Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 38 de 43

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Canção do Cuco

38 Garrafas verdes

38

garrafas VerDEs

 

Trista ficou deitada no fundo do barco com os braços em volta de Pen, sentindo como se todos os ossos do corpo tivessem virado geleia. Podia ouvir Pen fazendo barulhinhos que lembravam soluços.

– Violet… – sussurrou Pen. – Ela bateu… ela morreu.

– Não, não morreu, não – Trista correu dizer.

Fechou os olhos bem apertados, mas isso não adiantou para impedir o dilúvio de imagens imaginadas. Um corpo largado por cima do capô de um carro, ou talvez um para-brisa quebrado com pontas avermelhadas… Apenas por um instante ela odiou Pen por dizer em voz alta aquilo em que ela tentava tanto não pensar.

Mas Pen era pequena e triste demais para ser odiada. Em vez disso, Trista tentou juntar os poucos trapos de esperança que tinha e usá-los para confortar a menina.

– Violet não morreu – disse ela a Pen e a si mesma. – Ela tinha um plano, e o plano não envolveria morrer.

Silêncio. Snif, snif.

– Qual era o plano? – perguntou Pen, a vozinha triste temperada com uma pitada de esperança relutante.

Trista fitou a escuridão do cobertor, tentando desesperadamente lembrar-se das últimas palavras de Violet.

Boa sorte com a neve.

– Ela escolheu deixar que eles a pegassem. – Trista admirou-se com a revelação, e prendeu-se a ela. – Ela deixou acontecer, pra podermos fugir, e a colocarem numa cela na prisão. Assim, ela vai poder ficar no mesmo lugar… pra neve chegar. Agora fique quietinha, Pen, por favor, quietinha! Ou vão nos encontrar!

Por um instante que pareceu durar vários séculos, ouviram o barulho de gente correndo na rua e falando com urgência. Algumas frases e palavras eram audíveis.

– … ambulância…

– … duas meninas passaram por aqui?

Em certo ponto ela chegou a ouvir várias pessoas caminhando sobre o deque acima delas. Trista ficou tensa, e até os solucinhos de Pen foram abafados propositalmente.

– Por favor, procure se lembrar, madame. – Era a voz do policial mais novo, o que tinha pedido a Violet que se rendesse. – As duas garotinhas, pra onde foram depois?

O rapaz parecia vexado e preocupado. De um modo estranho e distante, Trista ficou com pena dele. Imaginou que ele tinha um rosto bondoso, e uma esposa que o trataria muito bem quando ele chegasse em casa depois de um dia difícil. Ao mesmo tempo, imaginou como seria se ele as encontrasse, e se teria que mordê-lo para fugir.

Houve uma pausa, e então a resposta veio numa voz que soou como os soluços de muitas crianças aprisionadas numa caverna distante.

– Lembro-me muito bem. Elas saíram correndo pela rua, pra lá. Entraram num carro. Um carro amarelo. – Sem dúvida quem disse isso foi a Outra esquisita da casa de chá.

– Eu também vi – insistiu uma voz desconhecida, rouca feito casquinhas de siri roçando uma na outra. – Isso mesmo, um carro amarelo. Foi por ali.

– Isso – concordou uma voz que era como areia descendo dentro da ampulheta. – As meninas se foram. Vão procurar pra lá.

Trista escutou um roçar baixinho de lápis no papel. Perguntou-se o quanto do que diziam os Outros o policial conseguia ouvir de fato com a mente consciente, ou se anotava testemunhos aleatórios e sem sentido.

Os Outros mentiram para botar a polícia na trilha errada. Por quê? Acreditavam que Trista era um deles, então talvez estivessem tentando proteger sua espécie. Ou talvez não quisessem que os policiais ficassem de olho nas Velhas Docas enquanto havia tantos deles ali.

Para enorme alívio de Trista, o policial jovem pareceu aceitar os depoimentos estranhamente similares dados pelas testemunhas e foi andando pelo deque até sumir. Por um tempo, deu para ouvi-lo fazendo as mesmas perguntas para outros transeuntes, depois não ouviu mais nada.

Havia ainda muito barulho de burburinhos e conversas intrigadas na via acima, contudo. Talvez os Outros não as fossem entregar, mas havia um monte de pessoas comuns na rua, que sem dúvida fariam a relação entre as perguntas do policial sobre as duas meninas sumidas e as filhas dos Crescents, manchetes dos jornais.

– Temos que ficar aqui por enquanto. – Trista botou a cachola para funcionar, para formular um plano. – Vamos esperar pela neve. Vai ser mais fácil de andar por aí sem que as pessoas nos vejam quando estiver nevando.

– E se não nevar? – Pen perguntou, numa vozinha mole.

– Vai nevar.

Tem que nevar. Se não, então Violet não estará sentada numa cela, ou nem mesmo num hospital. Vai significar que ela está em movimento de novo… ou que morreu.

As horas seguintes foram as mais demoradas que Trista já vivera. Foram também dolorosas em sentido muito literal, porque Pen se debatia sem parar, suspirando o tempo todo e trocando de posição de maneiras que sempre envolviam dar uma cotovelada na outra.

E reclamava baixinho também. Pen estava entediada. Com fome. Estava tudo úmido e o cobertor tinha um cheiro esquisito. Trista tomava todo o espaço.

Esta pediu que Pen cantasse “Cem garrafas verdes” mentalmente. A menina pôs-se a sussurrar sozinha, e logo Trista arrependeu-se da sugestão. Havia algo de terrível na contagem regressiva. As últimas horas de vida que tinha estavam se esvaindo, sendo quebradas silenciosamente como tantas garrafas imaginárias, e ela estava presa num barco bolorento vendo tudo acontecer. Tentou não pensar no fato de que sua não-irmã tinha muitos anos pela frente, como sementes numa pequena maçã.

Depois de um bom tempo, contudo, ela reparou numa mudança na atmosfera. O barco que boiava alterou um pouco o ritmo, traindo um redirecionamento do vento. As pontas do cobertor se debatiam. Pen começou a reclamar de frio. Até que então Trista ousou pôr de lado o cobertor para espiar lá fora.

O céu de setembro tinha coalhado e passara para um intimidante amarelo esverdeado, refletindo manchas cor de tabaco na superfície ondulante da água. Jorros perdidos de vento rasgavam do estuário com a fúria da mordida de um tubarão e um frio de marejar os olhos. A via da margem do rio estava totalmente vazia de pedestres.

– Pen – ela sussurrou –, está frio. Está frio. Violet conseguiu! Conseguiu, Pen!

Violet está viva! Não podia falar isso alto, no entanto; não queria admitir para Pen que estivera em dúvida.

– Olha! – Trista puxou o cobertor um pouquinho para trás, e Pen espiou, relutante, ao redor sob a escassa luz do dia. – Não tem ninguém na rua. Podemos nos sentar um pouquinho. – Ela esperava que Pen fosse ficar tão contente quanto ela, e ficou surpresa quando olhou direto para o céu. – A neve vai chegar. Vai chegar logo, Pen, eu prometo. Só temos que esperar.

Pen fungou forte, e sentou-se, desarranjando o cobertor.

– Não! – ela sibilou. – Não quero! Não gosto dessas docas! Não quero que a gente fique aqui mais!

– Pen, não seja… – Trista soltou o ar lentamente e recomeçou: – Você sabe que eu tenho que estar aqui à meia-noite, pra poder seguir o Arquiteto.

– Não precisa, não! – As estrelas refletiam-se nos olhos de Pen, cujo rosto sombreado enrugava-se de ansiedade. – Vamos embora nesse bote! Vamos pra França!

– O quê? – Trista mal pôde manter a voz num sussurrar. – Pen, claro que não. O que vai ser da Triss?

– Não tô nem aí! – E Pen, que enfrentara carros em movimento e gritara com o Arquiteto, estava tremendo, cara fechada, lágrimas escorrendo dos olhos. – Não quero que você vá! E… não quero que ela volte!

– Pen! – Trista exclamou, pasma. – Você não pensa assim!

A menina deu uma resposta entre um resmungo e uma fungada que deve ter sido um “penso, sim”.

Ser amada, ser preferida… Só de pensar nisso Trista sentiu uma delicada e dolorosa apunhalada de alegria. No instante seguinte, contudo, pensou nas fendas tortuosas que separavam a família Crescent e sentiu apenas tristeza.

– Mas ela é sua irmã, Pen! Eu, não. Sou só um monte de gravetos que se parece com ela.

Pen não respondeu de imediato; apenas chegou mais perto para poder enfiar o rosto úmido no ombro de Trista.

– Lembra o que aconteceu depois… depois que eu desenterrei o sapo e descobri que tinha se mexido? – Pen disse isso hesitando, mas com ousadia e uma pontinha de manha.

Trista levou um ou dois segundos para ajustar-se à mudança de assunto e passar um pente fino nas lembranças de Triss.

– Hã… lembro, lembro sim. – Ela afagou a cabeça da outra. – Você ficou tão triste que não conseguiu chorar, só ficou zanzando e olhando pras coisas. Não conseguiu dormir também. E… numa noite lembro de você sentada na cama, e de te dizer que o sapo tinha ido pro céu dos sapos, onde não tinha nenhum gato, e onde todas as vitórias-régias eram macias e bonitas. E eu disse que o sapo queria que você soubesse que ele estava feliz, e que não te culpava por nada porque você só quis ajudar.

– E você me abraçou quando eu chorei – murmurou Pen. – E depois disso eu fui dormir. Né?

– Isso, Pen. – Trista suspirou, e deixou de lado o momento emprestado de seu outro eu. – Mas aquela não era eu. Era a Triss.

– Mas… – Pen afastou-se e fitou o rosto de Trista, e sua expressão era uma combinação surpreendente de determinação, desespero e súplica. – Mas e se era você mesmo? Talvez por isso você se lembre tão bem. Porque talvez… – a menina tagarelava cada vez mais rápido, como se receasse ser interrompida – talvez estávamos erradas o tempo todo, e você não foi feita de gravetos na semana passada, e talvez sempre tivesse duas Trisses, uma boa e uma má, e você sempre foi a boa, e eu só mandei embora a má…

Oh, Pen.

Exasperada e morrendo de dó, Trista começou a entender a fantasia que Pen havia construído em sua mente. Então era por isso que a menina acabava chamando a outra de Triss de vez em quando. Por isso fizera cara feia toda vez que alguém falava de resgatar a irmã verdadeira, e pelo mesmo motivo tentara negociar com o Arquiteto pela vida de Trista. O tempo todo Pen vinha sustentando uma versão fantástica da realidade na qual ela não tinha traído de verdade a irmã e a colocado num terrível destino, apenas mandara embora sua versão má…

– Pen – Trista murmurou, presa na batalha entre a ternura e a frustração –, isso não faz o menor sentido. – Ela apertou Pen mais uma vez. – A vida não é simples assim. As pessoas não são simples assim. Não dá pra cortá-las em pedaços feito um bolo, pra jogar fora as partes que você não gosta. A Triss que foi boazinha na história do sapo e a Triss que estragou o seu aniversário são a mesma pessoa.

– Mas ela me odeia! – Pen rugiu. – E se ela voltar, vai contar pra mãe e pro pai o que eu fiz, e… eles vão me mandar pra prisão ou pro orfanato ou pro colégio interno…

Nisso ela tinha mesmo razão, oras. O retorno de Triss era a realidade batendo à porta. Pen não poderia mais fingir para si mesma ou para os pais que não tinha sido responsável pelo sequestro da irmã. Teria que sofrer as consequências do que fizera.

– A Triss não te odeia. – Trista podia quase sentir os fios da afeição de Pen, e sabia que tinham sido jogados para ela por desespero, como um alpinista que sabe que vai cair. Sentada ali, com uma pontinha de tristeza, ocorreu-lhe que ela precisava soltar esses fios de si e reatá-los à verdadeira irmã de Pen, de onde nunca deviam ter se desprendido. – Quando eu falei com ela pelo telefone, ela gritou comigo. Perguntou o que eu tinha feito com você. Não estava brava com você. Estava preocupada com você.

Pen não teve resposta. Em vez disso, entrou numa torrente de soluços atropelados, atormentados.

– Não quero ir pra cadeia! – berrou, finalmente. – Quero a minha mãe!

– Eu sei – disse Trista, que não tinha mãe. – Eu sei.

Ainda estava aninhando Pen nos braços, alguns minutos depois, quando os primeiros floquinhos de neve começaram a flutuar no céu.

As fugitivas foram dando olhadelas furtivas de debaixo do cobertor conforme o céu foi escurecendo. No início, os flocos de neve eram pequenos como cinzas, morrendo assim que tocavam o chão, deixando manchas de umidade. Umas poucas pessoas abriram suas janelas um tiquinho para rir, admiradas com o borrifar fora de época. A temperatura não parava de cair, todavia, e logo as janelas tornavam a fechar-se.

O vento parou, e os flocos engordaram. Em pouco tempo o ar tornou-se um balé de tufos de gelo, cada um do tamanho de uma moeda. Os primeiros pousaram na terra e derreteram, caindo uns sobre os outros. Seus sucessores deixaram uma pele fina de gelo acinzentado. Mas chegaram mais e mais, caindo mais rápido do que podiam derreter, e logo o branco dominou a cena toda. As meninas começaram a tremer dentro do barco, e Trista ficou muito contente por terem o cobertor.

– Não tomei meu chá – Pen murmurou, pesarosa, quando o cheiro do jantar vazou das dezenas de casas ao redor.

– A gente não tem dinheiro – Trista lembrou.

– Tem neve! A gente podia ir cantar nas casas, e quem sabe as pessoas nos dessem comida se fizéssemos umas caras bem tristes.

Sem aviso prévio, Pen passou a puxar a parte inferior do deque, de modo que o barco começou a deslizar para fora.

– Espera!

– Você disse que a gente podia sair do barco quando começasse a nevar! – Pen protestou.

– Tá bom, mas toma cuidado quando for sair. E fica perto de mim! – Trista ajudou Pen a subir no deque. A menina teve um pouco de dificuldade, tão dura de frio que estava. Triss envolveu as duas com o cobertor, que as protegeu como uma grande capa. – Vamos usar o cobertor por cima, assim ninguém vai nos reconhecer.

Nos fundos da casa de chá, uma auxiliar de cozinha passou uns bolinhos que sobraram de alguma mesa para as meninas através da porta da copa, dizendo que não deveria fazer isso, na verdade, mas que era uma pena, porque iriam para o lixo mesmo. As meninas pararam num beco e devoraram os quitutes, observando o branco girar ao seu redor. As escassas lâmpadas a gás nas ruas acendiam, ganhando solene e bruxuleante vivacidade, cada qual iluminando uma auréola de flocos flutuantes.

– Tô com frio – Pen soluçou, depois da última mordida de bolo, e estreitou os olhos para enxergar além do escuro. – Aposto que eles deixariam a gente sentar perto do fogo.

Seguindo a direção para a qual Pen apontava, Trista enxergou um brilho avermelhado nas sombras de uma casa de leilões abandonada. Contra a parede, via somente uma caixa preta atarracada que tinha sido usada como braseiro. Ao redor havia três pessoas amontoadas por causa do frio.

– Tá bom – ela sussurrou de volta. – Mas vamos de fininho; vai que são Outros.

– Os Outros gostam de você, né? – Pen comentou.

– Não vão gostar mais quando ouvirem dizer que estou contra o Arquiteto. E vão descobrir isso assim que falarem com o pessoal dele. Se é que já não sabem.

Trista e Pen cruzaram a rua empoada, escolhendo as porções mais escuras e evitando as lagoas de luz das lâmpadas. Finalmente, encontraram uma porta escura pela qual podiam observar o grupo iluminado com mais tranquilidade.

O murmurar de vozes ao redor do braseiro estava abafado, mas parecia ser humano. Não havia aquelas camadas esquisitas, nenhuma sub-voz sinistra. As pessoas pareciam usar jaquetas e casacos normais, nada dos casacos estranhos que os Outros da casa de chá tinham.

– Parece que eles… – Trista começou.

– Xiiiu! – Pen sibilou, furiosa.

Trista calou-se, e uma voz do grupo do braseiro flutuou até ela.

– Elas estavam aqui, com certeza. Tenho certeza.

O falante tinha o colarinho erguido e um xale em torno do pescoço para proteger do frio, escondendo boa parte do rosto. Contudo, a voz era inconfundível. Aquele era o Sr. Grace.