Canção do Cuco
37 Tempestades e xícaras de chá
37
tempestades e xícaras de chá
As Velhas Docas não envelheceram gentilmente. Não tinham aparência triste, como a dos banheiros vitorianos com tinta descascando que se viam em cidades costeiras nas quais a maré de sorte já tinha retornado. A negligência conferira às Velhas Docas um ar de perigo, como exala um cão que começa a passar fome.
Violet entrou numa rua paralela ao rio na qual uma fileira monótona de sobrados de três andares jazia perante a água. Durante os últimos cinco minutos, o rugido da motocicleta fora pontuado por gaguejos ocasionais, e dessa vez, quando ela desligou o motor, ele morreu com muito atrito.
– Tô ficando sem gasolina – murmurou a moça, preocupada. – E a polícia pode estar de prontidão pra me pegar, esperando eu ir comprar mais combustível.
– Por que o pai não dá um jeito neles? – Pen perguntou. – Triss… você disse que ele tá do nosso lado agora! Ele tem que impedir que prendam a Violet!
– Ele não está mais sob controle. – Trista não quis explicar mais. O rosto atormentado de Piers ainda estava claro em sua memória. – Mas talvez tente ajudar.
– E ele não estava bravo comigo? – Pen perguntou.
– Não, Pen – Trista respondeu, gentil. – Não estava, não.
– Então deve ser truque – Pen declarou, muito convencida. – Ele tá sempre bravo comigo.
– Você está sumida faz dois dias – Violet a lembrou. – Talvez ele esteja começando a esquecer de como você é chatinha.
Mesmo tendo a fome saciada, Trista ainda estremecia ao lembrar-se da última conversa que tivera com Pen. A menina, contudo, parecia ter deixado todo o episódio pra lá.
As duas usavam lenços baratos para cobrir os cabelos, na esperança de ficarem, assim, um pouco menos reconhecíveis.
Trista reparou numa sensação crescente de perturbação ao olhar ao redor. Não era somente o local abandonado que atiçava seus instintos, ela compreendeu. Em seus ouvidos, a brisa chegava com um zumbido seco muito distante. O céu parecia feito de porcelana.
– Algum problema? – Violet perguntou baixinho, franzindo o cenho.
Trista hesitou.
– Há Outros aqui, em algum lugar – sussurrou de volta.
– Aqueles são os barcos? – perguntou Pen, a voz sacudindo, conforme ela saiu com dificuldade do carrinho e correu para a água.
Alguns dos diques de madeira não haviam cedido ao tempo e às águas, e ainda penetravam o rio. De fato, ancorados neles, ao redor, havia uma diversidade de embarcações. A maior de todas era uma barcaça meio largada, com musgo cobrindo o vidro das janelas de vigília. Havia também barcos de pesca, cada qual com seu mastro solitário, e muitos botes a remo.
Trista saiu do carrinho e apressou-se para alcançar Pen, que corria para o dique mais próximo.
– Cuidado, Pen! – gritou ela. – As bordas podem estar podres!
Para surpresa dela, Pen olhou-a com timidez e foi parando, e esperou para pegar sua mão. Pen ignorando-a, Pen gritando com ela – tudo isso era mais fácil de lidar do que com essa Pen que confiava cegamente.
Por algum motivo, a segurança de outra pessoa, mais nova, tinha sido depositada nas mãos de Trista. Dava muito medo. Ela se perguntava se as mães sentiam medo por ter tanto poder sobre seus filhos. Talvez sentissem. Talvez desejassem que houvesse outra pessoa para avisar-lhes caso estivessem fazendo algo errado. Ela sentiu um pinguinho súbito e inesperado de simpatia pelos pais da família Crescent.
Enquanto Violet escondia a motocicleta num beco, Trista e Pen chegaram ao dique, muito tensas, observando os barcos. Trista tentou ler os nomes pintados nas laterais, mas a tinta descascada tinha obliterado todos eles. Um barco se chamava, hã… Si--er Wy-m. Ao lado deste, havia o Ch----r e o Wail--g Gh---.
– Onde tá todo mundo? – Pen sibilou.
– Não sei – Trista sussurrou de volta.
Os barcos pareciam todos abandonados, como vagens vazias. E então, inesperadamente, eis que um deles não estava vazio.
Houve um momento quase imperceptível de movimento. Como naquele instante em que um pedacinho de terra se mexe e revela que é, na verdade, um pássaro marrom, ou uma folha que sacode e se torna um bicho-folha. O fato é que, entre uma mistura de espreguiçadeiras desbotadas de sol, cordas enroladas e caixotes velhos pintados com slogans encaracolados, sempre estiveram ali um homem e uma mulher sentados no deque da barcaça a plenas vistas. Quando os dois se levantaram, porém, ficaram mais evidentes.
Trista esforçou-se para esconder a surpresa. Pen soltou um gritinho agudo.
Nenhum dos estranhos era jovem, mas não dava para estimar suas idades. A pele deles era pálida e acinzentada, com um quê de cansaço e umidade. Os cabelos eram da cor da areia úmida, e havia algo nos olhos deles que fazia Trista pensar em ostras.
Ambos usavam casacos marrons até o chão que fizeram sinos tilintarem nas lembranças de Trista. Após um momento, recordou-se do casaco que o Arquiteto usava na salinha atrás da tela de cinema, e reparou que aqueles eram feitos do mesmo estranho tecido fosco. As demais vestimentas que ela viu estavam erradas. A mulher usava um vestido púrpura antiquado com armação, como Trista vira uma senhora muito fina usando numa foto de caixa de chocolates. O homem usava calças aparentemente normais, mas com laços marrons cruzando, prendendo-as às pernas dele.
– Estamos em Ellchester, mocinhas? – perguntou o homem.
Um bando de gaivotas que passava dificultou ouvir-lhe a voz, e Trista teve que sacudir a cabeça para clarear o som. Sentiu como se tivesse alguém bem atrás dela sussurrando em seu ouvido, informando que o homem dissera algo perfeitamente normal, e que ele não tinha um sorriso igual ao de um lobo doentio.
– Isso! – Pen declarou com uma ousadia que fez Trista pensar que, na verdade, a menina estava com medo.
O olhar da mulher gotejou sobre o rosto de Trista feito óleo frio.
– A menorzinha – sussurrou ela –, é sua filha?
Novamente, o sussurro imaginário ocupou-se do ouvido de Trista, ou melhor, de sua mente, comentando o quão charmosa e inofensiva era a mulher.
– É minha irmã – respondeu a menina o mais vividamente que pôde, ao mesmo tempo dando um passo para trás. – Muito prazer em conhecê-los, mas… temos que voltar pra nossa mãe agora.
As duas deram meia-volta e correram para Violet, apressadas. O tempo todo, Trista sentiu a nuca arrepiar-se ao escutar os sons que vinham da barcaça.
– … ótimos ossos… – ouviu a mulher sussurrar.
Trista e Pen agarraram-se, em silêncio, à barra da saia de Violet. O casal aproximou-se delas no dique, depois passou, seguindo para a via com uma marcha afetada e cautelosa. Violet fitou as meninas, bastante intrigada.
– São Outros – sussurrou Trista assim que teve certeza de que o casal não a poderia mais escutar.
A expressão de Violet quase não se alterou, a não ser por uma viradinha tensa nos cantos da boca. Ela nem chegou a olhar para trás, para o estranho casal.
– Como sabe? – murmurou muito baixinho.
Trista ficou pasma.
– Você não percebeu?
– Parecem bonecos de palha que ganharam vida! – Pen sibilou. – Você não notou?
Trista ousou dar uma olhada no casal, que havia parado em frente a uma casa de chá. O homem parecia ter certa dificuldade em manusear a maçaneta da entrada.
– Acho que estão fazendo o que o Arquiteto faz para as pessoas o verem bonito – sussurrou ela. – Deve ser o mesmo que fazem os bichos-pássaros, pra que todos pensem que são só bichos. Mentem pras mentes das pessoas sem dizer nada. Mas aqueles dois lá… acho que não são muito bons nisso.
– Eu tive uma sensação estranha com relação a eles, mas… – Violet não completou, intrigada.
– É como se estivessem vestindo a mentira, mas ela não serve direito – Trista tentou alinhar as ideias. – Não abotoaram do jeito certo, então fica largo em alguns pontos e apertado em outros.
E talvez Pen e eu possamos ver mais facilmente porque lidamos mais vezes com os Outros, ela acrescentou, apenas em sua mente. Eu sou quase um deles, e nós duas visitamos o Côncavo. É como se tivéssemos carimbado o passaporte.
– Bom, não podemos ficar aqui paradas na rua – Violet resmungou, olhando ao redor, meio circunspecta. A moça analisou a casa de chá por um momento, depois tirou as luvas e seguiu para lá, resoluta, acompanhada de perto pelas meninas.
A casa de chá parecia segura de si, mas um pouco gasta pelo tempo. Celeste teria feito careta, provavelmente, dizendo que o local era “singelo” e “frequentado por todo tipo de gente”. Comparada às belas casinhas de chá de Lyons, com aqueles bolinhos fofos na vitrine, o local parecia mesmo meio enfadonho.
Violet abriu a porta, e as meninas enfileiraram-se logo atrás. Cruzaram lentamente o andar térreo da padaria, depois subiram a escada para o andar de cima.
A casa de chá em si tinha paredes de uma cor pálida de creme de ovos, interrompida ocasionalmente por quadros com cenas bucólicas nas quais fadinhas arteiras brincavam com ratinhos. Havia cerca de vinte mesas quadradas, dois terços delas ocupados. Uma dupla de garçonetes de avental corria daqui para lá portando bandejas de bolo, preparando panelas no balcão do canto, com sua fileira de grandes urnas de ferro manchadas pelo tempo.
O cheiro de linguiça frita fez o estômago de Trista dar um pulo. Chocada, ela percebeu que já devia ser hora do almoço. O dia vazava por seus punhos feito areia seca demais.
– Tô morrendo de fome – declarou Pen, meio resmungando, meio choramingando.
Violet escolheu uma mesa no canto, perto da janela, para poderem manter um olhar discreto sobre a rua.
Enquanto Violet pedia bolo e chá para a garçonete no balcão, Trista deu uma olhada geral no recinto. Numa mesa distante ela viu o casal misterioso do barco, cabeças unidas em honesta conferência. Depois passou os olhos para a mesa seguinte, e a seguinte, e a seguinte…
Uma sacudida de cabeça rápida demais, como um gavião. Um brilho prateado nos olhos. Uma lambida furtiva na faca de geleia com uma linguona comprida. Botas que, entre as sombras, pareciam ter dedos…
– O que foi? – murmurou Violet, ao retornar à mesa.
– Mais Outros – Trista sussurrou.
Violet olhou ao redor lentamente, assimilando a informação.
– Quantos?
– Tá vendo as garçonetes? – Trista sussurrou. – E as duas senhoras comendo bacon ali no fundo? E aquele senhor de chapéu velho, e o rapaz com jornal?
Violet fez que sim.
– Bom… – Trista hesitou. – Acho que esses são os únicos que não são Outros.
Violet fez careta e respirou por entre os dentes.
A casa de chá era permeada por um zumbido de conversa, mas quando Trista prestava mais atenção, conseguia entender o que os comensais diziam de verdade às garçonetes que vinham pegar pedidos. Era como naqueles momentos em que o pai de Triss ajustava a frequência do rádio e trazia clareza às vozes magicamente.
– Traga manteiga! Manteiga! Nem precisa de pão.
– Boa tarde. Não vim aqui devorar você. Agora traga uns docinhos pra eu poder fingir que sou da sua espécie.
– Um copo das suas lágrimas, querida. Como? Ah. Um chá, então.
As garçonetes eram mocinhas jovens, com cara de cansaço, e Trista reparou que as duas pareciam tensas e exaustas. Erravam, contavam dinheiro errado e vez por outra derrubavam uma leiteira ou tombavam as bandejas. Os demais clientes que não eram Outros passavam a mesma impressão esquisita de desconforto.
– Devíamos ter trazido um galo! – sibilou Pen.
Trista piscou com força, e reparou que aquelas estranhas personagens sentadas às mesas tinham mais uma coisa em comum. Todas usavam casacos compridos ou longos xales de cor marrom ou cinza, feitos do mesmo tecido fosco, encrespado. Ela viu quando uma mulher numa mesa distante bocejou, e seu casaco pareceu ondular-se e encrespar-se de modo familiar.
– Repare nos casacos deles! – ela murmurou. – Sei que é difícil, seus olhos não querem enxergar, mas olhe. Acho que são feitos de penas. Penas de bichos-pássaros.
Todas as três deram um pulo quando uma bandeja de chá foi pousada na mesa com um leve tilintar. Trista retraiu-se, imaginando o quanto a garçonete tinha ouvido.
– Adoro crianças. – A garçonete piscou para Violet. – Elas sempre têm um mundinho só delas, né? – Ela distribuiu bolo, manteiga e geleia para o trio, e abriu um amplo e condolente sorriso para as meninas. – Aproveitem bastante enquanto podem, meninas, é tudo o que eu digo.
Trista e Pen fitavam a moça, olhos tristes e cansados.
– Quero uma colher, por favor – disse Pen, severa.
A garçonete mal havia dado meia-volta quando outra figura apareceu no recinto. À primeira vista, parecia uma tia muito bem vestida, de chapéu de tweed e casaco. Quando Trista prestou mais atenção, contudo, a ilusão partiu-se feito a casca de uma fruta podre. Ela enxergou por detrás dos círculos vermelhos pintados no rosto absorto, como as bochechas de uma boneca, e nas ondulações dos cabelos muito compridos, que mais pareciam rabinhos de gato enrolados. A mulher flutuava feito um grão de poeira na brisa e parou na mesa do trio.
Olhos primaveris passaram por Violet e Pen, para então se fixarem em Trista.
– Essas duas… são suas? – perguntou a mulher. O rosto dela parecia ter sido feito juntando-se o choro de muitas crianças presas em alguma caverna distante. Olhava fixamente para Violet e Pen.
Isso foi quase a mesma pergunta que fez o casal que saiu do barco. O que significa? E por que todos ficam perguntando isso?
Só pode ser porque viram em mim algo de similar a eles. Acham que também sou uma Outra. E querem saber se Violet e Pen são minhas… amigas? Meus bichinhos?
– Isso – Trista respondeu na defensiva, esperando ter dado a resposta certa. – São minhas.
– Eu não s… – Pen começou, e deu um grito ao levar um chute de Trista. – Ai!
– Ainda estou treinando a menorzinha – Trista correu dizer, lembrando-se das palavras do Arquiteto ao telefone. Ah, você a treinou, não?
Violet passou o braço em volta de Pen, talvez para confortá-la, talvez para contê-la. Seu olhar passou do rosto de Trista para a estranha, depois franziu o cenho em concentrada frustração.
A mulher pareceu aceitar a resposta de Trista, acenando ligeiramente com a cabeça, depois pendeu a cabeça de lado.
– Onde está seu casaco? – ela perguntou, com uma voz sinistra, ecoante. – Me disseram que todos devíamos usar casacos na chegada. Para que não… causássemos comentários. – As últimas palavras foram pronunciadas com cautela, como se ela as recitasse de cor.
– Eu não preciso usar. – Trista observou a mulher com muita atenção, esperando algum sinal de reação. – Não cheguei hoje; já estava aqui.
Os olhos amarelados da mulher ficaram gordos feito manteiga de tanto interesse.
– Você estava morando nessa… cidade, então? E é verdade o que dizem sobre os sinos?
Trista fez que sim.
– Não nos machucam.
– Eu quis acreditar – baforou a mulher. E balançou a cabeça. – Não tive escolha a não ser aceitar, me arriscar. Você será uma das guias, então, no passeio de hoje à noite?
– Não. – Trista deu um golinho lento no chá para ganhar tempo para pensar. – Mas talvez eu participe do passeio… pra me divertir. O que te contaram sobre o passeio?
– Apenas que devíamos desembarcar aqui e esperar, e não ir além desta cidade, e não chamar atenção… e à meia-noite o Arquiteto vai chegar de charrete e nos levar até o refúgio.
– O refúgio é o… – Pen começou, mas calou-se, com uma exclamação de medo e frustração. Trista imaginou o que a menina quis perguntar, visto que a mesma dúvida passara-lhe pela mente. O refúgio era o Côncavo? Por causa da promessa mágica, contudo, ela não podia fazer essa pergunta, assim como Pen não pôde.
– E o que te falaram sobre o refúgio? – Trista perguntou, então, desesperada para saber se sua suspeita estava correta.
– Nada, apenas que é seguro. – A mulher estreitou os olhos e fitou Trista com muita desconfiança, obviamente convidando-a a falar mais.
– É seguro sim – Trista sussurrou, torcendo para ter parecido confiante. – Mas não devo falar mais nada sobre isso aqui. Logo você vai ver.
A mulher inclinou a cabeça e saiu andando pela casa de chá. Trista ficou tensa ao ver a estranha falando com uma porção de demais Outros que estavam sentados, e todos viraram para fitar a menina e fazer um aceno discreto, porém deferente.
– Eu… – Violet sacudiu a cabeça e esfregou os olhos. – Eu… não entendi quase nada. Foi como tentar escutar a névoa.
– Esses Outros todos acabaram de chegar a Ellchester – Trista sussurrou. – Acho que eles não entendem as cidades, e não conseguem se misturar muito bem, então mandaram ficar aqui e esperar que alguém venha buscar. É por isso que o Arquiteto tem feito passeios à meia-noite, pra poder levá-los a uma casa nova, um refúgio.
– Passeando com eles por cima dos telhados? – Violet ficou surpresa.
– Deve ser o único jeito de levar todos em segurança – Trista murmurou de volta. – Com certeza não dá pra confiar que vão saber seguir um mapa. Olhe só pra eles, alguns têm dificuldade até com as colheres. Mas o que importa é que o Arquiteto vai passar por aqui à meia-noite. Já sabemos que ele leva a Triss com ele nos passeios. Significa que vou ter uma segunda chance… se ainda estiver viva à meia-noite, posso seguir o comboio pelos telhados, e tentar salvá-la!
– Não deixa, Violet! – Pen guinchou quase de ensurdecer. As garçonetes olharam para ela com curiosidade, e ela baixou a voz de novo para misturar-se aos sussurros dos demais. – Ela vai se machucar!
– Pen tem razão… isso está fora de questão! – disse Violet, muito séria. – Trista, ontem à noite você quase se despedaçou inteira correndo atrás deles, e mesmo assim não conseguiu! Vamos… vamos ter que achar um jeito de segui-los na moto.
– Mas… não tem muita gasolina…
– Vai ter que bastar! – Violet retrucou, e dessa vez Trista captou uma pontinha de pânico misturada à determinação da moça.
Claro. Violet, sem sua motocicleta, era uma Violet de asas arrancadas. Precisava delas para não ficar parada. Seus pesadelos estavam sempre um passo atrás. A nevasca interminável, que engolia tudo, os céus ferrosos e as florestas de espinhos e hera, a tempestade faminta de gelo e escuridão e perda…
… e neve. Suave, traiçoeira, que cobria tudo, e revelava tudo também.
– Violet – Trista disse suavemente –, quando você fica num mesmo lugar, quanto tempo leva pra começar a nevar?
– Varia. – Violet tombou a cabeça para trás e estudou Trista, intrigada. – Às vezes leva até cinco horas, às vezes, cerca de duas. Por quê?
– Eu… – Trista mordeu o lábio. – Eu acabei de ter uma ideia. Você tem razão, eu perdi o comboio ontem à noite. Eles desciam, subiam, mudavam de direção rápido demais, e não consegui acompanhar, não sem correr muito, e acabei me despedaçando toda. Mas eu os vi, Violet! Alguns deles voavam, mas outros saltavam de telhado em telhado, como eu. E o Arquiteto estava num carro, subindo paredes, telhados, nas ruas. Eles tocam o chão. E se estiver nevando, vão deixar marcas.
Violet ficou boquiaberta.
– Está sugerindo mesmo que eu…? – A frase incompleta mostrou que a moça ficara, ao contrário do normal, totalmente sem fala. – Mas não dá! – ela sibilou finalmente. – Eu não controlo isso. Não consigo chamar a neve, ela só me persegue.
– Eu sei. – Trista olhou furtivamente ao redor da casa de chá, depois juntou as mãos da amiga nas suas. – Você é tão corajosa, ousada e… e eu sei que está sempre pronta pra enfrentar qualquer tipo de perigo. Sei que você enfrentaria o Arquiteto e o Sr. Grace e os bichos-pássaros e a polícia e todo mundo mais até desistirem. E sei que essa é a única coisa que você não quer enfrentar, sei que é difícil e dá medo, mas…
– Mas você quer que eu pare de fugir – Violet completou a frase para a menina até o final. – Quer que eu espere pela neve.
Trista abraçou um dos braços de Violet e enterrou o rosto na jaqueta dela.
– Sei que você quer me proteger – disse muito baixinho –, mas não tem como. Não importa o que você faça; eu só tenho um dia. Quero fazer valer a pena. Por favor, por favor, me deixe fazer algo de bom com ele. Me deixe escolher.
Violet nada disse. Nada não era um sim, mas também não era um não. Trista sentiu a mão da moça pousar gentilmente em sua nuca. Durante esses poucos segundos, o silêncio que partilharam foi como um pequeno forte defendido de todo o mundo.
– Pen – disse Violet, com afetuosa irritação –, pode por favor parar com isso?
Trista ergueu o rosto a tempo de flagrar Pen com as mãos apoiadas no vidro da janela, mostrando a língua para alguém na rua.
– Ele que começou! – a menina exclamou, atrevida. – É feio ficar olhando!
– Pen, os Outros estão olhando porque acham que eu sou um deles! – Trista apontou.
– Mas não era um dos Outros. – Pen despencou de volta à cadeira e encheu a boca de bolo. – Foi o homem que não comeu a comida dele.
– Quê? – Uma sensação de apreensão escalou as costas de Trista feito uma aranha.
– Ele estava logo ali. – Pen apontou para uma mesa próxima. – E trouxeram linguiça pra ele, mas ele não comeu. Só foi embora.
– Violet – Trista sussurrou, exasperada –, era ali que estava o rapaz, o que tinha um…
Um jornal. Largada na mesa abandonada, bagunçada por cima do prato rejeitado, estava uma cópia do Ell Chronicle. O trio trocou olhares.
– Precisamos sair daqui agora mesmo – disse Violet.
A moça foi levantar-se da cadeira, mas congelou no meio do caminho. Quando olhou para a rua, Trista viu exatamente o que tinha chamado a atenção da outra. Dois policiais corriam pela via na direção da entrada da casa de chá.
Violet pressionou o comecinho das mãos nas têmporas e ficou olhando fixamente para a rua. Respirava muito rapidamente, de um modo que fazia as narinas tremerem.
– Violet… – A voz de Pen era uma onda crescente de pânico.
– Tô pensando! – a outra disse entredentes. Alguma ideia encaixou no lugar por detrás dos olhos dela, retirando-a do transe. – Sigam-me. Rápido!
As três passaram às pressas por entre as mesas para os fundos do salão, para as portas escuras dos banheiros.
– Aqui! – Violet abriu com tudo a porta mais próxima, e as meninas entraram correndo.
Imediatamente, Trista soube que estavam no lugar errado. As paredes eram de um verde-oliva sóbrio em vez de rosa claro. O cheiro era estranho também, uma mistura de colônia com creme de cabelo masculino…
– Violet, esse é o banheiro ma…
– Xiiiu! – Violet encostou na porta. Olhou para Trista e Pen e abriu um sorriso torto muito sinistro. – Vocês duas, me escutem. Quando eu disser pra correr, corram. Não esperem por mim. Encontrem um lugar pra se esconder. Entenderam?
– Mas…
– Cuidem uma da outra. – Violet virou-se e encostou o ouvido na porta, fechando os olhos, e escutou. – E Trista, boa sorte com a neve.
Lá de fora veio o barulho de um tumulto de passos, depois o trovejar de muito se bater numa porta, mas não na qual Violet encostara o ouvido. Trista supôs que batiam na porta do banheiro feminino. Claro que ninguém imaginaria que elas se esconderiam no outro.
– Srta. Parish? – Era uma voz de homem, educada, jovem e um tanto ofegante. – Se puder fazer o favor de sair, podemos evitar uma cena.
A boca de Violet contorceu-se levemente num quase sorriso, e a moça passou a mão na maçaneta da porta.
– Srta. Parish? – disse outra voz de homem, esta mais grave, rude, de meia-idade. – Pelo menos deixe sair as meninas. Quem sabe assim podemos conversar com mais calma.
Uma longa pausa. Um suspiro. Depois veio o som da porta do banheiro feminino sendo arrombada e o clicar das botas no piso frio.
A reação de Violet foi instantânea. Ela abriu a porta e saltou para fora, seguida de perto por Trista e Pen. Os policiais que tinham acabado de invadir o banheiro feminino viraram a tempo de ver Violet batendo a porta na cara deles. Ela agarrou uma cadeira de uma mesa próxima e enfiou embaixo da maçaneta. A porta sacudiu nas dobradiças, e por ela passou o som de punhos que batiam e vozes iradas que trovejavam do outro lado.
– Corram! – ela gritou.
Dezenas de Outros se viraram para ver Violet, Trista e Pen correndo pela casa de chá, derrubando cadeiras ao sair. As três rolaram escada abaixo, tropeçando, deslizando e machucando os joelhos. Estavam boquiabertas de exaustão quando cruzaram o corredor e alcançaram a porta de entrada.
O rapaz do jornal fazia hora lá fora, mas, pelo visto, não esperava ver as três aparecendo na rua. Ele tentou avisar os outros, e estendeu as mãos para agarrar Pen, mas Violet usou o impulso para golpeá-lo com o ombro. Os dois caíram no chão e ali ficaram esparramados.
– Não parem! – ela gritou, cotovelando o inimigo na cabeça.
Trista segurou Pen pela mão e continuou correndo, virando aqui e acolá, sem critério. Não sabia onde estava nem para onde estava indo. Tudo o que importava é que continuassem correndo. O rio ficava aparecendo solicitamente à direita, como uma babá coruja.
Os pés dela não faziam ruído, mas os de Pen ecoavam com dolorosa clareza. Como estavam chamando atenção! Diga, por acaso você não viu duas meninas passarem correndo por aqui? Precisavam se esconder logo!
– Ali! – ela sibilou, e puxou Pen para um dos deques, ao lado do qual boiava um barco a remo.
Trista desceu com cuidado para o barco e ajudou Pen logo em seguida. Então, agarrada à porção inferior do deque com toda a força, conseguiu trazer o barco para ali debaixo, de modo que ficaram escondidas da visão geral. Havia um cobertor encharcado no fundo do barco, que ela correu puxar por cima das duas por via das dúvidas.
Estavam lá as duas ofegando, tremendo, escutando. Foi quando um barulho familiar alcançou os ouvidos de Trista. Era um rugido gutural e rebelde, o som do motor de uma motocicleta não muito distante agitando-se de volta à vida.
– É a Violet! – Pen guinchou, sufocada de animação. – Ela escapou! Ela escapou!
O zumbido da motocicleta foi aumentando, acompanhado do percutir de passos e gritos. Um rugido arrastado… e então pneus cantando, e uma série de impactos repetidos, dolorosos. Ouviram o som de vidro e fragmentos que rolavam, seguido por um silêncio arrebatador.
A calmaria manteve-se por poucos segundos; logo ela deu lugar a um murmúrio crescente de vozes, um borbulhar de preocupação e curiosidade, pontuado por gritos alarmados.