Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 6 de 43

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Canção do Cuco

6 Tesouras

6

tesouras

 

A rua Marley era uma das maiores vias públicas de Ellchester, e passara a ser iluminada por eletricidade no lugar do gás. Colchetes de ferro foram grampeados no topo dos postes para sustentar os cabos dos bondes, e deles emanava uma luz de brilho e brancura quase etéreos, feito luar destilado. Ela transformava a rua e tornava tudo maior, mais alto, mais vívido e empolgante, como se todos os passantes estivessem num palco e soubessem disso. Em comparação, a luz fraca das lâmpadas de gás nas ruas laterais deixavam tudo lá parecendo melancólico e um pouco desbotado.

− Na Lambent’s, como sempre? – perguntou o pai.

Era a loja favorita de Triss. A menina levou um instante confuso para se lembrar disso. Todos os vestidos mais amados foram comprados lá, após crises de doença. O de seda azul pós-tosse. O de algodão com estampa primaveril pós-febre-de-três-dias.

Pararam em frente à Lambent’s. As letras douradas diziam “Lambent & Filhas”, reluzentes acima da vitrine perante a luz das lâmpadas da rua. Enquanto o pai dava-lhe as costas para fechar o guarda-chuva, Triss apertou-se contra a enorme e brilhante vitrine, evitando assim o gotejar do toldo estreito acima. Atrás do vidro posavam cinco esguias manequins de gesso de pele muito pálida. Eram lânguidas e sobrenaturalmente magras, conforme o estilo mais recente, e seus rostos não demonstravam afeto algum.

Triss estava admirando os vestidos franjados de tons pastel quando todas as cinco figuras se mexeram. Muito lentamente, viraram os rostos sem olhos para fitar a menina, e então penderam os ombros levemente e inclinaram para a frente, comportando-se com intenso interesse.

− Não! – Triss deu um pulo para trás, entrando na chuva. O pai voltou-se para ela, surpreso. A menina ficou muito tensa e evitou ao máximo olhar para a vitrine. Se o pai a visse olhando, poderia virar-se para investigar. E se ele as visse se mexendo? Ou se não visse nada de estranho? – Podemos ir pra outro lugar dessa vez? Ouvi dizer que tem uma loja melhor no… pra lá.

Ela apontou às cegas para um dos sentidos da rua, torcendo para encontrar uma costureira nessa direção e garantir credibilidade à história.

− É mesmo? Bom, o que você preferir. – O pai tornou a abrir o guarda-chuva. – Como se chama essa outra costureira?

− Eu… não estou lembrando agora – disse Triss, simplesmente aliviada por encontrar-se caminhando para longe dos ominosos manequins bisbilhoteiros. Ela foi andando sem olhar para trás, o coração pulando dentro do peito. – O nome era algo… como… é esse aqui! – Para seu deleite e alívio, a menina reparou que estavam passando por uma loja com uma enorme tesoura de metal suspensa acima da porta, presa a uma fina corrente, sinal certo de que se tratava de um alfaiate ou uma costureira. Boa parte das roupas que vestiam os moldes de arame na vitrine parecia ser masculina, mas havia roupas para mulheres também. Os olhos de Triss passaram velozes pelas letras azul-celeste encaracoladas acima da porta. – Grace & Scarp. Isso mesmo!

− Tá certo. – O pai alisou os cabelos úmidos da filha. – Vamos ver o que eles têm de bom.

Somente quando subia pelos degraus da loja Triss sentiu uma pontadinha de inquietação. Não era bem medo, só um ligeiro desconforto, como se ela tivesse se esquecido de algo muito importante. Um pensamento passou voando por sua mente, mas não foi ruim, só estranho. Lembrou-se de ter brigado com a tesoura da mãe na manhã após a febre; a ferramenta parecia tão relutante na mão dela.

Quando Triss abriu a porta da loja houve um baque alto e súbito. Alguma coisa caiu no chão, bem aos pés dela. Era a enorme tesoura de ferro pendurada acima da porta.

O pai mantinha o guarda-chuva aberto acima dos dois, e somente isso impediu que as lâminas caíssem bem em cima da cabeça dela. O mundo ao redor de Triss pareceu perder a cor, e por alguns momentos ela perdeu a capacidade de compreendê-lo. A enorme tesoura aos seus pés era a única coisa real. Havia todo um rebuliço ao redor dela, e parecia que o pai era o principal responsável. Os demais pareciam pedir muitas desculpas.

− Não sei como a corrente foi partir… colocamos não tem nem um ano…

Triss e o pai foram sugados às pressas para a cintilante loja, e alguém se esforçou muito para remover as gotas de chuva dos ombros da menina com um lenço, como se isso fosse compensar o ataque da tesoura.

− Minha filha – declarava o pai em tons de raiva incandescente – está num estado delicado de saúde. Os nervos dela não suportam um choque desses!

Um homem corpulento conseguiu erguer a voz acima do coral de desculpas.

− Senhor, sentimos muito, profundamente. Não tem como nos desculpar pelo acidente, mas quem sabe não podemos compensar de algum modo. Quem sabe um vestido para a sua filha por conta da casa… e talvez um terno para o senhor com um bom desconto?

O pai de Triss hesitou, a tampa tilintando por cima da panela fervente que estavam os nervos dele. Então ajoelhou ao lado dela.

− Triss, como você está? O que quer fazer? Quer ficar aqui e ver como são os vestidos ou quer ir a outro lugar?

− Não precisa – Triss soltou. – Podemos ficar aqui.

Era verdade mesmo. Estava assustada, mas não fora afetada fisicamente pelo choque do modo como o pai receava. Triss sentia até um pouco de culpa pelo incidente, como se após a fala do pai ela fosse obrigada a parecer mais magoada.

− Se você prefere assim. – O pai olhou brevemente para o homem que tinha oferecido o vestido e o terno com desconto. – Triss, preciso conversar umas coisinhas com o gerente ali. Se eu te deixar aqui pra pegar medidas, vai ficar tudo bem?

− Mas eu já sei as minhas medidas! – Triss exclamou, surpresa.

− Acho que seria bom te medir de novo, linda – o pai disse baixinho, mas com firmeza, e novamente Triss sentiu o fantasma da ansiedade passar sorrateiro por detrás do sorriso do pai. – O Dr. Mellows disse… que você pode ter perdido um pouco de peso.

Perdido peso? Perdido peso? Com incredulidade, Triss lembrou-se de toda a comida que devorara ao longo dos três dias anteriores. Como poderia ter perdido peso? Pensando bem, agora, no entanto, o médico pareceu mesmo bastante admirado quando ela subiu na balança.

Ainda lidando com o acontecido na mente, Triss foi levada por uma porta na qual se dizia “Reservado para Clientes Especiais de Grace & Scarp”. O quarto do outro lado era pequeno, mas bem maior que a entrada da loja e totalmente vazio de gente. As paredes eram padronizadas numa soturna combinação de azul-escuro e cinza-prateado, e a mobília era em geral cromada com couro brilhante. De estantes ao longo da parede pendiam tubos de tecido preto, marrom e azul-marinho. Tudo era muito sério e cavalheiresco, e fez Triss sentir-se boba e deslocada feito uma mancha de geleia numa folha de jornal.

− Por favor, sente-se. – O homem que a levara à sala puxou uma grande cadeira de couro em frente à menina. – Essa é nossa sala VIP, reservada para a realeza, aos mais extravagantes e àqueles que atacamos com tesouras.

À primeira vista, Triss pensara que o homem era bastante jovem. O cabelo besuntado de óleo emanava um brilho doce de glamour. O sorriso era também jovial, curto e humorado. Contudo, prestando mais atenção nele, a menina notou linhas horizontais cruzando a testa e um toque de velhice nas bochechas. Os movimentos dele tinham também um toque de rigidez, por isso ela supôs que ele devia ser mais velho que seu pai. Os modos eram brincalhões, mas eram somente a ludicidade de um cão velho que não mais corre atrás de qualquer bola. Quando ele cruzou a sala, andou com um ligeiro mancar, embora o tenha escondido quase totalmente nos passos muito acertados.

− Meu nome é Joseph Grace – ele prosseguiu −, e já que meu parceiro vai cuidar do modelo do seu pai, cuidarei do seu.

Triss sentou-se naquela cadeira que mais parecia um trono. Tendo a porta sido fechada depois que ela passou, cortando o balbuciar de vozes na loja, ela começou a escutar música. Era uma peça cadenciada de violino, tão clara que Triss olhou ao redor, só para o caso de haver músicos de verdade como nas casas de chá Lyons, mas em vez disso seus olhos encontraram um gramofone num canto, o disco girando, a boca do tubo curvo apontando para a sala.

− Bom – continuou o Sr. Grace −, o que vai querer? Chá com bolo? Limonada? Coquetel com ostras?

Triss soltou um risinho muito surpreso.

− Chá, só chá, por favor. E… bolo.

− Claro.

O Sr. Grace chamou alguém numa porta, e pouco depois uma mocinha de terninho azul elegante tropeçou sala adentro com um prato lotado de pedaços de bolo e chá numa xícara de porcelana.

Triss sorriu, esquecendo-se da tarefa de parecer acabrunhada. Talvez a sala parecesse surpresa de encontrar uma serelepe menina de onze anos lá dentro, mas o Sr. Grace não a tratava com cortesia nervosa e sofrida, como se ela fosse uma fedelha insegura que pudesse pôr-se às convulsões e aos ataques a qualquer momento. O homem sorria para ela, gentil e tranquilo, como se fossem velhos amigos que tivessem inesperadamente se encontrado na rua. Ele pôs um livro de modelos nas mãos de Triss, cheio de moldes e retalhos de tecido. Ele virou infinitas páginas com homens elegantes e retângulos de enfadonhos tecidos para terno até alcançar as coloridas páginas das mulheres no final. Triss foi virando as páginas, sentindo um fervilhar de poder ao fazer escolhas.

Uma mocinha esperta de cabelos dourados de cachos firmes levou Triss a uma sala de provas e tirou as medidas dela. Depois disso, Triss foi acompanhada de volta à sala VIP, onde rolos de tecido foram trazidos aos pés dela. A encenação toda fez a menina se sentir uma verdadeira rainha.

Ela nem reparou em quão rapidamente desapareciam os pedaços de bolo ao lado, até que sua ávida mão encontrou o prato vazio.

− Oh! Sinto muito. – Triss reparou que estava sendo muito rude.

− Não se preocupe com isso. – O alfaiate fez um aceno compreensivo. – Os VIPs podem comer bolo à vontade. Você… quer mais um pouco?

Triss fez que sim, e viu, hipnotizada, mais dois pratos chegando, empilhados de bolo de frutas cobertos com glacê real. Quando conseguiu desgrudar os olhos de tal visão, reparou que o alfaiate a estudava meio de esguelha, um ar de especulação nos sérios olhos castanhos.

− Recobrando as forças depois de ter ficado doente, não? – ele perguntou baixinho.

− Isso… – Triss reparou que ter massacrado o prato de bolo não ajudava muito a sustentar a figura de delicadeza pintada pelo pai. – Perdi peso – ela declarou, defensiva.

− Um bolinho é o melhor remédio. – O homem abriu um sorriso confidente. – Lembro muito bem que um médico me disse isso uma vez. Particularmente, eu sempre uso bolo pra minha dor na perna. – Ele olhou, pesaroso, para a perna esquerda, a que não era boa. – E se um dos nossos clientes VIP resolver comer uns seis pratos ou mais, se depender de mim, ninguém vai ficar sabendo.

Triss livrou os pratos recém-chegados de seu conteúdo em minutos, e outros três pratos foram trazidos quase imediatamente, lotados de muffins. A menina atacou-os sem hesitar. Foi tão grande o alívio de não ter que se conter que ela quis gritar. Se eu puder comer o suficiente aqui, sem a minha família saber, talvez eu não precise de mais do que o jantar de sempre. E vou poder parecer normal.

− A sua perna… foi por causa da guerra? − Triss não tinha muita intenção de fazer essa pergunta, mas acabou escapando.

− Foi – disse calmamente o Sr. Grace. – Uma lembrancinha da França.

Triss pensou em Sebastian. Imaginou como seria a vida se ele tivesse voltado da guerra para casa, triste e manco, mas ainda bondoso e esperto. Pensar nele a fez sentir, de repente, uma dor de vazio bem no meio do peito. Concluiu que gostava do Sr. Grace.

Enquanto concluía, reparou pela primeira vez que o alfaiate usava uma faixa de seda preta no braço, quase camuflada contra a manga da camisa escura. Parecia coisa de quem está de luto. O Sr. Grace notou para onde ela olhava.

− Ah. – Ele tocou a seda com a pontinha do dedo. – Outro ferimento antigo. Anterior à guerra, na verdade.

− Então faz bastante tempo.

Triss não ouvia falar de alguém que usasse uma faixa de luto fazia muito tempo.

− Uma pessoa que eu amava se foi porque eu coloquei minha fé num médico que me disse para eu não me preocupar – disse o Sr. Grace baixinho. – Uso para me lembrar de que a confiança cega tem consequências. – Ele olhou através de Triss por um ou dois segundos, depois abriu um sorriso tristonho. – Me perdoe… e deixe-me encontrar o antídoto pra um assunto melancólico desses.

O alfaiate foi até o gramofone e delicadamente ergueu a agulha, interrompendo os violinos em plena melodia. Ele removeu o disco e o guardou dentro da luva, depois sacou outro disco e o posicionou na mesa. Quando a agulha foi baixada sobre o disco, soltou uma tossezinha de estática, como se limpasse a garganta, e então começou a tocar música.

Mas que música mais esquisita! Todos os instrumentos entraram em cena ao mesmo tempo, como se fossem uma festa surpresa e o aniversariante acabasse de abrir a porta. Cadê a melodia? Estava em algum lugar ali no meio, mas os instrumentos brigavam por ela, jogando-a um para o outro, derrubando e pisoteando, faziam outra coisa, depois pegavam de novo e lançavam para o ar quando você menos esperasse.

Havia trompetes e trompas, mas não soavam solenes como faziam quando explodiam por cima de um cenário de silêncio para lembrar a todos dos mortos. Pelo contrário, estavam barulhentos e irreprimíveis, como animais na fazenda – ganiam, grasnavam, mugiam e não se importavam com o que as pessoas achavam. Às vezes soltavam barulhos atrevidos e secos feito uma framboesa explodindo, noutras, rabiscos agudos e frívolos de som pelo simples prazer da música.

E nada parava e ninguém respirava e não havia um uni-duni-tê cadenciado e em vez disso era um entrelaçar de ruídos em fios que se enrolavam pelo meio e por cima uns dos outros e ela ficou exausta só de ouvir e teve a sensação de que nunca mais ficaria exausta de novo.

E Triss sabia o que era. Escutara o rádio cuspindo os primeiros acordes de tão selvagem e gritante música, apenas para o pai vir correndo desligar.

Aquilo era jazz.

− Gosta disso? – perguntou o Sr. Grace.

Triss mal pôde responder, e reparou que os calcanhares tamborilavam contra as pernas da cadeira, num empolgante dançar sentado. A menina imaginou se ficar bêbada dava a mesma sensação. Quem sabe ela não estava bêbada? Bêbada de tanto bolo.

Estava se divertindo. Quando foi a última vez que se divertira? Deleites, mimos, proteção, oh sim, ela tinha todas essas coisas em abundância. Mas e diversão?

Jazz não era música de respeito. Ela não devia escutar, e ninguém podia tocar para ela ouvir. A menina tinha certeza de que o Sr. Grace sabia disso, e o fitou com grande satisfação. Os pés dele não se agitavam, ela reparou. Ele estava simplesmente parado ao lado do gramofone, observando-a e sorrindo.

Uma das vendedoras da loja meteu a cabeça pela porta, e o Sr. Grace correu tirar a agulha do disco.

− O pai da mocinha já quer levá-la pra casa – disse ela.

Triss sentiu uma pontada de decepção. O Sr. Grace pegou uma escova de roupas e a ajudou a limpar as migalhas de bolo, parando por um momento a fim de pescar um fio de cabelo preso na manga da blusa dela.

Quando Triss foi levada de volta ao pai, sabia que seus olhos deviam ainda estar brilhando, e o rosto rosado de cobertura de bolo e jazz. O pai a examinou brevemente, pareceu um tanto incomodado e a tocou rapidamente na testa com os dedos, para checar a temperatura. Sem querer, Triss sentiu um pinguinho de ressentimento. Ela não podia ficar feliz que já era sinal de que estava com febre?

− Se puder trazer Theresa de volta daqui uma semana para a primeira prova…

Ouvindo essas palavras, os lábios da menina curvaram para cima. Ela ia voltar. No mesmo instante, foi preenchida por uma enxurrada de culposa alegria.

Somente quando estava saindo seus ânimos se acalmaram. Por sobre o balcão da recepção ela viu a tesoura que quase caíra em cima dela. Um tecido claro tinha sido jogado por cima do utensílio, mas as pontas das lâminas brotavam para fora. O ferro gasto era enegrecido e impiedoso, e as pontas pareciam afiadas.