Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 41 de 43

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Canção do Cuco

41 Encontre a moça

41

encontre a moça

 

Não! Deve ter uns cinquenta Outros aqui, por que ele tá vindo atrás de mim?

Com a energia do desespero, Trista saltou e pousou a salvo na galeria do vagão seguinte. Ela engatinhou até a frente, sem ousar olhar para trás, depois disparou escada abaixo para o andar inferior. Um deslize, um pulinho, um salto pela fenda e a menina alcançou a plataforma traseira do bonde.

Quando ouviu um andar apressado, olhou para trás e viu o Sr. Grace deslizando pela escada pela qual ela acabara de descer, piscando com a neve que lhe esbofeteava o rosto, os dentes aparecendo num sorriso maldoso.

– Pare! – ela o ameaçou, apenas para si mesma, conforme o homem descia os degraus. – Pare, Sr. Grace! Você vai estragar tudo!

Havia uma curvinha de humor no canto da boca do alfaiate.

– É esse mesmo o plano – disse o homem, e lançou-se para a plataforma na qual estava Trista.

Uma ideia ocorreu à menina no instante em que ele pulou. Um chute bem calculado ou um brandir de garras e ele seria jogado para trás e cairia. Despencaria na rua e ficaria ali quebrado como Angelina, a boneca gritona. E ninguém saberia que a responsável tinha sido ela, como ninguém nunca ficou sabendo da boneca.

Mas Trista não deixou que essa ideia controlasse seus membros. Em vez disso, ficou imóvel, e no instante seguinte o Sr. Grace pousou com um baque na plataforma de metal, ao lado dela. Tudo muito rápido, e tudo mudou. Ele ficou imenso, e ela, uma bonequinha frágil.

– Não! – ela guinchou e desviou quando o alfaiate tentou agarrá-la.

Num giro, ele sacou a imensa tesoura negra. E mais uma vez tornara-se um pesadelo, o alfaiate de pernas vermelhas das histórias de terror.

O homem avançou; Trista desviou, mas um pouco lenta demais. Uma ponta da tesoura perfurou o tecido do colarinho dela, prendendo-a ao batente de madeira da porta do bonde. A outra lâmina parou, ameaçadora, bem rente ao seu pescoço, pronta para o corte.

– Escuta, por favor! – Mais uma vez ela agia como uma criança abandonada, implorando, lágrimas de teia fluindo pelos olhos. – Eu estou do seu lado! Tô tentando salvar a Triss também! Se você me escutar, podemos derrotar o Arquiteto juntos!

O Sr. Grace fitou a menina com atenção por um segundo, erguendo um pouco as sobrancelhas. Estava esbaforido por conta da perseguição, os dedos azuis de frio. O cabelo endurecera de tanta neve, e gotinhas de água do degelo lhe escorriam pelo rosto feito lágrimas.

– Vocês monstros falam mesmo qualquer coisa pra salvar a vida, não? – ele murmurou baixinho. Seus olhos estavam negros como milhares de anos de chuva.

A morte da esposa e a perda do filho. Era isso a fenda de sofrimento infinito que cortava ao meio uma possível empatia entre os dois. Com desespero, Trista compreendeu que, mesmo com toda a sua agilidade de metamorfa, esse era um abismo que ela não poderia transpor.

– Arquiteto! – gritou o alfaiate a plenos pulmões. – Estou com sua…

Sua filha? Sua serva?

Trista não esperou para descobrir o fim da sentença. Com força nascida do pânico, a menina sacudiu-se para o lado, rasgando o colarinho e deixando somente um retalho de tecido fincado pela tesoura. Antes que o alfaiate pudesse reagir, ela saltou para o teto macio do bonde e foi engatinhando, e sumiu.

Atrás de si, a menina ouviu a porta do bonde sendo aberta, talvez pelo alfaiate, talvez por alguém de dentro. Não fazia ideia do que acontecia abaixo. Tudo o que sabia era que, até o momento, não tinha nada a ver com ela.

O ar tinha um cheiro úmido. Olhando para o lado, Trista reparou, muito alarmada, que o bonde flutuava por cima do rio, bem acima de seu próprio e inesperado reflexo borrado. Um bando de gaivotas separou-se, abobado, da frente do bonde e desviou em pânico, e uma das asas passou de raspão pela bochecha da menina.

Esbofeteada pela corrente de ar, Trista foi deslizando adiante por sobre o teto, depois desceu na porção frontal do bonde, usando o painel de destino e acessórios como apoio para os pés. Pousou suavemente perto da cabine vazia do condutor, depois espiou pela janelinha da porta, vendo o salão inferior do bonde.

O bonde era mais suntuoso do que os vagões, com assentos cobertos com o que parecia ser veludo verde, janelas com batente de madeira marrom-dourada e lâmpadas cobertas por luminárias esverdeadas. Estava vazio, a não ser por três ocupantes.

Nos fundos do carro estava o Sr. Grace, o alfaiate, com a porta aberta logo atrás. Ainda portava o casaco de penas, embora o tecido se debatesse feito louco, como se tentasse rasgar-se e libertar-se do homem. O cabelo estava emplastado na cara, o que passava uma impressão de determinação fria como o gelo. Nas mãos ele trazia aquela enorme tesoura preta.

A poucos metros do encharcado alfaiate, em pé, como se para confrontá-lo, estava um indivíduo mais alto. Mesmo de costas, Trista reconheceu o cabelo loiro macio, o casaco de corte jovial, as calças Oxford e a brilhante aura luminosa da pose indiferente. Era o Arquiteto.

Bem mais perto, sentada de costas para a janela, estava uma menina de cerca de onze anos e cabelo castanho-claro. Usava chapéu branco e casaco, e mantinha os ombros nervosamente unidos, as mãos entrelaçadas no colo.

Com muita força de vontade, Trista recolheu as garras-espinhos e baixou a mão livre para dar um tapinha no vidro da porta. A menina levou um susto, virou-se para olhar ao redor do carro, depois fitou a porta e viu Trista finalmente.

Esta viu o próprio rosto, pálido e desolado entre os arrumados cachinhos lustrosos. Sob seu olhar, a boca rosada abriu-se de choque e medo, com uma expressão que Trista sentiu os próprios lábios fazendo diversas vezes.

Triss. Triss, intimidada ao ver o próprio rosto encarando-a lá de fora, no escuro.

Trista chamou e deu instruções desesperadas apenas com a boca, sem som.

Vem pra cá!

Triss hesitou, lançando um olhar temeroso para o Arquiteto.

Por favor! Trista insistiu. Rápido!

Triss começou a deslizar furtivamente pelo banco na direção de sua cópia, olhos grudados o tempo todo no Arquiteto. Enquanto isso, Trista foi abrindo a porta muito devagar. Ao fazê-lo, a conversa de dentro do bonde ficou audível para ela.

– Sabe de uma coisa, senhor? – disse o Arquiteto com sua voz macia, musical e ligeiramente excitada. – Estou com um pressentimento engraçado. Algo me diz que você não comprou passagem para este passeio.

– Acredito que isso aqui bastaria pra qualquer inspetor. – O alfaiate ergueu a tesoura, falando num tom mais firme do que jocoso. – Quer levar a questão ao Ministro dos Transportes?

O riso do Arquiteto saiu como um serrote banhado em mel, e parou um pouco subitamente demais.

– Ah, não quero. Bom, creio que eu deveria me sentir lisonjeado por você estar tão determinado em conseguir um lugar no meu transporte. – Usava um tom perigosamente agradável. – Quem sabe você não aceitaria juntar-se a nós e relaxar… tomar um refresco?

– Só acho que seria educado informar – disse o alfaiate entredentes – que suas artes não funcionam comigo. Vejo-o como você é, Arquiteto.

– É mesmo? – Novamente veio a sensação incômoda de que algo escapava ligeiramente do controle, como um copo rachando ao tentar conter a tempestade. – É mesmo, tesourinha?

Tanto o Sr. Grace quanto o Arquiteto pareciam absortos demais na conversa para olhar para a porção frontal do carro. Trista resolveu arriscar um sussurro:

– Triss, vim salvar você! Tire o chapéu, os sapatos e o casaco! Rápido! Enquanto estão distraídos!

Triss ficou perplexa, mas apressou-se em obedecer, os dedos atrapalhando-se com os botões.

– Então – continuou o Arquiteto –, acha que enxerga o mundo com clareza?

– Comparado com a maioria dos meus conhecidos – respondeu secamente o alfaiate –, vejo com a clareza do cristal.

O homem tinha ajeitado o pé em algo como uma pose de esgrimista, mas Trista não sabia dizer se ele planejava um ataque súbito ou uma escapada às pressas.

– E esse, receio, é o seu problema – suspirou o Arquiteto. – Porque o mundo, meu amigo, não é claro. É escuro feito chouriço. Então se você o enxerga claro como cristal, tem alguma coisa errada com os seus olhos. Ou talvez você não use os seus olhos. Talvez enxergue com sua tesoura. Que instrumentos maus, as tesouras. São feitas para apenas um propósito. Para dividir, limpa e falsamente. Zum, zum. Tudo de um lado ou de outro. Nada no meio.

Quando o Arquiteto disse a palavra “tesoura”, a melodia de sua voz se entrecortou, como uma agulha pulando ao tocar um disco riscado.

– Melhor do que se esconder atrás de um manto sujo de mentiras – declarou, abusado, o Sr. Grace.

– Mas você está usando o nosso manto! – riu o Arquiteto. – Transformou-se num pássaro da nossa estirpe! E – a voz dele ganhou um acento discordante, como se trocasse para um acorde menor – eu achei que caiu muito bem em você.

O gesto do Arquiteto para o Sr. Grace foi tão delicado, tão casual, que foi como se ele tivesse jogado fora uma guimba de cigarro invisível.

Ao fazê-lo, contudo, o alfaiate tossiu como se tivesse levado um soco, e curvou-se para a frente. A tesoura soltou-se dos dedos dele e caiu no chão. As penas do casaco farfalhavam loucamente, espirais giravam e ondulavam como desenhos traçados pelo vento no milharal. O homem tossia, e cada baforada enchia o ar de peninhas cor de poeira.

O cabelo preto foi baixando, baixando, até que sobrou apenas uma penugem grisalha no couro cabeludo. Os movimentos frenéticos da cabeça ficaram convulsivos, rápidos como os de um passarinho. Do colarinho, das mangas e da barra das calças vazava cinzas e finas penas acinzentadas. Finalmente, até a cabeça dele começou a diminuir, e ficou do tamanho de um coco, uma maçã, um ovo…

– Triss! – Trista sibilou, vendo seu outro eu embasbacado com a transformação. – Vem pra cá! Rápido!

Ela segurou a porta aberta, e Triss disparou para lá.

A menina soltou uma exclamação quando emergiu para o rugir dos ventos e visualizou o rio fluente. Trista arrancou casaco, sapatos e chapéu das mãos abobadas da outra e correu vestir tudo.

– O que a gente faz agora? – perguntou Triss. – Pra onde vamos?

Trista sentiu o coração vir à boca quando olhou ao redor, procurando inspiração. A qualquer momento, o Arquiteto notaria o sumiço de Triss.

– Eu te mostro – ela disse, abruptamente. – Vem, fica aqui comigo.

Trista puxou sua cópia para longe da porta do salão, na direção da beirada da plataforma de embarque.

– Que foi? – Triss perguntou, os olhos marejados. – O que tenho que fazer?

O bonde começava a vergar para perto da margem. A beirada escura das Novas Docas aproximava-se pela direita.

– Desculpe – murmurou Trista.

Quando o bonde passou perto da parte mais rasa, ela empurrou seu outro eu pelas costas com toda a força. Despreparada, Triss voou para o espaço vazio. O rugido do ar engoliu o grito assustado da menina e o barulho suave de água que veio logo depois.

Ela sabe nadar, Trista disse a si mesma ao inclinar-se para ver, pesquisando freneticamente as águas escuras em busca de sinais de vida. Sei que sabe. Lembro de ter aprendido a nadar. E a joguei no raso…

Sim, havia um pouco de espuma, uma cabeça e braços brandindo não muito longe do deque mais próximo. Trista fechou os olhos, com a mente inundando de alívio.

– Que raios você planejava fazer? – perguntou o Arquiteto, a voz reluzindo uma malícia jocosa. – Estava pensando em pular no rio? No seu estado de saúde? Ou pretendia pedir ajuda para alguém?

Trista não disse nada, apenas manteve o rosto baixo enquanto o Arquiteto a levava para dentro do salão, para então indicar o assento de veludo verde no qual devia se sentar. Ela entrelaçou as mãos e as pousou no colo, do jeitinho que fizera Triss.

Alguma coisa esvoaçava ao redor do bonde, trombando nas lâmpadas feito uma mariposa. Era um bicho-pássaro, um dos grandes, mas ia diminuindo a cada instante conforme soltava penas e cinzas.

– Tis-tis-tis-tis! – sibilava a criatura, e zumbia, debatendo-se toda contra paredes e janelas. O rosto pálido estava louco de ódio. No canto oposto do bonde, amontoadas numa pilha, jaziam as roupas do Sr. Grace. Não havia sinal algum do alfaiate.

– Olhe só pra você, o cabelo todo molhado – comentou o Arquiteto, sentando-se ao lado da menina. – Vai morrer de gripe, Srta. Crescent.

O coração de Trista batia loucamente dentro do peito, tanto quanto o Sr.-Grace-bicho-pássaro batia nas paredes.

Eu não podia pular junto com a Triss. Não podia. Ele teria reparado que ela fugiu, e voltado atrás dela.

Além do mais, eu tenho que pegar aquele relógio.