Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 29 de 43

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Canção do Cuco

29 Trista

29

Trista

 

Após um longo período de silêncio, veio a sensação de que o abraço resolvera tudo que podia.

– Precisamos de um plano – disse Violet. Ela soltou o ar lentamente, fitando o chão entre os pés. Por um momento pareceu perdida, depois fungou forte e endireitou-se. – Primeiro de tudo… precisamos resolver se vamos ficar em Ellchester, ou partir agora mesmo pra Londres. É uma cidade maior. Quem estiver atrás de nós pode não conseguir nos encontrar lá.

– Londres? – Pen ficou boquiaberta. – Quer dizer… que a gente vai fugir de verdade?

A menina ficou maravilhada. Já Não-Triss ficou em dúvida entre rir e chorar. Obviamente, “fugir” na mente de Pen nunca envolvera não voltar nunca mais.

– Não posso ir embora – disse Não-Triss, desconsolada. – Tenho que ficar. Não sei se tem algum jeito de impedir que eu despedace, mas só posso descobrir isso aqui. Todos os segredos estão em Ellchester. Se eu for embora, é certeza que vou morrer. E… e de todo modo, quero fazer o que puder pra ajudar meu outro eu. E… Sebastian.

Violet suspirou de novo, e afagou as têmporas.

– Sim – murmurou. – Eu tinha pensado a mesma coisa. Vamos ficar, então. Não vai ser fácil. Seus pais, o Sr. Grace e talvez até a polícia estejam procurando por nós. E o tempo não está do nosso lado. – Ela franziu o cenho brevemente para a menina. – Seja lá o que vamos fazer, temos que agir rápido. Esse Arquiteto misterioso, ele parece ser a chave de tudo. Do sequestro da outra Triss, das cartas de Sebastian, e do que está acontecendo com você, Triss. Precisamos descobrir o máximo que pudermos sobre ele. Quem ele conhece, onde ele vive. Talvez consigamos até ter vantagem sobre ele.

Não-Triss fitou Pen, cuja boca passara para um biquinho de medo. Quando pensou em sair à caça do Arquiteto, Não-Triss lembrou-se da imensa silhueta desfocada que vira acima de si no momento de seu estranho nascimento sob as águas do Grimmer, e suas entranhas amoleceram de receio. Mas não havia escolha.

– Triss, você entende o que os pássaros falam, né? – Pen perguntou. – Você devia perguntar pra eles onde o Arquiteto mora. Eles voam pra todo canto.

– Acho que não entendo pássaros de verdade – Não-Triss admitiu. – Só os mais assustadores, com cara de gente… e que trabalham pro Arquiteto.

– Vamos tentar outra abordagem, então – sugeriu Violet – O que sabemos sobre ele?

– Que ele é mau – Pen declarou, solícita. – Ele engana e mente e…

– Ele tem um Daimler preto – Não-Triss interferiu.

– Não é um carro dos mais comuns – Violet concordou. – Posso perguntar sobre ele por aí. Que mais? Pen, você que sabe mais.

Pen teve a gentileza de demonstrar desconforto, dadas as circunstâncias que fizeram dela aquela “que sabe mais”.

– Sempre encontro ele no parque ou no cinema – ela murmurou –, e falei com ele ao telefone.

– Mas não pela telefonista normal, certo? – Violet fez uma careta. – Que pena; podíamos pedir pra rastrearem a ligação. Posso dar uma olhada nesse cinema, então. Ele chegou a mencionar que tem outra base? Deve ter, em algum lugar. Se tem carro, tem garagem, então tem casa.

– Não! Você não entendeu! Ele pode… – Pen ficou muda e sentou-se, arquejando, o rosto rosado. Encontrou o olhar de Não-Triss, e as duas trocaram expressões de desamparada frustração.

O Arquiteto era um mago dos tijolos e da argamassa. Podia construir um palácio dentro de um armário de vassoura, e já tinha escondido um vilarejo embaixo de uma ponte. Poderia ter dezenas de bases que não apareciam em mapa algum e de que carteiro algum nunca ouvira falar. Violet não sabia de nada disso, nem as meninas podiam contar-lhe.

Pior ainda, elas não podiam contar nada do que se passara no Côncavo, do pacto entre Piers Crescent e o Arquiteto, nada que o Picanço dissera sobre Sebastian…

– Odeio promessas mágicas! – Pen explodiu.

– Tem coisas que sabemos sobre o Arquiteto que não podemos te explicar – Não-Triss disse, muito pesarosa. – A gente quer, mas não pode.

Violet fechou os olhos e murmurou algo muito baixinho.

– Deixa pra lá – disse, finalmente. – Só me contem o que podem, então. Conheço pessoas de lugares… interessantes. Se o Arquiteto tem conexões obscuras, alguns dos meus amigos devem ter ouvido falar dele. Qualquer detalhe pode ajudar. Contem como ele é, qualquer coisa que o destaque dos demais.

– Não sei se ele realmente é o que parece ser. – Não-Triss lembrou-se do cintilar de traços escondidos por entre a lustrosa fachada bonita do Arquiteto. – Mas podemos tentar.

Aos bocados, Pen e Não-Triss descreveram a aparência traiçoeira do Arquiteto. Pen o vira usando outros conjuntos elegantes, mas sempre com o mesmo casaco cinza ondulado por cima.

– Ah! Lembrei de outra coisa! – Pen soltou. – Ele usava um relógio de pulso. Eu o vi puxando a manga pra olhar. Reparei porque não combinava com as roupas dele. Era muito esquisito. Era velho, arranhado e muito grande.

Não-Triss lembrou-se de que também vira um brilho por debaixo da manga do casaco do Arquiteto. Esquecera-se completamente desse breve lampejo metálico.

– Um relógio de pulso – Violet ecoou, indiferente. – Velho e arranhado. E grande. – A cor sumira-lhe do rosto, e uma tensão nervosa retornava ao seu queixo. – Tem certeza disso, Pen?

– Tenho! – Pen respondeu, assustada. – Por quê? O que tem?

– Talvez nada – Violet disse, sombria –, mas tenho uma suspeita quanto a esse relógio, e mais perguntas que preciso fazer a uma pessoa. – Ela passou os olhos sobre as duas meninas, depois se curvou para pescar os protetores de olhos. – Vocês duas estão péssimas – disse, seca. – Tentem dormir um pouco.

Não-Triss reparou que estava mesmo exausta. Duas noites de sono entrecortado e um dia tenso e enérgico a deixaram trêmula e esgotada.

– Seus amigos são gângsteres? – Pen perguntou. – Quero conhecer!

– Não quer, não! – Violet retrucou. – Não queria deixar vocês aqui sozinhas, mas tem gente procurando, é melhor ficarem escondidas. Volto antes de escurecer.

Depois que Violet saiu, as meninas juntaram cobertores de patchwork mofados dos caixotes e fizeram um ninho no qual se amontoaram o melhor que puderam. Apesar da luz do dia que penetrava a casa e das portas de madeira que batiam com o vento, Não-Triss logo adormeceu.

Quando acordou, a luz que se infiltrava pela porta tinha escurecido para um dourado escuro, e ela soube que devia ser fim de tarde, quase anoitecendo. Estava sozinha no ninho. Logo ela viu Pen sentada com as pernas cruzadas perante a porta, de costas para ela.

Não-Triss sentou-se também, e no mesmo instante sua fome acordou e rugiu, como se tivesse um dragão preso na barriga.

A menina se dobrou sobre si mesma, envolvendo o estômago com os braços. Dentro dela formou-se um buraco que parecia grande o bastante para engolir a casa toda.

Era preciso comer. Era necessário. Nada mais importava.

Seus dedos desesperados arranharam seus cabelos, mas não encontraram lacinho algum, depois assaltaram os bolsos, todos vazios. Com unhas tornadas garras ela rasgou os botões do vestido e meteu-os na boca, mas isso apenas aguçou seu apetite. Desesperada, arrancou o vestido, ouvindo costuras estourando e fios partindo, mas a pressa a deixava desajeitada demais para passá-lo por cima da cabeça.

Meias. Tirou-as, enojada muito brevemente pelas manchas de lama e o cheiro de chulé. A primeira meia desceu tão facilmente que mal lhe tocou a língua. Teve gosto de terra molhada e morangos selvagens com chuva por cima. A segunda foi logo em seguida.

Por um tempo depois disso, a menina ficou se abraçando e tremendo. Suas garras deixaram arranhões avermelhados nas canelas.

Ao ver Não-Triss passar toda torta, Pen notou o cobertor com que a outra se enrolara.

– Por que você tá tremendo?

– Tô com frio – disse Não-Triss, sentando-se. Estava mesmo com frio, por dentro e por fora. – Violet ainda não voltou?

Pen fez que não e voltou a rabiscar no caderninho que tinha no colo. Havia manchas amareladas nas folhas, e a capa verde entortada por causa da umidade. Não-Triss supôs que saíra de um dos caixotes.

– Vai ver ela já encontrou o Arquiteto – Pen sugeriu, com um prazer sinistro. – Vai ver os amigos gângsteres dela estão atirando nele com revólver.

– Ela não chegou a dizer que os amigos dela são gângsteres, Pen.

– Também não disse que não – Pen pronunciou com total confiança –, então talvez eles sejam.

Não-Triss gostaria de compartilhar do otimismo de Pen. Sua mente estava lotada de imagens tenebrosas de Violet sendo apreendida pela polícia. Agora, com a clareza resultante de algumas horas de sono, ela começava a entender o quão completamente Violet se tornara uma fugitiva. Pela primeira vez a menina imaginou o que aconteceria com Violet se ela caísse morta numa pilha de folhas e gravetos, e a verdadeira Triss não fosse resgatada. “Triss” fora vista pela última vez fugindo com Violet, vista pelo Sr. Grace, pela proprietária e pelas “amigas” desta. E se todo mundo concluísse que ela fez algo de terrível com Triss e a quisessem presa?

– Violet… não sabe o que nós sabemos. – Não-Triss sentiu culpa ao dizer isso, mas era preciso. – Ela acha que precisa de um plano porque é a adulta, e quer cuidar de nós. Mas sabemos mais do que ela, então temos que ter nossos planos também.

– Que tipo de plano? – Pen perguntou, desconfiada.

– Você ainda se lembra de como faz pra ligar pro Arquiteto pelo telefone, né?

Pen fechou a cara. E fez careta para o livro em seu colo.

– Escuta – disse Não-Triss. – O Arquiteto quer ajudar o povo dele, encontrando refúgios secretos pra eles. Tudo o que o seu pai quer é trazer a Triss de volta em segurança. Talvez… talvez possamos falar com o Arquiteto, fazer outro pacto. Ele devolve a Triss, e seu pai continua construindo lugares para os Outros morarem.

– Mas isso não vai impedir que você morra! – Pen exclamou. – Enfim, a gente não pode confiar no Arquiteto! Ele engana, é esperto e… – A frase perdeu-se; era muito menininha.

– Talvez a gente não precise confiar – Não-Triss logo disse. – É só uma coisa que podemos tentar se não tivermos outros planos. E… eu posso ligar pra ele em vez de você.

– Não seja boba! – Pen zombou. – Não sou um bebezinho, Trista!

Alguns segundos se passaram antes de Não-Triss reparar em como a menina a chamara.

– Quê?

Pen fechou a cara para ela, obviamente preparando-se para a briga.

– Você é Trista agora – declarou. – Eu decidi isso enquanto você dormia. Eu salvei a sua vida, então eu escolho quem você vai ser, e você vai ser a Trista.

Não pareceu muito válido comentar que a vida que Pen salvara muito provavelmente não duraria até o fim da semana. Em vez disso, Não-Triss ficou sentada, quieta, abraçando os joelhos.

Trista.

Ela não sabia muito que pensar de um nome que significava “triste”, mas era um nome, um nome só dela. Não dava nem um pinguinho de culpa ou pesar, como acontecia toda vez que Pen a chamava de “Triss”. E era bem melhor do que “Triss de Mentira”.

– Tá bom – ela disse baixinho. – Gostei de Trista. Posso ser a Trista.

– Ah… que bom. – Pen pareceu tristemente satisfeita. – Se… se você se comportar, quem sabe eu deixe você ficar com esse nome.

– O que você tá fazendo? – perguntou a recém-batizada Trista, tentando espiar o caderninho.

– Estou desenhando disfarces pra nós. – Pen mostrou a capa. Em cima estava escrito “Ruby Wiles”, e abaixo, “Escola Arco-íris para Meninas”. – Aquele homem que quer te jogar no fogo vai tentar pegar a gente de novo. Mas ele não é nosso pai, então tem que provar que a gente é a gente, então temos que provar que não somos. Precisamos de coisas com nossos nomes marcados, pra mostrar que somos outras pessoas. Eu agora sou a Ruby. E olha só! – Orgulhosa, ela abriu o caderno para mostrar arabescos e ornamentos rabiscados. – Eu até coloquei umas somas nesse aqui, com a caneta vermelha da professora. Agora se eu disser que meu nome é Ruby e mostrar isso pras pessoas, elas vão acreditar. Precisamos arranjar alguma coisa pra você também.

A menina hesitou, então, do colo, puxou um colar frágil de contas de madeira presas num fio de algodão. Ela passou alguns minutos rabiscando nas contas com uma caneta.

– Pronto! Coloca isso.

O colar foi depositado na mão de Trista. Em cuidadosas porém desajeitadas letrinhas, o nome T-R-I-S-T-A fora grafado ao longo de seis contas, uma letra em cada.

– Obrigada – disse Trista, e sentiu-se acostumada pelo menos um pouquinho ao seu triste, esquisito e inventado nome.

Para grande alívio de Trista, Violet retornou assim que o sol estava se pondo atrás das montanhas, do outro lado do Ell. Ela escutou sobre o novo nome de Trista ao entrar e logo depois partiu para seu próprio relato.

– A má notícia é que ninguém com quem eu falei conhece esse Arquiteto, nem ninguém com a mesma descrição. O cinema que quase devorou Pen foi fechado e lacrado, então não deve ter mais nada lá. Alguns amigos meus foram procurar esse Daimler dele, mas isso é mais difícil. Mas tenho boas notícias. Dei uma olhada em todos os jornais da noite, o Crier, o Ell, o Custodian, até o Wetherhill Herald, e não tem nada em nenhum deles sobre vocês. Passei na biblioteca pra ver os matutinos também. Nada. Não sei se o pai de vocês foi à polícia, mas não foi à imprensa. Pelo menos não vamos ter metade da cidade atrás de nós. Posso me arriscar a cruzar a cidade com vocês, se tomarmos cuidado. A melhor notícia é que achei um amigo meu que me deve um favor. Vamos poder nos esconder com ele esta noite. E… tem mais coisas que quero falar com ele. Fiquem prontas. Vamos sair.

Violet olhou para Trista uma, duas vezes.

– Trista, o que aconteceu com as suas meias… e as suas pernas?

Trista estava mais do que ciente das costuras arrancadas e dos botões desaparecidos do vestido, bem como dos arranhões nas canelas nuas. A menina olhou para o chão e abraçou-se num silêncio culpado.

– Oh.

Por mais suave que tenha saído a exclamação, veio com um mundo de significado.

– Desculpe – Trista sussurrou.

– Não – Violet disse baixinho. – Não… não é culpa sua. Eu devia… deixa pra lá. – Trista ousou olhar para Violet e encontrou-a observando-a com um sorriso triste e cansado. – Pelo visto isso acontece bastante…

Trista fez que sim, desolada.

– Não tenho mais nada que tenha pertencido à verdadeira Triss, a não ser o vestido. A roupa de baixo é muito nova…

– Você não pode comer uma calcinha! – Pen exclamou, horrorizada.

– Depois que for o vestido – Trista concluiu baixinho –, não sei o que vou fazer.

Violet mordiscou o lábio e franziu o cenho, como se raciocinando muito.

– A gente vai dar um jeito – disse, finalmente. – Mas na próxima vez que começar a sentir fome, me avise.

Encontraram o amigo de Violet numa esquina da Dressmaker’s Lane, uma via pública vazia não muito distante do rio. Havia um quê de meia-idade na postura dele e no esmo de seu caminhar. Quando chegaram perto, contudo, Trista reparou que ele não era muito mais velho do que Violet. Usava um quepe fino marrom-escuro e jaqueta parda por cima da camisa, com colete cinza de lã. O cabelo tinha sido cortado recentemente, um péssimo corte.

Olhando para ele, Trista sabia que algo de ruim lhe havia acontecido, embora não desse para dizer o quê. O rosto era até bonito, maxilar largo e olhos bem espaçados, mas alguma coisa estava fora do lugar. Ele olhava para todo canto. A boca tensa, entreaberta, o fazia parecer que estava sempre esperando pelo momento certo de dizer algo importante.

Ele abriu um sorriso bondoso para Violet. Abriu e fechou feito um ligeiro raio de sol no inverno. Um instante depois, o sorriso se fora, e o rosto dele pareceu muito perdido.

– A Belle do Ell – disse.

Mas que entonação esquisita! Não parecia estar flertando nem sendo galanteador. Foi quase como se a estivesse apresentando para outra pessoa.

– Jack – ela disse. – Levei um tempo pra descobrir onde tinham colocado você. Esquina nova?

– Isso. – Sorriu. Fechou. – É o jogo de sempre. Todo mundo manda a polícia dar um jeito na jogatina, então tiveram que “encontrar” a esquina antiga. Agora vão fingir que não sabem desta aqui por algumas semanas. Você não está querendo apostar, está?

– Não sou muito de apostar. – Violet não sorria para o rapaz, Trista reparou. E falava mais baixo do que o de costume. Escutando o diálogo, Trista teve uma sensação esquisita. Era como ver duas pessoas andando num cômodo cheio de coisas frágeis, evitando-as sem nem enxergá-las. – Escuta, Jack. Sua esquina pode ficar sem você por meia hora. Vem dar uma volta perto do rio com a gente.

Jack fitou Trista e Pen, depois Violet.

– Irmãs do Sebastian – ela explicou, respondendo à pergunta silenciosa.

Ele baixou os olhos e assentiu.

Os quatro caminharam ao longo do rio por uma calçada estreita de concreto, vendo o sol poente pintando o Ell de cobre. Outras famílias passeavam também ao entardecer, mães empurrando carrinhos e uma ou outra governanta liderando um grupo entediado de crianças.

Jack não dizia nada. Ficou esperando. Trista começou a achar que ele sempre esperava, como uma praia de seixos preparada para a próxima onda, a ela resignada.

Quando Violet finalmente falou, sua voz soou estranhamente hesitante.

– Tem umas cartas, Jack. Cartas com a letra dele. Vêm chegando faz um tempo, e sempre têm a data do mesmo dia.

– Cartas pra você? – Jack a fitou.

– Não – ela respondeu. – Pra família.

– Mande-os chamar a polícia – Jack logo respondeu. – Isso é trote. As cartas pedem dinheiro?

Violet ponderou um pouco, depois atropelou a fala dele.

– Eu suponho que não seja possível…

– Não. – Jack a cortou, com triste e calma fatalidade, como a tampa de um caixão cobrindo seu interior aveludado. – Não, Violet. Sinto muito. Eu estava lá. – Ele fitou Trista e Pen. – Você quer mesmo falar disso… agora?

Foi somente nesse ponto que Trista compreendeu do que Violet e Jack estavam falando, e o significado do último comentário dele.

– Você conheceu o Sebastian na guerra! – exclamou Pen, que obviamente chegara à mesma conclusão. – Ele era seu amigo?

Jack parecia capaz de qualquer coisa para escapar do assunto, mesmo que fosse pular da escotilha de um avião sem paraquedas.

– Sim, Pen – Violet respondeu por ele. – Jack era muito amigo de Sebastian, quando serviram juntos como soldados.

– Ele foi corajoso, né? – Pen perguntou, tentando atrair o olhar do moço.

Jack parecia incapaz de olhar diretamente para Trista ou Pen.

– Sim – ele disse para os próprios sapatos, e tentou sorrir. – Como nas histórias.

– Foi Jack quem escreveu pra mim – Violet acrescentou, cortando Pen antes que esta pudesse fazer mais perguntas. – Contando sobre o Sebastian. Escreveu pro seu pai também, e mandou algumas coisas dele, a cigarreira e o relógio.

Lá estava, novamente, o pomo da discórdia. Os pertences de Sebastian, os que ele deixara para Violet, e que os Crescents se recusavam a entregar.

– Jack – disse Violet, um pouco mais dura. – Como era esse relógio? Poderia descrevê-lo pras meninas?

– Era um relógio de pulso – respondeu Jack, e finalmente conseguiu fitar Trista e Pen no rosto, agora que a conversa passara para terreno mais seguro. – Usava-o no pulso. Vocês são muito novinhas pra lembrar, mas antes da guerra, usar relógio no pulso era… bom… só as mulheres usavam. Os homens usavam relógio de bolso. Usar relógio de pulso seria como… usar brincos ou um bracelete. Mas durante a guerra os comandantes começaram a dar a alguns oficiais relógios de pulso. Pra deixar as mãos livres, sabe? Você não precisava fuçar dentro do bolso. A Força Aérea começou a usar primeiro, depois o Exército. Mas os que tínhamos ainda se pareciam com relógios de bolso, só que com pulseira. Eram bem grandões, largos, dessa grossura, não como os que se veem hoje.

– Isso lembra o relógio que viram o Arquiteto usando? – Violet perguntou.

Pen fez que sim, e o rosto de Violet se fechou numa carranca.

– Sabia! – disse ela entredentes. – Eu sabia que o seu pai estava escondendo algo de mim! Toda aquela conversa sobre guardar os pertences de Sebastian… quando na verdade ele os tinha dado a esse homem!

Trista começou a ficar empolgada. O Picanço lhes contara que Piers dera ao Arquiteto um dos pertences de Sebastian. Se Violet estava certa, então já sabiam de qual objeto se tratava.

– Calma lá! – Jack avisou gentilmente. – Talvez esse arquiteto aí tenha servido também na Europa e ganhado o relógio honestamente.

– Dá pra me dar um desconto nessa, Jack? – Violet ralhou. – Não, isso tá cheirando muito mal. Jack, tinha alguma coisa de especial no relógio do Sebastian que o diferenciasse dos outros?

– Ele trocou a pulseira – veio a resposta. – Não era preta, era azul.

– Isso, isso mesmo! – Pen exclamou. – Ah, e a hora tava errada! Deve ter parado, e ele não deu corda.

Uma ideia abriu-se na mente de Trista feito um botão de príncipe negro.

– Que horas ele marcava? – ela perguntou.

Pen franziu o cenho, tentando se lembrar.

– Hora do chá – ela disse após um momento. – Era logo depois do almoço, mas o relógio marcava quatro e meia.

– Quatro e meia – Jack repetiu as palavras de Pen quase sussurrando. Depois baixou os olhos e limpou a garganta. – Violet – disse baixinho –, quatro e meia… Foi a hora em que…

A frase foi diminuindo até silenciar, como um carro fúnebre virando a esquina. Todos já tinham entendido para onde ela ia, no entanto.

Foi a hora em que Sebastian morreu.

– Foi…? – Violet parou, umedeceu os lábios e continuou. – O relógio foi quebrado, então… quando aconteceu?

A pergunta fez Trista ficar com enjoo. Fizera da morte de Sebastian algo real e físico. Não foi como atravessar uma cortina cinza; foi um tiro ou uma explosão ou um túnel desabado, algo que podia torcer metal ou estilhaçar o interior de um relógio.

Mas Jack fazia que não.

– Não. Quando enviei de volta ele ainda funcionava.

Trista lembrou-se do jeito que o Picanço falou de Sebastian.

Ele não se foi, mas também não está vivo.

Está apenas… parado.

Às quatro e meia, em algum ponto do deserto vazio e distante que era a guerra, Sebastian tinha “parado”. No pulso do Arquiteto, Pen vira um relógio que também tinha parado, e exatamente na hora da morte de Sebastian. Trista não acreditava que fosse apenas coincidência. Não sabia dizer como os fatos estavam ligados, mas podia sentir a conexão entre eles balançando na escuridão, feito uma corrente submersa.