Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 8 de 43

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Canção do Cuco

8 O correio da meia-noite

8

o correio da meia-noite

 

Quando Pen apareceu no topo da escada, Triss não pôde impedir que um discreto sorriso se abrisse no rosto. A menina pareceu enfurecer-se, decepcionada, ao ver Triss ali no hall de entrada. Talvez tivesse achado que o médico mandaria a irmã ser imediatamente levada numa camisa de força, permitindo que o pai voltasse sozinho para casa.

As primeiras palavras dela, contudo, não demonstraram nada disso.

– Cadê a Violet? – ela perguntou. – Era a Violet lá fora, não era?

– Quieta, Pen – respondeu firmemente a mãe. – Era sim, e já foi embora, felizmente.

– Por que ela não entrou?

A pergunta de Pen não mereceu resposta de ninguém, então a menina saiu pisando duro no corredor. Esse era um dos pequenos atos de rebelião de Pen, a ocasional insistência perversa em gostar de Violet. Triss tinha quase certeza de que a irmã dizia isso para chocar, como quando afirmou ter bebido gim ou visto um cadáver.

– Que coisa – murmurou a mãe – … essa menina. – Ela passou os dedos de leve sobre as têmporas. – Às vezes eu não consigo… – Ela não chegou a dizer o que não conseguia, mas havia sinais de cansaço extremo em sua voz.

Triss torcera para que o frenesi com os pedaços de bolo acalmasse o ápice de seu apetite, mas quando o aroma do jantar alcançou seu nariz, ela foi novamente tomada por ondas estonteantes de fome. Uma surpresa agradável esperava por ela, no entanto.

– O Dr. Mellows disse que você perdeu um pouco de peso, então é melhor deixarmos você comer o quanto quiser por enquanto – a mãe lhe disse, empilhando torta de carne no prato da filha.

Pen fitou com ódio peçonhento sua porção mais escassa, mas Triss não tinha pensamento algum para a irmã. Queria chorar de tão aliviada, e mentalmente mandou centenas de obrigados ao Dr. Mellows. Nos primeiros minutos ficou incapaz de pensar, tão completamente submersa que estava na alegria, na perdição, na compulsão que era a tarefa de comer. Torta, batata, pastinaca, ervilha na manteiga, pão com manteiga, frutas, bolo com geleia, banana, cereja em conserva…

Apenas aos poucos o êxtase do banquete começou a ganhar um quê de amargo. Havia algo de onírico naquilo, um contínuo ritual de decepção. A menina tinha a sensação de que sempre que buscava uma tigela encontrava-a vazia. Tinha a vaga noção de que pratos cheios eram trazidos para substituir os vazios, mas não chegavam rápido o bastante, e finalmente ela chegou à aborrecida e horrenda conclusão de que a chegada de vasilhas carregadas chegara ao fim.

A menina ficou olhando para todos aqueles pratos vazios à sua frente, ofegando. Qual é o problema? Por que pararam de trazer comida? Ela olhou ao redor, ciente pela primeira vez de que todos os sons de jantar tinham cessado em toda a mesa, que o restante da família estava muda, observando-a raspando de cada vasilha as migalhas e os traços de molho.

– Já comeu bastante, Triss – a mãe disse gentilmente, com um toquezinho de pânico na voz. – Isso tem que ser o bastante.

Bastante? Triss mal entendia a palavra. Era como se perguntassem se ela tinha inalado ar o bastante e estivesse pronta para parar de respirar.

– Mas eu ainda tenho fome! – ela exclamou. Não havia nada em sua mente a não ser essa necessidade, e ela ficou irritada, aterrorizada e subitamente infantil. – Você disse que eu podia comer o quanto quisesse! Ainda estou com fome! – A voz saiu mais alta do que ela queria, mas por que não?

Estava desesperada. E tinha lhe sido prometida toda a comida que quisesse! Se a amavam, por que não chegava mais comida?

– Querida – disse a mãe, gentilmente, um tanto abalada –, você comeu metade da despensa. Agora, a não ser que queira comer aveia pura ou farinha…

– Aveia… pode ser mingau! Mingau!

– Não! – a mãe protestou, depois fechou os olhos e alisou os cabelos. – Não – acrescentou, mais gentilmente. – Você… você já comeu bastante mesmo, Triss.

– Você prometeu! – O grito saiu rasgando pela garganta quando a menina pulou e ficou de pé. – Você prometeu que eu podia comer o quanto quisesse!

Sentia-se inacreditavelmente irritada, como se tivesse sido levada enganosamente a conceder liberdade total ao apetite. O prato, ela o segurava firme nas mãos, e parecia possível que a qualquer momento ela o arrebentaria na mesa, para ver a cena chinesa pintada em azul e branco estilhaçar em pedacinhos. Por que seus pais a matavam de fome? Qual era o problema deles?

– Triss! – veio a voz do pai, forte o bastante para penetrar a fúria e o desespero que a haviam envolvido.

E veio num tom que ele jamais usara com ela, atingindo-a de imediato. Triss acordou abruptamente para como se encontrava, em pé em frente à cadeira tombada, agarrada a um prato como à própria vida. A mãe levara uma das mãos à garganta, na defensiva, sinal de que estava especialmente nervosa ou chocada. Pen batalhava para não deixar reinar no rosto uma expressão de zombaria, os olhos vívidos, cintilantes de fascinação e triunfo.

O prato sacudiu quando Triss correu devolvê-lo à mesa. A boca estava seca demais para formar palavras. Fugiu muda da sala de jantar.

De volta ao quarto, Triss deitou-se na cama e ali ficou feito um caracol.

Quando bateram na porta, ela ergueu a cabeça, mas não quis enfrentar a porta que se abria.

– Triss? – Era a voz do pai.

Mais gentil do que antes, mas Triss não quis ver o rosto dele, caso mostrasse a firmeza e a decepção que ela costumava ver ali quando ele olhava para Pen.

– Eu… me desculpe – ela murmurou.

A porta abriu-se. O pai entrou, e não parecia bravo. Estava cansado e triste, o que fez Triss se sentir pior ainda.

– Esse tipo de comportamento não é algo que espero da minha Triss – ele disse baixinho. – Minha Triss é uma menina doce, calma e bem comportada. Ela não bate o pé nem grita na mesa do jantar.

– Eu sinto muito – Triss sussurrou. – Não consegui… – Não consegui evitar, acho que fiquei meio louca, achei que vocês estavam querendo me matar de fome e que eu ia morrer, e que vocês me odiavam e eu odiava vocês. – Acho que… estou com um pouco de febre.

Essa era fácil de inventar, o passaporte muito solicitado para o perdão, e Triss se sentiu mal assim que disse as palavras.

– É. – Algo da sóbria tensão deixou a postura do pai, e ele veio se sentar na cama, ao lado dela. – É, deve estar. – Ele tocou a testa da filha com as costas da mão, e pareceu satisfeito. – Foi um dia longo, né? Muitos choques também.

Ele a envolveu com o braço, e ela jogou os dela em torno dele, prendendo-se ali como se, do contrário, fosse afundar, o rosto enterrado no sobretudo.

Me ajuda me ajuda me ajuda…

– O que você precisa – disse o pai finalmente – é dormir cedo. Vai se sentir bem melhor depois de descansar bastante.

Ele a apertou e se levantou, parando para fitá-la com carinho. Triss conseguiu abrir um sorriso forçado e fez que sim.

O pai saiu e fechou a porta, e Triss ficou sozinha, à mercê de seus pensamentos.

Pen dissera-lhe que ela estava fazendo tudo um pouquinho errado. É verdade, ela refletiu. Estou fazendo tudo errado. Menti para o médico que queria me ajudar, e isso não ajudou em nada – se eu continuar gritando com todo mundo, vão concluir que estou louca mesmo.

Então, o que posso fazer? Tenho que melhorar sem a ajuda do médico. Tenho que melhorar, e muito rápido, antes que percebam como estou doente. Não posso continuar assim.

Ela tinha que melhorar. Talvez tudo se resumisse a força de vontade. Talvez ela pudesse forçar-se a não comer tudo que tinha na casa. Talvez pudesse forçar-se a parar de ver coisas estranhas que não podiam ser reais.

Talvez quando Angelina começara a gritar, ela devesse ter simplesmente ignorado e continuado a fazer a mala. Talvez se ela tivesse desviado o olhar dos manequins da loja em vez de fugido, eles teriam voltado a seu decente estado inanimado. Talvez ela não tivesse mesmo visto, em sua visão periférica, as bonecas do quarto se mexendo…

Seu olhar passou para o armário onde ela enfiara às pressas todas as bonecas, e se sentou, irresoluta, mordendo o lábio.

Elas não vão se mexer, disse a si mesma, aproximando-se, acanhada, da porta. E mesmo que se mexam, vou saber que não é real. Vou ficar olhando e olhando até que voltem ao normal.

Quando ela abriu a porta do armário, a trouxa amassada lá dentro não se mostrou inclinada a se debater nem lutar. Com o pé, Triss deu uma cutucada rápida, e correu voltar o pé ao chão. O saco escorregou e se abriu, e uma única boneca caiu pela abertura. Era uma boneca de porcelana com um topete brilhante, vestido azul de cintura fina e almofada de alfinetes no lugar do corpo.

Muito lenta e deliberadamente, Triss agachou perto da fronha e pegou a boneca. O corpinho era pequeno o bastante para caber na mão aberta da menina; a cabeça de porcelana, o pescoço e o tronco deviam somar uns dez centímetros. A boneca tinha os olhos baixos para parecer que dormia, e as mãozinhas delicadas repousavam na renda do pescoço e na rosa do corpete, como se arrumasse o vestido.

Você é só uma boneca. Você é só uma boneca. Você é só…

O primeiro movimento foi muito sutil. Uma mãozinha, delicada feito barbatana de vairão, trocou de posição na renda da porcelana. Lenta e furtivamente, foi estendida para a mão de Triss, e esta sentiu dedinhos finos e gelados apertarem de leve a pele macia do seu dedão. A boneca não virou o rosto. Os olhos continuavam fechados, e ela mexia as mãos feito uma criaturinha cega, tateando.

Triss teve de reunir toda a sua força de vontade para não sair correndo. Havia algo de horrível na ideia de esmagar a boneca, contudo; imagine o pescocinho elegante partindo feito um graveto. Sua mão tremia, mas ela procurou focar toda a sua atenção na ideia de que o que estava vendo não era real.

Por fim, os dedinhos curiosos encostaram num dos alfinetes da almofadinha e envolveram a bolha de vidro branca que era a cabeça dele. Antes que Triss pudesse reagir, a boneca agarrou o alfinete com as duas mãos, arrancou-o da almofada e o mergulhou no dedão dela.

– Ai!

Triss puxou a mão, mas conseguiu não largar a boneca. Não é real, ela tentou dizer a si mesma, mesmo quando uma bolinha de sangue começou a inchar para fora do furinho. Essa dor não pode ser real, não pode. Um instante depois ela sofreu mais dor irreal, quando a boneca ergueu o alfinete bem no alto e meteu mais uma vez no dedão dela.

– Ai! Para com isso!

Apesar de todas as resoluções, Triss teve que usar a mão livre para arrancar o alfinete das mãos de sua pequena atacante. Eu não devia ter feito isso, não é real, não é real. Mas forçar a mente sobre a matéria é muito mais fácil quando a matéria não esfaqueia a pessoa.

Triss reparou que a boneca fazia um barulhinho fraco e musical, como o som de uma xícara chacoalhando em cima do pires. A mandíbula dela se movia rapidamente, mas não dava para dizer se ela queria rir, ranger os dentes ou se tentava falar. As mãos apalpavam a superfície da almofadinha, em busca de outra arma.

– Para com isso! – Triss sibilou. Ela sacudiu a boneca e sentiu seu sangue esfriar ao ver o modo como a cabeçona dela balançava para a frente e para trás. – Para com isso, ou… – Um jorro de pânico a dominou, e junto ele a maré de fome que tinha sido contida, mas não derrotada. – Para ou eu vou… vou te devorar!

A vozinha da boneca passou para um rosnado mais grave. Um poço negro de medo engoliu Triss. Ela fechou os olhos e abriu muito a boca, e mais ainda.

A porcelana deslizou por sua língua feito sorvete. A almofada foi mais difícil, e por um momento alarmante ficou entalada na boca, preenchendo todo o espaço, passando o sabor rançoso e poeirento do veludo antigo. Então Triss fez uma coisa que a fez sentir toda a garganta arrepiar, e no momento seguinte ela engolia a almofada. Por um ou dois segundos deu para sentir as bolinhas geladas das cabeças dos alfinetes roçando lá dentro ao viajar goela abaixo.

Depois Triss ficou sentada por um bom tempo, olhando para as mãos vazias.

Não é possível que eu tenha feito isso.

Caindo em si, a menina bateu a porta do armário com as mãos tremendo. Depois se levantou, meio tonta, foi até a penteadeira e se largou na cadeira. Vendo-se no espelho, abriu a boca o máximo que pôde, fechou-a, abriu, fechou.

Ver bonecas se mexendo era maluquice. Já engolir bonecas era impossível. Não era possível ela ter conseguido abrir a boca o bastante para caber uma boneca inteira lá dentro, muito menos forçá-la goela abaixo. A menina viu o rosto no espelho enrugar-se de confusão, medo e tormento, mas as lágrimas não vinham.

Foi muito lentamente que ela reparou que a vociferante areia movediça que tinha no estômago caíra em silêncio. Por ora, não sentia mais fome.

Horas se passaram, e finalmente Triss admitiu para si mesma que não dava jeito de dormir. Ficou deitada na cama, olhando para o teto, enquanto os pensamentos traçavam desenhos negros pela superfície. Tô doente, tô maluca, tô horrorosa. Tenho que melhorar.

O que o médico dissera mesmo? Lembrando-se das palavras dele, Triss sentiu uma pontinha de esperança. E se ele tivesse razão, e a doença dela fosse apenas causada por uma lembrança que ela tinha engolido, feito uma bolinha de gude? E se toda essa bizarrice fosse mesmo apenas uma “dor de barriga da cabeça”? E se ela pudesse melhorar apenas lembrando daquilo de que tinha se esquecido?

Se sim, então a lembrança “engolida” tinha de ser a do dia em que ela se perdera, o dia em que caíra no Grimmer. Antes desse dia tudo estava normal, ela tinha quase certeza disso – nada de estranhas alucinações, nada dessa fome horrenda. Triss focou toda a sua energia na tentativa de se lembrar desse dia sumido, mas foi em vão. Ela se sentou e apertou os calcanhares das mãos contra as pálpebras até que pequenas flores vermelhas começaram a explodir contra a escuridão. Ela tentou recapturar a sensação de certeza e iminente recordar que sentira nas margens noturnas do Grimmer, a lembrança da água gelada e nebulosa, mas não deu certo.

Triss não sabia quase nada do misterioso “ele” sobre quem os pais discutiram, mas sabia uma coisa. Ele enviara dezenas de cartas à família, e todas tinham, de algum modo, encontrado seu caminho até a gaveta da escrivaninha do quarto de Sebastian.

O mais quieta possível, Triss saiu da cama. Depois de pegar uma pinça da penteadeira, abriu a porta do quarto devagarinho e apurou os ouvidos.

As casas respiram quando dormem, tanto quanto seus donos, e os únicos ruídos no silêncio eram tiques suaves e rangidos delicados. O resto da família tinha ido para a cama fazia muito tempo, e Triss não ouvia som algum de movimento vindo dos quartos deles. Não havia mais ninguém na casa além da cozinheira, cujo quarto ficava no porão. Geralmente, a governanta ocupava um quarto perto da família, mas no momento eles não contavam com uma.

Triss foi andando cuidadosamente pelo corredor, alerta para qualquer barulho vindo dos outros quartos, qualquer ranger de colchões ou murmurar de quem acorda. A porta de Sebastian abriu suavemente, e mais uma vez Triss entrou, furtiva, no quarto proibido.

Ela não ousou acender as lâmpadas, mas seus olhos haviam conseguido se adaptar bem ao escuro, e ela seguiu para a escrivaninha sem trombar em nada. A menina ficou de joelhos, passou os dedos pelas faces frontais das gavetas, sentindo os ornados puxadores de metais frios ao toque. Sim, era essa aqui, e ela sabia que estava quase explodindo de cartas, tantas que deu para ver algumas pulando pela abertura da gaveta.

Ela descobriu que a pinça cabia no buraco apenas se virada de lado. Tentar pegar um canto de envelope somente usando os dedos mostrou-se difícil e frustrante. De novo e de novo a menina sentiu a pinça agarrar meio sem jeito uma pontinha de papel, apenas para deixá-la escorregar novamente.

Enquanto se ocupava disso, escutou o barulhinho fraco, porém cheio de si, do relógio da lareira contando doze badaladas lá embaixo. A última nota desvaneceu, mas para Triss pareceu continuar cantarolando no silêncio, como cócegas no ouvido.

Foi enquanto essa nota silenciosa ainda badalava, que Triss escutou outro som vindo do corredor. A menina reagiu por reflexo, engatinhando até o esconderijo prévio e rolou para debaixo da cama. Somente quando estava encaracolada por detrás das franjas da coberta ela reparou que o som atrás da porta não era de passos coisa nenhuma.

Era um farfalhar seco e delicado, como o barulho de uma mosca moribunda debatendo-se contra o vidro da janela, só que mais alto. Foi chegando mais e mais perto, até Triss ter certeza de que a coisa que o fazia estava logo atrás da porta, e se preparou para ouvir a maçaneta sacudir ou girar. Contudo, esta permaneceu imóvel. Em vez disso, o ruído furtivo tornou-se abruptamente muito mais claro. A porta não fora aberta, mas o intruso invisível não estava mais no corredor. Estava dentro do quarto, com Triss.

Espiando por detrás da coberta pendente, a menina conseguiu enxergar o intruso, e viu o bastante para ter certeza de que definitivamente tratava-se de uma coisa, não de uma pessoa. A coisa voou traçando arcos pesados e atabalhoados ao redor do quarto, roçando as paredes com o que a menina julgou serem asas, trombando gentilmente na mobília, parando aqui e ali para se empoleirar.

Era difícil ver o intruso, e não somente por causa do escuro. Toda vez que ele parava por um instante e a menina conseguia fitá-lo diretamente, ele parecia derreter perante o olhar. Quando voava daqui pra lá, contudo, deixava rastros escuros feito fumaça pelo ar.

Finalmente, ele foi descansar no puxador da gaveta cheia de cartas, e Triss escutou um farfalhar de papel. Do nada, a criatura produziu algo comprido, pálido e fino. Apertando os olhos, Triss viu o obscuro e invisível intruso inclinar-se para trás e suavemente deslizar o envelope pela abertura no topo da gaveta, para se unir às demais cartas.

Olhou ao redor uma vez, e Triss pensou ter visto um rosto pálido, menor que um ovo, com fagulhas no lugar dos olhos. Depois ouviu um sopro de ar e um rápido bater de asas, feito uma bandeira ao vento, e o intruso se foi.

Muito tempo depois de findo o barulho das asas, Triss continuava deitada, imóvel, sentindo o carpete áspero roçar-lhe o queixo. Estava, mais uma vez, vendo o impossível. Por algum motivo, contudo, sozinha ali, à meia-noite, no quarto escuro do irmão falecido, o impossível era mais fácil de lidar.

Com a boca seca, a menina engatinhou de volta à gaveta. Um cantinho da última entrega estava visível, brotando pela fenda. Ela a puxou para fora usando a pinça, depois correu de volta ao seu quarto, onde abriu o envelope e retirou a carta. Era datada do mesmo dia, e a escrita manual era dolorosamente familiar.

Queridos pai, mãe, Triss, Pen,

Estou escrevendo de novo, mesmo sabendo que não adianta nada. Não acredito

mais que alguma dessas cartas tem alcançado vocês, muito menos que algum dia

receberei resposta. Não posso me conter, contudo. Escrever essas cartas é tudo o que me

resta, ainda que agora seja apenas uma brincadeira de faz de conta que mantenho

apenas para tornar o frio menos amargo.

Mesmo que eu achasse que vocês realmente veriam esta carta, não tenho mais

forças para me mostrar corajoso para vocês. Neste lugar, toda a coragem foi

subjugada.

O inverno não acaba nunca. Nem me lembro de quando começou. Parece-me

que venho enfrentando os mesmos céus cinzentos e tristes nevascas há anos. Talvez

seja o mesmo dia, esticado adiante, para sempre, feito arame farpado. Perdi a

noção de tudo. Meus amigos estão todos mortos. Os homens junto dos quais combato,

não os conheço; sempre morrem antes que eu possa descobrir seus nomes. Seus rostos

não passam de um borrão em minha mente.

Minhas mãos e pés são uma agonia por causa do frio, mas pelo menos a dor é

melhor que o pensamento. Sou algo estilhaçado agora, sei disso. Sinto minha alma

espetando para fora em ângulos retorcidos como um membro quebrado. Torço apenas

pelo torpor e por um fim.

Perdoem-me.

Sebastian