Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 39 de 43

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Canção do Cuco

39 Lobo em pele de cordeiro

39

lobo em pele de cordeiro

 

– As meninas estiveram na casa de chá com a Srta. Parish – continuou o Sr. Grace. – Não conseguiremos que ela nos conte nada tão cedo, claro. – O homem suspirou. – Ainda acho que foi um joguete inocente nessa história toda. Eu tentei fazê-la entender quando nos encontramos, mas ela não me escutou.

O coração de Trista deu um pulinho de ansiedade. O que ele quisera dizer com não conseguir que Violet contasse nada tão cedo? Tomara que isso signifique apenas que ela está se recusando, ou que está inconsciente! Não pode ser que tenha morrido! Estivera tão certa de que a neve indicava que Violet estava viva. Agora, contudo, sentia o arrepio da dúvida.

– Mas todo mundo diz que as meninas fugiram – comentou uma menina ao lado do fogo, esfregando freneticamente as mãos sobre a brasa fraca do braseiro. – Num carro amarelo.

Chocada, Trista viu que a menina era Dot, da casa de campo. Dot, das casquinhas de ovos.

– Sim. Sim, eu sei. – Ainda pensativo, o Sr. Grace enfiou mais lenha no fogo. – Repetem isso sem parar. E sempre nas mesmas palavras. – A luz do braseiro fazia o rosto dele parecer mais estreito e assustador, uma colagem de ângulos agudos. – Tem algo de estranho nesse lugar. Já notou isso?

– Já. Está coberto de neve. Em setembro. – A terceira figura junto ao braseiro era um homem de meia-idade que Trista jamais vira. Tinha mãos trêmulas, sobrancelhas grossas e um bigode que o fazia parecer um coronel. – É disso que está falando?

– Não – respondeu o Sr. Grace –, embora eu me arrisque a dizer que a neve é coisa deles também. Não, a neve parece cair sobre toda a Ellchester. Mas aqui, só aqui, sinto uma coisa…

– As pessoas aqui são de arrepiar – Dot murmurou.

– Exato, Dot. – O alfaiate abriu um sorriso fraterno. – Estamos todos incomodados por um motivo. Tem Outros aqui nas docas; aposto meu dinheiro nisso. E provavelmente nós falamos com alguns deles agora há pouco.

– Bom, se você acha que a história do carro amarelo é balela, então o que… – O homem de bigode parou abruptamente, vendo o Sr. Grace erguer a mão, alarmado.

– Charles – disse o alfaiate, muito calmo –, parece que temos visitas.

Trista ficou dura, pronta para agarrar Pen pela mão e sair correndo. Contudo, logo ela percebeu que o olhar do Sr. Grace não se dirigia para elas. Na verdade ele olhava para a rua, para duas figuras que se aproximavam numa caminhada afetada, porém firme, da luz do braseiro.

Os dois usavam casacos de pena cinza-amarronzados, e escapando por debaixo Trista viu uma bainha cor de ameixa e calças marrons. Era o casal de Outros que as meninas tinham encontrado no deque.

– Podemos nos juntar a vocês? – perguntou a mulher, e avançou para a auréola do braseiro. – Sua fogueira tem um fogo tão gentil.

Aqueles olhos úmidos piscaram, censurando a aura amarela das lâmpadas a gás. Houve breve hesitação e troca de olhares entre o trio amontoado, até que o Sr. Grace correu dar um passo à frente.

– Claro, me deixe encontrar algo em que se sentar.

O alfaiate correu para um canto e retornou com um par de caixotes que depositou como cadeiras improvisadas para as recém-chegadas “visitas”. Trista lembrou-se, incomodada, do modo como ele bancara o doce anfitrião para ela, durante sua visita à costureira.

Um nó de tensão começou a crescer nas entranhas dela. Era como ver uma cena perigosa prestes a ocorrer e querer desesperadamente avisar alguém do perigo. Naquele momento, contudo, ela não sabia muito bem a quem avisar e do quê.

Charles, o homem que lembrava um coronel, passou um frasco de brandy para todos ao redor do fogo, exceto Dot, que pareceu ficar meio desapontada. Todos comentaram a peculiaridade do clima.

– Então, por que estão aqui fora, na neve? – perguntou o Sr. Grace após uma pausa.

– Acabamos de chegar à cidade – respondeu o homem, serenamente. – Estamos esperando que nos levem à nossa nova casa. A neve não nos incomoda.

– É mesmo? – O Sr. Grace abriu um sorriso pra lá de charmoso. – Ora, bem-vindos a Ellchester! Você e sua esposa viajam sozinhos?

– Não – respondeu a mulher de vestido púrpura. – Temos… muitos… – Ela não completou a frase, trocando antes uma olhada demorada com o companheiro, comunicando-se com ele sem dizer palavra. – Amigos – soltou, finalmente. – Muitos… amigos.

Perante tal revelação, Dot disparou um olhar alarmado para os colegas. Charles parou em meio ao ato de tampar o frasco de bebida.

– Bom, pelo menos vocês estão mais bem preparados para o clima do que nós, com esses casacos quentinhos – comentou o Sr. Grace.

Os olhos de ostra dos Outros reluziram, ansiosos, perante a luz do braseiro.

– Você… você reparou? – perguntou o homem, num tom que sugeria quão surpreendente e incômodo tinha sido o comentário. – Sim. São muito úteis. – Ele inclinou-se para a frente, com muito mais intensidade e desconfiança no olhar molhado. – E o que trás vocês três nessa noite fria sem casacos tão quentinhos?

O Sr. Grace hesitou muito brevemente, como se escolhesse qual carta jogar.

– Estamos procurando umas crianças. Duas garotinhas…

– Elas entraram num carro amarelo – declarou a Outra rapidamente, sem esperar que o alfaiate terminasse.

– E foram embora – completou o consorte dela.

Houve uma pausa longa e incômoda.

– Vocês não conseguem nem ver a cidade agora, não? – disse o homem finalmente. E com razão. O redemoinho de flocos gordos, aveludados, escondia tudo que estivesse a mais de vinte metros dos olhos. Ele cutucou o fogo com um graveto, atiçando as cinzas, que estalaram e cuspiram faíscas numa dança frenética. – A neve tem milhares, milhares de dedos. Já pensou se eles resolvem despedaçar a sua cidade, pecinha por pecinha? E se só sobrasse essa rua? Sozinha. No escuro.

O homem sorria, como se elogiasse alguém.

– Antigamente, as pessoas contavam histórias – comentou a companheira. – Em volta da fogueira. Pra afastar a escuridão. Mas a escuridão sempre encontra um jeito de se infiltrar nas histórias, não? Histórias que valem a pena ouvir, pelo menos. As verdadeiras mentiras.

– Todo mundo trouxe um conto pra esse fogo – continuou o consorte dela. – Dá até pra ouvi-las sussurrando.

Charles pigarreou, talvez na tentativa de aliviar a tensão.

– Nunca fui muito bom em contar histórias… nem mesmo em contar piadas no clube.

– Toda pessoa pode recontar a própria história, mesmo que não saiba contar outras – disse o Outro. Seu olhar pegajoso passou para Dot. – Qual é a sua história, minha raposinha?

Dot hesitou, bastante apreensiva. Soltou um riso forçado e seco.

– A minha? Ah, você não iria se interessar por mim.

– Me interesso sim – insistiu o homem de calças. – Quero a sua história. Me dê a sua história.

Com essas últimas palavras, a expressão do homem mudou para uma de fome e urgência. Sua avidez rasgou a mentirosa fachada humana feito uma presa cortando a seda. Nesse instante, a tensão da cena estourou como uma corda de violino esticada demais.

Com olhos arregalados de pânico, Dot afastou-se um passo do estranho homem de calças, e Charles passou para a frente, assumindo uma pose hostil para defender a menina. Os dois Outros ficaram de pé num pulo, como se fossem marionetes puxadas pelas cordas.

Ao mesmo tempo, houve um deslizar sedoso como o de uma espada sendo puxada da bainha. Não foi uma espada o que o Sr. Grace tirou de debaixo do casaco, contudo, mas uma horrenda tesoura preta. O estômago de Trista contorceu-se quando ela reconheceu o objeto que vira na costureira.

Ao ver a tesoura, os Outros se retraíram, rosnando feito gatos. O homem brandiu o braço como quem atira semente, e os flocos de neve ao seu redor começaram a fervilhar e agitaram-se com novo propósito, voando contra os rostos dos humanos. A companheira soltou um berro silencioso que fez tilintar e pulsar os tímpanos de Trista. Charles tapou os ouvidos e caiu de joelhos.

Protegendo os olhos com o braço, o Sr. Grace lançou-se para a frente, mirando as pontas da tesoura bem no rosto do Outro. Este desviou e recuou, apenas para encontrar uma parede às suas costas. O alfaiate avançou mais uma vez, dessa vez parando no instante em que as pontas da tesoura encostaram no peito do homem. O prisioneiro soltou um chiado como de uma unha raspando na lousa e congelou contra a parede, tremendo.

– Mande aquela criatura parar de cantar! – ordenou o Sr. Grace. – Agora!

Houve uma pausa curta, e então a Outra fechou a boca, silenciando aquele barulho terrível. Ela ficou ali parada, tremendo feito uma bandeira à brisa, os olhos fixos no metal negro da tesoura. A neve pousava nas bochechas dela sem derreter.

Charles continuava de joelhos, protegendo os ouvidos com um lenço.

– É sua vez de contar histórias – continuou o alfaiate, dirigindo-se ao prisioneiro sem a menor simpatia. – Pra começar, quantos amigos seus estão aqui nas docas?

O homem abriu a boca, mas emergiram apenas gorgolejos aterradores.

– Uns quarenta – respondeu a Outra.

– E pra que servem esses casacos? – perguntou o alfaiate.

– Mandaram que usássemos. – A Outra parecia estar hipnotizada pela tesoura. – Eles confundem olhos e mentes. Deixam quem usa passar despercebido.

– E essa casa pra onde serão levados? Onde fica?

– Não sabemos.

Um golpe curto da tesoura abriu dois furinhos no casaco do homem, tão facilmente quanto agulhas na seda. O homem soltou um urro de dor e terror.

– Não sabemos! – protestou a Outra novamente, entrelaçando os dedos com tanta força que parecia que iam estalar. – Disseram que tínhamos que esperar até agora porque… porque o refúgio ainda não estava pronto. Mas é tudo que sabemos! Tudo!

O Sr. Grace pensou por um momento, depois suspirou baixinho.

– Eu acredito – disse, simplesmente. Então, com toda a força, enterrou a tesoura no peito do Outro.

Escondida na porta do casebre, Trista ficou desesperada, sentindo-se como se todo o ar tivesse sido sugado de dentro dela. Ao seu lado, Pen soltou um gritinho abafado, e cobriu a boca com as duas mãos como se ainda pudesse prender o som lá dentro.

Não saiu sangue. O Outro partiu feito uma nuvem cedendo lugar à lua, e vazou luz, luz úmida que gritou ao vazar. O homem escancarou a boca, e lacinhos fantasmagóricos espiralaram no ar, contando lendas esquecidas. Quando estes se afastaram dele e desapareceram, ele pareceu desfazer-se, contorcendo-se. Logo não sobrou mais nada, a não ser um casaco cinza-amarronzado amontoado sobre as pedras do chão.

A Outra usou mais um de seus gritos sem som e lançou-se violentamente contra Charles. O impulso empurrou-o para o braseiro. O casaco do homem pegou fogo, e ele ficou se debatendo, desesperado, embaixo da mulher. Então o Sr. Grace veio e enfiou a tesoura nas costas dela. Uma chama prateada ergueu-se, um último grito inaudível pareceu abalar a estrutura do mundo, e a mulher também se foi. Charles tombou do braseiro, e Dot ajudou-o a bater as chamas das roupas.

Trista apertou Pen pelo ombro. A menina ainda tinha as mãos na boca e ofegava, em choque.

O Sr. Grace parou e olhou bem na direção da dupla escondida. Devia ter ouvido o grito de Pen.

Podemos fugir. Mas assim ele com certeza nos escutaria. E poderia seguir nosso rastro.

Não quero lutar com você, Sr. Grace, mas se for preciso, vou lutar. Vou lutar. Não vou deixar que machuque a Pen.

O alfaiate pareceu meio intrigado, depois deu as costas às sombras e correu para perto de Charles. Fez uma careta ao examinar os ferimentos do comparsa.

– Charles, meu velho, você vai precisar de um médico – disse, gentilmente. – Dot, pode ir com ele? Acho que o coitado não se aguenta sozinho.

– Mas e você? – perguntou Dot, o rosto aceso de preocupação.

O Sr. Grace agachou e pegou um dos casacos dos Outros. O tecido tremeu e agitou-se na mão dele feito um pássaro cativo.

– Quarenta Outros acabaram de chegar a Ellchester – ele disse, soturno –, e ficou claro que estão arrumando um forte na cidade. Tenho que descobrir onde fica, Dot. Se não o localizarmos e destruirmos, vai saber quantas criaturas mais aparecerão na semana que vem, ou na seguinte.

– O que está pensando em fazer?

Dot ajudou Charles a se levantar. Seu rosto era uma mistura de ansiedade, admiração e confiança. Por um breve momento, a mente de Trista cindiu-se, e ela quase pôde enxergar o Sr. Grace e o mundo do ponto de vista da mocinha. No instante seguinte, ela foi trazida de volta à própria perspectiva com um baque.

O Sr. Grace vestiu lentamente o casaco. O tecido ondulou por uns segundos, depois se acalmou. Vez por outra ele se debatia um pouco, ganhando matizes desiguais como veludo escovado.

– Você escutou a criatura, Dot. Alguns guias estarão aqui em breve para levar quarenta recém-chegados ao refúgio dos Outros. Vamos torcer pra que não reconheçam os novatos de vista… e apenas procurem por estranhos usando casacos que enganam a visão.