Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 21 de 43

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Canção do Cuco

21 Queijo enlatado e banana

21

queijo enlatado e banana

 

A motocicleta de Violet estava estacionada entre os carros feito uma raposa encardida num pasto cheio de vacas.

− O carrinho é pra só uma pessoa – ela murmurou −, mas vamos ter que apertar vocês duas aí.

O apêndice tinha o formato de uma canoa gorda com uma roda grande do lado, um nariz afunilado para receber as pernas da pessoa e um assento embaixo da abertura. Acabou que foi possível enfiar as duas meninas lá dentro, com Pen sentada no colo de Não-Triss.

Violet vestiu os protetores, prendeu o quepe e montou na motocicleta. Então, com visível esforço e usando muito de sua força, afundou a bota no pontapé de arranque, arrancando do motor um rugido rasgado de estourar os ouvidos. O cheiro de óleo fez Não-Triss ter enjoo. Quando a moto avançou e manobrou para a estrada, a menina agarrou-se por reflexo às laterais do carrinho, dentes cerrados de apreensão.

A estrada parecia tão estreita! De um lado rugia a moto, tão alto que fazia doer o ouvido direito. Do outro, a menina via o para-lama por cima da roda do carrinho vibrando sobre o solo acidentado, e teve medo de encostar a mão nele. A chuva gelada caía agora na horizontal, bem na cara dela, e o vento estava implacável. O pior de tudo era que Pen não parava quieta, ficava se mexendo, girando, inclinando e olhando ao redor, e os movimentos pareciam sempre envolver cotoveladas e espremidas.

Um gentil torpor de exaustão alojou-se na mente de Não-Triss enquanto ela via um ou outro carro passar raspando, surgidos da escuridão com os faróis rasgando traços de luz pelo ar, matizados pelo brilho da chuva. O passado recente era uma dor desvanecendo. Somente aquilo era real, esse momento longo de ser sacudida feito um sapato dentro da caixa, e até mesmo isso não era muito real.

Finalmente, a motocicleta parou em frente a uma antiga casa geminada numa rua estreita e escura, e Violet desligou o motor.

− Tentem não fazer barulho – ela sussurrou ao desmontar da moto, e começou a liberar as meninas. – A proprietária é uma velha chata, e não quer que eu receba ninguém.

Não-Triss e Pen acompanharam Violet degraus acima e a viram girar lentamente a chave na fechadura, com a concentração de quem arromba um cofre, abrindo a porta para um hall sombrio. As meninas seguiram Violet um passo atrás, subindo a escada nas pontas dos pés. Ela destrancou outra porta e entrou num cômodo escuro.

Enquanto ela colocava moedas no medidor de gás e acendia a luz, Não-Triss olhou ao redor, para o papel de parede florido manchado de umidade, a mobília gasta pelo tempo e as cortinas que desciam até uns cinco centímetros de tocar o peitoril. Celeste Crescent dizia que Violet aproveitava uma “vida boa”, mas os únicos objetos que pareciam ter valor no quarto eram um pequeno rádio, um gramofone e alguns discos.

Todas as gavetas do cômodo estavam abertas, como se alguém tivesse sido interrompido bem em meio ao ato de vasculhar o local, mas Violet não pareceu nada surpresa com isso. Uma porta entreaberta na parede oposta revelava uma cama desarrumada. Um monte de meias pendia por cima do cobertor, com os dedos mantidos no lugar por diversos ornamentos. Não-Triss imaginou se eram feitas de “seda artificial”, a novidade da qual Celeste Crescent desdenhara, dizendo ser “coisa de empregada”.

Quando Violet ajoelhou-se perante a pequena lareira e começou a empilhar carvão, Não-Triss pôs-se a observá-la em total fascínio, hipnotizada. Com o primeiro estalar de chama, contudo, ela não pôde disfarçar um ligeiro pulinho que deu para trás, exasperada, quase entrando em pânico. Sua pele pareceu pinicar com aquele calor terrível mais uma vez, como quando ela fora forçada perto da lareira da casa de campo. Violet olhou para trás surpresa, vendo Não-Triss, tomando nota da paralisia muda e trêmula da menina, e franziu o cenho. Ela voltou sua atenção para o fogo, mas ficou um pouco de lado para impedir que Não-Triss visse as chamas. Quando a moça ajeitou o corta-fogo no lugar, a menina sentiu o coração acalmar-se um pouco.

Entrementes, Pen ocupava-se de juntar cobertores e almofadas daqui e dali, que largava perante o fogo para construir uma espécie de ninho, com a confiança de quem faz isso o tempo todo.

− Violet! – ela sussurrou bem alto, quando a relutante anfitriã sentou-se para limpar a fuligem das mãos. – A gente precisa comer. Não comemos nada faz horas!

− Então da próxima vez você podia esperar até depois do jantar pra fugir – Violet murmurou, obviamente sem pena.

− Mas eu tô morrendo de fome! – Pen exclamou. − Não comi nada o dia todo!

− Bom, não precisa falar como se a culpa fosse minha – Violet rugiu, andando até uma caixa de madeira perto da parede. – Não sou sua mãe.

− Ótimo – Pen respondeu sem hesitar. – Eu não ia querer que você fosse a minha mãe. Fugiria de você também.

Não-Triss, pasma, ficou somente escutando esse diálogo, preparando-se para a inevitável conclusão. Que nunca chegou.

− Queijo enlatado e banana – Violet murmurou, retornando à lareira e ficando de cócoras. – Só tem isso.

Pen deu de ombros.

− Eu gosto de queijo enlatado.

Não-Triss ficou olhando Violet mergulhar o abridor na lata de queijo e começar a cortar uma fenda dentada no topo. O rosto comprido da moça continuava brilhando de água da chuva, o nariz, branco de frio, e as tiras do quepe penduradas embaixo das orelhas. Pela primeira vez a menina entendeu por que Pen achava que podia ir até ela quando fugisse. Na casa da família Crescent, era preciso ser cuidadoso o tempo todo, porque se você fizesse ou dissesse algo errado, ninguém nunca esquecia. A coisa ficava ali para sempre, uma invisível marca hostil que todo mundo sabia que existia. Pen encontrava um lugar onde se podia dizer coisas rudes e rabugentas, e onde a outra pessoa apenas seria rude e rabugenta de volta, e depois dava para sentar junto dela e comer banana sem nem um grama de ressentimento.

As três comeram o queijo apoiado nos pires de um conjunto de chá. Tinha um discreto gosto de metal, mas ninguém pareceu se importar. A banana tinha casca escurecida, mas a polpa dentro permanecia quase toda branquinha e firme.

Até que então Violet se levantou, afivelando a tira do quepe sob o queixo.

− Volto daqui umas horinhas, e vou tentar não acordar vocês. Não vão botar fogo na casa enquanto eu estiver fora, a não ser que seja absolutamente necessário. E quando eu voltar, não me acordem antes das dez.

− Aonde você vai? – Apesar de tudo aquilo, centenas de desconfianças e medos amontoavam-se na mente de Não-Triss. – Por que vai sair de novo? Não vai falar com nossos pais nem com a polícia, né?

− Ah, pelo amor de Deus! Não. Não vou. – À porta, a moça parou, os olhos demorando-se mais uma vez em Não-Triss, a boca estreita e pintada franzindo no bico de sempre. – Triss, você precisa… precisa de remédio ou algo assim antes de ir dormir?

− Não. – Não-Triss fez que não, envergonhada por sua explosão, mas ainda meio desconfiada. – Não, obrigada. Eu… acho que eles nem ajudam muito.

A porta fechou-se atrás de Violet, e Não-Triss afundou e sentou-se nas almofadas perto do fogo, agora preso.

− Tá tudo bem – disse Pen, puxando cobertores por cima dos joelhos. – Já fiquei aqui outra vez. Ela sempre faz isso. Da última vez ficou fora até às sete da manhã. Eu sei porque ela me acordou quando entrou. Ela dorme até as dez, depois levanta e vai pro trabalho.

Trabalho. Mais um exemplo da “vida boa” que Celeste Crescent descrevia. Pelo visto, Violet Parish não passava o tempo todo sentada, bebericando coquetéis às custas da família Crescent. Não-Triss pensava uma dúzia de coisas novas sobre Violet Parish, e, no entanto, não eram a coisa mais importante em sua mente.

Ela olhou para Pen, que se aninhava nos cobertores feito um ratinho e recusava-se a devolver o olhar.

− Pen – ela disse gentilmente −, acho que a gente tem que conversar. Sobre tudo. Sobre o Arquiteto.

Pen mordeu forte o lábio superior, e por alguns segundos Não-Triss achou que a menina fosse ignorá-la ou dar vazão a um de seus acessos de raiva. Em vez disso, ela enrolou o dedo nas franjas do cobertor e deu de ombros.

− Você tem que prometer que não vai ficar brava – ela murmurou, agressiva −, nem me arranhar com as garras ou me morder com esses dentes de espinho.

− Prometo – disse Não-Triss. – E sinto muito mesmo por ter machucado seu rosto.

− Sei – a outra respondeu, taciturna.

− Então – Não-Triss prosseguiu, o mais paciente que pôde −, o Arquiteto. Onde o conheceu?

Pen fitou a outra de soslaio. Talvez estivesse preparando uma mentira, como quem afofa uma bola de neve nas mãos, vendo se não iria se desmanchar. Ou talvez estivesse ponderando a possibilidade de Não-Triss se transformar num monstro espinhento caso ela dissesse algo de errado.

− Ele apareceu um dia. Faz três semanas. Um dia depois do meu aniversário. Mamãe e papai tinham prometido que a gente iria ao cinema Bowgate, porque tava passando Perigo na Park Avenue. Mas daí quando estávamos de saída, você disse, quer dizer, a Triss de verdade disse que estava com dor de cabeça e febre. Ela fez de propósito, pra gente não poder ir, eu sei disso, eu a vi olhando pra mim, eu sei disso. Então eu a chamei de mentirosa e de rata, e daí todo mundo gritou comigo e não me deixaram mais ir ao cinema…

Não-Triss nada disse. Mal se lembrava do incidente, recordava somente de uma sensação de ultraje por terem gritado com ela quando estava doente. Se tinha sentido uma pontinha de satisfação vingativa além de ver Pen privada do passeio de aniversário? Talvez.

− Eu fugi de novo – Pen sussurrou. – Fiquei com ódio de todo mundo. Eu fui sentar na gangorra do Parque Gramhill, e chovia, e eu senti tanto ódio de vocês que quis ter uma arma. Ou uma gangue, pra eu poder ir pra casa e deixar vocês com medo. Mas daí eu pensei que não queria deixar a mãe e o pai com medo, só você, porque era tudo culpa sua, e você os fez ficar assim. E enquanto eu pensava nisso, um carrão preto parou no parque, e um homem saiu e veio pra perto de mim. Ele me chamou de “Srta. Penélope Crescent” e abriu o guarda-chuva em cima de mim, e disse que nenhum cavalheiro deixaria uma dama tomar chuva.

− E era o Arquiteto? – perguntou Não-Triss, tentando desembaraçar os pensamentos. Queria saber primeiro apenas como Pen conseguira contatar o Arquiteto.

Pen fez que sim.

− Fiquei um pouco com medo dele no começo, principalmente quando ele disse que andava de olho na gente fazia um tempo. Mas então ele disse que não gostou do jeito como todo mundo me tratou, que não foi justo, e que ele queria me ajudar. Ele disse que às vezes as famílias são que nem fruteiras, e se uma das frutas fica podre, tudo apodrece. Então você precisa tirar essa fruta da fruteira, e isso resolve tudo. E eu disse que você, quer dizer, a Triss de verdade, estava podre e deixava todo mundo infeliz. E ele concordou.

Não-Triss sentiu um pouco da raiva e da tristeza prévias agitando-se dentro de si, mas o tormento estava tão visível no rosto de Pen que ela se forçou a controlar.

− Ele quis saber se a nossa família ia pro interior qualquer dia, e eu contei da viagem. Então ele disse que queria fazer um trato comigo. Eu tinha que dar pra ele um monte de coisas que eram da Triss. Ele disse que as folhas do diário eram o mais importante. E daí, quando a gente viajasse, eu tinha que convencer a Triss a ir comigo até o Grimmer. Ele disse que se eu fizesse isso, ele… – Pen hesitou, mordendo o lábio. Estava difícil enxergar à luz da lareira, mas Não-Triss pensou ter visto a menina ruborizar. – Ele disse que levaria a Triss embora, pra não voltar mais, e tudo ficaria melhor – ela disse, acrescentando um resmungo: − E nenhum de nós iria dizer nada pra ninguém nunca.

− Então você atraiu a Triss verdadeira até o Grimmer…

− Não fala desse jeito! – Pen sibilou. – E não me olhe como se fosse tudo culpa minha! Eu só queria que as coisas não fossem mais horríveis, e isso era culpa sua. Bom, da Triss de verdade, mas você é igualzinha!

− Bom, se você me odeia tanto, por que foi me salvar? – atacou Não-Triss. Seu autocontrole, fino feito papel, foi esticado quase até rasgar, e havia um mar de tristeza por baixo.

Pen fitou a outra. Seus olhos brilhavam com lágrimas de raiva.

− Eu não queria – ela murmurou, ousada. – Hoje de manhã, quando todo mundo saiu sem mim, eu pensei que você fosse fazer alguma coisa horrível com a mãe e o pai se eu não estivesse perto. Então eu me escondi no banco de trás, no chão, embaixo do cobertor. Daí o carro ficou séculos parado na casa, eu cansei, fiquei com frio, então saí e me escondi na cozinha. E aí todo mundo descobriu que você é um monstro e te pegou, e no começo eu fiquei superfeliz, porque achei que você não ia mais voltar pra casa e arranhar meu rosto e tentar entrar no meu quarto. – A entonação da menina exibia um misto de malícia e medo. – Mas… daí eles quiseram te pôr no fogo. E você começou a chorar. E não eram lágrimas de verdade, mas era um choro de verdade. Você teve medo de verdade, mesmo eles dizendo que você não teve.

− Então como é que o pai não conseguiu ver isso? – Não-Triss sentiu o desespero e a tristeza avultando-se dentro de si mais uma vez, e quase não conseguiu impedir que os dentes ficassem afiados. – Por que a mãe não conseguiu ver?

− Porque eles são burros – Pen resmungou, esfregando o nariz com a manga da blusa. – Eles não sabem ver quando a Triss de verdade tá chorando de mentira, então claro que não sabem ver quando a Triss de mentira tá chorando de verdade.

− Não fala assim!

Difícil dizer por que aquelas palavras doeram tanto.

− Se você não gosta, problema seu – retrucou Pen com um brilho repentino nos olhos −, porque é isso que você é. Triss de mentira. Aliás, esse vai ser seu nome. Você não tem nome, e eu salvei a sua vida, então posso escolher qual vai ser seu nome. E vai ser Triss de Mentira.

− Eu não sou…

− Cala a boca, Triss de Mentira. Você tem sorte de eu te deixar ter nome.

Não-Triss fechou os olhos e respirou fundo. Lembrou-se de Pen arrastando-a pela mão, escapando da cozinha da casa de campo. Lembrou-se de Pen correndo ao seu lado sob o luar.

− Me fala mais sobre o Arquiteto. – Não-Triss achou melhor mudar de assunto. – Ele te deu um jeito de falar com ele ao telefone, não foi?

Pen fez que sim.

− Eu tinha que dizer “Perder, secar, querer” antes de pegar o bocal, e daí quando eu apertei o botão da distribuição, a voz na linha não era de uma telefonista normal. Era uma mulher que falava baixinho, e eu só tive que pedir pra falar com o Arquiteto, e ela passou pra ele.

Finalmente Não-Triss compreendeu por que não havia registo da misteriosa ligação telefônica feita por Pen na casa dos Crescents. Ela nem passara pelo quadro de distribuição normal. Não era de se surpreender que os operadores não soubessem de nada.

− Ele chegou a dizer onde mora, ou outra coisa sobre ele? – continuou Não-Triss.

− Não muito, só que era arquiteto. – Pen franziu o cenho, concentrando-se. – Espera. Ele disse que era por isso que estava de olho na gente. Porque ele conhecia o pai. Por causa do trabalho. Mas disse que descobriu que gostava mais de mim do que do pai, porque eu parecia mais “honrável”.

Uma nevasca de fragmentos girava dentro da mente de Não-Triss, tentando compor uma imagem. Ela lembrou-se de ter ouvido a conversa entre Piers e Celeste Crescent sobre o misterioso homem com o qual Piers não queria mais papo. Lembrou-se do artigo de jornal acerca do novo projeto de construção de Piers. Por fim, havia o mistério dos envelopes na gaveta da escrivaninha, cuja existência era tão cuidadosamente ocultada. Sua mente estava cansada demais para retirar significado de fragmentos, no entanto.

− A gente tem que descobrir mais sobre o Arquiteto, Pen. – Não-Triss viu sua não-irmã titubear e, após um instante de hesitação, deu um tapinha amigável no pé dela. – Sei que você não quer; eu também não quero muito. Mas é preciso. Ele não está só com a Triss. Está com Sebastian também.