Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 14 de 43

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Canção do Cuco

14 Tratamento silencioso

14

tratamento silencioso

 

Não havia ajuda. Ninguém podia ajudar. Não-Triss não tinha em quem confiar, a não ser em si mesma.

Ela limpou as teias de aranha dos olhos com as costas da mão e ficou só escutando. Os passos da mãe indicavam que ela rumava para o escritório no final do corredor. A porta fechou-se, e então deu para ouvir o som muito fraco da voz dela.

O telefone. A mãe estava usando o telefone da casa. Após um instante de confusão, Não-Triss concluiu que isso era de se esperar. Pen tinha sumido de novo. A mãe ia querer comunicar o pai, sem dúvida. Será que ela ia relatar a desonra da outra filha também?

Não-Triss saiu do quarto, ganhando o corredor. Estava ciente de como pisava com mais suavidade. Os tacos do piso eram seus cúmplices e engoliam seu ranger quando as solas dos pés dela os pressionavam. Seu respirar não fazia mais ruído do que uma pétala de rosa caindo.

Com o ouvido colado na porta ela conseguiu escutar o que a mãe dizia na conversa telefônica, lá dentro do escritório. O tom choroso foi como uma pontada no coração de Não-Triss. Mas será que tinha sentido uma pontada no coração mesmo? Será que tinha um coração? Não dava para dizer com certeza.

– … oh, eu sei que não devia ter ligado agora, que você está no trabalho. Acredite, eu não teria feito isso se não estivesse bem desesperada. Tenho que falar com você.

Pausa.

– Isso… sim, isso! E não sei mais o que fazer. Achei… achei que ela tivesse melhorado. Achei mesmo. Mas… tem algo muito errado. Desde a febre. E conforme passa o tempo, fico mais certa disso.

Não-Triss ficou dura feito pedra contra a porta. Seu sangue, ou seja lá o que tivesse no lugar do sangue, congelou. A mãe não ligara para o pai para relatar o sumiço de Pen. Ligara para falar sobre Triss.

– Como posso ter certeza? Por centenas de coisas! – prosseguiu a mãe, agora soando mais histérica. – Eu já ficaria bastante ansiosa se fosse somente a perda de peso, ou o jeito que ela come, come, come feito maluca… feito uma nuvem de gafanhotos! Mas… tem algo além disso. Ela está diferente. Tem algo de lento e esquisito no jeito com que ela fala comigo. Como se ela parasse para escutar outra pessoa antes de responder. É mais do que um sintoma que me preocupa, é… sinistro. Ela nunca teve um gênio difícil, mas agora tem. Às vezes nos olhos dela eu vejo… uma coisa selvagem que não sei o que é! Não sei o que é! Não sei o que está fazendo no rosto da minha filhinha! E o jeito que ela anda. – A voz da mãe baixou para um quase sussurro oprimido. – Toda hora ela me mata de susto, aparecendo do nada, sem fazer barulho. Agora mesmo… agora mesmo estou pensando em ir até a porta ver se ela não está lá atrás, escutando.

Atrás, escutando. Não-Triss prendeu a respiração, lembrando-se das palavras de Pen.

Você está fazendo tudo um pouquinho errado. E logo, logo eles vão reparar.

– E agora à tarde – a mãe prosseguiu – ela saiu de casa. Disse que estava com dor de cabeça e ia tirar uma soneca. Daí ela fez um… um montinho com as roupas de cama, pra que quando alguém abrisse a porta parecesse que ela ainda estava dormindo, e saiu, com esse frio, esse vento. Não sei por quê. Não sei pra onde. Peguei-a quando entrou de volta, mas ela não quis dizer aonde foi. Ficou só olhando pra baixo com uma expressão fria, rígida… – Houve uma pausa para a mãe de Triss engolir o choro. – E quando ela finalmente olhou pra mim, tinha tanta raiva nos olhos dela… Ela… ela não é assim. Essa não é a Triss mesmo.

Cada palavra soluçada foi captada por essa menina que não era a Triss mesmo. Ela teria dado cada vestido do armário de Triss para poder escutar o outro lado da conversa. Saber se o pai estava concordando. Se procurava acalmar a mãe em seus receios ou se ria deles.

– Ah, sim… isso seria… Não aguento mais isso. – Pausa. – Sim. Sim, por favor. Quando? – Pausa. – Ah… entendo. Sim. Não, eu gostaria sim. Obrigada… obrigada. Sim. Isso, eu… acho que tenho um pouco de tônico pra me acalmar. Conversamos à noite, então.

Não-Triss já estava de volta em seu quarto quando a mãe devolveu o fone ao gancho do aparelho. Ela escutou os passos cruzando, inseguros, o corredor mais uma vez, e a porta do quarto da mãe se fechando.

Ela sabe! Ela sabe que não sou a Triss de verdade!

Não. Ela suspeita de alguma coisa, só isso. Mas não sabe do que se trata. E está um pouco histérica e andou tomando o vinho tônico. Então talvez o pai não a tenha levado a sério.

Ficou um pouco mais tranquila. Sem parar, Não-Triss ficava se lembrando do medo e da perturbação na voz da mãe. Estava dividida entre a total miséria de ser a causa da infelicidade da mãe e o pânico egoísta referente à possibilidade de ser descoberta.

Tenho que ficar normal. Tenho que ficar o mais normal que puder, pelo menos até saber o que está acontecendo.

Mas tô com medo. E confusa. E… com tanta fome.

Ah, não, ah, não! Não posso ficar com fome de novo! Não posso começar a comer feito uma nuvem de gafanhotos, agora não!

Mas não havia como se esconder. O buraco ávido no estômago de Não-Triss retornara. O que ela poderia comer? O pânico parecia tornar a fome ainda mais intensa. Os olhos dela voltaram-se involuntariamente para o armário, onde ela metera às pressas todas as bonecas. Deu alguns passos hesitantes na direção do móvel, chegou a estender a mão para abrir a porta, mas recuou quando ouviu lá dentro um farfalhar que parecia o ranger de dentes de madeira.

– Não posso! – sussurrou, desesperada. – Não posso! Oh, será que não tem mais nada que eu possa comer? Alguma coisa que não grite?

Ela foi abrindo as gavetas, retirando os conteúdos e jogando-os no chão. Finalmente, entre as pilhas de roupas, viu uma caixinha, um baú de madeira. Quando ela abriu a tampa, a fome remexeu-se dentro dela, como um peixe que espreita as profundezas e sente um ondular na superfície.

A caixa estava lotada de pequenos tesouros brilhantes, um emaranhado de broches, laços e contas de vidro. As lembranças emprestadas informaram-lhe que tinham sido presentes de amigos de escola, primos e colegas da escola dominical.

Dava quase para sentir o aroma do amor que a verdadeira Triss tinha por eles, feito o vapor que levanta da panela.

Não-Triss retirou um comprido colar da caixinha, fascinada pela palidez azulada das pérolas falsas. Ela fechou os olhos e pendeu a cabeça para trás, lentamente baixando a bijuteria na boca, depois engoliu uma, duas vezes. Sentiu na língua as contas duras, muito geladas. Então todo o conjunto desapareceu garganta abaixo num supetão, como se tivessem ganhado vida própria.

Um broche veio logo em seguida, as joias de vidro efervescentes feito champanhe. Depois ela pegou um bracelete com pingente em forma de barquinho. Uma parte dela reclamou que não dava para comer isso, qualquer coisa menos isso, mesmo quando ela já botava o negócio para dentro, sentindo a prata trabalhada como se fosse glacê.

O frenesi foi passando. Uma onda de terrível tristeza tomou seu lugar. Acabara de devorar coisas que jamais poderiam ser repostas. Com um dedo trêmulo, fuçou nos itens remanescentes dentro da caixa. Tantos presentes, tantos amigos. Mas quantos desses amigos ainda estavam na vida de Triss? Nenhum, ela concluiu. A mãe considerara alguns “exuberantes demais” para a saúde da filha, e o pai chegara a discutir com os pais de outros. Acontecia que toda vez que Triss se conectava com alguém, a ligação era rompida. Aqueles presentes eram os tocos de amizades podadas desde muito cedo.

O barquinho de prata, contudo, tinha sido presente de Sebastian.

Tinha sido também uma promessa. Sebastian dissera a Triss que, quando voltasse da França, os dois iriam passear de barco de novo. Para sua surpresa, Não-Triss reparou que tinha lembranças confusas de dias bonitos que passara no estuário, num barquinho de madeira. Sebastian remava enquanto Pen e Triss riam e espirravam água uma na outra. Como foi que aquela menina sorridente se transformara na Triss dos espirros, que tinha que ser protegida até de uma brisa?

A caixa guardava as relíquias de uma dúzia de amizades mortas e um irmão morto. Não-Triss fechou-a, sentindo uma pontada de ódio de si mesma e muita culpa, ciente do quanto os tesouros eram importantes para Triss. Contudo, ela reparou, justamente por isso eram tão irresistíveis. Estavam encharcados de uma essência de Trissidade que os tornava deliciosos, e Não-Triss quase chorou de alívio quando percebeu que a fome tinha sido saciada. Talvez não precisasse de bonecas birrentas para matar a fome, afinal.

– Estou pronta – ela disse ao seu reflexo pálido no espelho da penteadeira. – Estou pronta pra ficar normal.

O pai chegou em casa no horário de sempre, e ao ouvir o Sunbeam estacionar, Não-Triss sentiu o estômago se contorcer de ansiedade. Ela o espiou, da janela do quarto, sair do carro e enfrentar a chuva que aumentava, mas não soube dizer, pelo que viu do rosto, como ele reagira à ligação telefônica daquela tarde.

Depois que ele entrou em casa, Não-Triss pôde escutar muito pouco da conversa que se desenrolava lá embaixo. Ela pressionou o ouvido no chão do quarto, esperando entender o que estava sendo dito, mas as vozes não passavam de um zumbido de abelha, reconhecíveis somente como os timbres do pai e da mãe. Conversaram por mais de uma hora; a voz do pai às vezes avolumava-se, mas não o bastante para que ela entendesse o que ele dizia.

Quando foi chamada para o jantar, Não-Triss estava quase tremendo de apreensão. Para sua surpresa, encontrou o pai sentado calmamente à mesa, e a mãe ausente. Esperava encontrar os dois sentados um ao lado do outro, prontos para um interrogatório.

– Cadê a mamãe?

– Ela foi falar com os vizinhos pra ver se sabem alguma coisa da Pen.

Para Pen, “fugir” geralmente significava escapar para algum lugar seguro e seco no qual ela poderia ficar até sentir que sua ausência se prolongara o bastante para deixar todo mundo preocupado. O procedimento usual aplicado quando Pen desaparecia, portanto, era checar com os amigos da vizinhança para descobrir se ela aparecera do nada na casa deles.

– Triss, sente-se – continuou o pai, a voz calma e firme, e Não-Triss compreendeu que a inquisição finalmente batia à sua porta.

Ele demorou-se um pouco dobrando o jornal, depois olhou para a menina. Somente dois lugares foram postos na mesa, ela reparou. Havia um prato para o pai, o vapor emanando das batatas na manteiga e cavala grelhada. Contudo, comida alguma fora servida no prato dela.

Não-Triss entendeu o significado disso imediatamente. Lembrou-se de ter visto Pen sentar-se perante um prato vazio em diversas ocasiões. Significava que ela estava em apuros, e que a não ser que conseguisse explicar-se apropriadamente, ou oferecer remorso adequado, ficaria sem jantar.

Ela sentou-se, mantendo a cabeça baixa, de modo que os cabelos pendiam sobre o rosto.

– Triss, sua mãe contou que ficou muito preocupada com você hoje…

– Desculpe.

No instante em que as palavras passaram pelos lábios, Não-Triss soube que tinha falado cedo demais. Um pedido imediato de desculpas pareceria um apelo ambicioso por comida. Houve uma pausa de censura, e então o pai continuou como se ela não tivesse interrompido.

– Sua mãe contou que você saiu de casa, sem informar ninguém, e tentou esconder o fato. E quando retornou, mentiu para ela e ergueu a voz. O que a fez agir assim, Triss?

– Eu… desculpe. Eu… – Não-Triss pensou em colocar a culpa na dor de cabeça, mas seu instinto dissera-lhe que havia um modo de tirar a culpa de si. – Eu… não sei muito bem. Meu quarto estava com um cheiro de… doença. Fiquei com muito calor. E quis muito, muito, muito sair, de repente. Então saí.

Houve mais uma longa pausa, e Não-Triss escutou o pai suspirar.

– Então. Pra onde você foi?

– Eu… dei uma volta, só.

– Deu uma volta?

A pergunta do pai foi tão gentil que Não-Triss sentiu o coração partir. Tudo o que pôde devolver foi um sim de cabeça, e o silêncio esticou-se e esticou-se enquanto ele esperou que ela preenchesse o vazio com mais alguma coisa. Ela tentou pensar numa mentira convincente, mas o dia deixara sua mente cansada demais para tirar um coelho da cartola.

– Só… dei uma volta – ela murmurou.

– A Pen estava com você? Sabe pra onde ela foi?

Não-Triss fez que não para as duas perguntas, e houve nova pausa.

– Triss, você está escondendo alguma coisa de mim. – A voz do pai soou calma, mas magoada. – Olha pra mim.

Mas ela não podia. Não podia deixá-lo ver que tinha teias de aranha vazando suavemente por cima das bochechas. Ela manteve o queixo abaixado contra o peito, o cabelo feito uma cortina impertinente na frente do rosto. As lágrimas no fundo da garganta tinham sabor de cereja azeda. Ela apertou a mesa com os dedos até começarem a doer.

– Eu sou um algum monstro? – ele perguntou, e Não-Triss quase olhou para ele, de pura surpresa.

Ela fez que não. Não, o monstro sou eu.

– Por acaso alguma vez eu te dei motivo pra mentir pra mim, ou esconder as coisas de mim?

Não-Triss fez que não de novo.

– Então não acha que eu mereço uma resposta?

Ele esperou por um bom tempo, sabendo que a sua Triss teria que erguer o rosto em algum momento. Quando ela não o fez, ele soltou um suspiro demorado, sofrido, depois pegou os talheres e começou a comer.

Não-Triss teve vontade de soluçar só de imaginar que estava magoando o pai. Sua mente era uma tempestade só, e ela não tinha certeza de que emitiria um som humano caso abrisse a boca. Virou-se para que o pai não visse seu rosto quando ela limpasse os olhos, e por fim fitou a janela e avistou Pen.

A menina estava lá fora, batendo na janela. Voltara a ser uma criatura de um prateado brilhante, e seus punhos não faziam ruído algum contra o vidro. Atrás dela, contra a parede da garagem, Não-Triss via palavras cintilantes aparecendo, piscando.

TOC

TOC TOC TOC

POR QUE NINGUÉM ME DEIXA ENTRAR?

A imagem rompeu os pensamentos de Triss como uma espada mergulhada num mosaico. As primeiras sensações foram de descrença e terror. O que Pen tinha na cabeça, tentando chamar a atenção de todo mundo com aquela aparência? Até mesmo ela, com todo o seu talento para a mentira, teria dificuldade de explicar tamanha transformação.

Então Não-Triss reparou que as roupas de Pen estavam encharcadas, os cabelos, enlameados, e o rosto marcado por exaustão e desespero. Lentamente ela entendeu o que se passara. A irmã devia ter passado horas na chuva para ficar molhada daquele jeito. E se a mãe tivesse trancado a porta dos fundos depois que Não-Triss entrou furtivamente, para que Pen fosse forçada a bater na porta da frente ao retornar e enfrentar os pais? Se sim, quem saberia dizer quanto tempo Pen passara batendo em vão nas portas e janelas, produzindo nada além de palavras prateadas penduradas no ar?

Com um frisson de culpa, Não-Triss viu que havia três marcas compridas e paralelas na bochecha esquerda de Pen.

POR QUE NINGUÉM ME ESCUTA?

NÃO ME IMPORTO MAIS, SÓ QUERO ENTRAR.

ESTOU COM FRIO

Ela tem só nove anos de idade. Não-Triss tinha quase se esquecido desse fato, tão ocupada que estivera pensando em Pen como uma ameaça. Não importa quão esperta ela é, continua sendo uma garotinha, e agora está com frio e com medo, e quer a mãe.

Sem querer, Não-Triss cruzou olhares com Pen, e se arrependeu no mesmo instante. A expressão da menina transformou-se, assumindo um tom de pura frustração, ressentimento e desespero. Pen não fazia ideia da tensão gelada que imperava na mesa do jantar. Via somente um monstro usurpador sentado na casa dela, com o pai dela, presumivelmente comendo o jantar dela e apreciando luz, calor e amor enquanto ela estava lá fora, no frio.

Não-Triss ficou paralisada na cadeira, indecisa e culpada. Sentiu um assomo de pena da figurinha ensopada lá fora, mas o que poderia fazer? Se apontasse Pen para o pai, que bem isso faria? Ele iria querer uma explicação, e se Pen estivesse sofrendo o suficiente, acabaria perdendo as estribeiras e contando tudo. Como isso poderia gerar algo de bom para ela e para Pen?

Torcendo para não ter sido observada pelo pai, Não-Triss arriscou uma sacudidela de cabeça, querendo que a irmã lesse a sua mente. Entretanto, não houve indício algum de que Pen notara sinal tão sutil.

– Posso me retirar? – Não-Triss perguntou, impulsiva, não suportando mais a tensão.

Não houve resposta; somente o raspar do garfo na louça. As palavras que Não-Triss dissera não eram a explicação pela qual o pai esperava. O silêncio dele foi como um imenso mar cinza de decepção e a congelou até os ossos. Finalmente, ele fez que sim muito sutilmente, e ela saiu correndo da mesa.

Assim que escapou das vistas do pai, Não-Triss deslizou pelo corredor, destrancou a porta da frente e saiu na chuva.

– Pen! – ela chamou o mais alto que teve coragem. – Por aqui! Eu abri a porta da frente!

Não teve resposta, contudo, e após alguns minutos ela retornou, sorrateira, deixando a porta entreaberta, para que ficasse bem visível pelo lado de fora.

No instante em que ela cruzava de volta o corredor, uma figura baixinha e prateada voou por ela, vinda da porta da frente, trombou nela com tudo e a derrubou no chão. Com o rosto enrugado de tanta tristeza, Pen trovejou escada acima, ou teria trovejado caso seus passos fizessem algum ruído. As palavras que flutuavam atrás da menina foram péssimos substitutos no expressar da raiva.

TUM

TUM

TUM

TUM

TUM

E então, alguns segundos depois que ela sumiu de vista…

BAM

Enquanto Não-Triss procurava recobrar o equilíbrio, o pai apareceu no corredor. Deparou-se com a visão da menina, parada no final do corredor, e a trilha de pegadas lamacentas que corriam por ela e subiam a escada.

– Pen voltou – disse Não-Triss, suspeitando que acabava de afirmar o óbvio.

– Percebi. – O pai soltou um suspiro demorado. – Bom, uma preocupação a menos.

Ele passou pela menina para fechar a porta da entrada, e Não-Triss correu retirar-se para o andar de cima, sem querer dar tempo para que ele se perguntasse por que ela ainda estava lá embaixo, ou reparasse nas gotas de chuva em seus cabelos.

Lá em cima, no quarto, enquanto secava os cabelos com um cobertor, ela escutou o tilintar fino do batente da porta de entrada, depois o barulho da porta sendo aberta e fechada. Murmúrios baixinhos passaram pelo hall e entraram na sala de estar, onde foram abafados quando uma porta se fechou. Uma voz era a do pai; a outra, de outro homem, e ela não pôde evitar a sensação de que soava familiar. Meia hora depois ela escutou o barulho da porta da frente sendo aberta de novo, e pouco depois a voz da mãe entrou na conversa.

Por um bom tempo Não-Triss ficou deitada no chão do quarto, escutando o zumbido das três vozes que aumentava, diminuía e se entrelaçava sem nunca ficar compreensível para os ouvidos dela. Continuaram por duas horas, e quando finalmente o estranho saiu da casa, estava escuro demais para que a menina enxergasse mais do que uma solitária figura masculina caminhando com passos resolutos.