Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 7 de 43

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Canção do Cuco

7 Ligação noturna

7

ligação noturna

 

Triss foi para casa com jazz nas veias. Mais de uma vez flagrou-se tentando cantarolar, de boca fechada, uma das estranhas melodias pululantes, mas só saíam murmúrios desconexos. A menina estava tomada pela sensação vibrante de que tudo era possível.

Chegando perto de casa, contudo, essa esquisita e nova confiança enfraqueceu. Sua antiga persona abraçou-a mais uma vez, como faixas úmidas, frias e muito apertadas. No instante em que a casa adentrou seu campo de visão, a última bolhinha de entusiasmo estourou.

Sua mente estava tão abarrotada de pensamentos, que por um instante ela não soube dizer por que a casa parecia diferente do normal. Então percebeu que havia uma mancha escura estendida em frente à porta da garagem. Uma motocicleta fora estacionada ali em posição insolente, bloqueando a entrada tranquila do Sunbeam na vaga que lhe pertencia.

− Mas será possível! – exclamou o pai, parando bruscamente o carro no meio-fio.

A motocicleta era uma criatura esguia e negra com corpo forte e carrinho lateral. Estava suja de lama, e parecia tão inadequada para a delicada e empetecada pracinha como uma pegada numa toalha de mesa bordada. Havia algo de ousado e repulsivo no modo como permitia que se visse o interior de suas peças metálicas. Tinha a impetuosidade de um cachorro de rua com os pelos eriçados ao rosnar.

Ao vê-la, Triss sentiu os ânimos afundarem ainda mais, embora levasse um momento para se lembrar por quê. Já tinha visto a motocicleta antes, e sua presença significava problemas. Significava os pais dela irritados e chateados.

Enquanto o pai dava um show estacionando laboriosamente o carro à beira da calçada, Triss avistou o dono da motocicleta, parado com as mãos nos quadris e um ar de impaciência. A figura alta e esguia usava sobretudo longo, cor de terra, de colarinho erguido, luvas grossas de couro e um quepe de couro preto costurado com lã. Por baixo do casaco, contudo, dava para ver os culotes, e o cabelo até o queixo escapava por debaixo do quepe. As pernas estavam visíveis até os joelhos, e brilhavam em nylon. Era, sem dúvida, uma mulher, uma mulher de rosto comprido e pálido e um queixo proeminente. Quando a intrusa protegeu os olhos para enxergar por entre a luz dos faróis do Sunbeam, Triss a reconheceu.

Era Violet Parish. Violet Parish, que era noiva de Sebastian quando ele foi para a guerra. Antes, ela era apenas “Violet”. Depois que Sebastian partiu, passara a ser “pobre Violet”. E então, por algum motivo, ao longo dos anos desde que ele morrera, o nome dela enegrecera e se manchara junto à família de Triss, como uma fruta deixada para apodrecer, até ser jogada fora e ser impedida de entrar na casa.

− Fique no carro – murmurou o pai de Triss, depois abriu a porta do carro e saiu. Ela ficou olhando pelo para-brisa, contraindo o estômago como se preparada para impacto.

− Sr. Crescent! – disse Violet quando ele se aproximou. A voz da moça tinha um arrastar londrino muito cauteloso, mas também um ardido subjacente de raiva. – Sabia que sua esposa está me deixando plantada aqui na porta faz mais de uma hora?

− Srta. Parish, o que veio fazer aqui? – O pai de Triss tentava claramente moderar o tom para que a filha não escutasse, mas não estava tendo muito sucesso. – Eu lhe disse que fosse ao meu escritório semana que vem pra discutir esse seu sofrimento. Como ousa vir aqui incomodar a minha família?

− Sim, você me disse mesmo que não poderia me ver até a semana que vem… algo sobre a família toda estar viajando de férias, não? – A fala morosa de Violet foi rachando feito tinta velha, mostrando por baixo o metal firme do sotaque de Ellchester. – E daí hoje eu vi seu carro na cidade. Sei quando estão mentindo pra mim, Sr. Crescent.

− Se quer saber, Theresa ficou doente, então voltamos mais cedo.

O olhar sombrio de Violet passou para o carro, e Triss afundou-se no banco de trás. Num ato de lealdade instintiva ao pai, a menina franziu o cenho e conjurou pensamentos doentios, desolados. Uma expressão de desprezo impaciente iluminou o rosto de Violet; Triss não sabia dizer se o alvo do desdém era ela ou as palavras do pai.

− É mesmo? E qual vai ser a desculpa da semana que vem? Durante anos você se recusou a falar comigo sobre o que eu pedi, ou admitir que tudo que era do Sebastian foi trazido pra cá, pra vocês. E agora que você não consegue mais negar, evita a qualquer custo falar comigo. Eu vim até aqui porque assim você não vai poder me ignorar.

− Ah, eu acho que posso sim – rebateu o pai de Triss. – O que a fez pensar que podia aparecer aqui a essa hora da noite, naquela coisa, e entrar na minha casa? Talvez esse horário seja razoável pra uma visita entre o seu pessoal, mas ninguém com o mínimo de consideração nem sonharia em aparecer tão tarde, sem avisar, sem ser convidado, achando que ia entrar.

− Só quero o que é meu – Violet continuou, falando entredentes −, e nunca mais vai ter que me ver. Só as coisas que Sebastian disse na carta que queria me dar se morresse: o relógio de pulso, a cigarreira e a aliança dele.

− Pra você poder vender, como vendeu a sua aliança, os livros do meu filho e tudo mais em que conseguiu pôr as mãos? – O pai de Triss estava agora amargamente irritado, chegava a tremer. A menina ficou horrorizada e viu seus pensamentos fugirem feito coelhinhos. – Pra nós, todas essas coisas são mais do que preciosas, porque eram dele. Pra você, não valem mais do que o preço na loja. Eu te dei dinheiro no final da guerra para te ajudar a se encaminhar, e desde então tudo o que faz é pedir mais coisas. Não te devemos nada.

− Quem é você pra me dizer se posso vender aquilo que é meu? O Sebastian queria que eu ficasse com essas coisas!

− Porque ele se enganou e achou que você daria valor. Ele não fazia ideia do abutre frio que você é.

− Acha que me ofende me chamando assim? – Violet gritou. – Acha que eu ligo para o que pensa de mim?

Ela não parecia não ligar. Na verdade, nesse momento, ela era como sua motocicleta, com todas as engrenagens interiores expostas, irritadas e sujas, visíveis ao olhar.

− Não, acho que você não liga para os sentimentos de ninguém. Eu vou respeitar os desejos do meu filho, e sei que ele ia querer que as coisas dele ficassem com quem realmente dá valor.

O pai de Triss deu um passo para trás como se encerrasse a discussão.

− Ah, de novo? – Violet disparou, e se avultou como se preparada para cair na pancadaria. – É, eu sei por que você o ama tanto. Ele é o filho perfeito agora, né? Não pode discutir mais. Você pode fazê-lo concordar com tudo o que disser, pra sempre…

Essa foi demais para o pai de Triss. Ele deu as costas abruptamente para Violet Parish, marchou de volta ao carro e abriu a porta de trás.

− Vem, Triss – disse ele, a voz acesa por uma raiva que sabia que não era com ela, mas mesmo assim fez algo em seu estômago tremelicar feito uma pétala sob a nevasca. Ela saiu rapidinho. A atmosfera fora do carro mostrou-se glacial em mais de um sentido. Fazia um frio fora de época, e um frescor mentolado ardia no ar. Triss pôde ver o vapor saindo de sua boca.

− Não me deixa falando sozinha… – começou Violet, mas parou abruptamente assim que o pai de Triss bateu a porta do carro. Olhando além do pai, Triss reparou que Violet não estava olhando para eles. Na verdade, seus olhos acompanhavam uma coisinha pequena, branca e cheia de penas que flutuara do alto e pousara entre as pontas dos sapatos de couro. Violet fugiu, como se fosse uma brasa que pudesse queimá-la.

− Essa conversa acabou – anunciou o homem, guiando Triss secamente até a porta de entrada da casa. – Se eu a vir aqui de novo, vou chamar a polícia.

Mas Violet não parecia mais estar escutando. Mesmo antes de ser expressa a última ameaça, a moça já colocava o protetor sobre os olhos, depois correu abotoar o casaco. Enquanto entrava com o pai na casa, Triss viu Violet montando às pressas na moto. A porta se fechou, e então veio o som do motor ligando, algo entre um rugido e uma saraivada alta e morosa de arma de fogo.

A mãe de Triss esperava lá dentro, as mãos enroladas em nó.

− Aquela menina horrorosa – ela logo começou, a voz aguda de tensão. – Eu disse que você não estava, mas ela não quis ir embora… Acho que não acreditou em mim. Piers, eu… não sabia o que fazer! Mas achei que você não ia querer que ela entrasse em casa. Afinal, ia dar motivo…

− Você fez muito bem. – O homem tocou a mão da esposa. – Comportamento mais impensado. Não podemos permitir esse tipo de coisa.

Aquela menina horrorosa. Esse era o único modo permitido de se referir a Violet Parish na casa dos Crescents. A natureza de tal horror jamais fora discutida na frente de Triss, mas ela juntara as peças do pouco que pescava dos comentários velados dos pais. Uma palavra que usavam bastante era “rápida”, e Triss não achava que eles se referiam à motocicleta. Violet parecia mesmo ser rápida, Triss refletiu, esguia como a moto, descascada até o mais básico, despida da maciez que poderia conter-lhe a velocidade. Até mesmo os cabelos cacheados tinham arestas aparadas.

− Não acredito em como ela é fria – disse a mãe de Triss, espiando com receio pela janela. – Nem parece a mesma garota de antes.

Depois da morte de Sebastian, a família Crescent preparou-se para receber a “pobre Violet” em seus braços receptivos e nutridores, mas a moça falhara em retroceder e cair neles. Em vez de mergulhar num sofrimento adequado, decente, ela cortara os cabelos, e começara a fumar e a usar vestidos que deixavam os homens verem suas panturrilhas. A mãe de Triss sempre fazia cara feia e murmurava sobre o dinheiro gasto em coquetéis e “vida boa”.

Triss deixou a mão pousar no interior da porta de entrada, quase esperando que estivesse fria ao toque. Violet parecera-lhe, de fato, fria – fria, egoísta e repulsiva. Sua visita abrira um buraco na frágil calmaria da casa, feito o arranhar de uma unha descuidada sobre um lenço de papel. Tinha arrancado fora os últimos fios da breve sensação de alegria de Triss. Ela se enxergara através dos olhos de Violet, uma pálida e afetada cúmplice das alegações do pai.

Quando se é muito frio, o mundo ao redor torna-se frio também, quem sabe…

O pai de Triss não dera sinal algum de ter reparado na coisinha branca que flutuara para pousar aos pés de Violet. Entretanto, Triss tinha quase certeza de que o frágil lampejo de brancura que caíra daquele céu limpo de setembro era um solitário floco de neve.