Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 34 de 43

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Canção do Cuco

34 Um buracão

34

um buracão

 

A boca de Trista parecia ter sido trancada à chave, e minutos se passaram até que ela conseguisse responder. Ela ouviu passos da rua, e depois a figura diminuta de Violet apareceu na estrada lá embaixo.

– Trista?

Esta conseguiu soltar apenas um grito fraco em resposta. A rua parecia estar terrivelmente distante, e a altura dava um frio na barriga. A menina fechou os olhos e abraçou os joelhos, incapaz de se mexer. O ar ficou muito frio.

Ela ouvia muito vagamente os ruídos lá de baixo, um raspar de madeira, vozes, chiados e baques. Foi quando alguma coisa bateu com tudo contra a calha perto de seus pés. Quando abriu os olhos, Trista viu as pontas de uma escada de madeira tremelicando angustiadas contra a beira do telhado. Após uma sequência de rangidos, a cabeça de Violet e depois os ombros apareceram.

– Vem – foi tudo o que ela disse, muito baixinho.

Trista foi para a beira e acompanhou Violet escada abaixo, toda trêmula. Na rua, um homem robusto de roupão fitou Trista com ultraje.

– Você disse que era o seu gato que estava preso no telhado! – exclamou ele, de cara feia para Violet.

– Obrigada por emprestar a escada – ela respondeu, meio indiferente.

– Ei, espera! O que essa menina estava fazendo…

Violet virou-se para o homem.

– Minha filha é sonâmbula – declarou a moça, muito fria –, e eu não quis gastar uma hora explicando isso ao senhor. O que quer que eu faça, que a coloque de volta no telhado?

Antes que o enraivecido homem pudesse retrucar, Violet pegou Trista pela mão e a levou de volta ao beco onde a motocicleta as esperava.

Obrigada, Trista disse, sem fazer som – estava sem voz. Obrigada por ter vindo me resgatar. Mais do que tudo, foi o modo como a moça a chamara de filha que fez os olhos de Trista formigarem. Fez a menina sentir que tinha algo delicado, frágil e quentinho de que se valer, algo para colocar no vazio deixado pelos fragmentos que o vento arrastara pelos telhados.

Voltaram em silêncio. Quando retornaram ao sótão da casa de Jack, sentaram-se num dos colchões, e Trista contou da caçada aos sussurros, para não acordar Pen. Violet abraçou-a o tempo todo.

– Ainda não acabou – a moça murmurou, por fim. – Vamos encontrá-los amanhã. Mas agora você precisa dormir. Está pálida feito papel.

– Mas tô com medo de dormir! – Trista sussurrou. – E se eu despedaçar antes de acordar? E se amanhã de manhã eu for só uma pilha de folhas e gravetos enfiados embaixo do cobertor? E se eu não tiver muito mais tempo e gastar o que me resta dormindo, e acordar morta?

Por um momento, Violet hesitou, em conflito. Então fechou a cara e pegou Trista pelos ombros.

– Não vai – disse, gentil, mas firmemente. – Vou garantir que não. Vou ficar de olho em você enquanto dorme. E se seu cabelo começar a virar folhas, ou algo assim, eu acordo você.

– Promete? – Trista sentiu a força gelada e titânica de seu medo retroceder um ou dois passos. – Você… não vai me abandonar enquanto eu durmo?

– Prometo – disse Violet, com uma firmeza na voz que não deixava dúvida. Seus olhos cinza estavam resolutos como pedra.

O longo caminho que leva ao Grimmer mudara. Estava todo irregular por causa das raízes retorcidas das árvores. Maçãs podres enrugadas cobriam a grama feito rostos antigos, encarquilhados. Os pássaros cantavam palavras e as folhas riam baixinho. Sob os pés descalços, Trista sentia um movimento na grama, como um pulsar. Adiante, por entre as árvores, dava para ver a superfície lisa, obsidiana, da água. Uma ameaça escura, uma promessa negra como carvão.

Você não possui nada seu, disse o Grimmer. Tudo que possui, pegou emprestado, e quando tiver que devolver não vai sobrar mais nada. Até mesmo seu tempo foi emprestado, e está acabando. Um dia. Só mais um…

O vento aumentou e açoitava, gelado. Trista sentiu que ele a despedaçava feito um dente-de-leão…

… e então ela acordou, tremendo de frio.

Estava numa das camas do sótão, metida num cobertor. Ali perto, Violet reclinava-se numa cadeira, o rosto fechado, a cabeça movendo-se do modo desgostoso de alguém que pega no sono e acorda repetidas vezes. Atrás dela, em outra cama, Pen ainda dormia profundamente. A luz branca da manhã infiltrava-se pela claraboia.

Manhã. Minha última manhã. Só mais um dia…

O fato a encarou de volta, ousado, frio e tão inevitável quanto o céu.

Trista soltou o ar e fez vapor. Sentou-se e roçou as mãos para voltar a senti-las.

Violet acordou de vez, e ficou olhando ao redor, abalada por um instante, os olhos vidrados, prontos para o perigo.

– Oh. – A moça se recobrou, e soltou o ar. – Ainda está conosco, então? – Ela chegou perto e estudou Trista com uma careta especulativa, depois roçou os dedos nos cabelos da menina, fazendo um barulhinho seco e baixo.

Depois fitou por um instante as folhas secas na mão, mordendo o lábio inferior.

– Podia ser pior – murmurou.

– Já tá pior – Trista disse. Não precisou dizer mais nada.

– Ainda temos um dia – Violet respondeu, obstinada.

– Que horas são? – a menina perguntou.

Violet foi até a claraboia, espiou lá fora e proferiu um palavrão daqueles. Andando nas pontas dos pés sobre o chão gelado, Trista parou ao lado da moça e enxergou o que a fizera xingar.

A janela estava coberta com uma camada delicada de gelo, e através dela Trista viu uma cobertura branca nos telhados próximos e estalactites de gelo brilhante na calha do lado oposto. O céu estava um cinza perturbado, pintado de sépia. Amarelo de tempestade. O amarelo pesado de um céu cheio de neve.

O rosto de Violet não deixava passar nada, mas a seriedade e a ansiedade no olhar transmitiam pânico e receio profundos. Chocada, Trista reparou no quanto demandara da moça na noite anterior. Para agradar a menina, Violet passara horas no mesmo lugar. Agora, o inverno, que vinha perseguindo-a durante todos aqueles anos, deitava-se sobre Ellchester com velocidade atípica.

– Você falou palavrão! – disse uma sonolenta e rabugenta Pen, sentando-se na cama.

– Logo depois do café da manhã terei de sair – declarou Violet. – Vou direto ao topo do morro Plotmore. Foi lá que perdemos contato com o bonde da meia-noite, não foi, Trista? Vocês duas vão ter que ficar aqui.

As meninas começaram a protestar.

– Sem discussão – Violet retrucou, seca, fitando Trista com preocupação.

O café da manhã foi caótico e escasso. Jack parecia não ter acordado. A tia e o cunhado dele já tinham saído para trabalhar, e as irmãs adolescentes estavam saindo, apressadas, para trabalhar na lavanderia. A mãe e a irmã mais velha aprontavam-se para ir ao mercado, então o preparo do café coube à sobrinha de oito anos, que cuidou disso com a vivacidade da prática, parando para limpar os rostinhos das crianças menores feito uma miniatura de mãe.

Os dedos de todos estavam dormentes de frio, mas ninguém tirava a proteção da lareira. O chá tinha gosto de água de poça. O café resumiu-se a uma fatia de pão com margarina. Violet devorou a dela em segundos e ficou inquieta, esperando pelas outras.

– Mas eu ainda tô com fome! – protestou Pen. – Por que estão dando mais pra elas?

As crianças mais novas recebiam uma segunda fatia de pão com margarina, embrulhada em papel.

– Isso é o almoço delas, Pen – Violet murmurou com uma expressão triste. – Vão levar pra escola.

Sempre que tinha chance, Trista tentava fazer contato visual com Violet, torcendo para que a moça compreendesse seu apelo silencioso. Por favor, não me deixe aqui com a Pen! Não sei se ela estará segura comigo! Mas Violet parecia teimosamente determinada a evitar a menina, e ficava seguindo a mãe e a irmã de Jack com os olhos.

Trista mal notou a porta batendo, mas ficou um pouco surpresa quando a irmã mais velha de Jack voltou à cozinha, retirando o chapéu e o casaco que tinha acabado de vestir.

– A mamãe foi comprar pão e ovos – disse, animada – pra vocês tomarem um café mais parecido com o que estão acostumadas. Mandou que eu ficasse e fizesse mais chá. Esperem aí e fiquem à vontade.

A moça subiu as escadas, presumivelmente para guardar o chapéu e o casaco.

No mesmo instante, Violet levantou-se da cadeira, tomando cuidado para não fazer barulho com os pés.

– Vamos embora – disse baixinho. – Rápido, sem barulho. Agora.

Quando o trio ganhou as ruas, Pen fitou a casa, incrédula.

– Por que fomos embora? Elas iam fazer mais comida pra gente!

– Estamos nos jornais – Violet disse, num tom grave. – Aposto minha pele nisso. O jornal chegou enquanto comíamos. A mãe e a irmã de Jack leram, depois foram cochichar no hall. Daí a irmã dele voltou pra nos manter ali. A mãe deve ter ido à polícia. Deve haver uma recompensa.

– Ela nos traiu por dinheiro? – Pen exclamou, chocada. – Vou voltar lá e quebrar as janelas!

– Nem pense nisso! – Violet ralhou, depois suspirou e fitou a menina com uma expressão gentil e exasperada. – Pen… o dinheiro só parece ser um motivo ruim pra quem nunca teve que se preocupar com ele. A maioria das pessoas tem que se preocupar o tempo todo. O dinheiro não é pra comprar bolo e diamantes; é pra pagar o que se deve ao proprietário, ao padeiro, ao mercado. Pra colocar no medidor de gás e não ter que arrebentar estantes para alimentar o fogo da lareira. Ela não nos devia nada, Pen, e se não lutar pela família dela, ninguém vai fazer isso.

Manter o lobo atrás da porta. A fome era como um lobo, Trista refletiu. Sentira os dentes dela rasgando suas entranhas muitas vezes. Flagrara-se presa numa batalha frenética, solitária, contra ela, e jamais pensara que muitas pessoas deviam passar a vida toda com o lobo trotando poucos passos atrás delas. Talvez ainda estivesse presa na concepção de Triss de que o mundo girava em torno de suas necessidades e sofrimento. Sua história pareceu-lhe, agora, muito ínfima.

Então seu terror pessoal tornou a consumi-la, e ela agarrou Violet pela manga do casaco.

– Violet! Eu deixei o vestido da Triss no sótão!

– Oh, não! – Violet olhou para trás, de onde vieram, obviamente angustiada. – Trista… me desculpe. Não podemos voltar. É perigoso demais. Avise se começar a sentir fome e… vou dar um jeito.

– Então… a gente vai encontrar os gângsteres? – perguntou Pen quando estacionaram a moto no morro Plotmore. – Eles têm armas? Você é a rameira deles?

– Não, Pen! – Violet entortou os olhos. – Só tem armas nos filmes e na América. E não sou uma rameira! Boa parte do tempo eu só faço entregas. Por isso tenho esse carrinho lateral, pra poder colocar qualquer coisa ou qualquer pessoa que tenha que chegar a algum lugar e rápido. E sou uma ótima mecânica que não faz perguntas. Mesmo se o carro que estou consertando está lotado de queijo enlatado do mercado negro.

– Mecânica? – Pen pareceu não saber se ficava escandalizada ou desapontada.

– Isso – Violet fez careta. – Uma das coisas que aprendi durante a guerra. Estranho… a guerra deve ter sido a melhor escola que já frequentei. Me alistei pra ajudar no esforço de guerra, e primeiro me mandaram trabalhar numa daquelas fábricas de munição. Fiz muitos amigos lá, a maioria mulheres, e isso abalou minhas concepções. Muitos dos operários homens não queriam a gente lá, sabe, e mexiam muito e xingavam. Chegaram até a lacrar a gaveta de ferramentas de uma menina quando ela não estava por perto. Depois fui relocada e acabei dirigindo uma ambulância toda detonada. Tive que aprender a lidar com o motor, só pra manter aquela porcaria andando. Não esperava que fosse precisar desses conhecimentos depois que a guerra acabasse, mas – Violet deu de ombros – que mais posso fazer? Mesmo que eu encontrasse um emprego em que não precisasse ficar no mesmo lugar por mais do que três horas, por que dariam pra mim se podem pagar metade pra alguma menina de catorze anos que acabou de sair da escola?

– Violet. – Pen tinha o cenho franzido. – Se um monte de gente não tem dinheiro nem trabalho, por que ninguém quer trabalhar na cozinha lá de casa? A mãe diz que é impossível achar alguém.

Violet continuou caminhando um pouco antes de responder.

– Desculpe, Pen – disse, finalmente –, mas a sua mãe tem uma má fama. Ela demite os funcionários no primeiro chapéu que derrubam, e não dá referências, o que dificulta para eles conseguir outro emprego. Clara Bassett diz que a maioria dos empregados de Ellchester já ouviu falar mal da sua família.

– Clara Bassett? – Pen estava incrédula. – A nossa cozinheira?

Violet fez que sim.

– Ainda falo com ela de vez em quando. Toda vez que a sua mãe contrata uma empregada ou governanta nova, a Sra. Bassett tenta colocá-las embaixo da asa. Parece que ela sempre as orienta a evitar você e a Triss o máximo que puderem. Principalmente a Triss.

– Por quê? – perguntou Pen.

Violet não respondeu, mas Trista achava que sabia a resposta.

Lembrou-se de Celeste patrulhando as filhas, muito ciumenta, incapaz de suportar Triss demonstrando afeto por qualquer outra pessoa. A cozinheira subsistira por permanecer teimosa e estoicamente invisível em seu porão. Descobrir que ela tinha opiniões negativas sobre os Crescents foi como encontrar um armário familiar aberto que dava para toda uma nova casa. Violet parou em frente a uma loja, cuja placa afirmava ser um barbeiro. Um sino tilintou quando ela entrou, com Trista e Pen logo atrás.

Dois rapazes de cabelo oleoso e alisado, muito preto, atendiam os clientes, um aparando um bigode, outro varrendo cabelo cortado de um pescoço robusto. Nenhum sorriu de fato ao ver Violet, mas nenhum pareceu hostil. Um deles acenou ligeiramente com a cabeça na direção de uma porta nos fundos da loja. Violet retribuiu o aceno, e passou pela outra porta.

O cômodo nos fundos era desalinhado, mas prático. Um homem corpulento de cabelos castanhos estava sentado à uma mesa, analisando a seção de esportes do jornal e marcando resultados à caneta.

– Nevasca! – disse ele quando Violet entrou na sala. – É sempre um prazer ver você.

– Bill – Violet disse, sem preâmbulo –, preciso pedir algo bastante peculiar. Sei que tinha uns rapazes… trabalhando até tarde aqui ontem. Sabe se algum deles ouviu algo esquisito acontecendo por volta da meia-noite?

– Meia-noite? – Bill estreitou os olhos. – Tá falando dos gansos?

– Gansos?

– Um bando enorme de gansos – Bill respondeu. – Ouvimos passar logo após a meia-noite. Foi a quarta noite seguida que isso aconteceu.

– Viu pra onde foram? – Violet correu perguntar.

– Passaram por cima, depois fizeram uma curva e foram direto pro centro da cidade. – Bill fitou Violet meio desconfiado. – Por que o interesse?

Trista sentiu um pinguinho de alívio. Os “gansos” que foram ouvidos só podiam ser o comboio noturno do Arquiteto, e se ele tinha voltado para o centro, então pelo menos não tirara Triss de Ellchester.

– Você não vai acreditar se eu contar – Violet fez um trejeito.

– Quero saber, porque eu fiquei bem interessado também – continuou Bill. – Os gansos não ficam circulando desse jeito sem motivo. Acho que alguma coisa os assustou no céu esses dias. Como sabe, tenho um pessoal localizado nas Velhas Docas. Contaram que há uns quatro dias alguns barcos estranhos começaram a aparecer. Pequenos, estilo antiquado. Encostaram no cais à tarde e à noitinha e deixaram passageiros. No amanhecer, já não estavam mais lá. Tem alguma coisa acontecendo lá. Gostaria de saber o quê.

– Como eram esses passageiros? – Pen perguntou impulsivamente.

– Essa é a parte esquisita. – Bill coçou a cabeça. – Ninguém soube descrever, nem mesmo dizer quantos eram, nem se usavam roupas velhas ou caras. Mas concordaram num ponto: nenhum dos passageiros trazia bagagem.

Coisas mal vistas e mal ouvidas. Pessoas difíceis de descrever. Pelos meandros, nebulosas, dançando leves como plumas por entre pontos entorpecidos das mentes das pessoas. E esses barcos estranhos começaram a aparecer ao mesmo tempo em que o Arquiteto pôs-se a passear pela cidade.

Trista fez contato visual com Violet. Outros, disse sem som.

Nesse momento, um dos barbeiros da loja entrou na salinha dos fundos e pigarreou.

– Sr. Siskin – ele disse a Bill –, vai ter uma caça a lebres que acho que vai te interessar.

O rapaz pegou o jornal da mesa, virou algumas páginas e devolveu-o a Bill com uma expressão cheia de malícia.

Quando o barbeiro saiu, Bill olhou para o jornal que tinha nas mãos por um bom tempo. Depois fungou e abriu-o na mesa, acenando para que Violet se aproximasse.

– Já vi fotos mais parecidas – disse.

A fotografia de Violet a mostrava uma menina de rosto angelical por volta dos dezoito anos, com uma penca lustrosa de cachos. Ninguém que visse a foto imaginaria que uns poucos anos teriam esticado aquelas feições, conferindo-lhe raiva e ângulos.

A outra imagem era uma fotografia dos Crescents tirada menos de um ano antes. Era aquela pose padrão de família que os fotógrafos adoravam: a mãe sentada, as crianças arranjadas como ornamentos dos dois lados dela, e o pai descansando uma mão proprietária nas costas da cadeira. Por entre as memórias de Triss, Trista chegou a lembrar-se de posar para a foto, tendo que ficar imóvel pelo que pareceu uma era enquanto a imagem cauterizava lentamente seu caminho até o filme.

Pen não tinha ficado completamente imóvel, é claro, então havia uma delicada mancha fantasmagórica de movimento num dos lados do rosto dela, mas estava reconhecível mesmo assim. O semblante sisudo de Triss, por outro lado, tinha uma clareza gélida por detrás do espalhafatoso lacinho branco.

“Filhas dos Crescents sequestradas” trovejava na manchete. Os olhos de Trista tropeçaram, desolados, ao longo das colunas de letras pretas. Violet Parish procurada por conexão com o desaparecimento… não foi recebido pedido de resgate… há rumores de que se trata de retaliação após disputa financeira…

– Não fomos sequestradas! – Trista protestou.

– Isso aí tá cheio de histórias inventadas! – Pen ralhou.

– Sou bom em amaciar a polícia – Bill murmurou –, mas não tão bom assim. O que está acontecendo, Violet?

– Desculpe, Bill – ela disse baixinho. – É uma bagunça. Mas não é um sequestro.

– Bom… é uma pena. – Bill suspirou e fez um tsc tsc baixinho. – É uma pena mesmo eu ter lido isso só uma hora depois de você ter saído. Poderia ter feito bom uso dessa recompensa. – O homem deu uma piscadinha para Violet, depois fechou um pouco a cara. – Sabe onde ficam todos os meus amigos de fora da cidade se precisar de lugar pra se esconder?

– Sei, sim. Obrigada, Bill. – Violet devolveu-lhe um sorriso curto, porém genuíno. Levantou-se para sair, mas hesitou. – Bill… se importa se eu levar esse jornal?

Quando retornaram à rua, Violet entregou-o a Trista.

– É uma foto da Triss – sussurrou ela. – Pode comê-la, caso comece a ter fome de novo?

Só de pensar, o apetite de Trista ativou-se como um tubarão ao farejar sangue. Tudo bem, a menina disse a si mesma. Sei o que é isso. Sei lidar. Ela se preparou para a onda de fome, e sentiu-se varrida por ela, mas dessa vez a sensação continuou a aumentar, consumindo-a. Tremia descontroladamente. Isso era novo. E muito pior. Ela arrancou o jornal das mãos de Violet, amassou-o numa bola e começou a enfiar na boca.

– Minha nossa! Não aqui na rua! – Violet sibilou. Ela agarrou Trista pelo braço e rapidamente a levou até um beco. – Vou ficar aqui de olho até você terminar.

Ao cambalear para os fundos do beco, a visão de Trista escureceu e formigou. Algo dentro dela crescia mais e mais. Ao crescer, tudo ficou distorcido, como se ela enxergasse através dos olhos de um peixe. Tudo foi ficando menor, pequeno o bastante para ela enfiar na boca sem dificuldade. Na verdade, teria que se esforçar para não fazer isso.

Ela engoliu o jornal, e por um segundo sentiu o gosto da fotografia, mas o teor de Triss ali contido era ralo feito sopa de aveia. Por um instante, a fome diminuiu e minguou, como uma chama num rascunho, mas no instante seguinte voltou à vida mais uma vez. Não foi o bastante. Ela precisava de mais.

Tinha que comer. Tinha que comer. Tinha que haver algo que ela pudesse comer.

Feito um gato de rua, a menina fuçou o lixo do beco, procurando por mais cópias do Crônica com as fotos de Triss. Não achou nenhum. Então, no frenesi da fome, ela pescou restos meio apodrecidos e os engoliu.

– O que você tá fazendo? – A voz de Pen soou logo atrás dela.

Trista não se virou, continuou agachada, só ergueu uma mão furtiva para limpar um pontinho de meleca do lábio inferior. Não queria que Pen visse seu rosto, para o caso de ter virado uma máscara monstruosa e espinhenta de fome. Se Pen continuasse falando com ela normalmente, então talvez tudo pudesse voltar ao normal.

– Eu estava… eu estava com fome, Pen. – Como soaram inadequadas essas palavras! – Estou ainda… com fome.

– Eu ainda tô com fome também – respondeu Pen, pesarosa.

Trista pôde ouvir a menina agachando ao lado dela.

– Eu… eu tô com muita fome, Pen. – Trista engoliu em seco. – Acho… acho que é porque perdi pedaços de mim nos telhados ontem à noite, enquanto perseguia o Arquiteto. Esses pedaços deixaram um buraco, Pen. E acho que é por isso que eu tô tão, tão… – Ela não concluiu a frase, apenas fechou os punhos com muita força.

– Então coma mais coisas! – Pen estava desolada. – Posso juntar umas folhas!

– Não adianta – disse Trista entredentes. – Tem que ser coisas da Triss.

– Não quero que você despedace! – Pen gritou, como se fosse algo em que pudesse insistir. – Eu… não vou deixar! – Antes que Trista pudesse reagir, sentiu os bracinhos de Pen ao seu redor, com a energia desesperada de um jogador de rugby. – Não pode!

Pen.

Trista fechou os olhos e abraçou Pen com força. Agarrou-se à única coisa que lhe dava calor e segurança em seu mundo estranho e imperdoável.

De repente, Pen deu um gritinho e fez uma careta.

– Ai! Triss… por que tá me espetando?

Trista baixou os olhos para as mãos. Estavam com os espinhos de fora, enrolando-se nas pontas dos dedos feito urzes de amoreira, fincando-se nos ombros do vestido delicado de Pen. A língua sentia as pontas de dentes afiados. Em seus braços envolvia algo que era um banquete, e limonada num dia de verão, e sopa quente no inverno… e havia um buraco dentro dela feito um abismo sem fundo no qual a pessoa podia cair sem querer…

Ela empurrou Pen para longe o mais forte que pôde. A menina caiu de costas, encontrando o pavimento com um grito. Ofegante, fitou Trista, e sua expressão de ultraje e choque lentamente passou para de horror e medo.

Trista não ousou ficar ali mais um instante. Afastou-se, depois girou e saiu correndo para o topo da parede seguinte. Dali, saltou para o outro lado, entrando na alameda vizinha, pousando agachada com o coração na boca. Daí saiu correndo, fugindo, a cabeça baixa para esconder seu rosto monstruoso.