos da nuca eriçando na atitude defensiva. – Eu bati, tentei te entregar…

− Eu… eu vou contar pro pai e pra mãe. – Pen respirava meio ofegante, como se fosse explodir a qualquer momento.

− Eles não vão acreditar em você.

Triss não queria ter dito isso. Pensara nas palavras, mas não tinha intenção de permitir que as palavras saíssem da cabeça. Era verdade, no entanto, e dava para ver a mesma compreensão refletida na frustração e na raiva evidentes no rosto de Pen.

− Você acha que pode fazer o que quiser, né? – ralhou Pen numa vozinha tensa e amarga. – Acha que já ganhou. Mas não ganhou.

− Pen… – Triss esforçou-se para reverter o dano −, desculpe por ter comido sua comida. Eu vou… – Ela juntou forças para prometer à irmã parte do seu prato no jantar, mas sabia que era uma promessa que não poderia cumprir. – Vou te recompensar. Por favor, vamos parar com isso? Por que você me odeia tanto?

Naquele instante, Triss sentia que não poderia mais suportar a animosidade incansável da irmã além de tudo mais.

− Acha que tá enganando alguém? – O rosto de Pen era um mapa de incredulidade. Ela se inclinou para olhar bem no fundo dos olhos de Triss, pronta para a briga. – Eu sei de você. Sei o que você é. Eu vi quando você saiu do Grimmer. Eu estava lá.

− Você estava lá? – Triss deu um passo à frente, apenas para ver a irmã recuar. – Pen, você tem que me falar tudo o que viu! Você me viu cair? O que aconteceu?

− Ah, para com isso! – Pen ralhou. – Você se acha muito esperta, né? – A menina ficou muito séria e fechou a cara como se não houvesse nada que quisesse mais do que morder alguém. – Quer saber? Você não é tão esperta quanto pensa. Você anda fazendo tudo um pouquinho errado. Tudo. O tempo todo. E logo, logo eles vão reparar. Vão ver.

No rosto de Pen, Triss via nada além de uma declaração de guerra. As palavras incompreensíveis da irmã mais nova ferviam e se agitavam na mente de Triss feito um cardume de piranhas, até que o desespero foi suavemente trocado por uma inundação de frustração e ressentimento. Ela queria ter se desculpado por ter comido o almoço de Pen, queria ter resolvido, conversado, mas todos esses sentimentos foram engolidos pela amargura e por uma sensação perene de injustiça. Era sempre assim, ela começava a recordar. Ela tentava se aproximar, apenas para ser empurrada de volta pelo ódio engenhoso e inexorável de Pen.

− Você tá mentindo, não é? – Triss sibilou. – Você não viu nada. Só tá tentando me assustar. Mentirosa!

Triss foi tomada por um desejo ardente de contra-atacar, e com um lampejo adocicado de poder reparou que, se quisesse, poderia colocar a irmã em apuros sem muito esforço. Posso contar pra eles que ela gritou comigo e me deixou com dor de cabeça. Conforme a ideia lhe passou pela mente, não é que a cabeça pareceu começar a doer de fato? Parecia mesmo que Pen a fazia sentir-se doente de verdade. E posso dizer que ela viu alguma coisa no dia em que eu caí no Grimmer; eles vão obrigá-la a contar.

− Meninas? – A mãe apareceu no topo da escada. – Meninas… estão brigando aí?

As duas meninas congelaram, e involuntariamente se entreolharam, mais como conspiradoras do que oponentes. Se não houvesse contenda, nenhuma das duas estaria em apuros. Por outro lado, se alguma delas quisesse abrir o berreiro, a outra teria que fazer o mesmo, mais alto e mais forte. Quem teria mais a perder com uma cascata de culpa?

Triss estivera prestes a gritar escada abaixo para os pais, para contar o que Pen dissera e relatar o uso ilícito do telefone. Ali, contudo, faltou-lhe a coragem. Apesar da raiva, havia também o medo arrepiante de que talvez a irmã realmente soubesse algo terrível sobre ela, algo que Triss não ia querer que os pais soubessem.

− Não – respondeu Pen, carrancuda. – Não estamos brigando. Eu só estava… falando pra Triss uma coisa que eu acho que ela devia fazer. Falando alto.

− É mesmo? – A mãe pareceu muito intrigada.

− É. Sabe… – Pen olhou a irmã de soslaio – Triss trouxe o prato pra mim, mas eu disse que não estava com fome. E… ela estava. Então eu disse pra ela comer. E ela comeu.

A mãe olhou para Triss, mais intrigada ainda. A boca da menina estava uma secura só. Ela esperava que Pen a acusasse de roubar comida. Contudo, sem motivo aparente, Pen parecia querer tirá-la da linha de fogo. Sentindo como se tivessem lhe oferecido as pazes com um tapa na cara, Triss concordou com a cabeça, lentamente, confirmando a história da irmã.

− Ah, Triss! – disse a mãe, parecendo metade escandalizada, metade preocupada.

− Sabe… ela vive morrendo de fome – prosseguiu Pen, franzindo o cenho para os sapatos gastos. – Morrendo de fome. E eu acabei de dizer que ela devia te contar, talvez por ainda estar doente, só que ela não quis, pra não te preocupar.

− Triss! Querida! – A mãe caiu de joelhos e deu um abraço forte, mas curto, na filha. – Você tinha que ter falado! Você sempre tem que me contar o que te preocupa, fofinha!

− Mãe – Pen perguntou na mais baixinha das vozes −, a Triss vai ficar bem? – As sobrancelhas dela entortaram ligeiramente, e a boca fechou num biquinho, como se fosse uma criança bem mais nova, com medo do escuro. – Ela ainda tá doente? É que… eu fiquei com muito medo ontem à noite. Quando eu vi a Triss no jardim. Ela tava tão esquisita!

O sangue de Triss congelou. Essa cobrinha. Ela me viu embaixo da macieira ontem à noite. Deve ter visto da janela dela.

A mãe tornou a fitar Triss, sem desconfiança ou acusação no olhar, somente o precursor de um sorriso admirado.

− No jardim?

− Não faço a menor ideia do que ela está falando.

Triss admirou-se com o modo como manteve a voz tão reta, tão convincentemente estupefata.

− É… essa é a parte que dá medo – Pen murmurou. Ela estendeu a mão e enrolou o dedinho na bainha da saia da mãe, como se buscasse conforto. – Acho que ela não lembra de nada mesmo. Mas eu vi, e ela ficou um tempão engatinhando na lama, no meio das maçãs estragadas. Parecia maluca, e a camisola estava toda suja…

− Triss, querida. – A voz da mãe chegou muito macia, e com o coração afundando, Triss soube o que ela ia perguntar. – Pode ir pegar sua camisola? Faça o favor.

Dentro do quarto, Triss tentou raspar fora um pouco da lama e das marcas de grama com as unhas, mas não deu muito certo. Não tinha outra camisola com a qual trocar. Sentiu o rosto e o pescoço esquentando ao levar o embrulho encardido e amassado para a mãe, que o desdobrou e analisou em silêncio.

Por um segundo, Triss pegou a irmã lançando-lhe um olhar duro e calculista. A conversa toda não passara de uma cilada. Triss enxergava a realidade somente quando o abismo já abria sua enorme boca na frente dela.

− Pen estava usando o telefone do pai.

As palavras caíram da boca de Triss feito pedras, duras, frias e amargas.

− Não usei! – O rosto de Pen assumiu uma expressão de simples e plena incompreensão, tão realista que por um momento Triss chegou a acreditar nela. – Mãe… por que a Triss tá dizendo isso?

− É mentira! – Triss protestou. – Ela mente o tempo todo!

Pela primeira vez, contudo, a menina viu a gangorra da mãe balançar e ameaçar pender para um lado diferente.

− Eu não usei! – Pen parecia estar prestes a chorar. – A Triss disse que ouviu gente falando no escritório quando subiu, e disse que parecia alguém usando o telefone, mas não tinha ninguém! E não tinha nenhuma voz! Mãe… tô ficando com medo!

− Meninas, quero que esperem aqui.

A mãe foi andando, quase correndo para as escadas e retornou instantes depois com o pai, que lhes ofereceu um sorriso breve e distraído que não incluía o olhar. Ele entrou no escritório, e então Triss escutou-o falando alto com a telefonista, perguntando quais chamadas tinham sido feitas no dia anterior.

Quando retornou, ajoelhou perante Triss, suspirou e olhou bem nos olhos dela.

− Pense direitinho, Triss. Quando foi que pensou ter visto Pen usando o telefone?

− Agora mesmo – ela sussurrou.

As palavras dele já tinham dito tudo o que ela precisava saber, contudo. Não queriam dizer “quando foi que você viu Pen usando o telefone?”, mas “quando foi que pensou ter visto Pen usando o telefone?”.

A telefonista devia ter dito que não houvera ligação nenhuma feita da casa. O que isso significava? Talvez Pen tivesse fingido que estava ao telefone. Teria ela encenado tudo para fazer a irmã parecer maluca? Ou… seria possível que Pen jamais tivesse entrado no escritório, e Triss tivesse mesmo imaginado tudo?

A mãe envolveu Triss com os braços.

− Você não fez nada de errado – disse, muito, muito gentilmente.

Triss sentiu o sangue congelar nas veias.