Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 18 de 43

Páginas do PDF

Canção do Cuco

18 Cascas de ovos

18

cascas de ovos

 

Ao sair do carro, Não-Triss foi tomada pelo frescor da brisa do mar, e pelo cheiro úmido e salgado de mato e poças de maré. Foi como se uma maré anual tivesse recuado inesperadamente e os deixado no outono. A luminosidade diminuía. O sol meio coberto de nuvens espalhava tediosas asas brancas sobre o horizonte.

Então, muito subitamente, a porta da casinha abriu-se e uma luz alaranjada banhou o capacho. Uma mulher jovem de cabelos despenteados apareceu segurando uma lâmpada a óleo.

– Sr. e Sra. Crescent? – Foi tão estranho ouvir um som tão cálido e humano naquele cenário cinzento. – Pensei ter ouvido o carro chegando. Acabei de colocar a chaleira no fogo. Entrem!

Enquanto o pai arrastava as malas da família, Não-Triss e a mãe seguiram para a luminosa entrada, e pararam, pingando, num estreito hall. Agora, mais de perto, a menina pôde ver que a “mulher” que as recebera era mais nova do que ela julgara, talvez não tivesse mais do que dezesseis anos.

– Meu nome é Dot – declarou a moça da lâmpada a óleo, como se isso explicasse tudo. Tinha um rosto bem magro, mas vivo, com grandes olhos negros e queixo pontudo e arteiro. – Por aqui. Acendi a lareira. – Ela as levou até uma sala de estar com cortinas desbotadas e paredes cobertas de uma madeira escura. Havia uma mesinha baixa e toda arranhada, e cinco grandes poltronas que cheiravam a cachorro. – Podem me dar seus casacos, vou pendurar pra secar.

Dot usava um vestido azul simples e prático com avental por cima em vez de uniforme adequado de empregada. Os modos eram também surpreendentemente amigáveis, e isso confundiu Não-Triss. Ela parecia ousada demais para uma serviçal, mas o sotaque do interior do condado era grosso feito creme, e os joelhos, ásperos de muito esfregar chão. Não-Triss esperou que a mãe ficasse tensa e soltasse respostas curtas para censurar a garota e colocá-la em seu lugar. Para sua surpresa, contudo, a mãe fez um murmúrio baixinho em acordo, entregou o casaco e deixou ser levada a uma cadeira.

O cômodo era iluminado pelas chamas da lareira e uma série de velinhas e lanternas arranjadas ao longo da cornija e em cima da mesa. Olhando ao redor, Não-Triss reparou que não havia encanamento de gás.

– Onde estão as lâmpadas a gás?

– Ah, não tem gás na casa – Dot declarou, muito contente. – Não valia a pena construir todo o encanamento pelo morro só pra isso. Mas tem boas lareiras em quase todos os quartos, e um ótimo estoque de velas.

Quando o pai terminou de trazer as malas para dentro da casa, Não-Triss e a mãe bebericavam chocolate quente, assistindo aos casacos secando.

– Olha só! A chuva tá cedendo. É sempre assim. Só para quando entramos em casa…

Dot continuou com seu tagarelar confortante, e Não-Triss reparou que se sentia profundamente grata a ela, visto que pontes entre as palavras da moça eram construídas por cima dos abismos do silêncio que jazia ao fundo.

– Gostariam de ver seus quartos?

A escada estava escura, era estreita e apertada, e os degraus afundavam ligeiramente no centro, onde haviam sido gastos por centenas de pés. Os batentes das portas eram baixos e irregulares, e o pai teve que se abaixar para passar.

– Senhor, madame, esse é o seu quarto. Tem uma família de andorinhas na calha perto da janela, e eles piam de doer os ouvidos pela manhã, mas se vocês fecharem a janela, o som fica só lá fora. Esse quartinho aqui é seu, senhorita. Se olhar pela janela, vai ver o farol da Ilha do Bom Tempo. – O quarto era pequeno, pé direito baixo e forrado de madeira, meio confortável, meio claustrofóbico. A única iluminação vinha de outra lâmpada a óleo, pousada numa mesa. – Vou deixá-los à vontade. Se precisarem de alguma coisa, estarei na cozinha, preparando o jantar.

Ao escutar a palavra “jantar”, Não-Triss sentiu sua fome horrenda agitar-se mais uma vez, como um grande mastim acordando de um sono profundo.

Deixada sozinha no quarto para se “ajeitar”, Não-Triss esperou alguns segundos, escutando o ranger que faziam os pais ao descer pela escada para o andar inferior. Somente quando esses sons desvaneceram a menina abriu a mala e jogou o conteúdo em cima da cama. Ela pegou e engoliu um lenço bordado, um monte de cartões postais e um par de luvas, depois encostou na parede, tentando reunir força de espírito.

O fogo na lareira começava a ganhar vida, e o ar estava tão frio que cada respirar gerava um sopro breve de vapor.

Por que os pais a tinham trazido até ali?

Talvez fosse mesmo uma cilada. Talvez ali fosse aplicado um processo de “cura pelo descanso”. Talvez os médicos achassem que o gás atrapalharia o descanso.

A casa estava quieta feito neve. Não-Triss esforçou-se para ouvir as vozes dos pais, mas não conseguiu. Quanto tempo fazia que tinham saído do quarto? Tomada pelo pânico, ela disparou escada abaixo, quase tropeçando nos degraus íngremes, e irrompeu na sala de estar. Estava vazia. Não havia ninguém no cômodo adjacente, nem na modesta sala de jantar.

Dot tirou os olhos dos legumes que picava quando Não-Triss invadiu a comprida cozinha de parede de pedra. Pareceu surpresa, com o rosto longo semi-iluminado pelas chamas de uma grande lareira.

– Algum problema?

– Eles sumiram! – Não-Triss tremia, com uma mistura de horror e raiva. – Me deixaram pra trás, não foi?

– Quem? – Dot franziu o cenho, limpando o sumo da cebola das mãos. – Está falando dos seus pais? Foram dar uma volta, tolinha. Logo, logo estarão de volta.

– Não acredito! – Não-Triss gritou, lutando contra as lágrimas sedosas que ameaçavam brotar-lhe dos olhos.

Dot não pareceu se incomodar nem um pouco com o ataque. Em vez disso, fez uma expressão forçada de quem refletia sobre alguma coisa.

– Bom, se eles resolveram voltar pra Ellchester, terão uma bela caminhada pela frente. Eu não escutei o carro saindo, você escutou? – Ela riu quando o rosto da menina ficou vermelho, todo esperançoso. – Vai lá ver por si mesma, assim ficará tranquila.

Não-Triss correu para a porta da frente e abriu-a. Com alívio colossal, a menina viu o Sunbeam ainda estacionado lá fora, com as laterais tingidas de um tom verde-escuro sob o profundo entardecer.

Mais adiante, na praia, em contraste com o cinza arrastado do mar, ela divisou as silhuetas dos pais. A cabeça da mãe tinha pendido para descansar no peito do pai, e ele a abraçava apertado junto de si. Não-Triss lembrou-se de ter visto o pai envolver a mãe com os braços diversas vezes, mas geralmente com gentileza e firmeza, como se quisesse segurar no lugar algo que tinha se quebrado tempo suficiente para a cola secar. Dessa vez, no entanto, havia um quê de ferocidade e desespero no abraço, como se ele precisasse demais do contato, tanto quanto ela.

A mãe ergueu a cabeça e disse alguma coisa baixinho demais para ser ouvida, e o pai fez que sim lentamente e beijou a testa da esposa com absoluta ternura.

Não-Triss fechou a porta cuidadosamente e retornou à cozinha, onde parou à porta, muito envergonhada.

– Desculpe – murmurou. – Desculpe por ter gritado com você.

– Estou acostumada – Dot respondeu, abrindo um sorriso. – Venho de família grande. É só gritaria o dia todo. Só assim pra se fazer ouvir. – Ela afastou uma mecha de cabelo rebelde dos olhos e reparou na insegurança da menina. – Quer entrar e me ver fazer o jantar? Está mais quentinho aqui, perto do fogo, do que aí. Se estiver mesmo achando que seus pais vão embora, pode deixar a porta aberta pra poder ouvir o motor do carro.

Não-Triss aventurou-se cozinha adentro, fascinada pela imensa chaleira preta pousada junto ao fogo, os moldes de manteiga e as manchas pretas no teto de gesso. Nunca fora convidada para ver a Sra. Basset cozinhar. Era algo que ela entendia que não devia ficar assistindo, como a senhoras afofando a esponja em seus potinhos de pó de arroz. Sobre a mesa havia uma pilha de folhas de espinafre escuras e frescas, e uns nabos chamuscados de terra escura. Bem ao lado jazia um coelho morto. Cabeça e pés tinham sido removidos, mas sentindo a pele arrepiar, Não-Triss compreendeu do que se tratava.

– Já viu alguém tirar a pele de um coelho? – Dot perguntou, sacando uma faquinha afiada.

Não-Triss fez que não, a boca seca. E nem quero ver. Essas foram as palavras prontas na língua da menina, mas por algum motivo ela não as liberou a tempo.

Foi tudo muito rápido, ágil e simples. Dot meteu a faca no meio, depois fez um corte comprido, e no instante seguinte já puxava a pele do corpo, como se estivesse tirando uma jaqueta. Não-Triss ficou olhando para o que restou. Por incrível que parecesse, não sangrava, era apenas uma coisinha brilhante e sem forma que não lembrava nem um pouco um coelho. Ela quis apagar o que acabara de ver, mas não conseguia parar de olhar.

– Tá tudo bem? – Dot perguntou, fitando a menina de alto a baixo. – Não vai desmaiar, vai?

Não-Triss fez que não. A visão foi de chocar, mas a franqueza de Dot era curiosamente confortante. Ver uma pessoa lidando tão calmamente com algo terrível a fez sentir que talvez ela mesma não fosse tão terrível, e talvez não fosse instigar medo em todos os corações.

– Não – Dot prosseguiu –, acho que você não é o membro da família dado a desmaiar, né? – A moça abriu um sorriso conspiratório para Não-Triss. – Sua mãe apareceu aqui nervosa, então seu pai a levou lá fora pra tomar um ar. E disseram que você é que era nervosa. Digo apenas que não é você quem eu levaria ao médico.

Não-Triss ficou boquiaberta. Estava tão acostumada a ver todo mundo tratando Piers Crescent e sua família como algo sagrado. E, no entanto, lá estava aquela mocinha destemidamente dissecando os assuntos particulares dos Crescents, tão suave e sinceramente quanto esfolara o coelho. A menina ficou chocada e horrorizada, mas também empolgada e fascinada, de um jeito desconfortável, agitado. Dot passou a fazer outra coisa com coelho e faca, e Não-Triss desviou um pouco os olhos.

Quando tornou a olhar, o coelho já era quase todo nacos de carne rosada, alguns pálidos, outros mais escurecidos. Depois disso, os nabos foram picados, e os cubinhos brilharam à luz da lareira. As verduras foram rasgadas à mão. De vez em quando Dot murmurava alguma coisa e acrescentava mais lenha à fogueira.

– Qual é o sentido de ter uma lareira desse tamanho e não usar? – ela perguntou, e riu quando o fogo cuspiu faíscas em seus pés.

Enquanto Dot terminava de preparar os ingredientes, Não-Triss olhou ao redor e reparou finamente que tinha algo faltando entre as ervas enlaçadas e colheres compridas penduradas pelo cabo.

– Cadê suas panelas?

– Ainda não peguei. Só um minuto. Eu já te mostro.

Dot recuou para um canto escuro do cômodo, e retornou com uma caixa quadrada, de uns seis centímetros de diagonal. Ela pousou a caixa cuidadosamente perante o fogo e ergueu a tampa. Lá dentro, Não-Triss viu formas redondas e brancas aninhadas numa cama de palha fina e seca.

Lenta e respeitosamente, Dot foi tirando fôrma atrás de fôrma e pousou uma ao lado da outra no chão. Eram cascas de ovos. As tampas tinham sido quebradas, e o conteúdo, removido. As bordas irregulares de cada casquinha tinha uma fina alça de lã retorcida por cima. Embora estivessem perfeitamente limpas, Dot sacou um lenço e começou a tirar pó delicadamente, por dentro e por fora.

Então, como se estivesse executando o ato mais banal do mundo, a moça levou uma das cascas à mesa e muito cuidadosamente serviu uns retalhos de espinafre ali, seguido por um cubinho de nabo, um pedacinho de coelho e um pouco de molho.

Não-Triss fitava-a, procurando pelo lampejo de sorriso que fosse mostrar que tudo aquilo não passava de piada, mas o comportamento de Dot continuou perfeitamente sério e espontâneo quando ela levou a casca de volta ao fogo e usou a alça de algodão para pendurá-la num gancho por cima do fogo, como se fosse uma panela diminuta.

A menina não conteve o riso quando Dot começou a fazer a mesma coisa com uma segunda casca de ovo.

– Não acredito que vai cozinhar nisso aí!

– Por que não? – Dot ergueu as sobrancelhas, parecendo surpresa. – São as minhas panelas. Não gostou?

E ela continuou com os afazeres. Uns retalhos de espinafre, um cubinho de nabo, um pedacinho de coelho, um pouco de molho…

Algo na expressão séria de Dot desatou em Não-Triss uma crise de riso daquelas. Ela desviou o olhar, mas ver as panelinhas acima do fogo só piorou as coisas. A cena era tão absurda, as casquinhas balançando e pingando molho nas chamas. Subitamente, tudo pareceu incrivelmente engraçado, muito mais do que tinha direito de ser. A menina ria tanto que nem fazia som, contorcendo-se, brotando lágrimas de teia dos olhos.

Ela sufocou a boca com as duas mãos, mas fora tomada por um riso borbulhante, e não havia nada que seu corpo pudesse fazer para contê-lo. O riso inchou, e inchou, e inchou, e foi somente um instante antes de explodir que a menina teve medo, e soube que não era o riso dela, não era a sua hilaridade que lhe explodia.

Então o Riso escapou. Não-Triss rolou pelo banco, rindo com o crepitar e brandir de uma floresta na ventania. Ela riu até que as janelas sacudiram e as chamas da lareira retraíram-se e tremularam. Palavras saíram de sua boca, mas não eram dela, nem a voz que as disse podia ser confundida com a de um ser humano.

Oh, nós somos folhas da Floresta Perspell

Que cresceram antes de existir a Londres velha

Entretanto nunca vimos imagem tão estranha

Quanto cascas de ovos no lugar de panelas

Dot ficou imóvel, o rosto fechado e ilegível, observando Não-Triss até que a alegria incontrolável desta cedeu. Então ela olhou além da menina, para a porta, e sua expressão ficou subitamente juvenil e insegura.

– Isso basta? – ela perguntou, num tom surpreendentemente respeitoso.

– Obrigado, Dot, isso é o suficiente – disse o Sr. Grace, o alfaiate.

Estava parado na porta, e um passo atrás estavam os pais da menina, olhando chocados para ela.

Dot juntou suas facas, lançou para Não-Triss um olhar de esguelha com medo e repulsa muito mal velados e correu para a porta. A moça passou voando pelos Crescents e sumiu de vista.

– Cascas de ovos no lugar de panelas – disse o Sr. Grace, avançando lenta e cautelosamente para dentro da cozinha. – Nunca falha, não sei por quê. Essa cena sempre os faz rir tanto que acabam se entregando. Não conseguem evitar. – Ele suspirou. – Prometi que daria provas, meus amigos. Agora vocês viram a verdade. Isso não é a sua filha.

Não-Triss respirava forte, mas parecia não haver ar nenhum em seus pulmões. O piso embaixo dos pés era de pedra e, no entanto, ela sentia como se caísse.

– Eu… tô doente. – Sua voz saiu num chiado sem ar, desamparado. Tudo aquilo que ela lutara tanto para descobrir, já não o queria mais. Queria estar errada, no fim das contas, qualquer coisa que fizesse seus pais pararem de olhar para ela daquele jeito. Ela estava errada. Tinha que estar. – Eu andei doente, só isso. Vocês mesmos disseram. Só tô doente. Eu… vou melhorar. Eu… eu prometo.

Seus olhos começaram a marejar.

– Pare! – O alfaiate estendeu o braço para impedir que a mãe fosse adiante. – Não entre no jogo dela. Sinto muito, mas você precisa ser forte. Está encurralada; sabe que a única chance é explorar suas emoções.

– Mas… – A mãe lançou um olhar de incerteza para o rosto de Não-Triss, mais azul-claro e frágil do que nunca. – Mas olha pra ela!

– Eu estou vendo – murmurou o alfaiate, e soltou uma risada curta e sombria, quase uma tosse. Antes que Triss pudesse reagir, o homem avançou e a pegou pelo queixo. Ela soltou um gemido de choque e medo. Os pais gritaram e vieram intervir, mas a expressão do alfaiate os congelou feito estátuas. O rosto dele era o de um homem preparando-se para a batalha, como quem olha para um furacão. – Acham que são lágrimas o que está brilhando nos olhos dela? – ele perguntou. – Deixa eu mostrar pra vocês essas “lágrimas”.

Com a mão livre, o homem sacou um lenço, e enquanto Não-Triss tentava libertar o queixo, ele gentilmente roçou o tecido no canto de um dos olhos dela, capturando um fio comprido e prateado, e puxou-o para que os pais vissem.

– O que…? – O pai ficou pálido.

– Teia de aranha – respondeu, seco, o alfaiate. – Apenas. Só mais uma parte do disfarce. Essa criatura não verte lágrimas.

Não-Triss mergulhou as unhas na mão do alfaiate. Quando ele soltou o queixo dela, ela o mordeu e disparou para o canto mais distante da cozinha. A mãe soltou um grito curto de horror.

– Os dentes dela!

– Você viu? – O alfaiate envolvia a mão com o lenço. As costas estavam marcadas por furos de onde vertia sangue, nada similares às marcas deixadas por dentes normais. Não-Triss levou dedos hesitantes à boca, e com as pontas, tocou dentes afunilados incrivelmente esguios e afiados. – Espinhos no lugar dos dentes. Isso, essa é a verdadeira aparência dela. Às veze eles revertem quando ficam assustados ou nervosos. Sinto muito por ter que ver isso, Sra. Crescent, mas pelo menos agora você sabe. Isso não é a sua filha.

– Eu… – Não-Triss olhava de rosto em rosto, desesperada, sentindo o ninho de amor ao seu redor desintegrar-se. – Eu sou a Triss! Eu… posso ser! Eu quero ser! Me deixem tentar de novo… vou conseguir dessa vez! Por favor…

Foram recuando. Seus pais estavam recuando para longe dela.

– Triss. – A mãe a fitava com uma expressão gentil, porém desolada.

Mas ela não é sua mãe, disse uma voz na cabeça da menina, num tom suave e terrível como um trovão. Tarde demais ela compreendera quão cega vinha sendo. Mesmo depois de ter descoberto que era uma impostora, continuara pensando naquele homem e naquela mulher como seus pais. Fez isso naturalmente. Nem reparou que fazia.

Era a mãe de Triss quem estava ali na frente dela, a mãe de Triss, que se afastava, retraindo-se, horrorizada, a mãe de Triss, cuja expressão ganhava um tom pálido de raiva trêmula.

– Triss… onde ela está? – A garganta de Celeste Crescent tremia ao falar. – Seu monstrinho, o que você fez com ela? Cadê a minha filha?

– Mãe…

Com o estômago se contorcendo, Não-Triss sentiu a boca murchar para o biquinho de choro que sempre funcionava, que sempre fazia todo mundo amolecer e tomar conta dela. Mas era um maneirismo roubado, e naquele momento apenas piorou as coisas.

– Diga-nos o que temos que fazer – pediu Piers Crescent entredentes.

– Não vai ser nada agradável – respondeu o alfaiate –, então acho melhor poupar a Sra. Crescent. Ela já teve que ser corajosa demais.

– Celeste – Piers fitou a mulher com expressão terna –, amor, por favor, pode nos deixar? Triss vai precisar que você esteja bem e forte quando voltar.

– Não vá! – Não-Triss soube no mesmo instante que algo terrível estava para acontecer, algo que o alfaiate não estava disposto a fazer na frente da Sra. Crescent. – Não me deixe!

Mas a boca dela era só espinhos, e a voz saiu errada. Com um último relance pálido e estarrecido para o que pensara ser sua filha, Celeste Crescent deixou o cômodo, tonta e fragilizada, e fechou a porta.

– Agora, Sr. Crescent – continuou o alfaiate num tom deliberadamente calmo e firme –, vou precisar que atice o fogo. Deixe o mais quente que conseguir.

Não-Triss saltou para a porta pela qual a Sra. Crescent acabara de sair, mas o alfaiate a capturou, envolvendo os dois braços ao redor da menina, prendendo seus braços às laterais do corpo.

– É o único jeito – ele acrescentou entredentes, enquanto Não-Triss debatia-se, lutava e tentava mordê-lo com os dentes-espinhos. – O único jeito de mostrar aos Outros que não estamos pra brincadeira. Essa criatura é um dos filhos deles, ou então é menos que isso: uma boneca feita de folhas mortas, talvez, ou tirada de um bloco de madeira. Se for filha deles, os Outros não vão querer vê-la sofrer. O melhor jeito de lidar com um metamorfo, o mais antigo, tentado e testado, é forçá-los a salvá-lo. Bater nele com chicote até gritar. Jogar num curso de água violento. Ou meter numa fogueira.

– Deus do céu – sussurrou Piers, empilhando, trêmulo, mais lenha na lareira, cutucando o fogo para fazê-lo rugir. – Não tem outro jeito?

Não-Triss soltou um grito sem palavras de puro terror, mas saiu um som pavoroso até para seus ouvidos. Havia o farfalhar de asas de morcego ali, o assovio dos ventos de novembro, o grito das andorinhas. Os gravetos na lareira crepitaram como castanholas, cuspindo faíscas para dançar preguiçosas fumeiro acima.

– Isso não vai matá-la – respondeu o alfaiate, curto e grosso. – Escute o que eu digo, se for filha de um Outro, ou vai escapar pela chaminé, ou os pais vão vir buscar. De todo modo, os Outros vão trazer de volta a sua filha pra garantir que vocês nunca mais atrapalhem a família deles.

– E se for uma boneca de madeira? – Piers estava pálido e trêmulo.

Olhava para as próprias mãos atiçando o fogo como se o horrorizassem. Não olhava para o alfaiate, nem para Não-Triss debatendo-se nos braços deste. Mantinha os olhos fixos nas chamas crescentes do mesmo modo que um náufrago se prende a uma tábua flutuante.

– Então é resultado é menos certo. Os Outros não se preocuparão em resgatar uma boneca, mas se ela for destruída, eles podem perder interesse no jogo e devolver sua filha mesmo assim. Ou talvez não, mas você terá livrado a sua casa de um monstro.

– Ele tá errado! – Não-Triss gritou, soluçando, querendo que seu não-pai olhasse para ela. – Tá errado! Eu sou de verdade! Sou real, se você me puser no fogo eu vou morrer!

A menina sentiu lágrimas de teia brotando dos olhos e descendo pelas bochechas, deixando compridos fios brilhantes e incriminadores.

– Não escute. – O alfaiate vinha manobrando a menina para perto da lareira, um pouquinho por vez. – Sr. Crescent, lembre-se disso: ela não sente dor do mesmo modo que nós; não sente medo. Por mais que grite, nada disso é verdade. Está pronto?

– Meu Deus. – Piers afastou-se do fogo, e finalmente virou seu olhar desesperado para Não-Triss. Seu rosto suavizou por um instante, com aquele olhar que ele reservava para somente uma pessoa. Não-Triss sentiu uma gotinha de esperança antes de perceber que ele via algo além dela, não ela. – Por Triss – ele disse baixinho. – Por Triss, eu vou conseguir. Sim. Estou pronto.

– Então quando eu contar até três, me ajude a colocá-la no fogo – murmurou o alfaiate. – Vou precisar de ajuda. Até mesmo as crianças deles podem ter força e agilidade sobre-humanas.

O rosto do homem estava deformado e sofrido. Com profundo desespero, Não-Triss compreendeu tratar-se de um homem de bem, e que mesmo os homens de bem às vezes faziam coisas terríveis.

– Um…

Não-Triss debateu-se e brandiu os braços até que as telhas pipocaram e crepitaram feito castanhas no fogo. Gritou tanto que até as panelas chacoalharam nas prateleiras.

– Dois…

Ela lutava, golpeava e tentava morder, abandonando todo o fingimento.

– Tr…

Mas o restante do “três” não veio. Subitamente, um jorro de água gelada veio de trás, encharcando as costas e ombros dela, cascateando para cima da lareira. Houve um sibilo ensurdecedor, surgiu uma nuvem de fumaça e vapor de cegar, e a cozinha foi mergulhada em total escuridão.

Não-Triss sentiu que o alfaiate, surpreso, abrandara um pouco a força nas mãos. Num movimento selvagem e convulsivo ela se libertou dele, quase perdendo o equilíbrio. Antes de cair, no entanto, uma mãozinha agarrou a dela e a puxou em direção à porta.

O instinto tomou as rédeas, e ela pôs-se a correr. Cozinha afora, sala após sala. Passou pela porta da frente e ganhou a noite fria, o aroma da maresia, correndo às cegas por sobre os seixos que rolavam, com a figura diminuta de Pen ao seu lado.